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segunda-feira, 25 de abril de 2011
Vezenquando
Eu não sei explicar bem o porquê. Sei apenas que, vezenquando, as coisas dentro de mim embolam e caem numa espiral descendente, e tocam o fundo do poço, o escuro mais escuro de dentro de mim. Sei que, quando isso acontece, eu tenho vontade de ficar sozinha, deitada, quietinha, emboladinha na minha cama, com meus travesseiros, para chorar alto, para engasgar com a dor, para me entregar ao sentimento que explode dentro de mim. Eu não sei o que causa essa tormenta, eu nem sei direito como ela começa. Ela vem de mansinho e vai cavando fundo, como se mostrasse e abrisse e tocasse o que ainda não cicatrizou, como se me alertasse para ter cuidado com o que eu desejo, com o que eu (pa)quero, porque eu preciso saber que ainda há uma ferida aberta ali, sangrando e doendo. Vem assim, sorrateiramente, para me mostrar que ainda não, que ainda é cedo, que eu não estou tão inteira e plena quanto penso. E aí, o que me resta é acreditar no que eu sinto e respeitar o momento. Eu me entrego àquela dor que me consome, eu me perco nos meus poços internos, eu me deito na lama das minhas lágrimas e espero que passe. E passa. Isso também passa.
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Metáfora
Imagine que todo sentimento que você devota a uma pessoa seja um garrafão de 20L de água. Imagine que, repentinamente e por circunstâncias alheias a sua vontade, você seja obrigado a fazer com que caiba todo esse conteúdo numa latinha de leite condensado. Você fica exaurido fisicamente, desgastado psicologicamente com a tarefa. Muito é derramado e perdido, muito escorre pelo chão, muito se estraga com essa obrigação. Mesmo assim, com pressão e esforço, você consegue alojar no pequeno compartimento grande parte do que sentia. Evidentemente, a latinha fica toda deformada, qualquer toque, barulho estridente, ou mal jeito pode fazê-la explodir. É um sistema claramente instável e não deve ser mexido para que não se destrua ou exploda. Tem que ficar intocável, em local seco e longe da luz do sol, com temperaturas amenas e sem exposíção a ruídos. Qualquer destes agentes, pode ser fatal.
E o dia 20 se aproxima.
E o dia 20 se aproxima.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Dúvidas
O que se faz se, quando a gente precisa desabafar, quando precisa de um ombro, quando precisa apenas do silêncio acompanhado, quando precisa de carinho e dengo, quando precisa de mãos entrelaçadas, quanda precisa de ouvido e camisas reservas, só se encontra o vazio? O que é que a gente faz se já tentou todas as explicações possíveis, já sondou inúmeros porquês, já perdeu noites em claro revirando pensamentos e lembranças, já esperou a conformação surgir, já esperou a revolta sumir e ainda assim não aquietou o coração? O que é que a gente faz se, mesmo encontrando saídas e caminhos e motivos e até compensações, mesmo encontrando outras pessoas, novas pessoas, antigas pessoas, ainda é só uma que faz falta? O que é que a gente faz se tudo que se queria era estar perto, mesmo que não fosse possível tocar, mesmo que não fosse possível falar, mesmo que fosse só os olhares se encontrando? O que é que se faz se há um desejo infundado e que, à essa altura do campeonato gostaria que tivesse desaparecido, de ter de novo entre os braços? O que é que se faz com esse vazio, com essa ausência, com esse não?
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Mais do mesmo
Sabe quando se está a poucos metros da linha de chegada e, mesmo exaurido pela corrida toda, você se sente aliviado por ver o fim ali tão próximo?!?! Sabe quando se sobrevive a um naufrágio e depois de alguns dias nadando em alto mar, finalmente, se consegue ver a costa?!?! Sabe quando depois de várias horas em trabalho de parto a criança simplesmente nasce?!? Sabe quando se é tomado pela sensação de alívio e paz depois de um período longo de angústia e dor e sofrimento?!?! Pois bem. Era exatamente assim que eu me sentia até ontem. Era essa sensação de que pronto, acabou. 2011 estava ali batendo na minha porta e, enfim, esse 2010 triste, pesado, doído estava indo embora.
Mas aí, vem a rasteira, vem o baque, vem essa dor em erupção de novo, vêm essas lágrimas que não consigo conter, vem esse peso nos ombros, essa sensação ruim de que nada nunca mais vai ficar no lugar, essa dor de barriga que teima em me afligir como se fosse o janeiro trágico em replay. Vem na cabeça a imagem da minha amiga parecendo um farrapo humano, dobrada, envergada por essa dor, com olhos perdidos, dopada e a vaga ideia de como eu estava naquele dia de janeiro. Vem junto uma sensação de vazio, de que não passa, de que não cura, de que é impossível superar porque a vida traiçoeira sai pregando peças para me lembrar do quanto dói.
O choro rompe meu peito e sai despedaçado, cortante, crispado, quase impossível de controlar. Eu choro como se janeiro fosse, eu choro como se fosse comigo de novo. Eu choro porque eu não consegui dizer nada que confortasse minha amiga, que agora carrega consigo o peso da mesma palavra: viúva. Eu choro para esvaziar a falta que eu ainda sinto dele, para secar de novo, para limpar esse buraco que nada preenche, esse buraco-cicatriz que não para de sangrar. Eu choro sem ombro, sem mão, sem companhia, sem ele. Eu choro por mim e por ela, por estes tristes desígnios de duas mulheres que viviam a felicidade. Choro por esta revolta aqui dentro que não passa, essa irresignação, essa avalanche de sentimentos...
Eu queria poder dormir agora e acordar em 2011. Eu queria fugir dessa puxada de tapete. Eu queria rir da piada de humor negro, receber um" tcharã! brincadeirinha!" que me fizesse ter ódio do palhaço mas me devolvesse a sensação de que não-é-nada-disso-que-você-está-pensando. Eu queria um motivo para acreditar de novo, porque tá ficando difícil. Eu queria de volta as pessoas que me tomaram este ano. Eu queria retroceder. Eu queria ser feliz daquele jeito torto. Eu queria continuar escrevendo uma história de trás pra frente. A minha história, cheia de vacilos e perdões, cheia de amor e de compreensão, cheia de alegria. Eu não queria estar aqui neste momento e eu não queria viver nem ver isso acontecer comigo nem com ela nem com ninguém.
E, se essa dor que me arrebate agora não for embora logo, eu só peço paciência e um pouquinho de compreensão. É que quando eu achava que nada mais poderia acontecer no pior ano da minha vida...
Mas aí, vem a rasteira, vem o baque, vem essa dor em erupção de novo, vêm essas lágrimas que não consigo conter, vem esse peso nos ombros, essa sensação ruim de que nada nunca mais vai ficar no lugar, essa dor de barriga que teima em me afligir como se fosse o janeiro trágico em replay. Vem na cabeça a imagem da minha amiga parecendo um farrapo humano, dobrada, envergada por essa dor, com olhos perdidos, dopada e a vaga ideia de como eu estava naquele dia de janeiro. Vem junto uma sensação de vazio, de que não passa, de que não cura, de que é impossível superar porque a vida traiçoeira sai pregando peças para me lembrar do quanto dói.
O choro rompe meu peito e sai despedaçado, cortante, crispado, quase impossível de controlar. Eu choro como se janeiro fosse, eu choro como se fosse comigo de novo. Eu choro porque eu não consegui dizer nada que confortasse minha amiga, que agora carrega consigo o peso da mesma palavra: viúva. Eu choro para esvaziar a falta que eu ainda sinto dele, para secar de novo, para limpar esse buraco que nada preenche, esse buraco-cicatriz que não para de sangrar. Eu choro sem ombro, sem mão, sem companhia, sem ele. Eu choro por mim e por ela, por estes tristes desígnios de duas mulheres que viviam a felicidade. Choro por esta revolta aqui dentro que não passa, essa irresignação, essa avalanche de sentimentos...
Eu queria poder dormir agora e acordar em 2011. Eu queria fugir dessa puxada de tapete. Eu queria rir da piada de humor negro, receber um" tcharã! brincadeirinha!" que me fizesse ter ódio do palhaço mas me devolvesse a sensação de que não-é-nada-disso-que-você-está-pensando. Eu queria um motivo para acreditar de novo, porque tá ficando difícil. Eu queria de volta as pessoas que me tomaram este ano. Eu queria retroceder. Eu queria ser feliz daquele jeito torto. Eu queria continuar escrevendo uma história de trás pra frente. A minha história, cheia de vacilos e perdões, cheia de amor e de compreensão, cheia de alegria. Eu não queria estar aqui neste momento e eu não queria viver nem ver isso acontecer comigo nem com ela nem com ninguém.
E, se essa dor que me arrebate agora não for embora logo, eu só peço paciência e um pouquinho de compreensão. É que quando eu achava que nada mais poderia acontecer no pior ano da minha vida...
DOR
Quando eu digo para 2010 terminar logo, a vida vem me mostrar que eu tenho muito que aprender, que não sou eu que mando em nada e que as surpresas, assim como as dores, são inevitáveis...
Domingo tranquilo, voltando de uma festinha de Natal com os pais e as crianças da turminha do Matheus, recebo um telefonema desesperado de uma amiga de escola, contando que o marido de uma das sete, daquela que casou mês passado, daquela que tava no auge da felicidade, havia falecido. A gente não sabia a causa, a gente não sabia como, mas a gente sabia o que precisava saber. E eu sabia que, embora estivesse com tudo revirando dentro de mim, revivendo o janeiro trágico, sentindo de novo aquele rebuliço por dentro, eu sabia que tinha que correr para onde ela estivesse só para dar um abraço apertado e dizer que eu sabia o que ela estava sentindo, sabia que parecia partir ao meio, mas que é possível viver depois disso.
E foi exatamente isso que fiz. Deixei os pequenos em casa com a Lalá e corri para o velório. Fui a primeira da turma a chegar e, assim que cheguei, soube logo que ele sofrera um acidente no autódromo, enquanto corria de kart. Assim que ela me viu, ela disse: "Ow, minha amiga, me diz como você aguentou porque dói demais! A gente tava tão feliz. A gente fazia tudo junto... Por que, Marcele?". E eu não consegui falar nada, só chorar, chorar, chorar abraçada a ela. O meu janeiro trágico se repete agora num novembro para ela.
Ver alguém que a gente quer tanto bem perder o chão, o rumo, o prumo, metade da vida que escolheu para si, o sentido de quase tudo, me faz entender que essa vida não faz sentido. Eu não consegui, na minha tragédia, encontrar uma só razão plausível. E, mesmo tendo desistido de encontrar, eu não consigo me convencer nem de que a missão dele estava cumprida, até porque eu acho que o que ele podia fazer no futuro era muito mais do que ele já havia feito. É devastador, é enlouquecedor, é definitivamente uma DOR por que ninguém deveria passar.
Enfrentar esse processo todo, agora como espectadora, me faz refletir demais sobre esse momento da perda. Ela também estava com a aliança dele na correntinha do pescoço, ela também trouxe um paninho para colocar dentro do caixão, ela também tinha um olhar perdido para o mundo ao redor, ela também precisou de medicamentos para suportar, ela também relutou em acreditar (embora tivesse assistido ao acidente no autódromo), ela também queria saber porque, ela também se sentia perdida e sozinha no mundo... E eu imagino que tantos outros questionamentos e sentimentos que eu tive devam estar permeando o pensamento e o coração dela.
Segurar a mão dela nesse momento é voltar ao dia um. E, muito embora eu não seja mais protagonista, a dor que me toma é tão grande quanto. É a dor de quem sabe o quanto dói. É a dor de quem passou por isso. É a dor que não cicatrizou e que eu nem sei se vai, algum dia, cicatrizar. É dor e ponto final.
PS: Força, Ju!
Domingo tranquilo, voltando de uma festinha de Natal com os pais e as crianças da turminha do Matheus, recebo um telefonema desesperado de uma amiga de escola, contando que o marido de uma das sete, daquela que casou mês passado, daquela que tava no auge da felicidade, havia falecido. A gente não sabia a causa, a gente não sabia como, mas a gente sabia o que precisava saber. E eu sabia que, embora estivesse com tudo revirando dentro de mim, revivendo o janeiro trágico, sentindo de novo aquele rebuliço por dentro, eu sabia que tinha que correr para onde ela estivesse só para dar um abraço apertado e dizer que eu sabia o que ela estava sentindo, sabia que parecia partir ao meio, mas que é possível viver depois disso.
E foi exatamente isso que fiz. Deixei os pequenos em casa com a Lalá e corri para o velório. Fui a primeira da turma a chegar e, assim que cheguei, soube logo que ele sofrera um acidente no autódromo, enquanto corria de kart. Assim que ela me viu, ela disse: "Ow, minha amiga, me diz como você aguentou porque dói demais! A gente tava tão feliz. A gente fazia tudo junto... Por que, Marcele?". E eu não consegui falar nada, só chorar, chorar, chorar abraçada a ela. O meu janeiro trágico se repete agora num novembro para ela.
Ver alguém que a gente quer tanto bem perder o chão, o rumo, o prumo, metade da vida que escolheu para si, o sentido de quase tudo, me faz entender que essa vida não faz sentido. Eu não consegui, na minha tragédia, encontrar uma só razão plausível. E, mesmo tendo desistido de encontrar, eu não consigo me convencer nem de que a missão dele estava cumprida, até porque eu acho que o que ele podia fazer no futuro era muito mais do que ele já havia feito. É devastador, é enlouquecedor, é definitivamente uma DOR por que ninguém deveria passar.
Enfrentar esse processo todo, agora como espectadora, me faz refletir demais sobre esse momento da perda. Ela também estava com a aliança dele na correntinha do pescoço, ela também trouxe um paninho para colocar dentro do caixão, ela também tinha um olhar perdido para o mundo ao redor, ela também precisou de medicamentos para suportar, ela também relutou em acreditar (embora tivesse assistido ao acidente no autódromo), ela também queria saber porque, ela também se sentia perdida e sozinha no mundo... E eu imagino que tantos outros questionamentos e sentimentos que eu tive devam estar permeando o pensamento e o coração dela.
Segurar a mão dela nesse momento é voltar ao dia um. E, muito embora eu não seja mais protagonista, a dor que me toma é tão grande quanto. É a dor de quem sabe o quanto dói. É a dor de quem passou por isso. É a dor que não cicatrizou e que eu nem sei se vai, algum dia, cicatrizar. É dor e ponto final.
PS: Força, Ju!
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Nove de novembro
Tem dias mais pesados mesmo. Tem dias que a gente pensa que a dor vai fazer a gente envergar o corpo de novo e fazer poças de lágrimas no chão e encharcar toalhas que abafam gritos incontidos. Hoje foi assim. Abrir os olhos e me dar conta de que eu não estou na nossa casa, não estou com ele, não comprei presente algum, não tem ninguém ao lado e é nove de novembro foi como um soco na boca do estômago. Daqueles que fazem perder o ar, daqueles que fazem você sentir ânsia de vômito, daqueles que fazem trincar os dentes... É como se a falta desse tapas na sua cara a todo instante, querendo deixar muito claro o que não existe mais. É como se a ausência fosse um ferro em brasa crispando a pele para provar que ela existe e que dói. É como se a saudade fosse uma máquina de tortura que não te deixa relaxar, esquecer, parar de doer.
Ainda assim, no meio desse dia em que tudo punge, houve poesia. Houve delicadeza, houve carinho, houve os pequenos cantando parabéns olhando para o céu; houve uma reunião na casa da Vovó Paula (minha sogra) com tanta gente querida rezando por ele; houve crianças soltando balões de gás para a festa que ele deve estar fazendo lá por cima e houve essa enxurrada de lembranças de aniversários anteriores com tantos amigos queridos e muita, muita, muita festa. Não tenho dúvida de que esse carinho não pode se dissipar no ar e que, onde quer que ele esteja, ele viu, sorriu fechando os olhinhos e recebeu como presente todo esse bem querer.
Ainda assim, no meio desse dia em que tudo punge, houve poesia. Houve delicadeza, houve carinho, houve os pequenos cantando parabéns olhando para o céu; houve uma reunião na casa da Vovó Paula (minha sogra) com tanta gente querida rezando por ele; houve crianças soltando balões de gás para a festa que ele deve estar fazendo lá por cima e houve essa enxurrada de lembranças de aniversários anteriores com tantos amigos queridos e muita, muita, muita festa. Não tenho dúvida de que esse carinho não pode se dissipar no ar e que, onde quer que ele esteja, ele viu, sorriu fechando os olhinhos e recebeu como presente todo esse bem querer.
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Back
Normalmente, eu sou uma pessoa racional e tento ser equilibrada nas minhas escolhas e decisões. Aliás, minha terapeuta me dizia sempre que eu consegui lidar com luto de maneira muito pragmática e isso foi ótimo no meu processo de superação. Mas eu sou mulher, sabe? Hormônios, estresse, TPM, carência, tudo isso se imiscui formando, vezenquando, uma carga explosiva dentro de mim. Um balão de gás que estoura como bomba atômica. Aí tem lágrimas e muita saudade. E dói, gente! Eu não preciso ser forte o tempo todo. Eu não preciso ter esperança o tempo todo. Eu não preciso ser otimista o tempo todo. Eu não sou a Pollyana. Eu sei que a vida tem suas rasteiras, suas puxadas de tapete, seus zilhões de problemas... Por isso mesmo eu me permito, nesses momentos, ser a depressiva que também existe em mim. E choro e me tranco num quarto escuro sem querer sair da cama e acho que nada vai dar certo e acho que eu não sou capaz de fazer sozinha e acho que não vou dar conta de cuidar dos pequenos e me acho feia e gorda e acho que sou baranga e acho que nenhum homem em nenhum lugar do mundo vai mais me amar e acho que eu vou ter que arrastar minha solidão até que meus netos sejam a minha melhor companhia e acho tantas coisas... Eu vinha assim, nessa espiral decadente desde o último dia 20 e piorou no fim de semana. Eu vinha assim, cambaleando pelos dias com medo do mundo e de mim e até das surpresas da vida. Eu vinha assim meio enjoada, sem paciência, arrastando correntes e lacrimejando... Mas aí, eu ouvi uma música no rádio, quando eu tava indo ver em que pé anda a obra do apê, ela tocou inteirinha e eu cantei alto e ri alto dos meus problemas tão pequenos e totalmente solúveis e pensei na esperança que a música injetava em mim e como ela tinha muito a ver com esse sentimento que aquece meu coração, como ela me trazia uma esperança gostosa de que vai dar tudo certo e eu voltei a ser a Pollyana otimista e forte all over again.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
O vazio
Não é sempre. Mas, vez em quando, ele vem e se instala em mim. Fica por aqui, batendo na mesma tecla, com o dedo na minha cara, me mostrando a solidão pior de todas, aquela em que nem importa o tanto de gente ao redor, nem importa a presença sorridente e bagunceira dos pequenos, não importa o quanto esteja tudo calmo, não importa mais nada que não seja a ausência...
Esse fim de semana ele deu o ar da graça de maneira contundente, de maneira dolorida (muito). Eu não sei o que fazer com o nada, com o vácuo... Não sei como lacrá-lo em algum compartimento em que nem eu mesma tenha mais acesso. Eu avisei logo que não queria que ele se demorasse, mas ele é tinhoso e tem tempo próprio que não depende do meu querer nem das minhas vontades.
É preciso calma para se preencher de novo, é preciso força para não desmoronar, é preciso olhar para frente para não cair, é preciso. Eu sigo tentando fazer com que ele não me derrube. Mas tá difícil... Ê ferida que não para de sangrar!
Esse fim de semana ele deu o ar da graça de maneira contundente, de maneira dolorida (muito). Eu não sei o que fazer com o nada, com o vácuo... Não sei como lacrá-lo em algum compartimento em que nem eu mesma tenha mais acesso. Eu avisei logo que não queria que ele se demorasse, mas ele é tinhoso e tem tempo próprio que não depende do meu querer nem das minhas vontades.
É preciso calma para se preencher de novo, é preciso força para não desmoronar, é preciso olhar para frente para não cair, é preciso. Eu sigo tentando fazer com que ele não me derrube. Mas tá difícil... Ê ferida que não para de sangrar!
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Pode tomar assento.
Ver o apartamento vazio, ver o nada que ficou lá dentro, var a voz ecoando em cada cômodo é perceber a dura realidade de que o comercial de margarina definitivamente acabou. Tudo que fomos nós aconteceu ali. Todas as noites e todos os dias. Tudo que vivemos estava lá dentro daquelas paredes. Não posso me esconder da dor de ver tudo de melhor que eu tive na vida terminando. Não posso me esquivar de encarar a realidade de que é um sem jeito. Eu tenho que seguir e essa é a minha única opção. Seguir, olhar pra frente, viver e abrir a porta para ela, que vem batendo insistentemente. Deixar entrar, deixar se estabelecer, deixar que eu veja a vida sob essa perspectiva. Ela me diz que há muita coisa boa esperando por mim, ela me diz que é só permitir, é só me deixar levar... Eu não sei me deixar levar, mas eu escolho abrir a porta: Entre, D. Felicidade, e pode tomar assento!
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
De volta
Sabe aquele medo de não dar conta? Sabe aquela ânsia? Sabe aquela perturbação das idéias que tira o sono? Sabe aquele terror de que não consiga resolver tudo? Sabe aquele peso insuportável nas costas? Sabe carregar as responsabilidades todas? Sabe querer jogar tudo pra cima e se fazer de doida? Sabe quando a vontade é de sair correndo do problemas todos? Sabe quando a vida adulta se torna super difícil? Sabe quando tudo parece muito maior e muito mais difícil? Sabe quando tudo que você queria era alguém, pelo menos, pra dividir as coisas práticas? Sabe quando falta o ombro para deitar e chorar? Sabe quando tudo parece confuso e desanimador? Sabe quando a sensação é de que você é totalmente incapaz de lidar com a vida?
Pois é, tudo isso voltou.
Pois é, tudo isso voltou.
domingo, 8 de agosto de 2010
Quase ilesa
O dia passou rápido e a ausência não pesou. A gente escondeu tanto dos pequenos que, para eles, foi só mais um fim de semana como outro qualquer. Foi proibido falar Dia dos Pais na família e eles realmente nem se deram conta da data. Fui almoçar na casa do meu avô e passamos a tarde e jantamos com meu pai, mas sem mencionar nada.
Chegamos em casa já era noite. Banho e cama para os dois pequenos, mas aqui dentro tudo revirou. E eu achava que iria escapar ilesa por este dia. Porque eu posso esconder dos pequenos, porque eu posso fazê-los pensar que é um fim de semana como outro qualquer, porque eu posso passar o dia inteiro sem lembrar, porque eu posso sorrir e até gargalhar das piadas bestas que os primos dividem na mesa do almoço; mas eu não esqueço que ele não está mais aqui, não está mais no mundo. Eu não consigo me esquecer dessa dor.
Para arrematar meu desconforto, eu descobri umas gravações de áudio no celular dele. A voz dele de novo, reverberando em alto e bom som... A voz dele fazendo perguntas, com entonação, com o carinho de sempre... Eu me lembrei de novo dos adjetivos carinhosos. Eu me lembrei de novo do "boa tarde" ao abrir a porta. Eu me lembrei de novo das nossas conversas de fim de dia. Eu me lembrei de novo como se a voz dele estivesse dentro de mim e repetisse o vocativo utilizado na última ligação que ele fez antes da tragédia acontecer: "princesinha". Eu me lembrei de novo de tudo e doeu de novo e eu chorei de novo.
"I thank the Lord above you're not here to see me in this shape I'm in."
(Roxette - Spending my time)
PS: Acho que tô precisando voltar lá no lugar onde as sombras são compridas.
Chegamos em casa já era noite. Banho e cama para os dois pequenos, mas aqui dentro tudo revirou. E eu achava que iria escapar ilesa por este dia. Porque eu posso esconder dos pequenos, porque eu posso fazê-los pensar que é um fim de semana como outro qualquer, porque eu posso passar o dia inteiro sem lembrar, porque eu posso sorrir e até gargalhar das piadas bestas que os primos dividem na mesa do almoço; mas eu não esqueço que ele não está mais aqui, não está mais no mundo. Eu não consigo me esquecer dessa dor.
Para arrematar meu desconforto, eu descobri umas gravações de áudio no celular dele. A voz dele de novo, reverberando em alto e bom som... A voz dele fazendo perguntas, com entonação, com o carinho de sempre... Eu me lembrei de novo dos adjetivos carinhosos. Eu me lembrei de novo do "boa tarde" ao abrir a porta. Eu me lembrei de novo das nossas conversas de fim de dia. Eu me lembrei de novo como se a voz dele estivesse dentro de mim e repetisse o vocativo utilizado na última ligação que ele fez antes da tragédia acontecer: "princesinha". Eu me lembrei de novo de tudo e doeu de novo e eu chorei de novo.
"I thank the Lord above you're not here to see me in this shape I'm in."
(Roxette - Spending my time)
PS: Acho que tô precisando voltar lá no lugar onde as sombras são compridas.
sábado, 24 de julho de 2010
My tears dry on their own
Noticias ruins atravessam o oceano e me acertam como uma bala de canhao, me partindo ao meio, me destrocando a alma e o coracao. Noticias ruins atravessam o oceano e me derrubam, fazem lagrimas saltarem dos meus olhos incontrolavelmente. Um outro acidente de carro me tirou outra pessoa da minha vida. Dessa vez, eu nao poderei chorar sobre o caixao, eu nao poderei comparecer a missa, como ela fez por mim. Eu nao poderei estar la parao marido e o filho de apenas 3 meses que ela deixa no mundo. Eu estou aqui, do outro lado do oceano, chorando por uma amiga que se foi...
sábado, 10 de julho de 2010
10/07/2010 - futuro do preterito
Hoje eu passaria o dia inteiro no salao, me ocupando dos cabelos, unhas, massagens relaxantes e maquiagem. Hoje, a essa hora, eu estaria com um frio na barriga, preocupada com os milhares de detalhes. Hoje eu estaria com o telefone nas maos, ligando a cada 5 segundos para alguem, porque teria lembrado de algum detalhe. Hoje eu reveria amigos de longa data, todos os familiares, os meus e os dele. Hoje, as 20:30, eu entraria na Sao Vicente, com um longo vestido branco estilo sereia, com um decote em V, com uma fileira de botoes nas costas, com um longuissimo veu, com uma rosa branca na saia e outra nos cabelos. Hoje ele estaria me esperando no altar. Talvez emocionado, talvez nao. Ele nao gostava de chorar em publico. Certeza de que muitas lagrimas cairiam no momento da marcha nupcial, quando eu pisasse aquele tapete branco e tivesse de braco dado ao meu pai, com fileiras de copo de leite e lirios ao meu redor, vendo os dois pequenos em micro fraques... Eu entraria ouvindo "Céu de Santo Amaro" e nao me conteria, sei que nao. A cerimonialista estaria completamente perdida, tentando encontrar lencos para diminuir o estrago da minha explosao. Eu sei que seria um momento inesquecivel. Eu sei que veria inumeros sorrisos enquanto caminharia ao altar. Eu sei que ele estaria la, com aquele sorriso que desmontava... A gente ficaria de maos dadas, a gente se olharia nos olhos e ele me diria: pronto, mais um sonho realizado, Cele! Ele diria o quanto me amava e faria os votos com conviccao, porque sabiamos o quanto estavamos certos dessa decisao. Depois de tudo, sairiamos sorrindo para a festa com muitos convidados, muitos amigos queridos, muita gente da gente... Certeza que terminariamos a noite no Tocantins, na companhia de gente que, como nos dois, nao consegue ver a festa acabar. Seria o dia mais feliz da minha vida! Teria sido se nao...
quinta-feira, 17 de junho de 2010
O dia
E, sim, chega o dia em que você precisa de um ombro, de um colo, de um cafuné. Chega o dia em que você sente não ter para quem ligar na hora que quiser. Chega o dia em que você sente falta das conversas que fluíam, de assistir filme esparramado na cama, de ficar naquele cantinho entre nuca e ombro onde só você cabia. Chega o dia em que você queria preparar um jantar romântico. Chega o dia em que só queria dormir de conchinha, ouvindo relatos do dia. Chega o dia em que tudo que mais se queria era segurar a mão e beijar o beijo que já se sabe. Um dia em que você queria abrir a porta e tornar tudo especial. Um dia em que mandaria as crianças para a casa da vovó. Um dia em que não haveria ponteiros, nem relógio, nem tempo, nem compromissos, nem fim porque seria só de vocês dois.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
Desabafando
Você passou pelo pior momento da vida amparada por um mundo de gente do bem: gente sua, gente herdada, gente que se sensibilizou com a história, gente que tem filho amiguinho do seu, gente que é solidário, gente que se identificou com a sua força, muita gente. Você esteve lá, no fundo do poço, com um lençol percal 200 fios humano aquecendo e dando muitos motivos para sorrir e compensações e esperança e certezas. Você sobreviveu ao naufrágio, salvando os pequenos, e teve gente jogando bóia, ajudando a remar, ensinando a fazer um tipo de respiração que cansa menos, mandando SOS para os ares, saindo da praia com bote para resgatar... Você esteve lá, no seu pior momento da vida, no seu fundo do poço, com a sensação de que estava afundando na areia movediça, perdendo o fôlego, cansando os braços de tanto nadar e, por mais que tenha tido muita gente ao seu redor, por mais que seja infinitamente agradecida a todo mundo, por mais que saiba que pode contar com muita gente querida, você sabe que sentiu falta de uma pessoa especificamente. Você sabe que sentiu falta de uma pessoa que segurava sua mão e enxugava suas lágrimas, uma pessoa que sabia de todos os seus podres e com quem você dividia muitos sorrisos, uma pessoa para quem você podia ligar a qualquer hora para dizer qualquer coisa, uma pessoa com quem você tinha uma ligação de alma, uma pessoa que esteve com você em muitos domingos deprimidos, em muitas mesas de bares, em muitas danças em cima de mesa em festas, em muitos momentos, uma pessoa com quem se acreditava existir uma relação transcendental. Você sabe que sentiu falta DESSA pessoa e que ela entrou no rol daqueles que caem fora, daqueles que fogem, daqueles que não conseguem enfrentar. Ela entrou no rol de covardes e frouxos. Rol de "amigos", entre aspas, porque é o amigo que depende do momento, depende de pra quê, por quê e como. Essa pessoa de quem você sentiu falta não esteve. Sim, prestou condolências, disse que sentia muito, mas não esteve, não segurou a mão, não enxugou as lágrimas, não se fez presente, não perguntou se precisava de algo, não ligou pra fazer sorrir, não ligou pra perguntar dos meninos. Não. Nada. Nunca.
Depois que você consegue se equilibrar, depois que você parou de chorar, depois que a vista deixou de ser turva, depois que o peso da dor saiu dos ombros, depois que a cabeça se ergueu, depois que a respiração voltou a ser profunda, depois que você aprendeu a seguir a vida, depois da sensação de chegar à praia, de sair do poço; você tem a oportunidade de dizer para essa pessoa o que ficou entalado e machucando durante o pior momento da sua vida. E disse: "Eu te perdoaria por deixar de ser meu amigo. Eu te perdoaria por estar longe de mim. Eu te perdoaria por não ter sido convidada para o seu casamento e ainda assim te convidaria para o meu, que seria no próximo dia 10/07. Eu te perdoaria e até entenderia se a gente nunca pudesse se encontrar, nem aqui nem aí. Eu te perdoaria se precisasse ser frio e não pudesse se aproximar demais. Eu te perdoaria tudo que já fez. Mas eu nunca vou conseguir te perdoar por não ter sido meu amigo quando eu mais precisei". E chorei todas as lágrimas lacradas dentro de mim, chorei sonoramente, até faltar o ar, até secar a mágoa. Eu chorei e desabafei para quem de direito. E fim.
Depois que você consegue se equilibrar, depois que você parou de chorar, depois que a vista deixou de ser turva, depois que o peso da dor saiu dos ombros, depois que a cabeça se ergueu, depois que a respiração voltou a ser profunda, depois que você aprendeu a seguir a vida, depois da sensação de chegar à praia, de sair do poço; você tem a oportunidade de dizer para essa pessoa o que ficou entalado e machucando durante o pior momento da sua vida. E disse: "Eu te perdoaria por deixar de ser meu amigo. Eu te perdoaria por estar longe de mim. Eu te perdoaria por não ter sido convidada para o seu casamento e ainda assim te convidaria para o meu, que seria no próximo dia 10/07. Eu te perdoaria e até entenderia se a gente nunca pudesse se encontrar, nem aqui nem aí. Eu te perdoaria se precisasse ser frio e não pudesse se aproximar demais. Eu te perdoaria tudo que já fez. Mas eu nunca vou conseguir te perdoar por não ter sido meu amigo quando eu mais precisei". E chorei todas as lágrimas lacradas dentro de mim, chorei sonoramente, até faltar o ar, até secar a mágoa. Eu chorei e desabafei para quem de direito. E fim.
terça-feira, 4 de maio de 2010
De repente
E de repente, você tá lá no meio do trânsito intenso, atrasada, correndo, com um processo cujo prazo expira hoje, tentando organizar afazeres e a vida prática na mente e estabelecer prioridades... Você tá lá, dirigindo e pensando no mundo de contas, de pendências, de atividades, e, de repente não mais que de repente, começa a tocar uma música que causa a sensação de que há um trator sobre o seu coração e você chora como um bebê, chora de molhar a blusa toda, chora de ficar com vergonha pelas pessoas ao redor, ensimesmadas em seus carros... Você chora e se esquece de tudo que estava revirando seus pensamentos... Você chora porque lembra da música sendo cantada baixinho no ouvido e daquela sensação plena de amor... Você chora e as muitas lágrimas derramadas ainda não são suficientes pra esvaziar toda dor...
"Eu tenho tanto pra lhe falar, mas com palavras não sei dizer como é grande o meu amor por você. E não há nada pra comparar, para poder lhe explicar como é grande o meu amor por você. Nem mesmo o céu, nem as estrelas, nem mesmo o mar, nem o infinito não é maior que meu amor nem mais bonito. Me desespero a procurar alguma forma de lhe falar como é grande o meu amor por você. Nunca se esqueça nenhum segundo que eu tenho o amor maior do mundo. Como é grande o meu amor por você!" (Como é grande o meu amor por você - Roberto Carlos)
"Eu tenho tanto pra lhe falar, mas com palavras não sei dizer como é grande o meu amor por você. E não há nada pra comparar, para poder lhe explicar como é grande o meu amor por você. Nem mesmo o céu, nem as estrelas, nem mesmo o mar, nem o infinito não é maior que meu amor nem mais bonito. Me desespero a procurar alguma forma de lhe falar como é grande o meu amor por você. Nunca se esqueça nenhum segundo que eu tenho o amor maior do mundo. Como é grande o meu amor por você!" (Como é grande o meu amor por você - Roberto Carlos)
terça-feira, 13 de abril de 2010
De novo
Eu já tinha esquecido ou fugido dessas lembranças (o que é bem mais provável). Eu não me lembrava mais do toque, do sinal no pescoço, da boca carnuda e do nariz adunco. Eu não me lembrava direito do encaixe do meu corpo no dele. Eu não me lembrava mais do quanto ele era carinhoso comigo, do quando ele gostava de me apertar entre seus braços e de cheirar meu pescoço e de dizer que minha pele era uma delícia... Eu não me lembrava mais ou escondia isso tudo nas minhas caixas lacradas dentro de mim. Mas essa noite veio um sonho assim, um sonho só nós dois, um sonho em que tudo isso surgia na minha mente, um sonho que não era erótico, mas muito romântico. Éramos nós de novo com tudo o que isso significava, com tudo que a gente construiu nos nossos anos de amor. Éramos nós dois de novo, entregues e apaixonados da maneira mais leve e profunda e intensa que se pode amar outrem. Éramos Cele e Thi.
Muita saudade!
Muita saudade!
sexta-feira, 9 de abril de 2010
Hein?
O que se faz quando o coração teima em não entender o que cérebro processou? O que se faz quando o coração vai na contramão de qualquer pensamento razoável? O que se faz quando ele parece te puxar para um lugar em que você definitivamente não queria estar? O que se faz quando o queixo cai, o chão falta, e só se sente os solavancos que a vida, essa amiga traiçoeira, te preparou? O que se faz se, mesmo desconfiada, se confiou? O que se faz se, mesmo sem muita esperança, se esperou? O que se faz quando os fatos falam por si? O que se faz, hein?
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Nadando
Depois de um naufrágio, não adianta eu ficar feliz com o céu azul e a água morna. Não adianta eu me agarrar à primeira tábua como se ela fosse a minha salvação. Não adianta eu achar que aquela prancha me levará para praia. Não adiante eu me fingir de morta e ficar boiando, à deriva no mar. Não adianta eu querer criar um lar em cima dos escombros do transatlântico. Não adianta eu ficar imaginando como seria bom se o os caquinhos se colassem por milagre. Não adianta nada eu gritar, chorar, espernear... Tudo isso vai ser perda de tempo e de energia, porderá custar-me a vida.
Eu tenho é que colocar os pequenos num escombro qualquer e fazer das minhas próprias pernas o motor da embarcação que nos retirará do meio do caos. Eu continuo nadando e sei que só poderei descansar quando chegar à terra de novo. O mais difícil é fazer esse percurso sozinha. Mas eu vou!
Eu tenho é que colocar os pequenos num escombro qualquer e fazer das minhas próprias pernas o motor da embarcação que nos retirará do meio do caos. Eu continuo nadando e sei que só poderei descansar quando chegar à terra de novo. O mais difícil é fazer esse percurso sozinha. Mas eu vou!
quinta-feira, 1 de abril de 2010
Só por hoje
Eu já falei inúmeras vezes aqui da falta, da ausência, da dor, da saudade, do luto, da carência... Eu já falei inúmeras vezes aqui das qualidades, dos olhos apertados, da covinha, do sorriso constante, da resolutividade... Eu já falei, eu já escrevi, eu já recontei, eu já relembrei... Já perdi as contas de quantas vezes eu senti de novo aquele frio na barriga ruim. Ruim porque revirava tudo, ruim porque me fazia passar mal, ruim porque me dobrava ao meio, de fazer fraquejar os joelhos. Já perdi as contas do quanto chorei, de quantas lágrimas caíram, de quantas vezes pensei que viver tem sido matar um leão a cada dia...
Mas hoje, só por hoje, eu não quero que nada disso me faça triste, me deixe infeliz, me apague ou me ofusque a luz que brilha ali na frente, na borda do poço. Eu não vou deixar que o peso que eu carrego seja maior que os 27 kg dos pequenos, porque a dor é do tamanho que a gente faz. Eu não vou deixar de olhar para frente com olhos de esperança, como ele ensinou. Eu não vou deixar de desejar viver de novo o amor, com essa mesma intensidade, com essa mesma pureza, com essa mesma entrega, porque eu mereço ser feliz. Eu não vou deixar de viver, eu não vou deixar de sorrir, eu não vou me deixar, não vou me abandonar em mim... Só por hoje!
Mas hoje, só por hoje, eu não quero que nada disso me faça triste, me deixe infeliz, me apague ou me ofusque a luz que brilha ali na frente, na borda do poço. Eu não vou deixar que o peso que eu carrego seja maior que os 27 kg dos pequenos, porque a dor é do tamanho que a gente faz. Eu não vou deixar de olhar para frente com olhos de esperança, como ele ensinou. Eu não vou deixar de desejar viver de novo o amor, com essa mesma intensidade, com essa mesma pureza, com essa mesma entrega, porque eu mereço ser feliz. Eu não vou deixar de viver, eu não vou deixar de sorrir, eu não vou me deixar, não vou me abandonar em mim... Só por hoje!
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