Mostrando postagens com marcador citações. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador citações. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Manda essa cavalaria

Há tempos não escrevo sobre isso e minha aversão por religiões pode dar a alguns a impressão de que sou atéia ou algo assim. Que desprezo filosofias orientais e supertições. Declaro aqui: não é verdade. Já tentei ser atéia, na época da faculdade, porque chega mais ou menos essa época da vida a gente acha que é científico e esclarecido ser ateu. Quando tentei dar as costas a tudo e ser atéia, descobrir que não acreditar na existência de deus é fichinha. Deus é a parte mais simples. O problema é olhar para o mundo e achar que ele nos é indiferente, que cada coisa é resultado imediato apenas do que é lógico, aceitar as coisas tais como as vemos. Aí descobri que não sou e nunca poderia ser atéia. O meu mundo tem causas e efeitos desconhecidos, ele conspira em direções que eu não entendo. Tenho que me reconhecer como uma pessoa mística - a não ser que vocês ateus possam acreditar em feng shui.
(From: Caminhante diurno - link ao lado)


E aí, faz tempo que eu vinha pensando sobre as minhas concepções religiosas e sobre fé. Há tempos as coisas andavam meio confusas na minha cabeça. Ao mesmo tempo que existe em mim um lado prático, pragmático, racional e cético, eu descubro ser muito doloroso pensar como eu sempre pensei e não acreditar em nada. Era muito fácil dizer que não acreditava em vida após a morte quando não batia no meu peito essa esperança de que alguém estivesse do lado de lá. Era muito fácil dizer não haver um deus, nem alguém tomando conta de tudo, quando eu não precisava ter essa fé de que alguém que eu amei estivesse sendo bem cuidado em outro lugar, num plano não-físico. Era muito fácil não ter fé, não crer, não rezar, quando não havia essa dor.
 
Agora as coisas mudaram um pouco de figura. Continuo absolutamente aversa a todas as religiões. Pelo menos, àquelas com que tive o mínimo contato. Não consigo engolir o sapo da pregação de que aquilo que cada uma acha certo ser o único caminho, a única verdade. Continuo resistente a muitos conceitos e muitos estigmas, que, para mim, se revestem de moralidade frágil e preconceitos e machismo. Fato é que não consigo mais  pensar em mim como uma pessoa que não crê em nada (pode chorar de felicidade, mãe!).
 
Sinto-me mais ou menos como descrito pela "Caminhante". Sinto que nem tudo está equilibrado sobre um argumento lógico irretorquível. Sinto que não consigo conceber argumentos plausíveis para tudo. Sinto que tem coisas que estão muito além daquilo que somos capazes de perceber, entender, assimilar. Sinto que existem certos arranjos que a inteligência humana simplesmente não alcança. Eu não alcanço. Sinto que a vida toma direções estranhas e até inverossímeis se analisadas apenas pela ótica da razão. E, diante dessa verdade que me salta aos olhos, eu envergo a cabeça e passo a acreditar na máxima que diz que há mais coisas entre o céu e a terra do que julga a nossa vã filosofia.
 
Eu não sei direito o que é, nem como isso aconteceu dentro de mim. Eu nem quero me aprofundar muito nesse assunto, nem ando pesquisando sobre religiões para escolher uma para mim. Eu não sei em que pé estou em relação a tudo isso. Eu não sei explicar em que matiz de cor, variando entre a beata e a atéia, eu estou nesse momento. Eu sei que não estou nos extremos. Sinto que essa transformação aconteceu em mim e, depois do texto colado acima, eu precisei refletir um pouco mais. É só isso.
 
"Eu cansei de ser assim
Não posso mais levar
Se tudo é tão ruim
Por onde eu devo ir?
A vida vai seguir
Ninguém vai reparar
Aqui neste lugar
Eu acho que acabou
Mas vou cantar
Pra não cair
Fingindo ser alguém
Que vive assim de bem

Eu não sei por onde foi
Só resta eu me entregar
Cansei de procurar
O pouco que sobrou
Eu tinha algum amor
Eu era bem melhor
Mas tudo deu um nó
E a vida se perdeu
Se existe Deus em agonia
Manda essa cavalaria
Que hoje a fé
Me abandonou

Ver, por onde você for
Cansei de procurar
Não posso mais te dar
O pouco que sobrou
Carrego seu amor
Até não conseguir
Mas hoje eu me senti
Dobrando devagar
Tentei chorar
O seu perdão
Mas não ouvi
Sinal, será?
Isso é o meu mal

Deus, proteja um filho teu
Não deixa o mal ganhar
Por onde se esconder
Enquanto o céu tá aí
E a chave não abriu
E a estrada se acabou
E a ponte não achou
Pra lá desse lugar
Eu vou tentar
Por mais um dia
Manda essa cavalaria
Que hoje a fé
Me abandonou
"
(O pouco que sobrou - Marcelo Camelo)

domingo, 1 de maio de 2011

Um café quente numa tarde fria

"E, fatalmente, vão se cruzar por aí. São tantas as esquinas. Vocês vão beber um café quente juntos, falar amenidades, sobre novos cortes de cabelo, você está bonita, e você mais maduro, como está sua mãe e tudo mais. Nos momentos de silêncio, baixarão o queixo, com medo de amarrar olhares e, talvez, voltar tudo aquilo outra vez. Mas vai ser só isso." (Gabito Nunes)

Mas, sabe, eu não queria que fosse só isso, eu não queria que fosse mais uma vez uma coisa qualquer, um encontro qualquer, com qualquer pessoa insignificante que era uma vez esteve ali... Eu não queria tratar isso como sou tentada a tratar: palavras frias e promessas vãs que jamais serão cumpridas. Eu queria acreditar de novo e sentir importante, sentir inigualável, sentir transcendental. Eu queria olhar e reconhecer, sem precisar falar nada, como foi um dia. Eu queria abraçar apertado como quem muito quer bem e só sabe expressar dessa forma. Eu queria ouvir sua risada calorosa me animar a alma novamente. Eu queria me sentir íntima, próxima, querida. Eu queria que fosse muito mais que um café quente numa tarde fria de final de abril. Eu queria que fosse perene. Eu queria que fosse verdade. Eu queria acreditar, mas ainda não dá. As feridas que se abriram em mim sangram e molham meu rosto e eu preciso de tratamento intensivo para recuperar o que foi destroçado. Quem sabe, um dia, seja só uma cicatriz. Quem sabe, um dia, a gente ria disso junto, levantando taças numa mesa de bar. Quem sabe, um dia, façamos piada desse inverno. Assim espero. Assim espero.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Pois é...

"Eu lembro de tudo com a nostalgia de quem pararia o mundo pra viver novamente."

(Gabito Nunes)

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Gabito Nunes

Eu descobri primeiros umas citações dele, circulando pela blogosfera. Um dia desses, alguém colocou o link do blog dele Caras como eu e eu me tornei fã. Saí lendo tudo e divido agora com vocês a minhas mais nova descoberta.

Inspirado no cheiro da sua mão

Se a gente juntar com a pá migalhas e farelos, o pó e os cacos que sobraram de nós dois, acho que faz um inteiro. Será que não? E aí? Que tal? Vamos? Como soa dividir comigo essa existência idiotamente ridícula, morna, real, estúpida, bagaceira e imbecil? Vamos fazer diferente, como ninguém mais sabe fazer, só nós? Diz que vamos, vai.

Não? É tudo que preciso pra começar a te conquistar. Diz que não com os olhos cheios de esperança. Com duzentos "nãos" eu construo um castelo, uma roda gigante, uma cabaninha de lençol na sala, um altar, um amor, um sim bem grande. Com um sim entre você e eu, te roubo inteira e metade da felicidade do mundo. Diga que não, ponha uma meta no meu colo, tipo num processo de seleção feminina só pra eu provar que sou o cara.


Isso, faz assim. Se faz de labirinto quando eu me oferecer em linha reta. Diz que metade de mim, a parte amigo, tá bom, só pra me empurrar inteiro coração adentro, goela abaixo, com toda a calma do mundo. Isso, faz assim. Dá voltas e voltas e voltas na chave da tua emoção só pra eu me exibir que posso te desarmar, desarrumar sua vida e seus cabelos. Embora eu não te ame ainda, mesmo o amor não existindo, diga não e me encoraje a pôr tudo à prova.

Finge não me querer, disfarce o brilho no olhar, esconda o sorriso atrás dos cabelos, ganhe torcicolo de tanto cuidar o outro lado, mostre o cofrinho se abaixando quando eu passar rasando, fique o tempo todo pensando no jeito infalível de ganhar o Oscar de melhor "tô nem aí". Me ache chato se eu te procurar, me ache o homem da sua vida se eu sumir, me veja feio do teu lado, me veja lindo do lado das outras. Diga trocentas vezes pro espelho na sua bolsa que sou o cara mais idiota, mais engraçado, mais fajuto, mais encantador que você fingiu não gostar.

Perfeito assim. Fosse sem esses enigmas, sem esses rodeios, sem esses movimentos, sem esses contrastes eu a rejeitaria como todas as outras. Vem assim como uma onda que não se congela pra eu pegar, como uma música do Djavan. Mas alerto já que estarei esperando com os pés e o desejo de te ter pra mim descalços, esperando você se desfazer, perder energia e parar na areia, nos meus braços, no meu sofá.

Bolei um plano pra trazer você pra mim, todo inspirado no cheiro da sua mão. É mais ou menos assim: você finge me repelir como fosse eu um ex-presidiário estuprador, bagaceiro e ressentido, e eu chego arrombando sua porta, suas pernas, sua alma. Aí você se dá conta que para voar é preciso tirar o peso dos ombros, se desanda, e diz pra mim, no ouvido, com um fio de voz e outro de esperança de que seja tudo real, que isso é o maior erro do ano, que não imaginava existir tanta culpa no céu, que as pessoas ficaram mais bacanas depois que encasquetei em te querer. Tudo sorrindo mais do que seu rosto aguenta.

E devolvo, puxando com os dentes seu lóbulo, que nossa história foi escrita torta de propósito pra gente se cruzar, tudo enquanto eu babo sobre teus encantos, enquanto eu faço o sexo mais manso e mais intenso e mais irreversível e mais gostoso e mais carinhoso e mais sem camisinha e mais duradouro da sua vida, tanto que você perde seus orgasmos por birra, contrai a pélvis pra eu não gozar de pirraça, de tanta vontade de nunca mais me deixar sair de onde eu nunca deveria ter entrado.

Depois, com pequenos beijinhos e mordiscadas virando e desvirando seu corpo, virando e revirando seus olhos, convenço que os maiores amores se acertam nos erros, quando a loucura e a entrega vencem a resistência e o medo de alguma forma. Começo num beijo no canto da boca, aqueles que cabe a você decidir se acaba, ou prossegue, tá? Então, vamos? Pega na minha mão, entra no meu carro, sobe na minha garupa. Te mostro o quanto dá pra amar no caminho.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

É saudade, então...*

A saudade que eu sinto hoje é uma saudade mais leve se comparada àquela lá do começo disso. É uma saudade que, vez ou outra, senta na minha sala e me faz respirar curtinho, derramar lágrimas e olhar nossas fotos de ontens bem felizes. Essa saudade de hoje está bem longe de ser devastadora, bem longe de ser aniquiladora e prostrante. É saudade de um tempo em que as coisas eram felizes, eram calmas, eram certas. Saudade da sensação de ter alguém para/por você, alguém em que se confiava e se sabia. Alguém cujo olhar era leitura e compreensão. Alguém cuja mão encaixava perfeitamente na curva da sua cintura e por sobre quem sua perna descansava os dias. Saudade da certeza do carinho, do abraço, do cafuné, do beijo doce. Saudade da convicção do amor, da reciprocidade, do mutualismo da relação. Saudade de estar, de dividir, de fazer amor. Saudade de saber que alguém tem os braços permanentemente abertos para você e que é nesse exato refúgio que você encontra amparo e proteção. Saudade do compromisso que unia sem peso, da repetição diária da intenção de eternidade, da segurança oriunda da paz que só o amor é capaz. Saudade de ser amada assim, inteira, com olheiras, com o mau hálito, com os cabelos desgrenhados porque dormira com eles molhados... Saudade de ser de alguém, sem joguetes, sem esquemas, sem nada mais. Saudade de dividir a vida, de ser prioridade e a mulher mais incrível para alguém. Saudade de um amor que não sei nem se vou ter outra vez, mas que valeu a pena ter tido.

*"É saudade, então
E mais uma vez
De você fiz o desenho
Mais perfeito que se fez"
(Acrilic on Kanvas - Legião Urbana)

terça-feira, 12 de abril de 2011

domingo, 3 de abril de 2011

Vai sim, vai ser sempre assim...


Vai sim, vai ser sempre assim
A sua falta vai me incomodar,
E quando eu não agüentar mais
Vou chorar baixinho, pra ninguém ouvir.
Vai sim, vai ser sempre assim,
Um pra cada lado, como você quis
E eu vou me acostumar,
Quem sabe até gostar de mim.
Mesmo que eu tenha que mudar
Móveis e lembranças do lugar,
O meu olhar ainda vê o seu
Me devorando bem devagar.
Vem, que eu ainda quero, vem.
Quando menos espero a saudade vem
E me dá essa vontade, vem
Que eu ainda sinto frio
Sem você é tudo tão vazio
Vem me dar essa vontade,
Vem que esse amor ainda é meu.
Troco todos os meus planos por um beijo seu
E essa noite pode terminar bem.

terça-feira, 29 de março de 2011

Essência de sol

De preferência, que cada dor da gente não fira ninguém até poder se transformar em algum jeito de dádiva, porque grande parte delas se transforma. Que mesmo doendo, aqui e ali, a gente possa ter também valentia suficiente para não abrir mão da nossa capacidade de amar e nem da nossa sincera alegria diante da preciosidade charmosa e abundante da vida. Com tudo o que ela diz e, jardim permeado de sementes, ainda pode fazer florir.

Viver é rico demais, mas, não é raro, a gente esquece o acesso à própria fortuna. As nuvens, mesmo as mais densas, são transitórias. Nós, essencialmente, somos sol. (Ana Jácomo)

domingo, 27 de março de 2011

Caio F. autor da minha vida VI

"No vácuo de mim eu me despenco. Porque seria preciso também abdicar de mim mesmo para novamente reconstruir-me. Tornar a escolher os gestos, as palavras, em cada momento decidir qual dos meus eus assumir. Já esfacelei meu ser, já escolhi as porções que me são convenientes, esquecendo deliberado as outras. E são elas - serão elas? - que agora se movimentam revoltadas, pedindo passagem em gritos mudos, na ânsia de transceder limites, violentar fronteiras, arrebentando para a manhã de sol. O tremular da chama é um aceno, convite para chegar à verdade última e íntima de cada coisa.

Não quero. Não posso restar nu, despojado de mim mesmo. Não posso recomeçar porque tudo soaria falso e inútil. As minhas verdades me bastam, mesmo sendo mentiras. Não é mais tempo de reconstruir.

Em luta, meu ser se parte em dois. Um que foge, outro que aceita. O que aceita diz: não. Eu não quero pensar no que virá: quero pensar no que é. Agora. No que está sendo. Pensar no que ainda não veio é fugir, buscar apoio em coisas externas a mim, de cuja consistência não posso duvidar porque não a conheço. Pensar no que está sendo, ou antes, não, não pensar, mas enfrentar e penetrar no que está sendo é coragem. Pensar é ainda fuga: aprender subjetivamente a realidade de maneira a não se assustar. Entrar nela significa viver.

Sôfrego, torno a anexar a mim esse monólogo rebelde, essa aceitação ingênua de quem não sabe que viver é, constantemente, construir, não derrubar. De quem não sabe que esse prolongado construir implica em erros, e saber viver implica em não valorizar esses erros, ou suavizá-los, distorcê-los ou mesmo eliminá-los para que o restante da construção não seja abalado. Basta uma pausa, um pensamento mais prolongado para que tudo caia por terra. Recomeçar é doloroso. Faz-se necessário investigar novas verdades, adequar novos valores e conceitos. Não cabe reconstruir duas vezes a mesma vida numa única existência. Por isso me esquivo, deslizo por entre as chamas desse pequeno fogo, porque elas queimam. E queimar também destrói."

(Caio Fernando Abreu, Itinerário, in: Caio 3D - O essencial da década de 1970)

quarta-feira, 23 de março de 2011

De mudança

quarta-feira, 7 de Julho de 2010


De um universo a outro.

É difícil mudar de casa. Sair da casca. Deixar o quentinho do cobertor. Sair do banho e alcançar a toalha. Mudanças são contrastes de estados e, por isso, doloridas. É nascer de novo sair de uma relação para o vazio. Ou para outra. É preciso coragem e ruptura. É preciso acreditar. Comum permanecermos imóveis por mais que o suportável. Sair do banho e agachar enrolado na toalha, pensando na vida. Demorar um tempo até tomar coragem pra mudar de posição. Mudar é um parto, sempre. Mesmo que o novo mundo seja melhor. Diante do universo inteiro que se anuncia novo, ou de alguém que chegou de surpresa, muitas vezes nos acovardamos.

DAQUI: Amor e ponto
 
E num é que ela tem razão?

terça-feira, 22 de março de 2011

Só é meu o mundo que trago dentro da alma*

Peguei o livro "Estrela da Vida Inteira" para copiar lá no Céu Azul o meu poema favorito. Aí, ao abri-lo, eis que encontro a seguinte dedicatória:

"À minha estrela da vida inteira.
Com todos os amores do céu,
Thiago Castro de Moraes
23/07/02"

Um turbilhão de pensamentos e recordações me fazem cambalear. Desde coisas simples, como a lembrança das vezes sem conta em que ele chegara com um livro pra mim, assim do nada, só porque sabia que eu gostaria de ler, sabia da minha paixão; bem como a estranheza da dedicatória, que hoje parece fazer todo o sentido do mundo.

E mesmo cambaleante, eu sinto uma necessidade premente, urgente de não me deixar abater. E sigo feliz por ter vivido esta história, por ter tido essa pessoa na minha vida, por ser ele o pai dos dois pequenos, por poder dividir com vocês e, de alguma forma, poder ajudar alguém (de tanto que me falaram eu até me convenci de que o que eu escrevo serve para mais alguém).

Cada vez mais certa de que a vida é mesmo louca, mas o que vale é aquilo que a gente tem dentro e o que a gente faz diante do que nos é imposto. E, pra terminar, outro poema muito lindo que entitula essa postagem:

Um poema de Chagall

Só é meu
O país que trago dentro da alma.
Entro nele sem passaporte
Como em minha casa.
Ele vê a minha tristeza
E a minha solidão.
Me acalanta.
Me cobre com uma pedra perfumada.
Dentro de mim florescem jardins.
Minhas flores são inventadas.
As ruas me pertencem
Mas não há casas nas ruas.
As casas foram destruídas desde a minha infância.
Os seus habitantes vagueiam no espaço
À procura de um lar.
Instalam-se em minha alma.
Eis porque sorrio
Quando mal brilha meu sol.
Ou choro
Como uma chuva leve
Na noite.
Houve tempo em que eu tinha duas cabeças.
Houve tempo em que essas duas caras
Se cobriam de um orvalho amoroso.
Se fundiam como o perfume de uma rosa.
Hoje em dia me parece
Que até quando recuo
Estou avançando
Para uma alta portada
Atrás da qual se estendem muralhas
Onde dormem trovões extintos
E relâmpagos partidos.
Só é meu
O mundo que trago dentro da alma.

(Manuel Bandeira)

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Caio F. autor da minha vida V

Ah, Caio, você sempre tem o trecho exato para o que invento que sinto...
"Um passo para a frente e cem para trás. Retrocessos. Descaminhos. Procuro sinais de algum amor teu. Vestígios de noites passadas. Tu não me vês, estou incógnita a te observar. Como sempre estive, olhando pelas janelas, de longe, coração apertado. Nós poderíamos ser amigos e trocar confidências. Assistiríamos a filmes, taça de vinho nas mãos, e tu me detalharias as tuas paixões e desatinos. Nós poderíamos ser amantes que bebem champanhe pela manhã aos beijos num hotel em Paris. Caminharíamos pela beira do Sena, e eu te olharia atenta, numa tentativa indisfarçável de gravar o momento e guardá-lo comigo até o fim dos meus dias. Ou poderíamos ser apenas o que somos, duas pessoas com uma ligação estranha, sutilezas e asperezas subentendidas, possibilidades de surpresas boas. Ou não. Difícil saber. Bato minhas asas em retirada. Tu dormes, e nos teus sonhos mais secretos, não posso entrar. Embora queira. À distância, permaneço te contemplando. E me pergunto se, quem sabe um dia, na hora certa, nosso encontro pode acontecer inteiro. Porque tu és o único que habita a minha solidão." (Caio F.) 

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A despedida em poesia

"a quem por ti pergunta digo sempre
que habitas nos caminhos que vão dar
a todas as perguntas que fazemos
depois de termos morrido muitas vezes
e sem que o percebam dou-te o nome
mais perfeito que há na terra
para dar a quem vai desaparecer
eu sei que já é tarde que sempre foi tarde
mesmo quando ainda era cedo
mas também sei que não há mais nada para lá
dos secretos recantos das histórias que nos pertencem
e abro a janela de todos os meus sentidos
deixando que tudo o que era teu desapareça contigo
entre os murmúrios das horas que já nem recordam
o caminho de regresso ao sobressalto da tua voz
quando no parapeito das madrugadas
lentamente morríamos de frente para o sol
e não vale a pena tentar voltar ao princípio
porque a memória se encarregou de demarcar
o novo território dos teus passos
e qualquer estrada seria um outro deserto
onde nem sequer seríamos capazes de descobrir
o cheiro secreto de águas perdidas
por isso vai sendo tempo de escrever nas dunas
a rota de todos os tesouros que perdemos
para que outros cheguem e digam foi então
aqui que tudo começou
vai sendo tempo de convocarmos os amigos
para que as mãos curem as chagas
de precipitadas despedidas
vai sendo tempo de voltares para casa
e de entre nós baixar um deus que finalmente
saiba destinar a cada um o
amor que lhe compete"

- Dois corpos tombando na água, Alice Vieira

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Eu poderia estar varando o mundo e as madrugadas e inebriando corpo e mente com experiência fugidias e superficiais. Eu sei que eu poderia estar correndo riscos e sobrevivendo de maneira insana, leviana. Eu sei que eu poderia recorrer ao auxílio de tarjas pretas para fugir da dor, para sair do ar, para suportar. Eu sei que eu poderia estar encontrando válvulas de escapes e saídas tangenciais. Eu bem poderia viver mudando de braços e de abraços a cada noite. Eu poderia ainda resolver desistir da vida e me entregar à solidão. Eu poderia também pirar, vestir a fantasia mais colorida da insanidade e  deixar a razão me abandonar. Mas não. Eu estou aqui vestindo a roupa da razão, com as armas do equilíbrio e apoiada na coerência. É claro que me desequilibro vez em quando, mas eu vou em frente e antecipo o futuro colorido que me aguarda bem ali.

Eu sei que eu poderia estar falando alto ou gritando
Soltando a minha voz aguda e rouca pelo ar
E sei que poderia agora estar cantando
Mostrando a todos como é bela a minha dor

Confesso entretanto que sou incapaz
De anunciar assim o que eu sinto
Prefiro esperar sozinha por você
Pois só você entende o que eu digo

Eu bem que poderia freqüentar todos os bares
Tentando exorcizar um pouco o que sofri
Andar de mesa em mesa
Tropeçando e bebendo
Chorando e contando a minha triste história
A quem quisesse ouvir

Confesso entretanto que sou incapaz
De jogar fora assim as minhas lágrimas
Prefiro dormir sozinha no quarto
Talvez eu esteja bem melhor ao acordar

Não pense que é covardia
É apenas timidez
Só me serve a sua companhia

Eu sei que eu poderia estar vivendo um romance
Escrevendo a cada dia uma página da minha futura biografia
E até que poderia também tentar o suicídio
E assim saciar a sede de sangue da humanidade

Confesso entretanto que sou incapaz
De exibir assim minhas marcas nos jornais
Prefiro deixar o tempo passar
Quebrando uns pratos até você chegar


 Não pense que é covardia
É apenas timidez
Só me serve a sua companhia
(Timidez - Kid abelha)

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Caio F. autor da minha vida IV

Estou relendo Caio Fernando Abreu. Todos os meus livros, na exata ordem em que li da primeira vez, empilhados no criado-mudo do lado direito da cama. Estou relendo Caio Fernando Abreu e sentindo de novo as punhaladas que seus escritos me causam, a precisão com que ele fala da minha vida, a forma metafórica e viciante de falar de sentimentos. Queria ser enigmática como ele é, queria dar vazão ao que lateja como ele faz. Queria conseguir ser profunda e reflexiva como os escritos dele. Em muitas passagens, ele conta a minha vida. Eis aqui mais uma:

"Observei o que antes chamara de ausência sobre a cama, e percebi que meu corpo ainda humano sentia na carne a falta das descargas elétricas de seus dedos, mas que em meu cérebro estranhos circuitos geravam suas próprias imagens e sua memória e sua mitologia e que eu dispunha de mim como se fosse meu próprio dono e que se meu corpo ainda humano sofria fomes e ausências esse cérebro guardava todas as coisas não mais como um álbum de retratos mas como partes integrantes e integradas de mim mesmo. Não sentia mais sua ausência porque eu também era ausência. Não me sentia sozinho nem desorientado porque sabia que se não era ao mesmo tempo todas as outras pessoas e todas as coisas havia pelo menos alguns que haviam sido também escolhidos e que nos encontraríamos e que talvez já nos tivéssemos encontrado e que nosso caminho a princípio escuro era o mesmo. Soube para sempre que ele não voltaria. E que não tinha me abandonado."  (Caio Fernando Abreu, Iniciação in: O Ovo Apunhalado, p. 117).

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Caio F. autor da minha vida III

"Porque, pra viver de verdade, a gente tem que quebrar a cara.Tem que tentar e não conseguir. Achar que vai dar e ver que não deu. Querer muito e não alcançar. Ter e perder. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e dizer uma coisa terrível, mas que tem que ser dita. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e ouvir uma coisa terrível, que tem que ser ouvida. A vida é incontornável. A gente perde, leva porrada, é passado pra trás, cai. Dói, ai, dói demais. Mas passa. Está vendo essa dor que agora samba no seu peito de salto agulha? Você ainda vai olhá-la no fundo dos olhos e rir da cara dela. Juro que estou falando a verdade. Eu não minto. Vai passar." (Caio F.)

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

?

Com
Quantos
Caos
Se
Faz
Uma
Leoa?

(from: flor de laranja - link aí do lado)

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Pisca-pisca

"- A vida da gente, senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais.

[...] A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela ultima vez e morre.

_ E depois que morre? – perguntou Visconde.

_ Depois que morre vira hipótese. É ou não é?"

[Monteiro Lobato, excerto de Memórias da Emília (1936)]

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

That's exactly what I needed

Rocky

"The world ain't all sunshine and rainbows. It's a very mean and nasty place, and I don't care how tough you are it will beat you to your knees and keep you there if you let it. You, me or nobody is gonna hit you as hard as life. But it ain't about how hard you hit. It's  about how hard you can get hit and keep moving forward, how much you can take and keep moving forward. That's how winning is done. if you know what you're worth, go and get what you're worth. But you gotta be willing to take the hits and not pointing fingers saying you ain't where you wanna be because of him or her or anybody. Cowards do that and that ain't you! You better than that!"

sábado, 8 de janeiro de 2011

É tudo que eu tenho a dizer hoje

I Try (Macy Gray)


Games, changes and fears
When will they go from here?
When will they stop?
I believe that fate has brought us here
And we should be together, baby, but we're not
I play it off but I'm dreaming of you
I'll keep my cool but I'm fading
I try to say goodbye and I choke
I try to walk away and I stumble
Though I try to hide it, it's clear
My world crumbles when you are not near
Goodbye and I choke
I try to walk away and I stumble
Though I try to hide it, it's clear,
My world crumbles when you are not near
I may appear to be free but I'm just a prisoner of your love
I may seem all right and smile when you leave
But my smiles are just a front
I play it off but I'm dreaming of you
I'll keep my cool but I'm fading
I try to say goodbye and I choke
I try to walk away and I stumble
Though I try to hide it, it's clear
My world crumbles when you are not near
Goodbye and I choke
I try to walk away and I stumble
Though I try to hide it, it's clear,
My world crumbles when you are not near
Here is my confession
May I be your possession?
Boy, I need your touch
Your love kisses and such
With all my mind I try but this I can't deny
I play it off but I'm dreaming of you
I'll keep my cool but I'm fading
I try to say goodbye and I choke
I try to walk away and I stumble
Though I try to hide it, it's clear,
My world crumbles when you are not near
Goodbye and I choke
I try to walk away and I stumble
Though I try to hide it, it's clear,
My world crumbles when you are not near