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segunda-feira, 28 de março de 2011

Ali onde eu chorei qualquer um chorava. Dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava.

Passei o domingo esparramada na cama, crianças visitando a vovó e eu lá deitada com livros, séries, filmes, internet e meus próprios pensamentos. Não sei como eu comecei a sessão nostalgia, mas sei que ela me invadiu com pensamentos guardados muito profundamente, numa caixinha instável, que suporta muito mais do que é capaz e estava escondida no porão do de dentro, trancada e lacrada. Acho que talvez tenha sido por conta da ligação da Keka, perguntando se eu havia trocado meu nome quando do meu casamento, ela estava fazendo a lista dos convites do casamento dela com o Greg e precisava anotar. E aí, veio assim, as lembranças de quando começamos a namorar, da companhia deles dois, das nossas noites de sexta sempre no Picanha à moda. Veio a lembrança da certeza do sentimento que nos unia, da força e do turvamento que ele causava. Veio a sensação de segurança que ele insistia em me passar, da confiança que ele queria que eu tivesse, e eu, marcada e traumatizada por um relacionamento doentio anterior, não conseguia ter. Como eu era boba! Eu já sabia que ele seria a pessoa da minha vida, mas eu não sabia como segurar a onda. Eu via o cara bacana que ele era, o filho amoroso, o estudante exemplar, eu ouvia histórias de aluninhas suspirando por ele e de colegas de escola que paravam para vê-lo passar (quem não ia querer um cara como ele?) e aquilo me doía como se eu estivesse sempre com a faca no pescoço. Demorou tanto para eu entender que ele estava na minha, demorou tanto para eu me sentir tranquila, que eu nem sei bem como fomos capazes de superar tanto ciúme. Lembro bem de como a gente se demorava em incontáveis ligações noturnas e do quanto a gente gostava de escrever cartas, mensagens, emails. Cada data, cada dia, centenas de palavras amorosas cercavam a nossa história e eu me comovia e choraaaaava. Eram as palavras as nossas principais demonstrações de amor. Lembro da tranquilidade, da sensação de paz, do conforto que estar com ele me causava, lembro da vontade de estar sempre perto, mais perto, cada vez mais. Lembro de como era dolorido ter que se despedir e o quanto comemoramos quando fomos morar juntos, porque finalmente a gente não tinha mais que dormir separado, ele não tinha mais que me deixar em casa e seguir sozinho para casa dele, agora era nossa a casa. Eu tenho saudades de mil e uma coisas. Eu tenho saudade da curva do ombro, dos sinais no pescoço, da boca carnuda, do jeito carinhoso com que me chamava de princesinha desde todo sempre. Eu tenho saudade principalmente de estar ao lado, com aquela mão enorme, com dedos de salsicha - como diria o Saboia; segurando a minha. Eu tenho saudade do cafuné no meu cabelo antes de dormir e das conversas que a gente tinha, eu na cama e ele tomando banho no banheiro. Saudade da confiança mútua, do respeito, da admiração, do orgulho, da sensação de pertencimento, de ler o olhar, de entender antes que qualquer coisa seja dita, do conforto, da amizade, dos conselhos, dos planos que eram nossos e era tudo completamente recíproco. Lembro da mania de achar que tudo tinha jeito e do meu jeito desesperado de pensar que tudo vai dar errado. Lembro de como eu ficava tensa, exaltada, nervosa em muitos dias e ele abria os braços, dizendo: "Vai me engolir?". Lembro da chave girando na porta e de esperar sempre pela saudação dele, em alto e bom som, como aquele bom humor que, às vezes, me irritava. Lembro de brigar com ele porque ele não conseguia dizer não para as pessoas, para ninguém. Lembro das noites em que ele saía para o plantão e deixava o Matheus tomando conta de mim e do irmãozinho bebê, dizendo que ele era agora o homem da casa. Reflito sobre essas recomendações até hoje e acho que ela reverbera na mente do meu pequeno grandão, porque é perceptível o cuidado que ele tem comigo e com o Thomás. Lembro das ligações que ele me fazia do plantão, das conversas que tínhamos na noite em que ele não dormia em casa, e no quanto eu ficava feliz e relaxada por conseguir ficar deitada na cama assistindo TV, depois do fim de semana inteiro correndo com o marido hiperativo e pinguço para almoços, praias, bares, festas. Ele me ensinou muitas coisas e me cobrava muito também, que eu fosse uma dona de casa melhor, que eu fosse mais atenta, mais disciplinada, mas ele tinha uma admiração incrível pela pessoa que eu era, em todos os aspectos, e nunca deixou de repetir que eu me tornara a mulher que ele queria para a vida toda. A gente tinha um amor muito óbvio e bem inevitável, do tipo que virou o mundo, superou o tempo, o espaço, a distância e outras pessoas que até chegaram a fazer cosquinhas no nosso coração e se realizou, se expandiu quando as crianças nasceram. Para mim, mesmo no meio dos momentos difíceis porque passamos, era muito óbvio que tudo valia a pena porque existia esse AMOR, assim mesmo, em caixa alta. E, por ele, eu fui capaz de perdoar, de esquecer, de superar e, por causa dele, amadurecer. A vida ficou muito vazia e o meu mundo muito silencioso depois que ele se foi. No começo, era como se tudo em mim estivesse em carne viva e respirar doía, falar doía, pensar doía, viver doía demais. Ser feliz parecia uma coisa sem sentido algum, sem razão, sem porquê. O mundo não parou pra me ver tombar, o mundo não anunciou a minha história trágica no jornal, não recebi atendimento prioritário em lugar nenhum porque a dor que eu carregava me dobrava os joelhos, parecia que ninguém entendia que haviam extirpado meu coração, que eu estava sangrando, que eu estava esvaindo dentro de mim. Sentia como se tudo fosse ficar para sempre em preto em branco sem ele por perto. Sentia que eu nunca conseguiria me por em pé, respirar profundo, sorrir com vontade, sentir borboletas, amar de novo. Sentia que aquela perda definiria minha existência inteira e esta seria triste, arrastada, pesada, amarga até. Mas o tempo passou e mesmo não tendo esquecido nada disso tudo que eu vivi, mesmo doendo no peito ter perdido esse homem, eu percebo que eu posso ser plenamente feliz de novo, que aquela história teve um final trágico e muito triste, sim. Mas eu não quero viver despedaçada, eu não quero mais ser caquinhos, farelos, migalhas de uma pessoa que amou com tudo, profundamente. Eu quero viver de novo. E dentro de mim eu sinto que ele também ficaria feliz com a minha felicidade, mesmo que isso implique em outro alguém. Eu tenho saudades de tudo, ainda sim, sempre. E constato que esse amor venceu. Venceu, vencemos. E eu acabo de descobrir, simples assim, que eu nem quero me livrar desse sentimento, que quero conviver com ele, eu quero que ele se encaixe e tome assento, que caiba aqui dentro de mim, tenho que enfim parar de querer ganhar dele, parar de querer extingui-lo. Porque ele não se foi quando nos separamos, ele não se foi nas inúmeras dificuldades por que passamos e ele não irá agora. Ele é incrivelmente resistente e sobrevive. É isso: eu ainda amo, talvez para sempre. Mas não é por isso que eu vou deixar de ser feliz e de viver minha vida e de aproveitar as cosquinhas no meu coração. Não quero ser paralizada por esse amor, quero que ele me impulsione, que ele me recubra da sensação de que eu mereço muito mais ainda ser amada, ser inteira, tentar de novo. Amo ainda, é fato. Sem pressa, como se só saber que esse amor existe já me bastasse. Sabe, não é um sentimento egoísta, muito menos possessivo, nem depressivo, nem desesperado. Não é mais um sentimento que me deixa de joelhos, dobrada, envergada de dor, sem ar, sem esperança, sem conseguir respirar. É apenas uma saudadezinha. Gostosa, tranqüila, bonita, saudável, de longe. E, quem diria: leve!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O dia 20/01/2010


Acordou aquele dia com a mesma preguiça de todos os dias feira. Queria ficar ali deitada por mais alguns minutinhos, mas já ouvia as crianças com seus gargalhar e corre-corre na sala, sabia que precisava se levantar e enfrentar a rotina. Queimavam-lhe ainda na pele os beijos muitos e os afagos que recebera do marido, que se levantara cedo para o trabalho, que, neste dia especificamente, seria numa cidade do interior do estado, algumas horas de carro. Ele sempre era muito carinhoso e ela era sempre resmungona pela manhã, sofria de um terrível mau humor matinal e acordava quase sempre ensimesmada. Precisava de silêncio para pegar no tranco e isso podia levar algumas horas.
Levantou, enfim. Queria tomar um banho quente, mas sabia que a água gelada é que é boa pra espantar a preguiça, tomou o café trivial de todos os dias e saiu no carro com as crianças. Eles, escola; ela, trabalho. Era uma quarta-feira modorrenta, no alto verão de janeiro, ela ouvia uma música qualquer no rádio e chegou ao trabalho no horário de costume.
Sentou, ligou o computador, pegou um cafezinho e um copo d’água e ficou lá a bater os dedos no teclado, com o rosto sério e compenetrado, esperando o mau humor matinal passar para então puxar assuntos com os colegas nas mesas ao redor. Levantou para pegar uma impressão e o telefone tocou. Era a babá das crianças, informando que ligaram para a casa dela dando notícias de que um acidente acontecera na estrada com o marido.
Ficou tudo nebuloso, então. Primeiro pensamento foi: isso é trote daquele irresponsável do melhor amigo dele, vive pregando peças na gente. Segundo pensamento: vou ligar para a Prefeitura do Município, para saber da ocorrência de acidentes na região. E tentou, os números estavam ocupados. Tentou o celular dele, fora de área. Tentou o Hospital Municipal, a Secretaria de Saúde, a Delegacia de Polícia. Nada, nada, nada. E começou a surgir dentro dela a angústia de quem antevia o pior.
O alarme estava soando dentro da cabeça dela, as mãos começaram a tremer e lágrimas começavam a brotar sem ela entender direito o porquê. Não conseguia falar com ele e não conseguia falar com ninguém que confirmasse ou desmentisse a história absurda. Os colegas do trabalho começaram a tentar ajudar e a buscar notícias e contatar pessoas, porque, neste ponto, ela não tinha mais condições nem de segurar o telefone com as mãos.
Deixou a sala onde trabalhava e correu para o banheiro porque o estômago revirava e o jeito que ela enfrenta esses momentos de angústia é esse: coloca tudo pra fora, sem parar. O telefone tocou, era o cunhado dizendo que estava indo lá para a tal cidade para saber o que tinha acontecido. Perguntou se ela iria, ela disse que sim.
Só então, ligou para os irmãos, para que algum deles fosse lá na empresa em que ela trabalha pegar o carro dela. Saiu antes deles chegarem, em direção à estrada, meio muda e muito estupefata. Foi pensando na forma como ele dirigia, sempre confiante, sempre achando que não havia nada demais nas ultrapassagens e no excesso de velocidade. Foi pensando na forma como ele comparava o próprio carro com um avião e do dia, três meses antes, em que comprara o carro, zerinho, zerinho...
Fez ligações para as pessoas que conhecia na cidade onde o acidente ocorrera, para os amigos que tinham parentes no local, tentou os melhores amigos todos... Ninguém dava informação alguma. Ela, o cunhado e a sogra tensos, sem saber de nada. Todo mundo calado no carro, e o embrulho no estômago dela não passava. Ligou para um amigo que trabalhava no principal hospital da região, ele tava de férias, mas foi até lá para se informar e dar notícias mais precisas.
O telefone toca de novo, uma grande amiga aos prantos pedindo pra ela dizer que era mentira. Ela, sem entender quase nada, explica que é verdade, que o marido sofrera um acidente, mas que ninguém sabia detalhes, que ela estava a caminho da tal cidade e só então poderia dar notícias. A amiga diz então que terceira pessoa dissera que ele morrera. Ela diz que ninguém sabe nada ainda e desliga.
Porque a negação faz parte, porque era surreal demais para que ela acreditasse, porque não podia ser verdade. Ela nem cogitou, ela nem dividiu com ninguém, ela nem falou o que a amiga dissera no telefone. Ela simplesmente continuou calada, olhando as coisas passando na janela do carro, enquanto ele seguia seu rumo.
O amigo que trabalhava no hospital da região ligou e informou que o marido não estava sendo encaminhado para lá, mas para o hospital municipal da pequena cidade mais próxima do acidente. Ela ficou meio aliviada, afinal de contas, se fosse algo grave, ele iria para o hospital com estrutura melhor. E, nesse momento, veio na cabeça dela imagens do que poderia ter acontecido: algumas escoriações, alguns ossos quebrados, e ela anteviu o carão que daria nele por correr e por dirigir imprudentemente.
O amigo disse ainda que pegaria a estrada até a cidade vizinha e que ligaria assim que chegasse lá. Ela nem desconfiou de nada. O coração ainda esta aos saltos, mas ela queria acreditar que era uma boa notícia. Mas quando o telefone tocou de novo, e o amigo informou que ela tinha mesmo que ir pra lá porque ele havia morrido, pareceu-lhe que o mundo se partiu, que um buraco foi aberto  sob os pés dela e a Terra a engoliu.
Ela repetiu mecanicamente a notícia para as pessoas no carro. O cunhado encostou, enquanto a sogra chorava ao lado. E, sem saber o que fazer, falar, pensar, ela teve uma certeza: não queria ver o carro, nem ele todo machucado, não queria ir reconhecer o corpo e pegar os bens dele, não queria estar lá nesse momento. Ela queria ir pra casa, deitar na cama, ficar sozinha pra chorar. E disse: eu não quero mais ir pra lá, eu não vou agüentar!
Voltou pra casa e em meia hora a casa estava cheia de gente. Os pequenos foram tirados dali, juntamente com a babá porque ninguém sabia como olhar para eles, nem o que dizer. Ela nem sentia que estava dentro do próprio corpo, tudo parecia nebuloso. As lembranças são embaçadas e o tempo nem parece ter corrido normalmente.
Ela se  lembra de que havia muita gente, de que pessoas queridas compareceram, muita gente que ela nem conhecia, pacientes, colegas de trabalho, amigos vieram dos quatro cantos do país. Ela se lembra de ter recebido muitos abraços, de não conseguir conter as lágrimas, de não reconhecer as pessoas, nem o mundo, de ter a sensação de que a vida dela terminaria junto com a dele. Ela se lembra das promessas que fez sobre o caixão, mas não lembra do semblante dele lá. A imagem dele na memória dela é sempre vivo, é sempre um sorriso, é sempre muito carinho.
Houve um longo velório e um enterro num fim de tarde, quando o sol faz sombras compridas. Houve lágrimas demais, tentativas de sedar um pouco o que latejava, houve mãos, ombros, abraços apertados, muita solidariedade. Houve gente querida e amiga. O pior de todos os dias, na verdade, durou dois. Ela não sabe como passou por ele, ela não sabe como conseguiu. Mas ela, fiapo de gente, farrapo de sentimentos, estraçalhada pela dor de perder o homem da vida, consumida pelo desespero sobreviveu. E eu estou aqui para contar.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Boas notícias


Então, você cresce. Cresce e consegue manter os amigos por perto. Os da época das fraldas, barbies, bicicletas e pega-pega de patins, inclusive. Você cresce e aqueles que eram do seu time quando jogavam bandeira na quadra do prédio e com quem você discutia por causa das roupas da Barbie que não queria emprestar continuam ao seu lado. Você cresce e aquelas meninas que vibraram quando você deu seu primeiro beijo, ficando toda marcada de batom, batendo dente no dente, naquele menino que jogou seu bombom na piscina continuam sendo suas amigas. Você cresce e aquela amiga que comemorou um aniversário à beira mar com um grupo de pessoas que só tinham o som do carro e algumas garrafas de bebida à disposição continua sendo uma grande amiga. As pessoas que comemoraram com você quando saiu o resultado do vestibular, as pessoas com quem você conversava até amanhecer o dia quando estava de férias, aqueles com quem assistiu à Copa de 98 com uniformes exatamente iguais, aqueles amigos continuam sendo amigos.

A gente cresce e descobre que a primeira amiga a quem você contou que estava grávida também está grávida. Você percebe que ela passa por uma situação parecida com a que você passou anos atrás, quando engravidou sem querer, e sabe que isso é motivo de felicidade, ainda que seja atribulada a situação. Sabe que um filho é uma força avassaladora e fica feliz demais porque sua amiga-irmã também vai viver essa experiência. Você sabe que é de se comemorar, que é de abrir sorrisão, é de colocar tudo sob uma nova perspectiva. Você sabe que ter um filho muda tudo e fica feliz por ver a mágica acontecer com alguém tão perto.

Você foi a primeira, ela é a segunda do grupo. Você leva a amiga no seu obstetra e se emociona ao ver aquela coisinha de 3 cm com o coração batendo acelerado e se esticando dentro da barriga da mãe. E sabe qual é o principal motivo de comemoração? Os filhos terão a mesma diferença de idade que você e ela e o combinado sempre foi esse: nossos filhos serão amigos. E serão, sim, viu? Sem dúvida!

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Memória

Naquele dia, ele acordou cedo como fez nas duas quartas anteriores, do mês de janeiro. Nas outras duas vezes que ele foi pra lá, eu não me lembro da nossa despedida. Tenho certeza de que ele me beijou antes de sair. Fazíamos isso sempre, mas eu não lembro.

Na quarta-feira, 20, ele não só me beijou. Ele me abraçou demorado, mexeu no meu cabelo, cheirou meu pescoço, elogiou a minha pele e meu perfume, ele deixou claro o amor por mim num número sem fim de carinhos, que eu não sabia, mas seriam os últimos e ficariam num espaço nebuloso da memória. Nebuloso, sim, porque naquele momento eu estava num estágio entre o sono e o despertar, entre o inconsciente e o consciente.

De qualquer forma, o carinho ficou em mim, bem como o vocativo e a voz que ele usou na última ligação telefônica que fez: "Princesinha". Ele me instruía para agendar coisas triviais, como consultas e compras, mas esqueceu de me instruir como conviver com essa falta que pesa tanto agora.

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Mais de uma centena de visitas por dia. Obrigada por lerem e me ajudarem a esvaziar essa dor.


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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Missão

Eu vou imitar a Cristina Guerra do blog "Para Francisco" (link ao lado). Eu vou imitar para não esquecer. Eu vou imitar para que eles também conheçam o pai maravilhoso que tiveram. Eu vou imitar pra contar aqui a história de um amor incrível, que cresceu num ambiente hostil, que superou tanta coisa e que sobreviverá para sempre. Eu vou imitar para que vocês, meus pequenos, meus meninos, revivam essa história de amor (e de dor). Para que vocês reconheçam a felicidade quando se depararem com ela; para que vocês reconheçam o amor quando ele se imiscuir no peito; para que vocês saibam, como soubemos, o pai de vocês e eu, que era para ser para sempre...

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Relicário de um imenso amor

Qualquer coisa que seja dita hoje, qualquer palavra humana será ainda muito pouco para falar do Thiago. Será pouco porque ele era infinitamente maior que tudo isso, ele era melhor, ele era mais e ele era só amor. Amor pela família, pelos amigos, pelos pacientes, pelo trabalho, pela vida. Ele era o filho que toda mãe queria ter, ele era o aluno mais dedicado, ele era o estudante disciplinado, ele era o ser humano solidário, ele era ombro, ouvido, mão amiga, ele era o melhor namorado, o genro que minha mãe sempre quis, um marido dedicado, um pai incrivelmente apaixonado, um profissional carismático...

Uma vez eu escrevi que o Thomás era a criatura mais doce que eu conhecia, e hoje eu vejo que eu estava enganada. A criatura mais doce que eu conheci foi o Thiago, o meu Thi, o mozinho, o bebeim. Ele tinha um sorriso estampado no rosto e sempre um SIM como resposta. Ele tinha força de vontade e brilho no olhar. Ele fazia a gente acreditar na vida, no homem e no futuro melhor. Ele tinha garra, ele tinha paixão, ele tinha vontade e ele tentava abarcar o mundo com as pernas, ele fazia do tempo um elástico em que ele podia realizar tudo o que quisesse e tudo com perfeição.

Pode parecer demasiado piegas neste momento afirmar que ele foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Mas a verdade é que foi com o Thiago que eu cheguei mais próximo do meu ideal de felicidade, foi com ele que sorri os meus mais sinceros sorrisos, foi com ele que construí meus sonhos mais palpáveis, foi com ele que fiz os planos mais concretos, foi com ele que eu desejei passar a vida toda, foi com ele que me encantei pela rotina, foi com ele que me tornei múltipla, foi com ele que acreditei que um grande amor pode dar certo para sempre, foi ele que me fez confiar de novo no outro, foi ele que me fez imaginar a velhice acompanhada, foi com ele que supus ter tudo que sempre quis e encontrado o meu lugar. Ele me fez crer que era pra sempre... Agora será.

Desde a última quarta-feira, uma música de versos tristes que a cantora favorita do Thi canta se repete na minha cabeça: “É tão difícil olhar o mundo e ver o que ainda existe, pois sem você meu mundo é diferente, a minha alegria é triste. Tantas vezes você disse que me amava tanto, tantas vezes eu enxuguei o seu pranto e agora eu choro só sem ter você aqui”.

Diante da terrível dor da perda, tudo mais se torna incrivelmente minúsculo, supérfluo, perecível. A sensação de impotência, de incapacidade, de sufocamento e de cansaço é inevitável. Mas quando penso que a dor vai me consumir, eu me lembro da vitalidade, da objetividade e de uma palavra que ele gostava muito de dizer pra mim: RESOLUTIVIDADE. Não adianta neste momento andarmos em círculos à procura de porquês. Não tem porquê, não tem resposta, não tem razão, não é compreensível. Não tem nada que aquiete nosso coração e não há remédio que diminua a nossa dor. Mas eu sei que ele me diria para nesse momento procurar uma solução e a que eu encontrei foi seguir em frente, um passo de cada vez, inspirando e expirando até que não lateje mais. Olhar os olhos dos meus filhos é compreender claramente porque preciso me manter de pé, não me permitir me abater.

Thi, sua moreninha, seu grandão e seu gorducho estão com um vazio gigantesco no peito, mas dentro em breve nossos sorrisos retornarão às nossas faces para homenagear e para reverenciar o exemplo do que há de melhor em um homem que tivemos em nosso lar.

domingo, 17 de maio de 2009

Sobre as minhas surpresas

Decidir ter um filho é um ato de coragem. Eu não escolhi ser mãe, eu me tornei uma. Eu não tive tempo de desejar, mas adorei a missão. A cada dia, me encanto mais com a tarefa, com os encargos e com as inúmeras satisfações. Concordo com quem diz que são muitos os transtornos, mas a recompensa... Essa, sim, não tem preço! Se tivesse planejado certinho, esperado a estabilidade financeira, a pessoa certa, o casamento, talvez nada tivesse acontecido como aconteceu. Mas tô aqui, às vésperas do 27º aniversário, com dois meninos pequenos correndo pela casa, a pessoa certa do lado direito da cama e feliz.

Há pouco mais de 3 anos, num exame ginecológico de rotina (ao qual fui sozinha e sem levar celular), fui avisada que estava grávida de poucas semanas. Na época, eu tinha um rolo com um ex-namorado que jamais tinha saído da minha vida, eu estava no último semestre da faculdade e planejava a majestosa festa de formatura, ganhava menos de R$ 1.000,00 por mês e, apesar do susto, eu nem sei porque, fiquei feliz.

Voltei pra casa com a sensação de que aquela poderia ser uma das poucas oportunidades de ser mãe na vida, uma vez que eu tinha um histórico de problemas ovarianos. Nem pensei no que minha mãe, minhas tias fofoqueiras, o pai do bebê, meu próprio pai poderiam dizer ou pensar. Eu teria meu filho!

A surpresa de saber que seria mãe não foi menor que a surpresa de ver que o ex-namorado queria ficar com a gente e que a minha mãe (que achava que iria morrer antes de conhecer os netos) ficou feliz com a notícia. Assim, em dois meses, eu tava morando num apartamento espaçoso, com o pai dos meus filhos. No dia do meu baile de formatura, usava um longo vermelho e carregava uma barriga de quase 7 meses de gravidez.

Antes mesmo do Matheus completar um ano, o Thi - meu marido - já queria outro filho. Em dezembro de 2007, prometi que engravidaríamos novamente em 2008. E exatamente 2 anos depois do primeiro susto, no dia 20/02/2008, descobri que estava grávida novamente. A surpresa veio do fato de ter parado o anticoncepcional há um mÊs apenas.

De tudo isso, a lição que tirei é que a gente não controla a nossa própria vida. Não dá pra planejar certinho nem calcular matematicamente o futuro. Aprendi que aquilo que é pormenorizadamente planejado tem uma tendência muito maior a dar errado. Já dizia Joseph Climber que a vida é uma caixinha de surpresas. Tenho certeza de que as surpresas que me foram reservadas foram as melhores possíveis. E que venham outras, mais surpreendentes e ainda mais felizes!

UPDATE: A gente vai casar ano que vem! As crianças serão os pajens!!!