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quinta-feira, 5 de maio de 2011

Manda essa cavalaria

Há tempos não escrevo sobre isso e minha aversão por religiões pode dar a alguns a impressão de que sou atéia ou algo assim. Que desprezo filosofias orientais e supertições. Declaro aqui: não é verdade. Já tentei ser atéia, na época da faculdade, porque chega mais ou menos essa época da vida a gente acha que é científico e esclarecido ser ateu. Quando tentei dar as costas a tudo e ser atéia, descobrir que não acreditar na existência de deus é fichinha. Deus é a parte mais simples. O problema é olhar para o mundo e achar que ele nos é indiferente, que cada coisa é resultado imediato apenas do que é lógico, aceitar as coisas tais como as vemos. Aí descobri que não sou e nunca poderia ser atéia. O meu mundo tem causas e efeitos desconhecidos, ele conspira em direções que eu não entendo. Tenho que me reconhecer como uma pessoa mística - a não ser que vocês ateus possam acreditar em feng shui.
(From: Caminhante diurno - link ao lado)


E aí, faz tempo que eu vinha pensando sobre as minhas concepções religiosas e sobre fé. Há tempos as coisas andavam meio confusas na minha cabeça. Ao mesmo tempo que existe em mim um lado prático, pragmático, racional e cético, eu descubro ser muito doloroso pensar como eu sempre pensei e não acreditar em nada. Era muito fácil dizer que não acreditava em vida após a morte quando não batia no meu peito essa esperança de que alguém estivesse do lado de lá. Era muito fácil dizer não haver um deus, nem alguém tomando conta de tudo, quando eu não precisava ter essa fé de que alguém que eu amei estivesse sendo bem cuidado em outro lugar, num plano não-físico. Era muito fácil não ter fé, não crer, não rezar, quando não havia essa dor.
 
Agora as coisas mudaram um pouco de figura. Continuo absolutamente aversa a todas as religiões. Pelo menos, àquelas com que tive o mínimo contato. Não consigo engolir o sapo da pregação de que aquilo que cada uma acha certo ser o único caminho, a única verdade. Continuo resistente a muitos conceitos e muitos estigmas, que, para mim, se revestem de moralidade frágil e preconceitos e machismo. Fato é que não consigo mais  pensar em mim como uma pessoa que não crê em nada (pode chorar de felicidade, mãe!).
 
Sinto-me mais ou menos como descrito pela "Caminhante". Sinto que nem tudo está equilibrado sobre um argumento lógico irretorquível. Sinto que não consigo conceber argumentos plausíveis para tudo. Sinto que tem coisas que estão muito além daquilo que somos capazes de perceber, entender, assimilar. Sinto que existem certos arranjos que a inteligência humana simplesmente não alcança. Eu não alcanço. Sinto que a vida toma direções estranhas e até inverossímeis se analisadas apenas pela ótica da razão. E, diante dessa verdade que me salta aos olhos, eu envergo a cabeça e passo a acreditar na máxima que diz que há mais coisas entre o céu e a terra do que julga a nossa vã filosofia.
 
Eu não sei direito o que é, nem como isso aconteceu dentro de mim. Eu nem quero me aprofundar muito nesse assunto, nem ando pesquisando sobre religiões para escolher uma para mim. Eu não sei em que pé estou em relação a tudo isso. Eu não sei explicar em que matiz de cor, variando entre a beata e a atéia, eu estou nesse momento. Eu sei que não estou nos extremos. Sinto que essa transformação aconteceu em mim e, depois do texto colado acima, eu precisei refletir um pouco mais. É só isso.
 
"Eu cansei de ser assim
Não posso mais levar
Se tudo é tão ruim
Por onde eu devo ir?
A vida vai seguir
Ninguém vai reparar
Aqui neste lugar
Eu acho que acabou
Mas vou cantar
Pra não cair
Fingindo ser alguém
Que vive assim de bem

Eu não sei por onde foi
Só resta eu me entregar
Cansei de procurar
O pouco que sobrou
Eu tinha algum amor
Eu era bem melhor
Mas tudo deu um nó
E a vida se perdeu
Se existe Deus em agonia
Manda essa cavalaria
Que hoje a fé
Me abandonou

Ver, por onde você for
Cansei de procurar
Não posso mais te dar
O pouco que sobrou
Carrego seu amor
Até não conseguir
Mas hoje eu me senti
Dobrando devagar
Tentei chorar
O seu perdão
Mas não ouvi
Sinal, será?
Isso é o meu mal

Deus, proteja um filho teu
Não deixa o mal ganhar
Por onde se esconder
Enquanto o céu tá aí
E a chave não abriu
E a estrada se acabou
E a ponte não achou
Pra lá desse lugar
Eu vou tentar
Por mais um dia
Manda essa cavalaria
Que hoje a fé
Me abandonou
"
(O pouco que sobrou - Marcelo Camelo)

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Inferno Astral

Oficialmente, segundo a astrologia-videntes -advinhos e afins, entro hoje no meu inferno astral. Falta um mês exato para meu vigésimo nono aniversário (não espalhem a notícia, querid@s leitore(a)s). Nem sei se acredito nisso, mas sei que de ontem pra hoje me bateu um banzo. Não aconteceu nada de especial,  não vi fotos de nós dois ou de nossa família-comercial, não encontrei ninguém diferente falando ou lembrando coisas dele, não encontrei objetos dele espealhados pela casa, não há reminiscências, não houve sonho nem sensações da presença dele comigo. Não houve nada. Não sei se é uma saudade da companhia, do carinho, da sensação de pertencimento, da percepção do amor, do lugar no ombro em que eu podia simplesmente ser quem eu sou. Não sei se é um desejo intermitente de chegar logo em outro lugar que me traga essa paz. Não sei se é só uma carência, uma vontade de viver esse amor, de me sentir completa de novo. Não sei se é uma estranha sensação de que minha vida foi partida, de que estou na contramão, que não é esse o caminho certo e lógico: eu aqui, sozinha com essas duas crianças, orfãs de pai, tocando a vida, matando leões diários com as unhas encravadas na carne e seguindo exaurida e despedaçada. Não sei se é só um cansaço de ser e estar só. Não sei se é só a solidão dos meus dias, ter de resolver tudo sozinha, ter que me virar sozinha, ter de tocar as coisas mais corriqueiras e as mais extraordinárias sozinha. Não sei se é uma estafa depois de tanta luta. Não sei que mal é esse, mas eu sei que ele me deprime, makes me feel blue. Eu nem sei como tratá-lo porque eu não sei o que ele é. Eu sei tão-somente que ele está aqui, tingindo em tons de cinza meu céu que começava a ser azul.

terça-feira, 5 de abril de 2011

"It's like when a storm is over. Is it happiness? Or is it just a relief?"

Eu vi essa frase ontem lá no meio daquelas atualizações do Facebook e fiquei pensando, pensando, pensando... A verdade é que não dá pra saber. A sensação de calmaria e de alívio, a alegria com a sobrevivência, o reconhecimento da força, o mérito pela superação, a experiência, tudo isso vem como avalanche com o fim da tempestade. É certo que a visão fica embotada, a razão fica meio esquecida num canto qualquer e o principal guia é mesmo tão somente o sexto sentido, que impele a gente a seguir sem ter esperança nem perspectiva alguma.

É fato. Há um alívio quando se sobrevive. A gente se dá conta de que é capaz de ir muito depois do final do além, como diria uma música do Moska. A gente entende que mesmo doendo tudo, mesmo ofegante, mesmo com lágrimas nos olhos, mesmo com um peso sobrehumano nas costas, mesmo ferido em cortes e talhos hemorrágicos, mesmo sem querer, mesmo com dúvidas e medo e descrente, mesmo sem saber porquê, mesmo sem entender o mundo e achar que estamos todos perdidos no caos, a gente consegue. Dificílimo, mas quem sobrevive, sai muito maior de tudo isso.

Aí, vem a percepção da simplicidade da felicidade. As duas coisas não rimam por acaso. É preciso muito pouco mesmo. Menos, muito menos do que você imagina. É preciso só saúde e disposição para enxergar as coisas como elas são; não gastar tempo e energia com o que não vale a pena e está fadado a dar errado. A gente aprende a pesar direito o valor de cada coisa, a colocar cada problema, queixa, intempérie em seu devido lugar e seguir sem que nada de pequeno abale o viver. Não é possível se livrar das frustrações, das perdas, das lágrimas, das dores. É do viver sentir isso tudo. Mas a gente entende enfim que a vida é muito maior. Aí, ah e aí, você descobre que pode ser feliz sim, mesmo tendo sobrevivido ao pior de tudo. E aí, você é.

quinta-feira, 17 de março de 2011

A valsa do crioulo doido

Um passo para frente, dois pra trás, três pra frente, dois pra trás, dez passos pra frente, cinco pra trás... Nesse vai vem descoordenado e sem ritmo; nesse pra lá e pra cá sem nexo e sem ginga, acabo girando em círculos sobre mim mesma e desabando tonta no chão.

Perco o foco, devaneio, procuro um ponto de equilíbrio, um apoio, uma placa que me guie, que me oriente, mas as coisas passam apressadas pela minha visão e o cerébro não chega sequer a decifrar os códigos multicoloridos e completamente desfocados que percebe. Saio cambaleante, bêbada, trôpega e sigo ainda assim, porque há qualquer coisa aqui dentro que me impele.

De certo mesmo só o bater descompassado daquilo que guardo dentro do peito e a sensação fugidia de melhor ter isso que quedar inerte, seca, fria, vazia.

quarta-feira, 16 de março de 2011

Hoje não dá

Gente, vocês me perdoem, mas um não sei o quê me atormenta hoje e eu não tô mais interessada em escrever sobre essas coisas tristes demais. Eu descobri que esse blog não é sobre luto, não é sobre dor, mas é sobre esperança, sobre fé na vida, fé no homem, fé no que virá. Eu quero escrever sobre a felicidade que me acompanha e me aguarda, sobre a alegria que os pequenos me proporcionam, sobre o amor. Mas hoje não dá.

Eu volto. Prometo.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Deve ser por isso

Há essa bagunça dentro de mim. Uma confusão de sentimentos que ora explode, ora se afunda, ora derrama, ora seca. Há coisas que eu deixo escondido embaixo do tapete do porão de dentro, porque nem eu mesma me sinto preparada para lidar com elas. Ficam lá, intocadas, esquecidas, a gente finge que não se vê, a gente finge que não se sabe. E assim, eu vivo a minha vida mais inteira, mais em pé. Preciso confessar também que eu não sei lidar muito bem com a dor, nem a física (limiar bem estreito) nem a emocional. Eu não sei lidar, eu não sei o que fazer, então eu fujo. Fujo do que faz doer, fujo do que faz tudo revirar. Às vezes, é óbvio, a dor é mais rápida que a minha carreira e a enxaqueca me derruba, o turbilhão de dentro me faz dobrar os joelhos. Mas o meu impulso quando me deparo com as dores inevitáveis da vida é correr delas. Não é uma atitude racional, é instintiva. É apenas questão de sobrevivência. Deve ser por isso que eu procuro levar a vida olhando pra frente, pra depois. Deve ser por isso que eu passo pelas coisas pisando firme, para andar por sobre elas e deixa-lás para trás. Deve ser por isso, nem eu sei, que tem gente que me chama de rocha, de fria, de guerreira... Deve ser por isso.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Migalhas

O que é difícil entender é que para quem falta tudo, qualquer coisa é muita coisa. Se não se tem nada; o que parece sobra, resto, pouco é muito, é ótimo, é tudo. Quando se está no deserto, na rua, sem teto, sem abrigo; qualquer sombra, qualquer pé de pau, qualquer barraco vira lar, qualquer jornal vira lençol, qualquer caixa de sapato vira travesseiro. E é muito fácil para aqueles que estão dentro das suas casas, com seus pratos de comidas, com suas roupas quentinhas, com todo seu conforto, achar absurdo que ali, naquela caixa de papelão, naquele beco, embaixo do viaduto, estejam toda a vida e todos os sonhos de uma pessoa. Mas é o que disse: quando não se tem nada, o pouco é muito.
 
A melhor característica do ser humano, a que nos tornou seres evoluídos e selecionados, é justamente a facilidade de adaptação. A gente se adapta, a gente se acostuma. É fácil se acostumar com o que a vida tem de bom, com luxo, com facilidades, com praticidades... Mas quando tudo, absolutamente tudo, é tomado; a capacidade de adaptação permanece e até impressiona. É triste, é pesado, é vazio, é difícil; mas a gente se acostuma e sobrevive com menos, com muito menos, com quase nada.
 
E volto a dizer: para quem tem quase nada, qualquer oferta é ganhar na loteria. Vem aquela sensação de que é preciso agradecer por isso, que pode ser a única oportunidade, a única refeição do dia, o único conforto, a única vez. Vem também a impressão de que é preciso desfrutar daquilo intensamente, cada colherada, cada pedacinho, cada vez, lenta e profundamente. Vem junto um desejo de que dure, de que seja eterno, de que a vida dê um pause. Vem um anseio para que não acabe, porque voltar para o nada é penoso demais.
 
Quem não tem quase nada se refestela com muito pouco e abre a guarda e se entrega aos pequenos momentos como se fossem únicos, porque eles bem podem ser. Quem não tem quase nada se acostuma com o pouco que tem e se deslumbra com qualquer coisa. Quem não tem quase nada se entrega muito mais facilmente; é ludibriado mais facilmente; é atropelado por tudo muito mais facilmente; perde mais facilmente; deixa escapar entre os dedos porque apertou com muita força e apertou com muita força porque queria reter o momento.
 
Nessa altura do campeonato, já deu para perceber que eu não estou falando dos flagelados, descamisados, moradores de rua, né? Vocifero com Cazuza: "Migalhas dormidas do teu pão... Raspas e restos me interessam. Pequenas porções de ilusão... Mentiras sinceras me interessam, ME INTERESSAM!"

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Do Orkut de novo

Sorte de hoje: O sucesso não é o final e o fracasso não é fatal: o que conta é a coragem para seguir em frente.

E não é verdade? O importante é seguir em frente, eu sempre disse isso, apesar dos inúmeros, contantes e triviais apesares. Este especificamente me parece por demais pesado. Não contava mesmo com essa rasteira da vida. Pelo contrário... Mas eu também sempre disse que estava aqui para colocar a cara à tapa.

Meu pedido de final do ano, que até então sempre fora atendido, era só para ser feliz. Eu estava realmente muito feliz e não havia mais muita coisa a ser pedida. 2010 seria uma ano de concretizações. Tínhamos combinados tanta coisa para este ano: apê novo, festa de casamento, a mentalité... Tínhamos tanta coisa para fazer com ele que, diante dessa tragédia, eu só consigo pensar que ele pode passar correndo. Preciso de 2011!

Se 2010 veio para me arrancar dos meus sonhos de vida para me mostrar o fundo do poço, eu só quero que 2011 me mostre a escada pra sair daqui e que ele chegue logo, para ontem!