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sábado, 23 de abril de 2011

Cartas para você XXVI

Mozinho,

Hoje eu fui à Caponga com os pequenos. Hoje, depois de muito, muito, muito tempo mesmo, eu resolvi ir. Acho que a última vez, até então, deve ter sido na Semana Santa do ano passado, quando eu me dei conta do pânico de dirigir na estrada e de que eu não suportava estar lá sem você. Dessa vez, já tendo ido à Serra dirigindo, achei que fosse ser fácil. Achei que a distância temporal faria o dia ser leve. Ledo engano.

Estacionei o carro já com um engasgo, um nó na garganta, um aperto no peito. Aquele ambiente era a sua cara, era seu remanso, era seu descanso, era onde você se sentia em casa. Não mudou muito desde que você se foi, mas agora tem uma foto sua pendurada no corredor. Foto do sorriso matador. Foto do seu olhar doce. E aí, mozinho, foi muito difícil estar ali. Foi difícil estar naquele ambiente sem você. Eu me peguei inúmeras vezes esperando você aparecer, você vir me acordar na rede, você assar o churrasco e colocar o coraçãozinho de frango na minha boca. Eu esperei você rolar no chão com os meninos. Ah, Thi, como eles cresceram desde que você se foi...

Eu tentei conversar com as pessoas, rir das palhaçadas da Guigui, me divertir, mas eu simplesmente não consegui parar de pensar em você e também não consegui deixar de sentir o quão injusta essa merda de vida é sem você aqui. A pista foi duplicada quase até Pindoretama, eu nem faço mais ideia onde era a propriedade da família do seu avô e fiquei lembrando de quantas vezes, ao passar por lá, você disse que levaria seu avô para reencontrar os parentes. Seu avô está aqui, firme e forte, e você não. Os nossos amigos estão casando, comprando imóveis, comemorando conquistas, aniversários e você não está mais aqui para se alegrar com eles, para sorrir de mãos dadas comigo, para beber até dar trabalho e me arrancar gargalhadas.

Eu tentei me apegar à alegria dos pequenos, ao quanto eles gostam daquele espaço, daquele chuveirão no jardim; mas eu acabava me lembrando do seu jeito de se remexer quando ouvia um forró tocando e do jeito que você me conduzia quando a gente dançava. Tão lindo você dançando forró, mozinho! Eu me peguei lembrando de você rindo até engasgar das brincadeiras obscenas da Guigui, da sua vontade de ficar na beira do mar, do seu jeito de primeiro provar o almoço com um prato robusto e depois comer de verdade com um prato imenso. Eu lembrei das escatologias das manhãs e das muitas vezes em que dormimos na mesma rede naquela mesma varanda.

Foi muito difícil para mim estar ali sem você, mozinho. As pessoas todas continuam fazendo as mesmas coisas que sempre fizeram e eu me sentia partida ao meio, despedaçada, com essa dor lancinante, que, em determinado momento, eu simplesmente não consegui mais conter e me levou às lágrimas na frente de todo mundo.

Eu me pergunto quando é que vai parar de me revirar assim. Eu me pergunto o que mais eu preciso fazer para ser tudo suportável. Eu me pergunto quando é que eu vou deixar de sofrer porque eu não quero esse peso para sempre. Eu sinto tanto sua falta agora, Thi, que eu mal consigo escrever. As lágrimas caem sem controle e eu paro inúmeras vezes para me controlar. Eu queria tanto que nada disso tivesse acontecido, eu queria tanto ter você comigo, que eu me envergonho em contar que, num lapso de insanidade, eu barganho com o meu inconsciente.

Eu sei que hoje é mais suportável do que já foi, eu sei que agora passa mais rápido e dura menos tempo, mas nesses momentos em que a saudade me dá um caldo, eu demoro a recuperar o ar e continuo aqui, como quem se levanta depois de ser embolado por uma onda, com olhos ardendo de tanto chorar.

Amo você demais!

Moreninha

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Cartas para você XXV

Thi,


Não sei explicar bem porque, mas é aos domingos que eu sinto a saudade mais doída. Saudade de não ter, não saber, não poder falar. Saudade de ter você na vida, ao lado, brincando com as crianças, deitado na cama... No corre-corre dos dias úteis, sua falta quase passa batido. Nos meus finais de semana cheios de nada para fazer, estirada na cama, ela vem devagarzinho, abre as portas do porão de dentro e vai puxando aleatoriamente as muitas lembranças de nós dois.

Eu costumava dizer para você que adorava a expressão criar laços (adoro ainda). Sinto que é bem isso que a gente faz na vida: cria laços com as pessoas. Cada momento, cada alegria vivida ou lágrima derramada junto, cada abraço, cada beijo, cada vitória dividida, cada vez que se quebra um galho para alguém, sua fita e a fita do outro se unem num laço. Ao longo da vida, eles são muitos. E quantos mais laços se tem com alguém, maior é o vínculo também, mais forte é aquilo que prende ao outro. Você gostava das minhas metáforas, lembra, bebeim?

Quando a gente perde alguém assim, de repente, esses laços não somem instantaneamente. A sensação que se tem é de que eles continuam ali, prendendo aquelas vidas. Quem fica, tem a impressão de que permanece naquele emaranhado, de que tudo que construiu com aquela pessoa que se foi ainda existe. É física a sensação, é real. Muito lentamente, os laços afrouxam e se soltam. Grande parte dessas lembranças, desses momentos, daquilo tudo que unia vai permanecer na memória; mas não será mais laço.

É sempre aos domingos que eu tenho inundações de lembranças e que percebo o quão frouxos nossos laços estão agora. É sempre aos domingos que eu vejo e realizo o quanto de você já perdi. E dói. Dói porque não foi escolha minha nem sua. Dói porque foi prematuro, no meio de tantos sonhos, num ano que era pra ser incrível, às vésperas de tantos novos laços serem dados. Dói de um jeito estranho e inexplicável. Dói a despeito da tranquilidade que me ronda, da calma que é presença, da alegria dos pequenos. Dói a despeito das cosquinhas no coração e do sorriso no rosto. Dói assim, como eu disse no post sobre o outro domingo, sem me dobrar, sem me envergar, sem me turvar a visão, sem me tirar o ar dos pulmões, mas dói.

Logo depois do janeiro trágico, Thi, tudo que eu queria era chegar no muito depois disso, tempo em que seria tudo suportável. Agora que é tudo suportável, que eu encontrei um jeito de fazer a dor caber e se acomodar em mim, eu penso que eu não quero tirar você daqui, eu não quero esquecer os nosso melhores momentos e os laços que atamos e, ao mesmo tempo, eu sinto que é hora de deixar você ir, deixar muita coisa esvanecer, amarelar na parede da memória, deixar as fitas que nos prendem se soltarem.

De alguma forma, eu sinto que dói em você não estar mais aqui, que você sente essa saudade e essa angústia. De algum jeito meio cético-racional-descrente, eu sei que você sente demais nossa falta e queria estar presente, assim como eu acho que o que eu digoqescrevo chega até você.

Sabe, mozinho, uma das coisas mais marcantes em você era a resolutividade. Você sabia, como poucos, desenrolar os problemas, enfrentá-los, solucioná-los e sabia também reconhecer o que era sem solução. A nossa separação, nesse tempo-espaço em que estou, é irreversível, Thi. Não tem jeito. E eu preciso seguir por aqui sem você e você precisa seguir sem a gente onde quer que esteja.

Você será sempre uma linda história, o pai das crianças, um grande amor, um homem incrível, um amigo inesquecível, um médico maravilhoso; mas não será mais meu companheiro, meu confidente, meu marido, meu amante e essa constatação dói. Mesmo doendo, os laços estão frouxos e se desfazendo. Mesmo doendo, eu não tenho como reatá-los. Mesmo doendo, mesmo sem querer, mesmo sem convicção religiosa alguma, eu sinto que você existe em algum lugar e eu preciso que você entenda que esse é o curso natural das coisas, é o que dá pra fazer. É preciso encontrar novos motivos para viver e ser feliz, meu amor.

Não sei se a gente vai se encontrar algum dia, em algum lugar. Não sei se um dia estarei convencida de que essa perda, esse sofrimento e essa dor tem uma justificativa razoável. Não sei se estarei certa de que havia uma missão para você e outra para mim e que nosso destino nos unia só até o janeiro trágico. Não sei se um dia estarei conformada a ponto de não sentir mais revolta, de não questionar mais nada. Mas, com você, com a nossa convivência e com os laços que tínhamos, eu aprendi a ser resiliente e resolutiva. Por isso, meu amor, por mim, pelos pequenos, pela vida que segue e me chama, eu abro portas e janelas e deixo o sol entrar.

Eu penso sempre na sua música preferida, que tocou na sua missa e tento, através dela, me conformar: "E quando eu tiver saído para fora do teu círculo, tempo tempo tempo tempo, não serei nem terás sido. Ainda assim acredito ser possível reunirmo-nos, tempo tempo tempo tempo, num outro tipo de vínculo". Quem sabe, Thi, seja isso mesmo: um outro tipo de vínculo.
 
Amo você demais!
 
Moreninha
 

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Cartas para você XXIV

Thi,

Preciso pedir desculpas. Durante muito tempo eu retive você aqui, eu me agarrei às suas lembranças, à sua essência, ao seu jeito de ser e de lidar com tudo para poder caminhar. Eu recorria às palavras que você me dizia para tentar colocar ordem no caos que ficou nossa vida. Nos momentos de medo ou desespero, eu pedia que você, onde quer que estivesse, me ajudasse a ficar em pé, a seguir em frente, a encarar. Quando a minha força estava esvaindo, quando as lágrimas rolavam, eu pedia, pedia, pedia: Thi, Thi, Thi...

Eu sei: egoísta. Eu sei: de novo e como sempre. Não sei como, não sei porque, não sei nem explicar direito o raciocínio dentro da minha mente descrente. É que pensar que você poderia me ajudar e que estava por perto me fazia me sentir mais capaz. Perdi a conta de quantas vezes me utilizei desse recurso. E, de repente, nem era mais um processo mental premeditado. Em qualquer situação, eu tava lá, pensando em você e acreditando que você me ajudava.

Ontem, quando o Matheus começou a tossir aquela tosse que você nunca ouviu, mas que me fez bater no hospital com ele algumas vezes, quando ele começou a reclamar da garganta doendo, quando ele começou a dizer que tava com sono e não conseguia dormir; eu pedi por você de novo. Eu pedi que você me ajudasse a cuidar dele e a fazer o que devia ser feito. Eu pedi que você estivesse ali com a gente para que eu não precisasse passar pelo desespero de vê-lo sem ar, em crise de novo. Eu dei os remédios de sempre e, meia hora depois, ele dormia tranquilamente.

O fato é que eu percebi o contrassenso que eu sou. Eu digo que estamos bem e que conseguiremos sem você. Eu digo que me virei por aqui e que toquei nossa vida em frente. Eu digo que consigo, que sou capaz, que eu posso; mas diante da primeira pedra, eu já choro seu nome e peço sua ajuda e me tranquilizo em saber que, em algum lugar, você está a fazer por nós o que não pode mais. Como você vai ficar em paz assim?

Desculpa, meu amor, eu sou mesmo inconsequente, eu sou mesmo o cúmulo do egoísmo. Eu quero que você acredite que estamos bem e que pare de sofrer por não estar presente. Eu quero que você entenda e perceba que a gente está seguindo a vida por aqui e que isso seja suficiente para você descansar. Não há dúvidas de que seria muito melhor com você por perto, porém não se pode fazer conjecturas com impossibilidades. Eu queria me desculpar por ser insegura e demandante. Eu queria ser mais forte, mais firme, mais segura de mim e dos meus atos, Thi.

Durante muito tempo eu vivi como espectro do que você era, chegou a hora de caminhar com minhas próprias pernas.

Amo você demais e para sempre!

Moreninha

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Cartas para você XXIII

Thi,

Sabemos ambos que nada mais vai reconstituir o que tivemos. Não dá pra voltar atrás, não dá pra lutar contra o irreversível. A única coisa que nos cabe é fazer o melhor que pudermos, da melhor maneira que conseguirmos, para sofrer menos, para viver melhor, para trazer tranquilidade e paz para os pequenos. A distância físico-temporal que nos separa hoje parece intransponível, parece insuportável, parece demais. Aprender a lidar com ela é a minha meta, é o meu objetivo.

Egoísta como eu sou, egocêntrica como sempre fui, nunca pensei muito na sua dor. Meu foco era única e exclusivamente o que latejava em mim. E doía/doeu/dói demais não ter você aqui. Falei do desespero, do medo, da sensação de fracasso, de vida partida... Contei para você e para quem mais se dispusesse a vir ler minha vida. Mas eu não pensei na sua dor, mozinho. Eu nem quis pensar no sentimento que deveria tomar conta de você, a sensação de não estar perto das pessoas que você amava, de não estar por perto enquanto os seus filhos vão crescendo...

Eu falei do quanto EU sentiria falta e do quanto ME partiria ao meio vê-los crescer sem você, sem a referência que você era, sem o seu exemplo, sem suas orientações. Mas eu não pensei na SUA saudade, no SEU pesar. Eu tinha que lidar com a minha dor, eu tinha que aprender a conviver com ela, eu tinha que fazê-la caber e depois se acomodar dentro de mim e, assim, não me preocupei com VOCÊ. Eu sei, é a minha cara e eu sou mesmo egoísta.

Porém, bebeim, agora que o tempo passou e que as coisas se acomodaram dentro de mim, de um jeito meio troncho e ainda meio bagunçado é claro; eu sinto que é preciso dizer a você que a gente vai indo bem por aqui e que você não precisa se preocupar porque, por mais que eu perca o juízo e arranque cabelos em alguns momentos, eu consegui manter o prumo, a ordem, a rotina. E eu fiz isso tudo basicamente porque eu me espelhei no que você era, na maneira como você agia: nada é para amanhã, fazer tudo que der para fazer hoje, resolver problemas com simplicidade e sorrisos, nada de desespero, nada de perder noites de sono, tudo sempre dá certo. Isso era você e isso tudo eu internalizei para tocar a minha vida e a dos nossos pequenos.

A gente tá bem aqui, mesmo sem você, mesmo com essa cicatriz que ora lateja, ora sangra, ora arde, ora queima, ora descansa em paz, ora cicatriza. Se eu refletir sobre as minhas angústias e medos de um ano atrás e comparar com o meu presente, eu consigo identificar claramente uma evolução na mulher, na mãe, na  pessoa, até na contribuinte (que o diga a Fazenda Pública!) que eu sou. Para além da evolução psicológica, existem também as conquistas materiais, a acomodação que eu consegui fazer no nosso padrão de vida, mozinho. Isso também é uma conquista pra mim.

Ontem eu tive esse insight e refleti muito sobre seu sofrimento. Eu quero muito que você entenda e perceba que eu me virei, eu dei meus pulos, eu contei com ajuda significativa dos nossos inúmeros amigos, e saiu tudo direitinho. Muito melhor do que suspus, muito mais do que imaginei. E agora, Thi, é a hora da gente seguir. Nós todos, nós quatro.  O seu sofrimento também tem que terminar. A saudade é saudável, é inevitável; mas o sofrimento não, meu amor! Até você tem que buscar sua paz, seu descanso, sua tranquilidade, seu porto. Assim como eu procuro por aqui.

Não sei se você me ouve/vê/lê, não sei; mas onde quer que você esteja, Thi, saiba que estamos bem e que a gente quer que você fique em paz para sempre.

Amamos você demais!

Moreninha, Grandão e Gorducho.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Cartas para você XXII

Thi,

Um ano se passou desde aquele dia de janeiro trágico. Um ano sem seu coração bater no mundo. Um ano sem sua presença. Um ano sem ver o sorriso mais lindo que eu já vi. Um ano inteiro: todas datas, todas as comemorações, todos os momentos sem você. Confesso que, para mim, ainda é muito difícil acreditar que você se foi. Olhos suas fotos na nossa casa e me pergunto como pode um cara tão bacana não estar mais aqui. Eu me pergunto, Thi; eu não me conformo. Por isso mesmo, na maior parte do tempo, eu prefiro não pensar muito. Concentro-me nas tarefas e obrigações imediatas, nos nossos pequenos (grandão e gorducho, para você), concentro-me no dia a dia e vou.

Sabe, mozinho, não foi fácil estar sem você até agora. A vida é outra e eu também me tornei outra pessoa. Muita gente me diz isso, que é incrível perceber a mudança em mim depois desse ano. E nem sei até que ponto isso é bom. De alguma forma, eu sinto falta da minha superficialidade, da minha leveza, da minha alegria, da minha ausência de preocupações de antes. Era leve, era fácil, era seguro... Mas enfim, a gente faz o que dá pra ser feito, né? Eu continuo tentando daqui.

Preciso contar que adoro receber suas "visitas" sorrateiras. Eu sinto você e acho que esse foi seu jeito de dar um jeito da gente se "encontrar". Eu sei que você sabe que outros mecanismos não funcionariam com a descrente aqui, com a "incréu", como diria a mamãe. E é bom sentir que, de algum modo, o seu amor chega até mim e, através de mim, até eles. Suas visitas me devolvem uma certa convicção de que você permanece ao nosso lado, que cuida da gente do jeito que dá e que assiste o desenvolver dos nossos pequenos. Espero que seja mesmo isso e não apenas fruto dos desejos do meu inconsciente irresignado com a sua partida.

Sempre que eu sinto você por perto, a vontade que eu tenho é de não abrir os olhos, é tentar impedir o desvanecer do intangível. Sabe criança segurando firme e com três voltas na mão um balão de gás para que ele não voe embora? Sou eu! Eu quero segurar a sensação da sua presença, segurar a visão e ouvir sua voz e conversar com você... Eu queria perguntar tanta coisa, mozinho, mas eu num consigo, nunca me lembro. Espero que você esteja feliz com o que temos aprontado aqui e que haja uma razão plausível para tudo isso e, mais que tudo, que essa razão tenha trazido a conformação de que você precisa, porque eu sei que a mesma revolta que me assolou o peito deve ter assolado o seu.

Mozinho, acho que a hora é de se despedir das lágrimas, da dor, do luto, da sensação de vida partida, de ferida aberta... Você concordaria com isso. Quero ser feliz, meu amor, do mesmo jeito que fomos juntos. Do mesmo jeito que sabíamos, como diz a Izabel, ser e fazer. Foi muito, muito, muito mais que maravilhoso ter você na minha vida. Foi muito lindo o que a gente viveu. E eu tenho certeza de que eu nunca vou me esquecer disso tudo e, quando a vida me parecer injusta, eu vou tentar lembrar do brilho do seu olhar quando olhava para a família que somos.

Eu sei que você vai me ajudar em tudo e, por isso, eu sei que vou conseguir.

Amo você demais e para sempre!

Moreninha.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Cartas para você XXI

Thi,

Hoje foi a aula da saudade da sua turma da residência. E foi lindo ver o quanto você é querido, o quanto você marcou a vida de tanta gente. Foi realmente especial saber que não é só a gente, de dentro de casa, que sente o coração moído por essa sua partida precoce. Do diretor do hospital mental à auxiliar de limpeza, todo mundo veio falar com a gente sobre você.

Seu nome foi mencionado no discurso do orador, Davi, que ressaltou que a presença de todos seus familiares era sinal da sua presença ali. Seu nome está na placa, ainda que o in memoriam aperte o nosso peito. Você foi o primeiro nome a ser chamado pelo Diretor do Hospital para receber o diploma e, antes de me entregar, o ele fez questão de ressaltar a sua atuação lá, sua importância, sua competência... É incrível perceber que a característica que te define é o carinho para com tudo, mozinho. Você apareceu no vídeo com fotos, e as palavras eram todas de saudade.

Tenho certeza de que hoje seria um dia de felicidade e alívio para você. Tenho certeza de que estaríamos eu, seus pais, seus irmãos, sua cunhada e sua tia lá naquele auditório, papocando de orgulho de você. Tenho certeza de que seus amigos vão fazer tanto sucesso quanto eu sei que você faria. Ah Thi, eles foram tão delicados comigo. Entregaram-me uma rosa por estar presente.

Sabe, conter as lágrimas foi bem difícil... Em alguns momentos, eu não conseguia parar de tremer, o coração palpitando, um aperto que parecia torcer meu peito... Eu nem sei de onde vem a força que me impede de desabar, de chorar ali, alto, com soluços, como no dia um. Eu não sei como eu consegui ficar de pé e sorrir. De uma coisa eu sei: foi lindo estar lá, foi ótimo pensar em como seria se não, e foi maravilhoso perceber que absolutamente nada, nenhum aspecto da sua existência foi em vão. Nada em você era mais ou menos, Thi. NADA.

Senti muito sua falta hoje, falta de segurar sua mão, falta de encher o peito de orgulho por mais uma conquista que não deu tempo de você concluir. Eu sempre soube que não era só aquilo ali que determinava o psiquiatra que você era, mas o que batia dentro de você. Acho que foi isso que eles reconheceram ao entregar o certificado pra mim. Como eu disse em algum lugar: você era médico de almas, por isso, psiquiatra.

Muito orgulho ainda por aqui...
Ainda saudade. Ainda Amor.

Moreninha

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Cartas para você XX

Thi,

Depois da terapia, eu prometi a mim mesma que pararia com o pensamento disfuncional que faz com que eu crie toda uma série de situações conjugadas no futuro do pretérito dentro da minha cabeça, em que cada frase começa com um SE impossível e pesado. Eu sei que eu não devo manter esse mundo paralelo, porque ele representa a comparação injusta e desleal com o presente dolorido de não ter você mais aqui.

Racionalmente, eu sei que não é por aí. Racionalmente, eu percebo que esse não é o caminho para chegar lá, no muito depois disso para o qual eu tenho corrido desesperadamente desde o janeiro trágico. Racionalmente, objetivamente, pragmaticamente são palavras que o coração simplesmente desconhece e nesse nove de novembro vazio, ele faz o paralelo e sente sua falta daquele jeito mais doído.

O coração tem vontade própria e ele planta na minha mente os pensamentos todos de como seria se. E por causa dos inúmeros SEs, eu fico remoendo essa dor absurda, enfiando agulhas de acupuntura nas queimaduras de 3º grau ocasionadas pela sua partida, fico tamponando com bandaids a perfuração arterial, tentando controlar a hemorragia que teima em sangrar abundantemente. Eu sei que é sem jeito, mas é também sem jeito esse tanto que dói vezenquando.

Ah, mozinho, como seria feliz esse dia com você por perto... Como seria feliz reunir todo mundo e cantar parabéns pra você, e chamar de manhã cedinho os pequenos para matar você de beijos e entregar os presentes que teríamos comprado. Como seria bom reunirmos as pessoas queridas no nosso apê novo. Como seria bom abraçar você daquele jeito, enfiando minha cabeça onde ela encaixava no seu ombro, derrubar você na cama e morrer de rir das cosquinhas que você faria em mim para eu perder a força. Como seria feliz o nove de novembro inteiro. Não esse aqui, aos pedaços, aos trancos e barrancos, suportável, sobrevivível (eu invento palavras para dizer o que sinto e ainda elas, as inventadas, não exprimem claramente).

Ainda é tão difícil acreditar que naquela curva o meu mundo se partiu. Ainda dói tanto pensar que nunca, que não mais, que jamais e que é para sempre. Ainda é pesado demais imaginar e ver os pequenos crescendo sem você aqui. Todos os dias eu me pergunto como aguento, como eu consigo. E, sinceramente, essa resposta não é fácil, Thi. Tem gente, tem orações, tem mãos, tem torcida, tem carinho e tem os trancos, as rasteiras, gente maldosa também, tem fofoca... Mas tem os nossos grandão e gorducho que cuidam de mim e me ensinam muito mais que eu a eles e tem esse negócio aqui dentro, sabe? Essa vontade de ser feliz, de me livrar dos pesos, de amar, de viver... Tem esses olhos de esperança que eu sei que são herança.

Eu sei, meu amor, que sempre vai faltar um pedaço, sempre vai ter uma marca da sua ausência nas vidas que você deixou aqui. Eu sei que, de alguma forma, você está com a gente, aqui dentro, em pensamento, em lembranças de tantas coisas boas que vivemos juntos. Eu sei, Thi, e agora é quase uma convicção, em algum lugar você permanece e é aí mesmo que a gente vai se encontrar. Mas por agora, Thi, deixa eu chorar de saudade e rir ao lembrar dos seus olhinhos que se fechavam na gargalhada, da sua ternura no sorriso, do seu carinho para com o mundo, do seu jeito de me abraçar, da sua mão de chimpanzé com dedos de salsicha - como nosso compadre dizia, do seu carisma, da sua vida, da sua luz.

Parabéns, meu amor! Parabéns!


Ainda muita saudade. Ainda muito amor.

Moreninha

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Cartas para você XIX

Thi,

Oito meses se passaram. Oito meses sem você. Eu ainda me lembro do desarranjo daquele dia de janeiro, da sensação de não ter absolutamente nada sob os pés, de perder a noção da gravidade, do tempo, do espaço. Lembro-me de que perdi minha paz. Lembro-me do meu desconsolo e das lágrimas silenciosas que inundaram nosso colchão nas madrugadas. Lembro-me de abafar os gritos na toalha, com a porta do banheiro fechada para os pequenos não ouvirem. Lembro-me de sentir necessidade de escrever e de reler e de reviver para passar a dor. Lembro-me da quase convicção de que minha vida terminara naquela curva. Lembro-me da quase certeza absoluta de que melhor seria se tivesse acontecido comigo. Lembro-me do medo ser tão grande, do desespero ser tão absurdo que me fizeram pensar em suicídio. Lembro-me de querer me esconder debaixo das cobertas e não me levantar pra nada. Lembro-me de achar que o mundo tinha perdido a cor, que a comida não tinha sabor, que bares não tinham a menor graça. Lembro-me de um peso terrível nas costas, da sensação de fundo do poço, de naufrágio, de que puxaram meu tapete. Lembro-me de acordar e dormir com olhos inchados e de viver cada dia como se tateasse no escuro o caminho. Lembro-me de achar que eu não fosse dar conta, que a vida seria um fardo, que o mundo era um lugar injusto e cruel. Lembro-me de ter estabelecido marcos para as lágrimas caírem livremente, para a aliança sair do dedo, para viver o luto, para o sofrimento, para virar a página. A dor, já dizia o poeta, é inevitável, mas eu posso escolher parar de sofrer.

Desde o começo, eu disse que a mudança para o apartamento novo representaria o fim do luto. Eu falei disso na terapia, eu falei disso para os nossos, eu falei disso e corri para que isso acontecesse, para que desse tudo certo. Eu sei que teve muita gente segurando minha mão e me enchendo de carinho, de palavras de apoio e de ajuda prática. Eu não teria conseguido sem eles, mozinho. Com certeza, não! Mas chegar à linha de chegada, ver o apartamento ganhar a cor, a decoração, os móveis que eu escolhi sem você e desmontar o nosso lar tem sido uma experiência dúbia, um surto bipolar. Ao mesmo tempo que me sinto radiante e plena por ter feito isso acontecer, eu me sinto pesada por abandonar a vida feliz que vivemos aqui. São lágrimas de felicidade e de saudade que banham meu rosto, Thi. Você me entende? Eu não consigo controlar. É inevitável ver a nossa história terminar. É inevitável sentir esse pesar. E, por mais que eu saiba racionalmente que devo seguir em frente, parte de mim queria ficar, queria você. E eu vou empacotando tudo e repassando as imagens, eu vou lacrando as caixas e revivendo nossa vida, e em alguns dias, tudo ficará definitivamente no passado.

Mozinho, não sei mais o que fazer daqui pra frente. Pra que miragem eu devo correr agora? O que me espera nessa vida inteira pela frente sem você? O que é que eu faço agora dos meus dias, porque até aqui era um leão pra matar por dia, e daqui pra frente? Eu busco as respostas nos sorrisos dos pequenos e, eu não sei como vou fazer, como também não sei como consegui remar até aqui. A única certeza que eu possuo é de que a gente tem que ser feliz. Torce pra gente!

Ainda saudade. Ainda amor.

Moreninha

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Cartas para você XVIII

Thi,

Perdi as contas de quantas vezes olhei para essa foto de olhinhos-fechados-gargalhada e me senti completamente sozinha. Perdi as contas de quantas vezes as lágrimas encharcaram meus olhos e eu me segurei para que elas não caíssem. Nem sei porque me sinto assim, se estou na iminência de ir pa lá e de fechar o ciclo. Mas a verdade é que agora tudo dói, tá tudo em carne viva.

A sua ausência agora se mistura com a ausência de companhia, de alguém pra dividir as responsabilidades, de alguém pra confabular se vale a pena comprar certos eletrodomésticos à vista ou parcelado em 10x no cartão; de alguém que segure minha mão, e faça os furos nas paredes, e lide com marceneiro, pedreiro, gesseiro... É uma saudade tão grande da sua resolutividade, da sua habilidade prática, do jeito que você me permitia me sentir a mulher mais segura do mundo, ao lado do cara que faria qualquer coisa por ela.

Repito que não sei porque me sinto assim. Eu sei que sou capaz de lidar com isso sozinha. Mas a verdade é que eu queria você aqui. Eu queria você para me preocupar só com os detalhes decorativos do apê e programar em quantas milhares de parcelas iríamos pagar tudo. Eu queria você aqui pra sentar e pensar na cor do quarto dos meninos com calma. Eu queria você aqui pra programar o aniversário deles. Eu queria você aqui pra jogar minha perna sobre a sua perna e dizer que te amo baixinho no ouvido, quando o sono tá pesando os olhos, lembra, Thi?

Eu queria só dormir no seu ombro de novo, na casa nova, mesmo que seja num colchão no chão porque não deu tempo - $$$ - de terminar os móveis. Eu quero comer de novo pizza sentada no chão, eu quero de novo colocar a TV em cima de um banquinho de madeira... Mas eu quero tudo isso com VOCÊ! Eu quero a risada de fechar os olhos e engasgar, eu quero ouvir "oi, princesinha!" no telefone; eu quero ouvir você abrindo a porta e chamando os meninos de grandão e gorducho. Eu quero VOCÊ e eu simplesmente não posso ter!

EU num tenho nem conseguido dormir direito. E você sabe o quanto eu sou dorminhoca, me encosto em qualquer lugar e já tô ressonando. Mas é tanta coisa na minha cabeça, tanta coisa pra organizar, pra fazer, que eu não consigo pregar o olho. Esse nunca foi o meu papel, lembra? Era você que resolvia as coisas e eu só cuidava de detalhes. Racionalmente, eu sei que é só insegurança, é só o medo da mudança, é só coisa demais... Acho também que esse encerramento de ciclo, esse fim da estrada tem me parecido com tirar você de dentro de mim, de dentro dos meus olhos... É como se eu fosse me afastar de você definitivamente e eu ainda não quero. Era para querer, mas eu não quero. Não sei o que fazer, só sei que dói e não tenho você para abraçar e para me acalmar!

Amo você demais!

Moreninha

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Cartas para você XVII

Thi,

Na próxima semana, receberei as chaves do apê novo. Eu assinei a documentação toda. Eu fui ver a obra. Eu pedi orçamentos aos marceneiros. Eu tô pesquisando preços de tudo. Eu tô cuidando da vidinha que terei com nossos pequenos na "casa nova", como o Matheus diz. Em pouco mais de um mês, estaremos lá, Thi, e a nossa vida, nosso casamento, nossa rotina, nosso dia-a-dia vai ficar na "casa velha", que hoje, parece um depósito, cheia de caixas para empacotar minha vida, minhas melhores recordações, meu tempo com você

É isso que eu tenho feito. Decidido o que levar, empacotado livros, utensílios domésticos, brinquedos, documentos. Estou me desfazendo do supérfluo, do desnecessário, do que não cabe. Como a gente junta coisa na vida, né, mozinho? Estar arrumando tudo, também colabora (e muito) para a sensação de que a mudança vai acontecer. Não consigo para de pensar que é um livro que eu tô terminando de ler. E é como aquelas histórias que você começa e não quer que termine e não consegue soltar e quando acaba quer ler de novo. E dói, sabe? Terminar de ler dói, não poder ler de novo dói, como também dói assimilar a definitividade de tudo isso.

Não sei porquê, mas tenho me lembrado tanto de você estes dias. Não são lembranças de momentos nossos, não são frases ou palavras suas; são flashs de sua presença na nossa casa. Lembro de você sentado na mesa da sala estudando. Lembro da sua expressão quando concentrado no texto. Lembro de você assistindo aos DVDs do Medcurso. Lembro da sua feição deitado na rede no nosso quarto com o Thomás. Lembro da sua maneira de parar em pé com o braço dobrado sobre a barriga e de como isso fazia com que você parecesse ainda mais com seu pai. Lembro tanto de você, das coisas que eram só suas, do seu jeito de ser...

Não sei como vai ser minha vida no mais pra frente, mas sinto que o depois disso começa com essa mudança. E depois da mudança, eu não sei mais. Quis tanto correr pra que esse dia chegasse que agora que ele está aí, dando às caras, eu não sei o que fazer com o resto dos meus dias. Eu vou pensar quando eu estiver lá, mozinho. Sei que vai dar certo e que o sorriso vai continuar estampando meu rosto e o dos pequenos. Sei que deve ter muita mais coisa boa esperando pela gente no caminho. Sei que, de alguma maneira, você vai se fazer presente em cada um dos nossos dias e isso, por si só, já é motivo para estar em paz e ser feliz. Sei que a vida é do jeito que a gente encara, do jeito que a gente enfrenta. Estamos enfrentando, mozinho!

Ainda saudade. Ainda amor.

Também amo você demais!

Moreninha

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Cartas para você XVI

Thi,

O tempo passou rápido. Já faz quase 7 meses. Já aconteceu tanta coisa depois de você sair do mundo. Aquele negócio que latejava aqui dentro foi embora. Aquela vontade de chorar cada vez que via uma família foi embora. Aquela sensação do mundo estar vazio foi embora. Aquele sentimento de que nunca mais eu poderia amar de novo foi embora. Restou aqui uma pancada de bem querer, de sorrisos, de vontade e de força de vontade. Ficou também uma tonelada de lembranças felizes e histórias lindas para recontar para os pequenos. Porque eu quero muito que eles saibam como você era. Eu quero que eles tenham exemplo de pai, de homem, em você também, não só naqueles que eles escolherão para te substituir.

Eu queria contar, Thi, que o desespero me deixou. As coisas voltaram aos lugares e a gente tá às vésperas da mudança pro apê novo. Será que você tá orgulhoso de mim, mozinho? Por eu ter conseguido segurar a onda? Por eu ter conseguido resolver tudo? Por eu ter mantido os pequenos sorridentes e saudáveis? Por eu ter me mantido mentalmente sã? Tá, eu sei, você diria que eu sou F alguma coisa, algum código do seu linguajar psiquiátrico, que significa doida. Mas eu fiquei em pé, sabe? Eu fui gastar sola de sapato no fórum, eu fui gritar com os burocratas, eu fui carimbar, autenticar e reconhecer firmas em papéis. Eu fui sozinha, Thi! Eu fiz o que precisava ser feito. Não sei se da maneira mais célere, não sei se da maneira mais certa, não sei se da maneira que você faria. Mas eu fiz como eu pude e deu certo. Eu fiz o que eu pude e me continuei em pé, procurando motivações e compensações no caos.

Quando a gente entrar no apê novo, mozinho, vai ser uma vida nova começando. Uma vida em que não haverá lembranças suas espalhadas pelos cômodos. Haverá ainda o seu sorriso lindo naquela foto de formatura na parede do escritório e em muitas outras espalhadas pela casa. Mas não haverá a memória da sua presença. Eu acho, Thi, que vai ser mais fácil seguir em frente, então. Porém, quando eu penso que estas recordações não estarão mais comigo, a vontade que eu tenho é não sair mais do nosso canto. A vontade que eu tenho é de conviver com seu fantasma, vontade de continuar me olhando no espelho com declaração de amor, e de continuar a abrir e fechar as portas do seu lado do guarda-roupa à procura do que era seu e não está mais lá.

Mudar é doloroso, Thi. É virar de vez a página de uma história que foi linda e da qual a gente foi arrancado à força. Mudar é dar adeus ao transatlântico, ao comercial de margarina. Mudar é começar tudo de novo, do zero. Mudar é abandonar um passado com o qual queríamos conviver para sempre. Mas é preciso, né? A gente tem que ir para lá. E a gente vai, mozinho. Vamos entrar com o pé direito no apê novo. Vamos colocar uma pimenteira na sala e pendurar um olho grego na porta, para que nada mais nos aconteça. Acho que você deve estar por aí, mexendo uns pauzinhos, dando uns jeitinhos, falando com quem de direito para que a vida seja mais fácil pra gente aqui e será!

Ainda saudade. Ainda amor.

Também amo você demais!

Moreninha

terça-feira, 22 de junho de 2010

Cartas para você XV

Thi,
Foi muito bom sonhar com você. Foi bom saber que você concorda com minhas decisões nem sempre bem pensadas, nem sempre prudentes, eu diria até que elas são puro instinto na maioria dos casos. Foi bom saber que você continua perto da gente. E mais incrível ainda a sensação nítida do cafuné. Nos últimos dias a saudade tem aparecido de maneira mais evidente. Talvez seja por conta da aproximação de julho. Havia mesmo muita coisa programada pra esse mês! Os planos agora são outros e não menos sonhados que aqueles que sonhamos juntos. E, se agora eu preciso tocar minha vida sozinha, nada mais justo do que realizar também meus sonhos individuais. Julho vem trazendo isso, a concretização de sonhos que eram meus. Os nossos, que sonhamos juntos, vão ficar pra sempre no futuro do pretérito, marcados pelo SE NÃO.
Ainda dói, sabe? Muito mais que eu gostaria. Em alguns dias é difícil manter a cabeça em pé, a espinha ereta e a respiração constante. Ainda bem que, na maioria dos dias, Thi, é quase fácil, quase não dói nada. É só uma coisinha ali dentro, que não me deixa esquecer que você realmente esteve na minha vida. As pessoas que ganhei, herdei, conquistei continuam sendo o melhor de tudo. Melhor que ver a burocracia destravar, melhor que ver o mundo entrando nos eixos, melhor que perceber a poeira baixar. As pessoas, Thi, são o que há de mais valioso. A gente já sabia disso, nera? A gente sempre soube. Tenho certeza de que você ficaria impressionado com a quantidade de amor que plantou aqui. Eu acho injusto que quem colha isso tudo seja eu. Você é muito mais querido que a gente imaginava, mozinho. Muito mais! Não sei como, não sei porquê, não sei; mas as pessoas transferiram para mim e para os pequenos o carinho que tinham por você. Como se fôssemos extensão do que você era. E eu tenho que confessar que adoro tanta generosidade, amizade, carinho e admiração gratuitos.
Tenho procurado desde o janeiro trágico manter as rotinas na nossa casa. Num primeiro momento, era para proteger as pequenos de um baque muito maior do que o fato de não ter mais você por perto. Hoje eu percebo que me serviu também para sentir que meu mundo inteiro não havia ruído. Mantermo-nos no nosso lar foi bom, foi saudável. As coisas foram se acomodando nesse período. Enfim, eu consegui tirar suas coisas do armário, consegui separar o que serviria de recordação e doar tudo que era seu. Ficamos com pouco e, aos poucos, vamos nos preparando para a vida nova que nos espera no apê novo. Lá, sim, será o recomeço. Eu sei o quanto você gostaria de vê-los aproveitando os espaços, o quanto aproveitaria aquela piscina e o campinho com eles. Acho até que você estará por lá.
Sabe, Thi, é incrível perceber agora que vai dando tudo certo, as coisas entrando nos eixos, a vida seguindo seu rumo... Não importa a avalanche que aconteceu na sua vida pessoal, o mundo não vai parar para esperar você se recuperar, o mundo não vai noticiar o seu drama no Jornal Nacional, as repartições públicas não vão dar prioridade porque você carrega uma dor absurda, as pessoas não serão mais atenciosas e delicadas com você por causa disso... O mundo simplesmente cobra que se siga em frente. E até isso é bom. Porque a gente acaba se descobrindo, vendo que se é mais forte, mais maduro, mais capaz do que se imaginou. Eu me descobri depois que você se foi. Eu percebi uma fortaleza que eu desconhecia e tomei as rédeas da minha vida nas mãos. As vezes cansa, sim, tomar conta de tudo, ser responsável por tudo; mas o saldo é positivo. Eu sei que você sabe disso.
Eu nem sei poque escrevo para você, nem sei ao certo se você me lê, nem sei se você está em algum lugar por aí. Sinto você ainda muito próximo, mas não sei se é você mesmo ou se sou eu querendo permanecer com a ilusão de que você me observa e me ajuda e me guia e me instrui e me protege e me guarda e me faz cafuné até eu dormir. Eu não sei de nada dessas coisas místicas. Eu não quero pensar nisso agora. Inegável é só este amor que persiste e essa saudade que teima em não ir embora. Ouvi essa música e, mais um futuro do pretérito, cantaria:
"Onde você estiver,
Não se equeça de mim
Com quem você estiver não se esqueça de mim
Eu quero apenas estar no seu pensamento
Por um momento pensar que você pensa em mim
Onde você estiver, não se esqueça de mim
Mesmo que exista outro amor que te faça feliz
Se resta, em sua lembrança, um pouco do muito que eu te quis
Onde você estiver, não se esqueça de mim
Eu quero apenas estar no seu pensamento
Por um momento pensar que você pensa em mim
Onde você estiver, não se esqueça de mim
Quando você se lembrar não se esqueça que eu
Que eu não consigo apagar você da minha vida
Onde você estiver não se esqueça de mim
"
Amo você demais!
Moreninha

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segunda-feira, 17 de maio de 2010

SURPRESA

Quando eu acho que todas as surpresas boas que poderiam me acontecer no meio do caos, já haviam aparecido, surge outra coisa ainda mais incrível.

Thi, você era realmente a pessoa mais especial que eu conheci! Obrigada, meu amor, por me deixar ser parte de você aqui e por me dar as duas criaturinhas lindas que você deixou.

Amo você demais!

Moreninha

domingo, 16 de maio de 2010

Cartas para você XIV

Thi,

Eu voltei lá no lugar onde as sombras são compridas, no lugar onde o céu de fim de tarde é tão bonito, no lugar onde a grama é verdinha e há centenas de flores... Eu voltei lá porque eu não estarei aqui e eu não vou querer pensar nisso no fim de semana que vem. Eu voltei lá como que para estar com você de novo, Thi, "comemorando" antecipadamente nosso "aniversário" de casamento. Porque o fato de ter tido você em minha vida é, por si só, um motivo.

Eu sentei de novo na grama e dessa vez havia seu nome na lápide, seu nome completo, a data do seu nascimento e aquela data do janeiro trágico. Estava lá na pedra branca, com todas as letras, o nome que reverbera em meus pensamentos há mais de nove anos, o nome que faz meu coração palpitar e que me fez perder noites de sono, e eu derramei muitas lágrimas. Eu chorei porque ainda dói, eu chorei porque ainda parece mentira, eu chorei porque é injusto demais, eu chorei porque a gente tinha muito o que fazer ao longo desse ano e agora eu reprogramo a vida de três pessoas sozinha.

Eu me dobrei de dor e deixei minhas lágrimas molharem seu túmulo, deixei minhas lágrimas secarem minha alma dessa dor que teima em doer tanto e incansavelmente dentro de mim. E elas caíram aos borbotões porque esse maio tem sido pesado, doloroso, sofrido demais para mim.

Pela primeira vez na vida eu passarei um aniversário longe dos meus e longe de mim, Thi. Eu não quero estar aqui, eu não quero saber do peso, da dor, da tragédia, da opinião alheia... Eu quero, pelo menos nesse dia, esquecer desse passado e esquecer que eu perdi meu rumo, perdi o lugar para onde eu ia, perdi aquele com quem eu ia... Quero esquecer que minha vida está em transição, em reorganização, readaptação... Quero esquecer por um dia só dos problemas, das pendências, das inconclusões... Quero ser só a Marcele, perdida numa megalópole sulamericana.

Eu vou para lá, Thi, com essa intenção. Eu vou para lá para abstrair e fugir também, eu assumo. Porque eu tenho encarado tudo de frente e com a cabeça erguida, mas, em alguns momentos, me esconder parece ser a melhor opção. Eu vou, fugindo, me escondendo, covardemente ou prudentemente, eu não sei. Mas eu vou.

Acho que vai ser bom para mim. Acho que voltarei melhor e mais forte para retomar a luta, com mais força ainda para nadar até a praia, com mais força ainda para correr da borda do poço, com mais força ainda para carregar os dois pequenos nas costas, com mais força ainda para ser feliz.

Eu amo você demais!

Moreninha

domingo, 9 de maio de 2010

Cartas para você XIII

Thi,

Nós fomos ao Rio, Matheus e eu, numa viagem que você quis 429 vezes fazer com a família toda. Sim, a viagem foi de encontro e reencontro com gente querida, gente da gente, gente que nos quer bem. A viagem foi de emoção e carinho. Fomos tratados como reis, fomos mimados e cuidados. Fomos queridos, abraçados e beijados. Fomos felizes.

Mas voltar para cá nesse dia das mães foi me deparar de novo com essa ausência dolorida demais. E eu fiquei com um buraco enorme no peito, um vazio, uma coisa revirando na boca do estômago, lágrimas muitas e incontidas, saudade enorme latejando e dor. Eu voltei a me perguntar porquê. Eu voltei a querer entender e desfazer esse grandioso mal entendido. Eu voltei a chorar por você, a querer você comigo de novo, a desejar só mais um pouquinho de você na minha vida. E, ah, Thi, eu não posso! Isso dói...

Eu não me questionava mais e olhava pra frente. Eu não ficava mais procurando justiça, equidade, razão; eu só focava no presente e saía feito barata tonta esbarrando em tudo. Eu olhava uma coisa de cada vez, sem me distanciar muito para não perder o foco. Mas agora eu vejo que essa sua falta ainda vai pesar tanto...

Um dos seus me disse que abraçar a gente é abraçar você, porque sente tanto de você na gente. Mas sabe, eu não queria representá-lo, eu queria tê-lo. Eu queria ter ido com você pra lá e a gente teria se divertido ainda mais, a família toda. Você riria das arrumações da duplinha Matheus-Gabriel, você lembraria milhares de histórias com seu Tio Wanderley, você conheceria minha parte da família que mora no RJ, você levaria todas as fofocas de Fortaleza para contar para Vivian na "mansão" carioca dela... Você faria essa viagem com a gente e teríamos um DIA DAS MÃES lindo, Thi.

Eu sei que o pensamento não deve ser sempre permeado por essas partículas condicionais, pelos verbos no futuro do pretérito. Tenho que voltar a conjugar tudo no presente, eu sei. Mas é que, vezenquando, destampa algo em mim e sai tudo como erupção. E, enquanto eu me desmanchava no carro, tocou essa música mais que apropriada, que eu colo aqui com tradução porque eu quero que todo mundo entenda, porque ela é expressão do que eu sinto e do que eu queria dizer a você.

There You'll Be

When I think back on these times
And the dreams we left behind
I’ll be glad ‘cause I was blessed to get
To have you in my life

When I look back on these days
I’ll look and see your face
You were right there for me

CHORUS:
In my dreams I’ll always see
Your soul above the sky
In my heart there’ll always be
A place for you for all my life
I’ll keep a part of you with me
And everywhere I am there you’ll be
Everywhere I am there you’ll be

Well you showed me how it feels
To feel the sky within my reach
And I always will remember all
The strength you gave to me

Your love made me make it through
Ohh I owe so much to you
You were right there for me

CHORUS:
In my dreams I’ll always see
Your soul above the sky
In my heart there’ll always be
A place for you for all my life
I’ll keep a part of you with me
And everywhere I am there you’ll be

‘Cause I always saw in you my light, my strength
And I want to thank you now for all the ways
You were right there for me
You were right there for me, always

CHORUS:
In my dreams I’ll always see
Your soul above the sky
In my heart there’ll always be
A place for you for all my life
I’ll keep a part of you with me
And everywhere I am there you’ll be
Everywhere I am there you’ll be
And everywhere I am there you’ll be

There you’ll be"

Você Estará Lá

Quando lembro desses momentos
E dos sonhos que deixamos pra trás
Eu ficarei feliz pois fui abençoada
Por tê-lo em minha vida

Quando lembro desses dias
Olharei e verei seu rosto
Você estava lá por mim

CHORUS:
Em meus sonhos, eu sempre verei
sua alma sobre o céu
Em meu coração sempre haverá um lugar pra você
Por toda a minha vida
guardarei uma parte de você comigo
E onde quer que eu esteja, você estará lá
onde quer que eu esteja, você estará lá

Bem, você me mostrou como sentir
Sentir que o céu estava ao meu alcance
E eu sempre lembrarei de toda
a força que você me deu

Seu amor me fez enfrentar qualquer obstáculo
Oh, eu devo tanto a você
Você estava lá por mim

CHORUS:
Em meus sonhos, eu sempre verei
sua alma sobre o céu
Em meu coração sempre haverá um lugar pra você
Por toda a minha vida
guardarei uma parte de você comigo
E onde quer que eu esteja, você estará lá

Porque sempre vi em você minha luz, minha força,
E quero agradecer-lhe agora
Por todas as maneiras que você esteve comigo
Você estava lá por mim, sempre

CHORUS:
Em meus sonhos, eu sempre o verei
planar sobre o céu
Em meu coração sempre haverá um lugar pra você
Por toda a minha vida
guardarei uma parte de você comigo
E onde quer que eu esteja, você estará lá
onde quer que eu esteja, você estará lá
E onde quer que eu esteja, você estará lá

Você estará lá


EU AMO VOCÊ DEMAIS, Thi! DEMAIS!!!

Moreninha

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Cartas para você XII

Thi,

E lá se vão três meses. Eu me assusto ao ver que o tempo passa rápido mesmo. Eu me perco na minha rotina, eu me perco na confusão estabelecida e na minha própria vida. Eu me perco, Thi... O que me mantém em pé, com olhos no lá longe, no muito depois disso, são os dois pequenos e uma vontade latejante de sentir aquela felicidade de novo.

Eu tenho saído. Refeito (Oi, Gloria?) e feito amizades. Bebido vodka e outras coisitas mais. Dançado até o cabelo grudar na nuca. Eu sei o que você diria me vendo desse jeito: levemente fora de mim por conta do torpor alcoolico, despida de algumas das minhas amarras sociais, e dançando até o cabelo grudar na nuca... Eu bem sei o que o seu ciúme diria! Mas eu preciso viver; eu preciso disso como para anestesiar o que lateja; como que para esquecer o que não se esquece; como que para aliviar, ainda que apenas por algumas horas, o que não sai de dentro de mim. Eu preciso disso para ver o tempo passar mais rápido, para dormir pesado e acordar tarde. Eu preciso disso. Sim, sempre vai ter quem pense que é cedo, sempre vai ter quem pense que é inapropriado, inadequado, errado, feio...  Mas eu, só eu sei as correntes que arrasto, só eu sei da dor que grita no meu peito, só eu sei do peso sobrehumano que eu carrego nos ombros. Então, sou eu mesmo que tenho que encontrar minhas saídas e meus escapes.

Os nossos pequenos cresceram tanto nesses três meses, Thi. Thomás tá quase falando e você se divertiria muito em vê-lo dizer: "neném ábua", ao pedir a mamadeira de água. Matheus tá ainda mais falante, não para nunca de falar, reconta histórias dos desenhos animados a que assiste como se fossem reais e eu me pego rindo da eloquência do nosso grandão. Eles não terem sua presença, seu carinho, seu contato, sua voz no desenvolver, no crescer e na vida, sem dúvida alguma, é o que mais me dói. Mas eu vou tentando fazê-los felizes, meu amor. No limite máximo possível que não os transforme em seres mimados, irresponsáveis e inconsequentes. Mas num é isso mesmo que os pais devem fazer? Criar pessoas equilibradas, fortes e felizes a despeito de todas as adversidades da vida (Obrigada, mãe!).

É triste estar sem você. Todos os dias eu sinto o peso de você não existir mais nesse mundo. To-dos-os-dias! Mas eu vou buscando formas de preencher o espaço vazio, o vácuo, o nada que ficou no meu mundo e dentro de mim. Eu vou tentando como eu posso, como dá, no meu limite... Se antes eu já achava que tateava no escuro, hoje eu vejo as luzes que brilham lá fora do poço. Eu vejo a luz do sol, meu amor! Eu vejo a saída... Eu sei que é questão de tempo para estar lá de novo. E o tempo é um senhor tão bonito...

Subindo degraus, Thi! Subindo...

Também amo você demais!

Moreninha


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Marcello,

Assim que eu cheguei em casa, naquele 20/02/2006, eu liguei para ele e contei que estava grávida. O que eu ouvi foi um "Tô indo praí!". Nenhum palavrão, nenhuma surpresa, nenhum desespero... Foi bem como eu contei aqui, no post de 05/02/2010, a razão que a gente precisava para ficar junto de vez.

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Meus queridos,

Últimas 24h para comprar pontos na rifa! MUITO OBRIGADA MESMO a todo mundo que está participando!


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terça-feira, 6 de abril de 2010

Cartas para você XI

Thi,

Em alguns dias a sensação de naufrágio vem, com força, me pondo para baixo, me empurrando alguns degraus abaixo na escada que me tira do fundo do poço. Às vezes, as lágrimas saem descontroladamente e rever as fotos da nossa história feliz é enfiar agulhas na carne viva. E eu me entrego ao sofrimento, eu me entrego às lembranças, eu me entrego à dor de ter perdido você. Eu giro dentro de mim à procura de respostas que sei que não vou encontrar, à procura de um significado que não me pertence, à procura de razões, de justificativas, de saídas... Eu me perco dentro da minha própria dor. Eu afundo, eu me afogo, eu me entorpeço. Eu saio de mim, eu deito no chão, eu me abandono, eu devaneio...

Mas uma hora eu volto, seco as lágrimas, lavo o rosto, escondo as olheiras e os inchaços, calço o salto e saio. Porque é preciso viver. Porque é preciso seguir. Porque é preciso encontrar motivos, ainda que mínimos: um sorriso arrancado, um abraço apertado, um telefonema inesperado, um coração estalando... É preciso, meu amor, e eu vou. Carrego comigo uma tristeza sem tamanho, dois pequenos seres humanos e uma vontade, que se agita a cada instante, de ser feliz.

Herdei seus sonhos, seus ideais, seus amigos, sua resolutividade, sua segurança e a certeza de que tudo vai dar certo. Herdei muito mais do que supus. Tive a felicidade de ter você na minha vida, a felicidade de termos construído uma família linda, a felicidade de amar e de ser amada intensamente, de viver uma vida de conto de fadas... Eu tive tudo, meu amor, por causa de você!

Amo você demais também!
Muito obrigada!

Moreninha


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segunda-feira, 29 de março de 2010

Cartas para você X

Thi,

O fim de semana sempre é mais difícil quando os pequenos não estão por perto. Esse foi assim, Lalá de folga e prova de concurso no sábado e no domingo. Não dava para ficar sozinha com eles. Então, a vovó Paula cuidou dos nossos pequenos para mim. O silêncio na casa, a calmaria, a falta do corre-corre da semana, a sua ausência, fica tudo imenso no nosso lar sem os pequenos. Aí dói demais, bebeim.

Eu nem sei como eu consegui ter ânimo para fazer as provas. A gente bem sabe o quanto eu tava fora desse círculo concurseiro. Mas eu fui, como se algo soprasse no meu ouvido que eu deveria ir. Eu fui me arrastando, morrendo de sono e de preguiça, cansada antes mesmo de começar, mas eu fui. Fiquei pensando na sua alegria, no seu ânimo, na suas ligações para desejar boa prova e depois para perguntar como foi. No final do domingo, com a cabeça latejando e o braço dolorido, eu desabei num choro de saudade dessas ligações e de você.

Entrei no carro e fui bater no cemitério para estar um pouco perto de você. Eu queria dizer que amo você também, eu queria dizer que a prova foi terrível, que eu não sabia nada de nada, que eu deixei uma questão totalmente em branco porque não fazia a menor ideia da resposta, que eu queria não precisar disso, não me preocupar com isso, que eu queria fazer uma viagem com você só pra esquecer esses problemas todos que eu vivo hoje. Eu queria dizer coisas que eu só diria a você, que eu só dividiria com você e que só você entenderia, me abraçando apertado ao final, dando um beijo na minha testa e enfiando a mão de chimpanzé no meu cabelo, num cafuné que só você sabia fazer. Eu chorei tanto, meu amor, ajoelhada na grama ainda molhada das chuvas que têm caído por aqui. Eu chorei como no primeiro dia, me dobrando, me partindo ao meio... Eu chorei porque eu queria ter você aqui.

Eu queria ter você comigo só mais um pouquinho, Thi... Só para dizer tudo que você cansou de ouvir. Só para repetir o quanto você foi importante, o quanto você mudou minha vida, o quanto você me ensinou sobre tudo. Queria ter você aqui para gravar em detalhes as suas brincadeiras com nossos pequenos, para repetir para eles depois, para que eles não sintam tanto sua falta. Queria ter você aqui só para dar um abraço apertado e dormir no ombro, com a perna sobre a sua perna. Eu queria muito ter você aqui só para ligar e dividir as minhas coisas, Thi... Eu queria muito ter você aqui!

Também amo você demais!

Moreninha

"Remeber those walls I built
Well, baby, they're tumbling down
And they don't even put up a fight
They didn't even make up a sound
I found a way to let you in
But I never really had a doubt
Standind in the light of your halo
I got my angel now
It's like I've been awakened
every rule I had you breaking
It's the risk I'm takin
I ain't never gonna shut you out
Everywhere I'm looking now
I'm surrounded by your embrace
Baby, I can see your halo
You know you're my saving grace
You're everything I need and more
It's written all over your face
baby, I can feel your halo
Pray it won't fade away
Hit me like a ray of sun
Burning trough my darkest night
You're the only one that I want
Think I'm addicted to your light
I swored I'd never fall again
But this don't even feel like falling
Gravity can't forget
To pull me back to the ground again"
(Halo - Beyoncé)





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domingo, 21 de março de 2010

Cartas para você IX

Thi,

A perspectiva da vida inteira sem você é muito dura. Mas esse final de semana, em particular, foi uma prova difícilima de passar. Sexta foi o casamento do Heitor, Thi. Sua turma toda, muitos dos seus melhores amigos, uma festa que também seria sua, uma daquelas em que chegaríamos de manhã em casa, você daria trabalho até para sair do carro de tão bêbado... Estar lá sem você era uma tortura, era doloroso, era à flor da pele, era à queima roupa. Assistir à cerimônia me doeu por sentir também a frustração de não ter dado tempo para a nossa. A sua ausência foi uma presença gigantesca, que gritava e se debatia, durante a festa toda.

E eu bebi, meu amor. Não tinha como ser diferente. Eu bebi para me encher, para esquecer, para conseguir dançar, para sair da mesa... Eu bebi e brindei com seus amigos à você, levantando as taças para o alto. Eu bebi porque era o que eu faria com você aqui. Eu bebi e, em determinado momento, o Rochinha veio me dizer que sentia muito e que não sabia como demonstrar e, daí em diante, eu fiquei com um lenço nas mãos, porque as lágrimas vieram aos borbotões e ajudaram a saudade se transformar em embriaguez. O Saboia disse que você fazia falta demais naquele momento e a gente não conseguiu mais dizer nada depois disso. Eram lágrimas de saudade, meu amor.

Não havia ninguém ali, no nosso grupinho, que não estivesse lembrando de você, da sua risada gostosa, do suor que com certeza encharcaria sua roupa e me tiraria a maquiagem, da sua alegria ao dançar as músicas de axé e forró, da sua simpatia, do seu carinho... Ah, como me doeu não ter você! Dói demais! E nós, eu e os pequenos, somos agora herdeiros de uma multidão de amor que, antes, era dedicado a você. Eu vejo a delicadeza das pessoas para com a gente. Eu vejo o amor transformado. Eu sinto, Thi.

Batemos uma foto dos "Thiagos", eu representei você. Porque não dá para excluir o Castro, não dá para esquecer o Gancho, não dá para estar naquela festa sem vir tudo isso à mente. Aquilo ali era tudo o que você mais adorava fazer, as pessoas que você amava. Certeza que você justificaria seu porre com um "Mas era o único fim de semana do Saboia e da Dea aqui e ainda era o casamento do Heitor, Cele", eu quase consigo ouvir sua voz. Certeza de que a gente acordaria no dia seguinte, de tarde, sem força para nada. Certeza de que comentaríamos a festa à exaustão. Certeza!

Você esteve lá, Thi?

No sábado, fez dois meses da sua ida. E a dor da noite anterior ainda doía de maneira mais branda, sem a influência do alcool. Outro casamento, outras pessoas. Agora os amigos eram meus. Agora a festa era minha. Foi mais fácil. Eu não precisei me afogar na bebida. Eu descobri, bebeim, que através disso aqui eu tenho feito pessoas refletirem sobre a vida. A escrita tem aproximado um mundo de gente de mim. Na festa do Braulio, eu conheci uma pessoa que se diz minha fã e que, de longe, tá torcendo por nós três. Num é lindo, isso? Num é para deixar a gente envaidecido e quase feliz?

Para terminar, eu sonhei com você essa manhã. Você tinha sofrido o acidente, você tinha ficado internado, mas já estava bem, em casa. Nós dois conversávamos sentados no chão do quarto dos pequenos. Felizes, sorridentes e cúmplices como sempre. Eu perguntava como tinha sido, queria saber se você estava distraído, e você me respondia que estava muito rápido mesmo, que não viu o outro carrro e que não se lembrava de nada. Só isso, bebeim. Aos poucos as respostas para todas as minhas dúvidas vão aparecendo.

Eu amo você demais também!

Moreninha

PS: Nas nossas reconciliações, eu sempre cantava esa música. Agora, ela tá na trilha sonora de alguma novela:

"Só você pra dar à minha vida direção,
o tom, a cor,
me fez voltar a ver a luz.
Estrela no deserto a me guiar,
farol no mar da incerteza.
Um dia, um adeus,
eu indo embora.
Quanta loucura
por tão pouca aventura!
Agora entendo:
andei perdido.
O que é que eu faço
para você me perdoar?
Que bom seria
se eu pudesse te abraçar,
beijar, sentir, como a primeira vez.
Te dar o carinho
que você merece ter.
Eu sei te amar
como ninguém mais.
Ninguém mais,
como ninguém jamais te amou.
Ninguém jamais te amou
como eu"


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A rifa continua firme e forte. Quem quiser comprar ou vender pontos, só mandar email que eu explico.



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terça-feira, 16 de março de 2010

Cartas para você VIII

Thi,

Ontem eu coloquei o Matheus para dormir deitada no ombro dele. Ele ficou mexendo nos meus cabelos, exatamente como você fazia quando o ombro-travesseiro era o seu. As lágrimas vieram inevitavelmente. Saudade do encaixe do meu corpo no seu, do seu braço ao redor de mim (nem a sensação eu tenho mais), saudade do seu jeitinho de beijar cheirando, da perna sob a minha perna, do cafuné até que eu dormisse. Saudade das noites acompanhadas, da chacota pelas lágrimas ao final da novela, do jeito nosso de ser o que somos. Saudade tão grande de você, mozinho!

Mas, sabe, Thi, eu descobri que ser feliz não tem nada a ver com conquista, com dinheiro, com qualquer fato externo à gente mesmo. Ser feliz é de dentro para fora e é aqui em mim que eu tenho que colocar o pozinho cicatrizante da manicure. É aqui dentro que eu tenho que fazer parar a dor. Eu sei que eu vou conseguir, mas é que às vezes vem algo arrancar a casquinha que estava a se formar.

Eu sei ser feliz, sem culpa, sem medo, leve. Eu sei ser feliz com problemas e dívidas. Eu sei ser feliz com um turbilhão na cabeça. Eu sei que sei. Eu vou conseguir sem você também, meu amor. Nós vamos: eu e os pequenos. Você fez tanta gente feliz, tirou tanta gente do escuro de si, ajudou tanta gente a reencontrar seu lugar no mundo, seu rumo, seu norte. Você foi tão especial, bebeim, tão querido, tão amado, tão presente. Eu só posso ter aprendido com você a olhar para frente com olhos de esperança.

Não sei onde nem se você está, mas sei que, de alguma forma, você persiste aqui ou noutro lugar. Você continua a existir por que eu continuo a amar você.

Com convicção: Amo você pra sempre!

Moreninha

Vocação para felicidade
Carlos Drummond de Andrade

"Não serei o poeta de um mundo caduco.
Não escreverei versos chorosos, cantando tristezas infinitas, amores impossíveis, saudades dolorosas, paixões trágicas e não correspondidas.

Tenho a vocação para a felicidade.
Ser feliz não me traz sentimento de culpa.
Não preciso da tristeza para justificar a inutilidade da vida.
Não preciso morrer e ir ao céu para encontrar a felicidade.
Quero-a e tenho-a neste espaço terreno do aqui e do agora.

A felicidade, tal e qual o amor, está dentro de mim
E transborda em ternuras, em melodias, em carinhos, em alegrias, em cantos e encantos
.

Sou feliz e não preciso me justificar.
Sorrio sem ver passarinho verde.
Não tenho medo de ser feliz.

Faço minha estrela brilhar.
Sem receio dos encontros, desencontros, encantos e desencantos que o amor me diz.

Contrariedades? Eu as tenho.
E quem não as tem na vida secular ?
Escassez de dinheiro? Nem é bom falar
Amores não correspondidos? Separações?
Rejeições? Saudades incuráveis?
Carinhos reprimidos, ternuras guardadas, sem a contra parte do outro? Eu tenho aos montões.
Sou a rainha das perdas, necessárias ao meu crescimento
.

Contudo quem não soube a sombra não sabe a luz.
E num livro de matemática existencial juntei todos esses problemas insolúveis, com as respostas nas últimas páginas.
Mas pra que me debruçar
sobre eles, procurando a solução
se a própria vida me conduz
a resposta final?

Sem medo de ser feliz vou por aqui e por ali
por onde os caminhos, as trilhas,
Os atalhos me levarem, traçando meu rumo.
Às vezes com alguma tristeza,
mas quem disse que felicidade
é o contrário de tristeza?
Tristeza é só uma momentânea falta de alegria
!

É, amigo, amanhã é sempre um novo dia
E quando a infelicidade passar por aqui, minhas malas estarão prontas para eu ir por ali".



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