Olha, eu preciso que você acredite, você aí, que tá triste, abatido, deprimido, eu preciso que você acredite porque eu falo isso com conhecimento de causa e é verdade: VAI PASSAR! Seja lá o que foi que fizeram com você, que peça a vida pregou, que rasteira, que puxada de tapete, que porta na cara, que motivo de desesperança você tenha, o que levou a perder a fé, seja o que for que faça seu peito latejar numa dor que parece não ter fim, acredite: vai passar! A gente não sabe em que momento exato isso acontece, a gente não consegue antever nem sentir a transformação que vai acalmando tudo aos pouquinhos. A gente não sente a dor se esvaindo, desaguando para fora da gente. E tem até uns casos de quem se acostuma ao sofrimento de maneira tal, que mesmo em face de uma possibilidade de felicidade, se acovarda e se esconde, permanecendo no escuro de si justamente porque é lugar quente e conhecido. Mas até para estes casos, dos que se acomodaram na dor, eu afirmo: Vai passar!
Um dia qualquer, numa quarta-feira comum, no meio do trânsito infernal da hora do rush, sem querer, você se dá conta de que aquele quentinho no coração voltou, de que há uma paz ao seu redor, e de que há um sorriso tímido nos lábios, daqueles que tentam esconder a tonelada de felicidade que inunda o que há por dentro. Assim, sem que você se dê conta, a alegria de viver volta como ondas de uma maré enchendo, cada vez mais perto da sua costa, até que exploda nas pedras de contenção e inunde toda sua rua. A enchente da maré é inescapável e a força das ondas também e elas sempre nos alcançam e não é possível saber de antemão o tamanho do impacto e do alcance. O que se sabe, por certo, é que vai nos alcançar, nos acertar e nos derrubar e qualquer resistência, fuga, medo, parede de contenção, muralha, escudo, arma, não poderá impedir, nem conter, nem evitar.
O tempo é aliado da felicidade e juntos eles trazem as respostas para todas as desilusões que sofremos. As coisas se encaixam em algum momento e, do nada, num dia qualquer, a gente tem essa visão. Não que se deixe de sofrer pelo que se perdeu, pelo que se foi, pelo que não se alcançou e que se queria muito. Não que se esqueça, não que se apague a nostalgia do que foi embora para sempre. Não que não se lembre dos sonhos frustrados e das expectativas de tantos momentos felizes que foram construídos. Todavia, chega uma hora em que a gente olha para as teses apresentadas e entende a conclusão. A gente observa os pressuposto e vê um argumento lógico. A gente entende, não por resignação, mas por consciência de que as coisas surpreendentemente se assentaram.
Da mesma forma que fomos surpreendidos por peças traiçoeiras, o somos também por doces surpresas. E o coração da gente é bicho besta para surpresas agradáveis. Ele amolece, ele enternece, ele derrete. E, mesmo que seja um deslumbramento depois de tanto tempo no escuro, a gente se pega surpreendido admirando a lua e o céu, a gentileza das pessoas, um arco-íris, uma gargalhada, um bom filme, um café quente com pão de queijo, um queijo coalho com doce de leite recheando uma tapioca, uma mão que segura a mão, uma palavra de carinho numa manhã chuvosa, um abraço apertado de quem se quer bem. E, diante desses acontecimentos tolos, corriqueiros, a gente sorri profundo porque é o coração que está sorrindo também.
Haverá ainda adaptações, dissabores, vida ordenando maturidade, cobrança das responsabilidades assumidas e medo. Mas saiba - você pode até não acreditar nesse momento, pela dor que embaça a vista, pelo coração partido, pelo que impede o ar de entrar nos pulmões - que essa transformação ocorre e é uma delícia sentir. E quando essa paz, que só a felicidade é capaz de provocar, se hospedar no seu peito, você entenderá que a gente tira de cada fundo do poço nossas maiores lições. Somos, sim, capazes de sobreviver a todas as devastações e cataclismas e piores momentos. Somos, sim, capazes de sobreviver quando nossos piores pesadelos, maiores medos se tornam reais e se instalam na nossa vida.
Diante da sua superação inequívoca, e diante do calor que emana no seu peito, diante do sorriso estampado nos lábios, uns poucos acharão você leviano, uns outros sentirão felicidade ao assistir a sua, uns outros afirmaram que é falsa e condicionada a drogas pesadas e de uso controlado, outros dirão que utopia, acomodação, desprendimento. É a cômoda e fácil opção dos que não entendem direito como se pode ser capaz de sentir de novo depois de sofrer tanto.
Uma vez vivida toda essa transição, uma vez superado o pior momento da vida, você saberá que ser feliz exige coragem. Coragem para se jogar, para sentir, para sonhar, para tentar de novo mesmo que o mundo pareça um não. Coragem para partir para guerra, enfrentar a luta, preparar a guarda, abandonar o medo, o preconceito, a ansiedade, a expectativa pela aceitação dos outros. É preciso coragem para meter as caras, arriscar e, então, tudo acontecerá baixinho dentro de você. Abandone os métodos aprendidos em anos de vida normal, abandone as teorias, os planos, os sonhos de antes, abandone a insegurança, a perspectiva da decepção. É preciso ter CORAGEM! Quando chegar a hora de guerrear pelo que manda o coração, seja forte, prepare todas suas reservas, e lute. Porque a gente não tem garantia de nada, não tem contrato de permanência, não tem prazo, não tem cronograma predeterminado, mas a gente sabe que o objetivo final é tão-somente ser feliz.
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quarta-feira, 11 de maio de 2011
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Pra já
''Não é preciso agendar, entrar em fila, contar com a sorte, acordar cedo para pegar senha: a possibilidade de recomeço está disponível o tempo todo, na maior parte dos casos. Não tem mistério, ela vem embrulhada com o papel bonito de cada instante novo, essa página em branco que olha pra gente sem ter a mínima ideia do que escolheremos escrever nas suas linhas.
O que é preciso mesmo é coragem para abrir o presente."(Ana Jacomo)
Eu bem sei o que é achar que não há mais alternativas, sei o que é viver sem ter expectativa alguma, um dia de cada vez, suportando só por hoje, inspirando e expirando e achando que o peso e a dor são demais, são para além da força que se tem. Eu bem sei como é achar que a vida perdeu o encantamento, a graça, a cor. Eu bem sei o que é deixar de viver para apenas sobreviver, sem ânimo e sem coragem. E é justamente por isso que eu posso dizer que a possibilidade de recomeço, assim, sem mais nem menos, nos é dada diariamente. Sem contraprestação alguma, sem cobrança, sem exigências. Ela vem de graça, diuturnamente, num sorriso de criança, numa mão estendida, num abraço amigo, num ombro para deitar a cabeça... Quando se está no centro da dor (e a gente fica mesmo dentro dela, porque ela não cabe na gente), a vista embotada impede que esses nuances sejam vistos, mas eles permanecem lá, nos melhores e nos piores momentos. Todos os dias, a vida nos dá lições de ser feliz, nosso maior erro é condicionar a felicidade para um SE ou um QUANDO. E, assim, acaba-se por adiar o que pode ser vivido agora. Não se sabe se SE nem se QUANDO, a gente só tem por certo o que é, o que existe, e por isso mesmo a felicidade é pra ser conjugada e vivida exclusivamente no presente do indicativo. Rabisque a folha de papel em branco que lhe é dada a cada dia, ao despertar. Faça desenhos coloridos e muitos sorrisos. Aproveite cada fresta de sol e cada gota de chuva. A gente não sabe mesmo quanto tempo tem e é exatamente por isso que devemos encarar cada dia como uma oportunidade de recomeço e de felicidade, ainda que não seja exatamente como planejamos, ainda que não esteja tudo em seus devidos lugares. Sejamos francos: quase nunca é exatamente como foi planejado, quase nunca tudo está no lugar. Então, por que não? Ser feliz é pra já!
terça-feira, 5 de abril de 2011
"It's like when a storm is over. Is it happiness? Or is it just a relief?"
Eu vi essa frase ontem lá no meio daquelas atualizações do Facebook e fiquei pensando, pensando, pensando... A verdade é que não dá pra saber. A sensação de calmaria e de alívio, a alegria com a sobrevivência, o reconhecimento da força, o mérito pela superação, a experiência, tudo isso vem como avalanche com o fim da tempestade. É certo que a visão fica embotada, a razão fica meio esquecida num canto qualquer e o principal guia é mesmo tão somente o sexto sentido, que impele a gente a seguir sem ter esperança nem perspectiva alguma.
É fato. Há um alívio quando se sobrevive. A gente se dá conta de que é capaz de ir muito depois do final do além, como diria uma música do Moska. A gente entende que mesmo doendo tudo, mesmo ofegante, mesmo com lágrimas nos olhos, mesmo com um peso sobrehumano nas costas, mesmo ferido em cortes e talhos hemorrágicos, mesmo sem querer, mesmo com dúvidas e medo e descrente, mesmo sem saber porquê, mesmo sem entender o mundo e achar que estamos todos perdidos no caos, a gente consegue. Dificílimo, mas quem sobrevive, sai muito maior de tudo isso.
Aí, vem a percepção da simplicidade da felicidade. As duas coisas não rimam por acaso. É preciso muito pouco mesmo. Menos, muito menos do que você imagina. É preciso só saúde e disposição para enxergar as coisas como elas são; não gastar tempo e energia com o que não vale a pena e está fadado a dar errado. A gente aprende a pesar direito o valor de cada coisa, a colocar cada problema, queixa, intempérie em seu devido lugar e seguir sem que nada de pequeno abale o viver. Não é possível se livrar das frustrações, das perdas, das lágrimas, das dores. É do viver sentir isso tudo. Mas a gente entende enfim que a vida é muito maior. Aí, ah e aí, você descobre que pode ser feliz sim, mesmo tendo sobrevivido ao pior de tudo. E aí, você é.
É fato. Há um alívio quando se sobrevive. A gente se dá conta de que é capaz de ir muito depois do final do além, como diria uma música do Moska. A gente entende que mesmo doendo tudo, mesmo ofegante, mesmo com lágrimas nos olhos, mesmo com um peso sobrehumano nas costas, mesmo ferido em cortes e talhos hemorrágicos, mesmo sem querer, mesmo com dúvidas e medo e descrente, mesmo sem saber porquê, mesmo sem entender o mundo e achar que estamos todos perdidos no caos, a gente consegue. Dificílimo, mas quem sobrevive, sai muito maior de tudo isso.
Aí, vem a percepção da simplicidade da felicidade. As duas coisas não rimam por acaso. É preciso muito pouco mesmo. Menos, muito menos do que você imagina. É preciso só saúde e disposição para enxergar as coisas como elas são; não gastar tempo e energia com o que não vale a pena e está fadado a dar errado. A gente aprende a pesar direito o valor de cada coisa, a colocar cada problema, queixa, intempérie em seu devido lugar e seguir sem que nada de pequeno abale o viver. Não é possível se livrar das frustrações, das perdas, das lágrimas, das dores. É do viver sentir isso tudo. Mas a gente entende enfim que a vida é muito maior. Aí, ah e aí, você descobre que pode ser feliz sim, mesmo tendo sobrevivido ao pior de tudo. E aí, você é.
quarta-feira, 30 de março de 2011
A nóia
Tem uma série de ditados na cultura popular para falar desse sentimento, só lembro agora do "Cachorro mordido por cobra tem medo até de salsicha". Fato é que, depois do janeiro trágico, alguns traumas foram acrescentados à minha psique e à dos meninos. Por exemplo, Matheus não pode ouvir falar em batida de carro que pergunta logo quem morreu. E eu desenvolvi um certo pânico à falta de notícias. Se eu tento ligar para alguém próximo e o celular chama e ninguém atende, eu fico logo com uma pulga atrás da orelha. Se eu mando uma mensagem em seguida e continuo sem resposta, pronto, revira tudo por dentro, o coração começa a perder o ritmo, aquele frio congelante na barriga... Começo a ligar para terceiros para saber. Começo a pensar naquele celular que tocava, tocava, tocava... Começo a lembrar das inúmeras ligações minhas, não atendidas, que eu vi no visor do celular dele muitas horas depois. Voltam inevitavelmente aquelas sensações todas. E nem adianta dizer que faz só duas, três horas que eu encontrei/falei com a pessoa. Lá no janeiro trágico, eu tinha falado pouco mais de meia hora antes... Nem adianta dizer o tradicional "notícia ruim chega logo", porque eu não quero ter mais notícia ruim nenhuma! Não é nada racional, eu sei. Não faz o menor sentido. Eu também sei disso. Mas eu não consigo evitar. Fica passando na minha cabeça uma nova tragédia e tudo em mim sai do lugar, como se a gravidade sumisse e o de dentro, de repente, começasse a chacoalhar sem a força da pressão atmosférica. A tensão que esses pequenos sustos me causam pode levar algumas horas para ser dissolvida. E eu fico lá, com esse chilique panicoso a me torturar.
segunda-feira, 28 de março de 2011
Ali onde eu chorei qualquer um chorava. Dar a volta por cima que eu dei, quero ver quem dava.
Passei o domingo esparramada na cama, crianças visitando a vovó e eu lá deitada com livros, séries, filmes, internet e meus próprios pensamentos. Não sei como eu comecei a sessão nostalgia, mas sei que ela me invadiu com pensamentos guardados muito profundamente, numa caixinha instável, que suporta muito mais do que é capaz e estava escondida no porão do de dentro, trancada e lacrada. Acho que talvez tenha sido por conta da ligação da Keka, perguntando se eu havia trocado meu nome quando do meu casamento, ela estava fazendo a lista dos convites do casamento dela com o Greg e precisava anotar. E aí, veio assim, as lembranças de quando começamos a namorar, da companhia deles dois, das nossas noites de sexta sempre no Picanha à moda. Veio a lembrança da certeza do sentimento que nos unia, da força e do turvamento que ele causava. Veio a sensação de segurança que ele insistia em me passar, da confiança que ele queria que eu tivesse, e eu, marcada e traumatizada por um relacionamento doentio anterior, não conseguia ter. Como eu era boba! Eu já sabia que ele seria a pessoa da minha vida, mas eu não sabia como segurar a onda. Eu via o cara bacana que ele era, o filho amoroso, o estudante exemplar, eu ouvia histórias de aluninhas suspirando por ele e de colegas de escola que paravam para vê-lo passar (quem não ia querer um cara como ele?) e aquilo me doía como se eu estivesse sempre com a faca no pescoço. Demorou tanto para eu entender que ele estava na minha, demorou tanto para eu me sentir tranquila, que eu nem sei bem como fomos capazes de superar tanto ciúme. Lembro bem de como a gente se demorava em incontáveis ligações noturnas e do quanto a gente gostava de escrever cartas, mensagens, emails. Cada data, cada dia, centenas de palavras amorosas cercavam a nossa história e eu me comovia e choraaaaava. Eram as palavras as nossas principais demonstrações de amor. Lembro da tranquilidade, da sensação de paz, do conforto que estar com ele me causava, lembro da vontade de estar sempre perto, mais perto, cada vez mais. Lembro de como era dolorido ter que se despedir e o quanto comemoramos quando fomos morar juntos, porque finalmente a gente não tinha mais que dormir separado, ele não tinha mais que me deixar em casa e seguir sozinho para casa dele, agora era nossa a casa. Eu tenho saudades de mil e uma coisas. Eu tenho saudade da curva do ombro, dos sinais no pescoço, da boca carnuda, do jeito carinhoso com que me chamava de princesinha desde todo sempre. Eu tenho saudade principalmente de estar ao lado, com aquela mão enorme, com dedos de salsicha - como diria o Saboia; segurando a minha. Eu tenho saudade do cafuné no meu cabelo antes de dormir e das conversas que a gente tinha, eu na cama e ele tomando banho no banheiro. Saudade da confiança mútua, do respeito, da admiração, do orgulho, da sensação de pertencimento, de ler o olhar, de entender antes que qualquer coisa seja dita, do conforto, da amizade, dos conselhos, dos planos que eram nossos e era tudo completamente recíproco. Lembro da mania de achar que tudo tinha jeito e do meu jeito desesperado de pensar que tudo vai dar errado. Lembro de como eu ficava tensa, exaltada, nervosa em muitos dias e ele abria os braços, dizendo: "Vai me engolir?". Lembro da chave girando na porta e de esperar sempre pela saudação dele, em alto e bom som, como aquele bom humor que, às vezes, me irritava. Lembro de brigar com ele porque ele não conseguia dizer não para as pessoas, para ninguém. Lembro das noites em que ele saía para o plantão e deixava o Matheus tomando conta de mim e do irmãozinho bebê, dizendo que ele era agora o homem da casa. Reflito sobre essas recomendações até hoje e acho que ela reverbera na mente do meu pequeno grandão, porque é perceptível o cuidado que ele tem comigo e com o Thomás. Lembro das ligações que ele me fazia do plantão, das conversas que tínhamos na noite em que ele não dormia em casa, e no quanto eu ficava feliz e relaxada por conseguir ficar deitada na cama assistindo TV, depois do fim de semana inteiro correndo com o marido hiperativo e pinguço para almoços, praias, bares, festas. Ele me ensinou muitas coisas e me cobrava muito também, que eu fosse uma dona de casa melhor, que eu fosse mais atenta, mais disciplinada, mas ele tinha uma admiração incrível pela pessoa que eu era, em todos os aspectos, e nunca deixou de repetir que eu me tornara a mulher que ele queria para a vida toda. A gente tinha um amor muito óbvio e bem inevitável, do tipo que virou o mundo, superou o tempo, o espaço, a distância e outras pessoas que até chegaram a fazer cosquinhas no nosso coração e se realizou, se expandiu quando as crianças nasceram. Para mim, mesmo no meio dos momentos difíceis porque passamos, era muito óbvio que tudo valia a pena porque existia esse AMOR, assim mesmo, em caixa alta. E, por ele, eu fui capaz de perdoar, de esquecer, de superar e, por causa dele, amadurecer. A vida ficou muito vazia e o meu mundo muito silencioso depois que ele se foi. No começo, era como se tudo em mim estivesse em carne viva e respirar doía, falar doía, pensar doía, viver doía demais. Ser feliz parecia uma coisa sem sentido algum, sem razão, sem porquê. O mundo não parou pra me ver tombar, o mundo não anunciou a minha história trágica no jornal, não recebi atendimento prioritário em lugar nenhum porque a dor que eu carregava me dobrava os joelhos, parecia que ninguém entendia que haviam extirpado meu coração, que eu estava sangrando, que eu estava esvaindo dentro de mim. Sentia como se tudo fosse ficar para sempre em preto em branco sem ele por perto. Sentia que eu nunca conseguiria me por em pé, respirar profundo, sorrir com vontade, sentir borboletas, amar de novo. Sentia que aquela perda definiria minha existência inteira e esta seria triste, arrastada, pesada, amarga até. Mas o tempo passou e mesmo não tendo esquecido nada disso tudo que eu vivi, mesmo doendo no peito ter perdido esse homem, eu percebo que eu posso ser plenamente feliz de novo, que aquela história teve um final trágico e muito triste, sim. Mas eu não quero viver despedaçada, eu não quero mais ser caquinhos, farelos, migalhas de uma pessoa que amou com tudo, profundamente. Eu quero viver de novo. E dentro de mim eu sinto que ele também ficaria feliz com a minha felicidade, mesmo que isso implique em outro alguém. Eu tenho saudades de tudo, ainda sim, sempre. E constato que esse amor venceu. Venceu, vencemos. E eu acabo de descobrir, simples assim, que eu nem quero me livrar desse sentimento, que quero conviver com ele, eu quero que ele se encaixe e tome assento, que caiba aqui dentro de mim, tenho que enfim parar de querer ganhar dele, parar de querer extingui-lo. Porque ele não se foi quando nos separamos, ele não se foi nas inúmeras dificuldades por que passamos e ele não irá agora. Ele é incrivelmente resistente e sobrevive. É isso: eu ainda amo, talvez para sempre. Mas não é por isso que eu vou deixar de ser feliz e de viver minha vida e de aproveitar as cosquinhas no meu coração. Não quero ser paralizada por esse amor, quero que ele me impulsione, que ele me recubra da sensação de que eu mereço muito mais ainda ser amada, ser inteira, tentar de novo. Amo ainda, é fato. Sem pressa, como se só saber que esse amor existe já me bastasse. Sabe, não é um sentimento egoísta, muito menos possessivo, nem depressivo, nem desesperado. Não é mais um sentimento que me deixa de joelhos, dobrada, envergada de dor, sem ar, sem esperança, sem conseguir respirar. É apenas uma saudadezinha. Gostosa, tranqüila, bonita, saudável, de longe. E, quem diria: leve!
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quinta-feira, 24 de março de 2011
Descoberta
Eu fico cabriolando aqui com meus botões e me fazendo perguntas estapafúrdias e nada, nada, nada sensatas. Eu fico diminuindo a minha atitude, a minha importância, a minha presença. Eu uso eufemismos para expressar meus sentimentos, todo meu querer. Eu falo que não e meu corpo inteiro vibra que sim. Eu engulo a vontade de dizer muito mais, engulo em seco, engulo o sapo. Eu controlo as borboletas, os pensamentos, as vontades e saio arremessando cenouras como que em competição de arremesso de pesos. No meu caso, também sinto que venço à medida que consigo jogar o mais distante possível, a diferença é que eu corro para pegar a cenoura arremessada e, quando chego lá e consigo pegá-la, eu arremesso mais uma vez, mais distante ainda. Dez metros, cinquenta metros, cem metros... Numa corrida frenética que nunca tem fim e, vezenquando, me deixa cansada, exaurida, a ponto de desistir. Falta ar, a respiração é trôpega, cortada, asmática. Eu corro porque não quero parar mais para pensar no que dói, no que falta, no que preenche, no que sinto. Eu não quero refletir sobre nada. Vou correndo, atropelando tudo pelo caminho. Só faltava estar vendada, mas ainda assim não haveria muito problema porque, de todo modo, eu me guio pelo meu instinto. Esbarro em obstáculos, rasgo os joelhos, me arranho toda, fico tonta, hipoglicêmica e corro, corro, corro. Nenhuma dor poderá ser maior que a que eu senti. Nenhum sofrimento poderá ser capaz de me fazer fraquejar. Ninguém será capaz de magoar meu coração mais que a vida, por si mesma, tratou de fazer. Nada a temer. Eu corro. Muitas vezes, penso em desistir de mim, de ser quem eu sou, dessa intensidade e dessa urgência em chegar em algum lugar. Muitas vezes, há vontade de jogar tudo pra cima e vestir a camisa da insanidade e jogar o juízo num canto qualquer e dar um pause nas razões, nas buscas e nos quereres. Mas isso não seria eu. Eu corro, eu quero, eu faço, eu posso, eu sei que sou capaz e me obrigo. E, aí, num dia qualquer, no meio do nada, sem refletir, sem pensar muito nesse jeito meio troncho de sobreviver, eu descubro que nem era nada disso, descubro que eu só queria alguém que segurasse minha mão e apreciasse a paisagem comigo. Assim, eu poderia caminhar lentamente, respirar profundamente, e ir com calma.
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Muita gente nova chegando por aqui. Obrigada pela leitura e, principalmente, pelo carinho!
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Muita gente nova chegando por aqui. Obrigada pela leitura e, principalmente, pelo carinho!
terça-feira, 15 de março de 2011
Desatando nós
"Sei lá, a tua ausência me causou o caos. No breu de hoje eu sinto que o tempo da cura tornou a tristeza normal. Então, tu tome tento com meu coração, não deixe ele vir na solidão, encabulado por voltar a sós. Depois que o que é confuso te deixar sorrir, tu me devolva o que tirou daqui, que o meu peito se abre desatados nós." (Altar Particular – Maria Gadu)
Não percebo explicação melhor para a sensação. É exatamente CAOS. Diante da reviravolta toda, da confusão em que se foi jogado, é preciso se virar, e continuar a caminhar, e se acostumar com a dor, com a falta não premeditada, com a ausência dolorosa, pesarosa, mais ainda porque não há ranço qualquer, não há mágoa, não há a raiva que desvirtue o amor que se sentiu e se viveu. Há, pelo contrário, tão somente uma pilha gigantesca de boas recordações e de algumas briguinhas, alguns desentendimentos. Estes, por sua vez, diante do infinito de sentimento que nos ataca, parecem tão minúsculos, tão desimportantes...
Torci para que os dias corressem rápido. Não queria aquela dor sufocante me atravessando o peito, me partindo ao meio, me dobrando os joelhos e me fazendo perder o controle sobre minha própria razão por muito tempo. Eu ficava imaginando e me preparando para o futuro em que não seria sufocante, pesado, sobrecarregado assim. Eu queria que ele chegasse logo.
Ouvi muito dizerem que ia passar, que era questão de tempo, que era conformação e resiliência. Ouvi muito dizerem que eu superaria por ser jovem, por ter a vida inteira pela frente. Hoje eu percebo que não. Não passou. Ainda dói, ainda me revolta, ainda acho um absurdo, ainda caem lágrimas aqui se eu pensar em tudo que poderia ter sido. Mas né? Eu tinha que viver e é por isso mesmo que afirmo que não sou exemplo de nada. O que chamam de superação é apenas o que me restou fazer.
Ainda assim, eu vejo claramente a minha vida se expandindo agora, ganhando novas cores, abrindo espaços para o que é inteiramente novo. Todavia, depois de tudo que ocorreu, eu não sou mais a mesma (nem poderia ser). E por mais que paute minhas relações na mais absoluta autenticidade, e por mais que tente ao máximo ser verdadeira e transparente, há por aqui um instinto de proteção que me esconde, que me cala, que impede, que domina, que afasta, que foge e, para ser completamente franca, MOR-RE de medo.
Eu fico indo e vindo, numa valsa estranha e confusa, um passo para frente e dois para trás, três para frente e um para trás. Vou pisando com cautela, abrindo devagarzinho a caixa de Pandora em que escondi meu coração, pé ante pé para que a vida não dê mais nenhum looping. Dou por vistas as emoções radicais. Dou por visto o tempo de sofrimento e crescimento e amadurecimento. Dou por vista a sensação de se perder o chão. Vou arriscando baixo, apostando pouco, segurando no corrimão e completamente encantada com o precipício, se é que vocês me entendem.
quinta-feira, 10 de março de 2011
Das cinzas
Fica muito fácil perceber que a vida da gente não segue um script depois que acidentes acontecem. Fica muito mais fácil entender que é tênue, que é mínima a distância entre o que é certo e o que simplesmente não existe. É muito mais fácil relativizar as coisas, minimizar o tamanho dos problemas, concentrar no que efetivamente é prioridade e viver mais tranquilamente.
É impressionante perceber a sensação de liberdade que a gente conquista depois de superar o pior de todos os momentos. Liberdade que permite que se arrisque mais, que se despoje de preconceitos e contra-argumentos, que se desfaça das algemas do medo, que se jogue fora as armaduras e as máscaras e seja simplesmente o que se é. E, sendo o que se é, seja também muito mais feliz e inteira em cada momento vivido.
Depois que a gente lida com a morte de perto, principalmente com a morte repentina, passa a viver com muito mais intensidade cada segundo, passa a se dedicar com muito mais afinco a cada oportunidade de felicidade que aparece, passa a aproveitar com mais vigor os momentos bons e a entender que a gente precisa mesmo de coisas simples e corriqueiras, porque afinal é isso que importa, é isso que efetivamente conta.
Pode ser só um encontro com amigos ou um sorvete no calor da tarde; pode ser só um banho de piscina com os filhos ou um abraço apertado; pode ser um cineminha no fim do dia ou mãos dadas à beira mar, pode ser qualquer coisa desde que faça bem, desde que deixe a sensação de que se vive, desde que traga junto um pouquinho de quero mais, de vale a pena. Pode ser mínimo e máximo ao mesmo tempo agora. Pode ser único e inesquecível. Pouco importa.
Não se deve deixar passar as oportunidades de ser feliz que aparecem, não se pode deixar correr o tempo sem viver os sentimentos que surgem, não se pode simplesmente descartar essas pequenas epifanias que devolvem à gente o sentido de todas as coisas. É para isso que estamos aqui e só por isso.
É impressionante perceber a sensação de liberdade que a gente conquista depois de superar o pior de todos os momentos. Liberdade que permite que se arrisque mais, que se despoje de preconceitos e contra-argumentos, que se desfaça das algemas do medo, que se jogue fora as armaduras e as máscaras e seja simplesmente o que se é. E, sendo o que se é, seja também muito mais feliz e inteira em cada momento vivido.
Depois que a gente lida com a morte de perto, principalmente com a morte repentina, passa a viver com muito mais intensidade cada segundo, passa a se dedicar com muito mais afinco a cada oportunidade de felicidade que aparece, passa a aproveitar com mais vigor os momentos bons e a entender que a gente precisa mesmo de coisas simples e corriqueiras, porque afinal é isso que importa, é isso que efetivamente conta.
Pode ser só um encontro com amigos ou um sorvete no calor da tarde; pode ser só um banho de piscina com os filhos ou um abraço apertado; pode ser um cineminha no fim do dia ou mãos dadas à beira mar, pode ser qualquer coisa desde que faça bem, desde que deixe a sensação de que se vive, desde que traga junto um pouquinho de quero mais, de vale a pena. Pode ser mínimo e máximo ao mesmo tempo agora. Pode ser único e inesquecível. Pouco importa.
Não se deve deixar passar as oportunidades de ser feliz que aparecem, não se pode deixar correr o tempo sem viver os sentimentos que surgem, não se pode simplesmente descartar essas pequenas epifanias que devolvem à gente o sentido de todas as coisas. É para isso que estamos aqui e só por isso.
sexta-feira, 4 de março de 2011
So no one told you life was gonna be this way...
...your job's a joke, you're broke, your love life's D.O.A.
It's like you're always stuck in second gear.
Well, it hasn't been your day, your week, your month or even your year.
But I'll be there for you when the rain starts to pour
I'll be there for you like I've been there before
I'll be there for you cause you there for me too.
E aí, independente de como a vida tenha sido com você, independente de por quais infortúnios e puxadas de tapete e problemas se esteja passando agora, independente de ânimo, ritmo e vontade, deixe que um pouco dessa alegria gratuita que se espalha pelas ruas te contamine. Experimente o sorriso e o peito aberto. Permita alguns passos e deixe se levar. Junte-se aos que estão there for you e seja feliz só por hoje. No mínimo, será mais leve. No mínimo, será mais fácil. No mínimo, você conseguirá repetir só por hoje todo dia.
It's like you're always stuck in second gear.
Well, it hasn't been your day, your week, your month or even your year.
But I'll be there for you when the rain starts to pour
I'll be there for you like I've been there before
I'll be there for you cause you there for me too.
E aí, independente de como a vida tenha sido com você, independente de por quais infortúnios e puxadas de tapete e problemas se esteja passando agora, independente de ânimo, ritmo e vontade, deixe que um pouco dessa alegria gratuita que se espalha pelas ruas te contamine. Experimente o sorriso e o peito aberto. Permita alguns passos e deixe se levar. Junte-se aos que estão there for you e seja feliz só por hoje. No mínimo, será mais leve. No mínimo, será mais fácil. No mínimo, você conseguirá repetir só por hoje todo dia.
terça-feira, 22 de fevereiro de 2011
Eu poderia estar varando o mundo e as madrugadas e inebriando corpo e mente com experiência fugidias e superficiais. Eu sei que eu poderia estar correndo riscos e sobrevivendo de maneira insana, leviana. Eu sei que eu poderia recorrer ao auxílio de tarjas pretas para fugir da dor, para sair do ar, para suportar. Eu sei que eu poderia estar encontrando válvulas de escapes e saídas tangenciais. Eu bem poderia viver mudando de braços e de abraços a cada noite. Eu poderia ainda resolver desistir da vida e me entregar à solidão. Eu poderia também pirar, vestir a fantasia mais colorida da insanidade e deixar a razão me abandonar. Mas não. Eu estou aqui vestindo a roupa da razão, com as armas do equilíbrio e apoiada na coerência. É claro que me desequilibro vez em quando, mas eu vou em frente e antecipo o futuro colorido que me aguarda bem ali.
Eu sei que eu poderia estar falando alto ou gritando
Soltando a minha voz aguda e rouca pelo ar
E sei que poderia agora estar cantando
Mostrando a todos como é bela a minha dor
Confesso entretanto que sou incapaz
De anunciar assim o que eu sinto
Prefiro esperar sozinha por você
Pois só você entende o que eu digo
Eu bem que poderia freqüentar todos os bares
Tentando exorcizar um pouco o que sofri
Andar de mesa em mesa
Tropeçando e bebendo
Chorando e contando a minha triste história
A quem quisesse ouvir
Confesso entretanto que sou incapaz
De jogar fora assim as minhas lágrimas
Prefiro dormir sozinha no quarto
Talvez eu esteja bem melhor ao acordar
Não pense que é covardia
É apenas timidez
Só me serve a sua companhia
Eu sei que eu poderia estar vivendo um romance
Escrevendo a cada dia uma página da minha futura biografia
E até que poderia também tentar o suicídio
E assim saciar a sede de sangue da humanidade
Confesso entretanto que sou incapaz
De exibir assim minhas marcas nos jornais
Prefiro deixar o tempo passar
Quebrando uns pratos até você chegar
Não pense que é covardia
É apenas timidez
Só me serve a sua companhia(Timidez - Kid abelha)
Eu sei que eu poderia estar falando alto ou gritando
Soltando a minha voz aguda e rouca pelo ar
E sei que poderia agora estar cantando
Mostrando a todos como é bela a minha dor
Confesso entretanto que sou incapaz
De anunciar assim o que eu sinto
Prefiro esperar sozinha por você
Pois só você entende o que eu digo
Eu bem que poderia freqüentar todos os bares
Tentando exorcizar um pouco o que sofri
Andar de mesa em mesa
Tropeçando e bebendo
Chorando e contando a minha triste história
A quem quisesse ouvir
Confesso entretanto que sou incapaz
De jogar fora assim as minhas lágrimas
Prefiro dormir sozinha no quarto
Talvez eu esteja bem melhor ao acordar
Não pense que é covardia
É apenas timidez
Só me serve a sua companhia
Eu sei que eu poderia estar vivendo um romance
Escrevendo a cada dia uma página da minha futura biografia
E até que poderia também tentar o suicídio
E assim saciar a sede de sangue da humanidade
Confesso entretanto que sou incapaz
De exibir assim minhas marcas nos jornais
Prefiro deixar o tempo passar
Quebrando uns pratos até você chegar
Não pense que é covardia
É apenas timidez
Só me serve a sua companhia(Timidez - Kid abelha)
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Eu aprendi
Houve um tempo em que eu tinha cer-te-za de muitas coisas que hoje me parecem conversa pra boi dormir.
Houve um tempo em que eu amparava meu passo no ombro amigo de quem hoje simplesmente não está.
Houve um tempo em que eu tinha a minha vida toda pela frente e isso dava uma liberdade absurda para tentativas e arrependimentos e me parece que em cinco anos a vida-toda-pela-frente passou.
Houve um tempo em que eu acreditava que eu podia fazer o que quisesse e bem entendesse, sem me preocupar com mais ninguém, até entender que me preocupar com as pessoas é a razão de ser.
Houve um tempo em que um sentimento latejava em mim com intensidade tal que lhe apregoava características de eterno até que acabou.
Houve um tempo em que eu acreditava ter cada coisa em seu lugar até que um menino mau virou de cabeça pra baixo meu castelo da Barbie, espalhando tudo pelo chão.
Houve um tempo em que eu acreditei que algumas amizades eram verdadeiras e aí eu cheguei no olho do furacão e vi que as amizades só são verdadeiras se houver um depois de ou um apesar de.
Houve um tempo em que eu achei que tinha uma vida perfeita até descobrir que a perfeição não existe.
Houve um tempo em que eu achei que o meu sofrimento era o maior do mundo e que este mesmo mundo deveria ser delicado comigo porque eu estava sofrendo, até descobrir que eu poderia sofrer mais (muito mais) e que não era a primeira, nem a única, nem a última, era só mais uma a aguentar os trancos e a encarar os barrancos.
Houve um tempo em que eu achei que eu era frágil até descobrir uma roupa de aço sob a pele.
Houve um tempo em que eu achava que tinha tudo de que precisava para a vida, até um acidente me mostrar que a gente não tem nada.
Houve um tempo em que eu acreditava que ser mãe era tarefa de casa sem fim, era abdicar, até descobrir que é abdicar pelo maior amor do mundo.
Houve um tempo em que eu achava que meu coração fosse empedrar e se trancar, até ver ele bater descompassado, desmanchado assim.
Houve um tempo em que eu pensei que o sorriso jamais voltaria ao meu rosto, que o ânimo de viver tivesse me abandonado, que a vida tinha perdido sentido e cor, que sobreviver era o que importava, até entender que sorrir ajuda a superar, devolve o ânimo e a cor.
Houve um tempo em que eu achava que era autossuficiente e descobri que preciso de gente ao meu redor.
Houve um tempo em que eu não queria mais viver, em que eu só queria que parasse de doer, até entender que dói de qualquer jeito e ainda assim vale a pena estar aqui.
Houve um tempo em que eu queria não sentir mais, até perceber que sentir é a forma mais completa de ser humana.
Houve um tempo em que eu não sabia nada, até que eu aprendi.
Houve um tempo em que eu amparava meu passo no ombro amigo de quem hoje simplesmente não está.
Houve um tempo em que eu tinha a minha vida toda pela frente e isso dava uma liberdade absurda para tentativas e arrependimentos e me parece que em cinco anos a vida-toda-pela-frente passou.
Houve um tempo em que eu acreditava que eu podia fazer o que quisesse e bem entendesse, sem me preocupar com mais ninguém, até entender que me preocupar com as pessoas é a razão de ser.
Houve um tempo em que um sentimento latejava em mim com intensidade tal que lhe apregoava características de eterno até que acabou.
Houve um tempo em que eu acreditava ter cada coisa em seu lugar até que um menino mau virou de cabeça pra baixo meu castelo da Barbie, espalhando tudo pelo chão.
Houve um tempo em que eu acreditei que algumas amizades eram verdadeiras e aí eu cheguei no olho do furacão e vi que as amizades só são verdadeiras se houver um depois de ou um apesar de.
Houve um tempo em que eu achei que tinha uma vida perfeita até descobrir que a perfeição não existe.
Houve um tempo em que eu achei que o meu sofrimento era o maior do mundo e que este mesmo mundo deveria ser delicado comigo porque eu estava sofrendo, até descobrir que eu poderia sofrer mais (muito mais) e que não era a primeira, nem a única, nem a última, era só mais uma a aguentar os trancos e a encarar os barrancos.
Houve um tempo em que eu achei que eu era frágil até descobrir uma roupa de aço sob a pele.
Houve um tempo em que eu achava que tinha tudo de que precisava para a vida, até um acidente me mostrar que a gente não tem nada.
Houve um tempo em que eu acreditava que ser mãe era tarefa de casa sem fim, era abdicar, até descobrir que é abdicar pelo maior amor do mundo.
Houve um tempo em que eu achava que meu coração fosse empedrar e se trancar, até ver ele bater descompassado, desmanchado assim.
Houve um tempo em que eu pensei que o sorriso jamais voltaria ao meu rosto, que o ânimo de viver tivesse me abandonado, que a vida tinha perdido sentido e cor, que sobreviver era o que importava, até entender que sorrir ajuda a superar, devolve o ânimo e a cor.
Houve um tempo em que eu achava que era autossuficiente e descobri que preciso de gente ao meu redor.
Houve um tempo em que eu não queria mais viver, em que eu só queria que parasse de doer, até entender que dói de qualquer jeito e ainda assim vale a pena estar aqui.
Houve um tempo em que eu queria não sentir mais, até perceber que sentir é a forma mais completa de ser humana.
Houve um tempo em que eu não sabia nada, até que eu aprendi.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
A tragédia faz aniversário
Na semana em que a tragédia faz aniversário, tudo vira um enorme contrassenso. As vontades são contraditórias. Eu quero ficar sozinha para poder soluçar em lágrimas o que dói e quero companhia, carinho, atenção e alguém para me ouvir. Eu quero esquecer do que vivi e quero as lembranças mais doces aquecendo minha alma. Eu quero não falar nesse assunto, mas ele se repete na minha mente. Eu quero fingir que nada disso aconteceu e quero reverenciar o homem, o pai, o marido, o filho, o professor, o médico, a pessoa que ele foi. Eu quero me concentrar em tudo que é novo na minha vida, e não quero sair do meu lar.
Na semana em que a tragédia faz aniversário, tudo que eu construí se decompõe. Eu vejo as lágrimas marejarem os olhos na frente das pessoas, eu falo dele com essa saudade que embarga a voz, eu levo o pequeno na escola e penso em como a presença dele seria significativa. Eu não sei porque vivo essa sensação de decadência e de fracasso, mesmo reconhecendo todas as conquistas obtidas nesse processo. Eu olho para o mundo com sono, com preguiça, com cansaço. Eu ando com ânsia de desistir de tudo e chutar o balde.
Na semana em que a tragédia faz aniversário, eu queria dormir e acordar semana que vem. Eu não queria que doesse, mas dói. Eu não queria sofrer, mas sofro. Eu não queria viver, mas sobrevivo. A minha vontade era de sumir e eu fico. E, a cada dia, algo novo me aperta o peito, me descompassa o coração, faz erupção nos olhos e me enverga as costas. A cada dia, eu reconheço o quanto é difícil estar num mundo em que ele simplesmente não existe mais. A cada dia, eu forço a barra e me obrigo a manter as coisas todas em ordens, preenchendo a mente e fingindo e fugindo.
Na semana em que a tragédia faz aniversário, eu percebo que eu tenho todo o resto da minha vida para me conformar com o que não se acostuma, para entender o que é incompreensível, para explicar o irrazoável, para superar o insuperável. E, assim, mesmo me sentindo minúscula, impotente, frágil e fraca, eu descubro que há uma força que me impele para frente e não me deixa desistir; mesmo com sono, mesmo cansada, mesmo com preguiça... Eu sinto numa quase convicção que há algo esperando por mim e que esse aniversário triste é definitivamente a linha de chegada dessa corrida, dessa batalha que começou há um ano.
Exaurida física e psicologicamente, tirando forças do tutano, e na iminência de desfalecer; eu sigo para cruzar a linha de chegada, momento em que respirarei aliviada pela sobrevivência e pelo fim.
Na semana em que a tragédia faz aniversário, tudo que eu construí se decompõe. Eu vejo as lágrimas marejarem os olhos na frente das pessoas, eu falo dele com essa saudade que embarga a voz, eu levo o pequeno na escola e penso em como a presença dele seria significativa. Eu não sei porque vivo essa sensação de decadência e de fracasso, mesmo reconhecendo todas as conquistas obtidas nesse processo. Eu olho para o mundo com sono, com preguiça, com cansaço. Eu ando com ânsia de desistir de tudo e chutar o balde.
Na semana em que a tragédia faz aniversário, eu queria dormir e acordar semana que vem. Eu não queria que doesse, mas dói. Eu não queria sofrer, mas sofro. Eu não queria viver, mas sobrevivo. A minha vontade era de sumir e eu fico. E, a cada dia, algo novo me aperta o peito, me descompassa o coração, faz erupção nos olhos e me enverga as costas. A cada dia, eu reconheço o quanto é difícil estar num mundo em que ele simplesmente não existe mais. A cada dia, eu forço a barra e me obrigo a manter as coisas todas em ordens, preenchendo a mente e fingindo e fugindo.
Na semana em que a tragédia faz aniversário, eu percebo que eu tenho todo o resto da minha vida para me conformar com o que não se acostuma, para entender o que é incompreensível, para explicar o irrazoável, para superar o insuperável. E, assim, mesmo me sentindo minúscula, impotente, frágil e fraca, eu descubro que há uma força que me impele para frente e não me deixa desistir; mesmo com sono, mesmo cansada, mesmo com preguiça... Eu sinto numa quase convicção que há algo esperando por mim e que esse aniversário triste é definitivamente a linha de chegada dessa corrida, dessa batalha que começou há um ano.
Exaurida física e psicologicamente, tirando forças do tutano, e na iminência de desfalecer; eu sigo para cruzar a linha de chegada, momento em que respirarei aliviada pela sobrevivência e pelo fim.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
A semana do aniversário
Na semana em que o pior de todos os dias faz aniversário, a dor se torna inescapável. Todas as técnicas desenvolvidas ao longo do último ano para fugir do que dói parecem imprestáveis. Tudo lembra, tudo machuca, tudo traz lágrimas aos olhos, desde o dedão bolotinha do pé do Matheus (igualzinho ao dele) até a mãozinha que eu tenho dado a uma amiga que acabou de se tornar mãe (o que me faz lembrar da segurança que eu tinha em casa). Tudo, absolutamente tudo que acontece me remete a alguma coisa que era ele ou dele. É como se meu inconsciente me dissesse que não, que nunca, que jamais essa dor vai sair de mim. Até quando eu durmo as lembranças me aparecem em sonhos e eu acordo chorando. Eu penso em outras coisas, eu escuto músicas de que ele não gostava, eu saio de casa, eu leio, converso com as pessoas e, no fundo - e na superfície também, a dor está. Fica tudo mais latente, mais sensível, mais carente e o que eu não consigo conter dentro explode em lágrimas para fora de mim. De repente, eu me pego chorando com uma música que tocou no rádio, que nem fazia sucesso quando ele estava vivo. Eu me pego chorando na frente do computador, enquanto desabafo via MSN sobre o meu medo dessa semana abalar meu psicológico profundamente. Eu me vejo chorando ao telefone, enquanto converso com quem quer me fazer me sentir melhor. Eu choro me fazendo questionamentos superados de "como? por quê?". Eu choro tentando barganhar com a vida na minha mente, dizendo que eu toparia até não ter mais, até que não fosse mais meu marido, que se tornasse um sacana comigo, desde que ele continuasse vivo para o mundo, para os pequenos. Eu só não consigo chorar com pessoas ao meu redor. Nesses momentos, eu aguento o tranco, engulo seco e então volto ao meu reduto banheiro-toalha-na-boca-madrugada quando o solavanco é maior que minha força. Choro até que as lágrimas sequem e acabo dormindo pesado e acordando com os olhos inchados da noite anterior. Seria tudo mais fácil se não, seria tudo mais simples, mais leve... Mas pensar no impossível não resolve meus problemas. E eu choro e penso que é só uma semana, é só o dia vinte do janeiro trágico fazendo aniversário, é só mais um pouquinho, é só dessa vez... Eu sofro e vem gente me arrancar sorrisos e dizer que está comigo... Eu sofro e, embora sem ele, eu não fiquei sozinha, como eu disse no velório dele que ficaria. Mas é que nessa semana, eu sofro e me sinto só de novo e não há mesmo como escapar dessa sensação.
* Missa de Um Ano de Morte de Thiago Castro:
Quinta-feira, 20 de janeiro de 2011, às 20h
Igreja N. Sra. Dos Remédios
Av. Da Universidade, 2974 - Benfica
(Quase em frente à Reitoria - UFC, vizinho ao Hospital Mira y Lopez)
* Missa de Um Ano de Morte de Thiago Castro:
Quinta-feira, 20 de janeiro de 2011, às 20h
Igreja N. Sra. Dos Remédios
Av. Da Universidade, 2974 - Benfica
(Quase em frente à Reitoria - UFC, vizinho ao Hospital Mira y Lopez)
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Metáfora
Imagine que todo sentimento que você devota a uma pessoa seja um garrafão de 20L de água. Imagine que, repentinamente e por circunstâncias alheias a sua vontade, você seja obrigado a fazer com que caiba todo esse conteúdo numa latinha de leite condensado. Você fica exaurido fisicamente, desgastado psicologicamente com a tarefa. Muito é derramado e perdido, muito escorre pelo chão, muito se estraga com essa obrigação. Mesmo assim, com pressão e esforço, você consegue alojar no pequeno compartimento grande parte do que sentia. Evidentemente, a latinha fica toda deformada, qualquer toque, barulho estridente, ou mal jeito pode fazê-la explodir. É um sistema claramente instável e não deve ser mexido para que não se destrua ou exploda. Tem que ficar intocável, em local seco e longe da luz do sol, com temperaturas amenas e sem exposíção a ruídos. Qualquer destes agentes, pode ser fatal.
E o dia 20 se aproxima.
E o dia 20 se aproxima.
domingo, 9 de janeiro de 2011
Acho até que estou indo bem...
Não tenho dúvidas de que um dos momentos em que eu sinto mais falta dele é quando me pego cuidando dos pequenos doentes. A virose que me atacou antes do Reveillon, derrubou o Matheus no domingo (até comentei aqui que ele tava tendo febre) e desde ontem assola o Thomás.
Eu sei que num é nada grave, uma gripe, febrezinha... Sei que em alguns dias ele vai estar bom, Matheus já tá bem, bastam antitérmico e líquido e vick e tal. Sei, sim. Racionalmente, eu sei. Mas vai dizer isso para o meu coração que fica moído ao ver meu pequeno "mais pequeno" sem conseguir dormir com o nariz que não desentope, sem conseguir segura o "bubu" (chupeta) na boca porque precisa respirar por esta e que chora, a cada meia hora, pelo desconforto respiratório e tosse, tosse, tosse?!?!?
Nessas horas, eu lembro como ele tomava a frente de tudo, resolvia todas as crises, doenças, viroses, me passava os prognósticos e me deixava tranquila, tranquila... Lembro perfeitamente da segurança que ele me passava nesses momentos, segurança de não precisar saber nem o nome nem os horários dos remédios, porque ele mesmo cuidava de tudo ou passava para a Lalá e ligava para saber se estava tudo direitinho. É claro que eu monitorava, acompanhava, acalentava os nossos pequenos e acordava também nas noites. Mas o pesado sempre era com ele.
Eu sempre soube que eu não teria jeito para segurar essas ondas e agora me pego aqui me virando. Como diria Renato Russo: "Mesmo sem te ver, acho até que estou indo bem...".
Eu sei que num é nada grave, uma gripe, febrezinha... Sei que em alguns dias ele vai estar bom, Matheus já tá bem, bastam antitérmico e líquido e vick e tal. Sei, sim. Racionalmente, eu sei. Mas vai dizer isso para o meu coração que fica moído ao ver meu pequeno "mais pequeno" sem conseguir dormir com o nariz que não desentope, sem conseguir segura o "bubu" (chupeta) na boca porque precisa respirar por esta e que chora, a cada meia hora, pelo desconforto respiratório e tosse, tosse, tosse?!?!?
Nessas horas, eu lembro como ele tomava a frente de tudo, resolvia todas as crises, doenças, viroses, me passava os prognósticos e me deixava tranquila, tranquila... Lembro perfeitamente da segurança que ele me passava nesses momentos, segurança de não precisar saber nem o nome nem os horários dos remédios, porque ele mesmo cuidava de tudo ou passava para a Lalá e ligava para saber se estava tudo direitinho. É claro que eu monitorava, acompanhava, acalentava os nossos pequenos e acordava também nas noites. Mas o pesado sempre era com ele.
Eu sempre soube que eu não teria jeito para segurar essas ondas e agora me pego aqui me virando. Como diria Renato Russo: "Mesmo sem te ver, acho até que estou indo bem...".
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Quando a esperança solta minha mão...
Não é sempre, não é todo dia, mas a esperança que me move vezenquando me abandona. Na maior parte do tempo, eu seguro a mão dela com força, como criança pequena em shopping lotado segura a mão da mãe. Medo de me perder, medo de não encontrar meu caminho e nunca mais voltar pra casa, medo de não ver mais quem me faz e quer bem. Quando a gente se solta, fico só com a sensação de que algo muito ruim está à espreita, esperando quietinho o momento de acontecer. É só um segundo, é só um tempinho; mas o sentimento é abissal: DE-SES-PE-RO!
Fico mais tranquila quando ela retorna e me segura pela mão novamente e aí, volta a sensação de que não preciso me preocupar, de que o pior já passou, o pior ano já se foi, o furacão já sumiu no horizonte. É claro que ainda há algumas nuvens negras e restos da bagunça que ele deixou para arrumar, mas o céu já se abre num azul primaveril, o sol já vem mostrar seu poder e sua energia e as crianças já não estampam em suas faces os olhos do medo. Há paz depois da tempestade. Aquela paz decorrente do alívio de ter sobrevivido, da certeza de que o pior já foi e de que outra dessas vai demorar a acontecer.
Eu quero seguir com essa esperança dentro de mim, com essa vontade de viver e ser feliz. Quero olhar para frente e ter convicção de que muitas coisas boas me esperam, sem que passe pela minha cabeça qualquer sombra de dúvida. Eu quis tanto chegar aqui, nesse momento, nesse ano, em pé, sem ser um farelo, um farrapo, sem deixar trauma algum nos pequenos, mesmo que esse propósito significasse me virar do avesso... Agora que me vejo aqui, do jeito que planejei, eu duvido das minhas convicções, daquilo que me moveu. Duvido do que bate à porta, do que parece claro e até óbvio. Não é certo.
Que eu não me perca do ideal que me manteve de pé nem das convicções que me moveram até aqui. Que eu não me afaste dos planos de felicidade que bolei sozinha, mas pensando em três. Que eu não sofra demasiadamente ao lembrar dos projetos a dois e a quatro. Que eu não saia do caminho que tracei, a menos que seja presenteada com melhores opções. Que não haja mais surpresas infelizes, nem furacões, nem tempestades que deixam tudo de pernas para o ar. Sei que não há como se proteger da dor, nem do sofrimento, nem há como evitá-los ou preveni-los. Estas coisas simplesmente acontecem. Então, que haja dentro de mim um espírito guerreiro e resiliente para enfrentar todos os poréns e apesares. E que, ao final de tudo, eu alcance a felicidade no superlativo máximo possível de novo.
Fico mais tranquila quando ela retorna e me segura pela mão novamente e aí, volta a sensação de que não preciso me preocupar, de que o pior já passou, o pior ano já se foi, o furacão já sumiu no horizonte. É claro que ainda há algumas nuvens negras e restos da bagunça que ele deixou para arrumar, mas o céu já se abre num azul primaveril, o sol já vem mostrar seu poder e sua energia e as crianças já não estampam em suas faces os olhos do medo. Há paz depois da tempestade. Aquela paz decorrente do alívio de ter sobrevivido, da certeza de que o pior já foi e de que outra dessas vai demorar a acontecer.
Eu quero seguir com essa esperança dentro de mim, com essa vontade de viver e ser feliz. Quero olhar para frente e ter convicção de que muitas coisas boas me esperam, sem que passe pela minha cabeça qualquer sombra de dúvida. Eu quis tanto chegar aqui, nesse momento, nesse ano, em pé, sem ser um farelo, um farrapo, sem deixar trauma algum nos pequenos, mesmo que esse propósito significasse me virar do avesso... Agora que me vejo aqui, do jeito que planejei, eu duvido das minhas convicções, daquilo que me moveu. Duvido do que bate à porta, do que parece claro e até óbvio. Não é certo.
Que eu não me perca do ideal que me manteve de pé nem das convicções que me moveram até aqui. Que eu não me afaste dos planos de felicidade que bolei sozinha, mas pensando em três. Que eu não sofra demasiadamente ao lembrar dos projetos a dois e a quatro. Que eu não saia do caminho que tracei, a menos que seja presenteada com melhores opções. Que não haja mais surpresas infelizes, nem furacões, nem tempestades que deixam tudo de pernas para o ar. Sei que não há como se proteger da dor, nem do sofrimento, nem há como evitá-los ou preveni-los. Estas coisas simplesmente acontecem. Então, que haja dentro de mim um espírito guerreiro e resiliente para enfrentar todos os poréns e apesares. E que, ao final de tudo, eu alcance a felicidade no superlativo máximo possível de novo.
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Keep walking
"Eu me sinto às vezes tão frágil, queria me debruçar em alguém, em alguma coisa. Alguma segurança. Invento estorinhas para mim mesmo, o tempo todo, me conformo, me dou força. Mas a sensação de estar sozinho não me larga. Algumas paranóias, mas nada de grave. O que incomoda é esta fragilidade, essa aceitação, esse contentar-se com quase nada. Estou todo sensível, as coisas me comovem." (Caio F.)
Viver não tem sido fácil. Há que se lutar com um leão por dia. Há cálculos mentais para adequar sonhos e projetos com orçamento familiar limitado. Há saudade e vazio. Há enxurrada de lembranças e de memórias vezenquando. Na maior parte das vezes em que elas me atacam, eu corro, corro, corro. Vou para bem longe para que elas não me assolem. Em algumas vezes, elas me pegam, me desmontam, me jogam no chão do fundo do poço de novo. Eu fico lá chorosa, no escuro, juntando meus pedaços... Mas subo as escadas rapidinho, porque eu as construí bem sólidas, resistentes, para cair e voltar aqui para cima quantas vezes for preciso.
Mesmo aqui em cima, não é tudo céu azul. Tenho minhas tempestades e erupções. Tenho meus anseios e frustrações. Tenho a vida como ela é: nem sempre certa, nem sempre justa, nem sempre coerente. Apenas a vida. E que alternativa eu tenho a não ser viver? enfrentar esses problemas todos? desfrutar das coisas boas (que sejam em maior número, por favor!)? Desistir de tudo não é opção. Sigo meu caminho árido, cheio de buracos, sem manutenção e sem cuidado; mas sei que esse é apenas um trecho do percurso.
Há de ter logo mais à frente céu azul e bela vista, cheiro de comida caseira, beijo de amor, mãos dadas e corações enlaçados. Há de ter logo ali, depois daquela curva (ou seria um looping?), pré-adolescentes sem traumas, carinhosos, confiantes, esforçados e estudiosos. Há de ter, mais na frente, segurança, equilíbrio e paz. É só continuar na marcha, ir tocando em frente... O percurso pode até ser difícil, mas é preciso manter o coração tranquilo. E eu vou cantando que "ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais".
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
A dor de agora
É claro que a dor que dói agora não é mais daquelas de enlouquecer, de perder o chão, de fazer com que o mundo perca a cor... A dor que dói agora é quase sempre suportável, silenciosa, incômoda. A dor que dói agora não me prostra, não me acama, não me derruba no chão. Vezenquando, ela vem assim avalanche, dilúvio, cataclisma. Mas, na maior parte dos momentos, ela é discreta, perene, serena. É uma dor que fica lá, mas não me vira ao avesso. É uma dor atropelada por tantos outros problemas cotidianos: filhos, casa, compras, contas. A dor de agora é uma dor amiga, companheira, fiel escudeira. E eu sei que nem sempre falo sobre ela, porque meus momentos de escrita-exorcismo acontecem invariavelmente quando o vulcão explode lá dentro de mim.
A dor que dói em mim agora se torna imperceptível, inaudível, invisível, e anestesia, quando o cavalo branco se aproxima da janela e doces palavras dançam nas telas. A dor de agora me escapole entre os dedos quando confrontada pela presença constante e pelo cuidado todo. A dor de agora se resigna a ser lembrança quando a vida abre portas e janelas e estende tapetes na espera. A dor de agora se esquece de si e, altruísta, cede espaço e vãos para sorrisos, para conversas infinitas, para coincidências que assustam, para transmissões de pensamento. A dor que me acompanha baixa a cabeça e dobra seus joelhos perante a perspectiva de felicidade. A dor de agora é sublimada ante esse bem querer designado, em que o que é externado é parcela ínfima do sentimento.
A dor que me acompanha não se foi, não sumiu, não saiu da minha vida nem de mim, mas ela me permite umas tréguas, uns hiatos, uns afastamentos providenciais quando o bem que faz tão bem me cerca. E eu sigo minha vida neste surto bipolar: às vezes, cataclisma; às vezes, anestesia. E espero pelo dia em que ela seja só silêncio e resignação.
A dor que dói em mim agora se torna imperceptível, inaudível, invisível, e anestesia, quando o cavalo branco se aproxima da janela e doces palavras dançam nas telas. A dor de agora me escapole entre os dedos quando confrontada pela presença constante e pelo cuidado todo. A dor de agora se resigna a ser lembrança quando a vida abre portas e janelas e estende tapetes na espera. A dor de agora se esquece de si e, altruísta, cede espaço e vãos para sorrisos, para conversas infinitas, para coincidências que assustam, para transmissões de pensamento. A dor que me acompanha baixa a cabeça e dobra seus joelhos perante a perspectiva de felicidade. A dor de agora é sublimada ante esse bem querer designado, em que o que é externado é parcela ínfima do sentimento.
A dor que me acompanha não se foi, não sumiu, não saiu da minha vida nem de mim, mas ela me permite umas tréguas, uns hiatos, uns afastamentos providenciais quando o bem que faz tão bem me cerca. E eu sigo minha vida neste surto bipolar: às vezes, cataclisma; às vezes, anestesia. E espero pelo dia em que ela seja só silêncio e resignação.
sábado, 4 de dezembro de 2010
Escolhendo
A gente pode enfrentar um leão por dia. Pode comer o pão que o diabo amassou. A gente pode perder o chão, levar uma rasteira, uma topada de levantar a unha do dedão. A gente pode dormir todos os dias banhado em lágrimas e com a sensação de que tem uma estaca presa no coração. A gente pode sentir desfalecer diante de tantas notícias ruins. Pode querer dormir e esperar só o tempo passar até chegar ao final de tudo. A gente pode reclamar do mundo, da brutalidade, da crueza dos dias, da aridez das relações, da falta de tudo. Pode reclamar do vizinho que estaciona mal, do engarrafamento que piora a cada dia, da falta de planejamento público, do descaso dos governantes. A gente pode chorar a dor de perder quem se amava demais, a dor de ver alguém muito querido muito doente, a dor de não ser reconhecido, a dor de não ser amado em reciprocidade, a dor de traições e de indiferença, a dor pela dor do filho. A gente pode se deparar diariamente com muitos e infinitos motivos para fundo do poço. Se se quiser mesmo, a gente pode perder o brilho, o ânimo e a alegria por estar aqui. Se se procurar bem, a gente encontra razões para ficar lá embaixo mesmo, no escuro, sem saída, encurralados pelas dores todas.
Mas a verdade é que a gente também pode escolher o que priorizar, em que se concentrar e o que relevar. E assim todos os dias é possível escolher sorrir de si mesmo quando levar uma topada; dormir lembrando de momentos que, de tão bons, fizeram faltar ar; sonhar com alguém que faz o coração bater descompassado; rir lembrando da gargalhada impagável daquele neném mais gostosurento; ver sonhos e projetos mais próximos de serem concretizados e se sentir realizado por isso... A gente pode dar um abraço bem apertado em alguém que só precisa mesmo disso; pode deixar as lágrimas correrem por causa daquelas lindas flores com um cartão que vale mais que mil gestos; a gente pode sair pra dançar com amigos e perceber que nunca se está velho demais para isso; pode sair para beber e ter a melhor noite de conversa da vida; pode simplesmente segurar a mão de alguém em silêncio e dar todo conforto que é necessário. A gente pode aproveitar uma tarde inteira só brincando com os pequenos e descobrir que a gente é muito mais cuidado por eles que cuida deles. Pode viajar para lugares que nunca visitou e se apaixonar por lá e pode voltar para os lugares por que se apaixonou antes. A gente pode encontrar todos os dias pequenas coisas mínimas que fazem valer a pena. E, sabe, é isso que impulsiona a gente para enfrentar todos os leões e motoristas loucos e o trânsito caótico e as notícias trágicas do Jornal Nacional.
Se eu posso escolher, eu escolho viver e ser feliz. Todo dia.
Mas a verdade é que a gente também pode escolher o que priorizar, em que se concentrar e o que relevar. E assim todos os dias é possível escolher sorrir de si mesmo quando levar uma topada; dormir lembrando de momentos que, de tão bons, fizeram faltar ar; sonhar com alguém que faz o coração bater descompassado; rir lembrando da gargalhada impagável daquele neném mais gostosurento; ver sonhos e projetos mais próximos de serem concretizados e se sentir realizado por isso... A gente pode dar um abraço bem apertado em alguém que só precisa mesmo disso; pode deixar as lágrimas correrem por causa daquelas lindas flores com um cartão que vale mais que mil gestos; a gente pode sair pra dançar com amigos e perceber que nunca se está velho demais para isso; pode sair para beber e ter a melhor noite de conversa da vida; pode simplesmente segurar a mão de alguém em silêncio e dar todo conforto que é necessário. A gente pode aproveitar uma tarde inteira só brincando com os pequenos e descobrir que a gente é muito mais cuidado por eles que cuida deles. Pode viajar para lugares que nunca visitou e se apaixonar por lá e pode voltar para os lugares por que se apaixonou antes. A gente pode encontrar todos os dias pequenas coisas mínimas que fazem valer a pena. E, sabe, é isso que impulsiona a gente para enfrentar todos os leões e motoristas loucos e o trânsito caótico e as notícias trágicas do Jornal Nacional.
Se eu posso escolher, eu escolho viver e ser feliz. Todo dia.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Já vai tarde
Lembro bem de dizer, lá no janeiro trágico, que a única coisa que eu esperava desse ano era que ele acabasse logo. Eu queria chegar ao depois disso, eu queria poder me afastar disso, desse processo todo, e dizer que tinha conseguido. Porque disso eu tinha certeza. Eu ia conseguir. Não sei se era exatamente assim e sei que, muitas vezes, essa certeza se afastou de mim. Mas, de algum modo, eu sabia que sobreviveria. Eu queria o distanciamento temporal que permite dores mais amenas e saudade mais tranquila, certa nostalgia, aquele suspiro pelo que se foi e não volta mais. Eu queria dormir e acordar em 2011. Sim, a barra foi pesadíssima (ainda está sendo pesada agora). E eu queria só sobreviver e apertar o botão para pular logo esse capítulo. 2010 foi avassalador, foi transformador e foi muita dor. Eu queria sobreviver, eu queria superar, eu queria passar por isso rápido. Até porque eu não faço o tipo que se entrega, que faz corpo mole, que se faz de coitadinha... Eu queria terminar logo esse ano e sair dele andando, em pé. Eu não queria chegar aqui me arrastando, deprimida, cabisbaixa, sem chão. Eu quis tanto, tanto que esse ano acabasse rápido que, agora, quando eu vejo no calendário DEZEMBRO chegando, uma sensação de alívio toma conta de mim. Vai-te embora, pior ano da minha vida! E já vai tarde!
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