segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Não dá para ser indiferente

Há solidariedade no sofrimento e uma sensibilidade incrível quando você sobreviveu a dores severas demais. Você sabe que não pode tocar em certos pontos. Você sabe que não deve dizer certas coisas. Você toma cuidado ao chegar perto de alguém que sofre. Você assiste aos olhos lacrimejando e à voz embargar e reconhece o peso daquilo tudo. Você vê o quão difícil é. Você percebe o esforço maior que a força. E, assim, de espectador, você se transforma em personagem da dor. Simplesmente porque não dá mais pra ser indiferente com a dor de ninguém.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Pagamento

Depois de mais de um ano, depois de milhares de ligações DDD e tentativas vãs, recebo enfim o pagamento devido a ele pelo município ao qual se dirigia quando sofreu o acidente. Recebi em cheque e tô cruzando os dedos para que tenha fundos.

E ainda tem dinheiro por aí a receber... Preciso de mais força, porque eu já estou começando a desistir de certas coisas.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Cartas para você XXIII

Thi,

Sabemos ambos que nada mais vai reconstituir o que tivemos. Não dá pra voltar atrás, não dá pra lutar contra o irreversível. A única coisa que nos cabe é fazer o melhor que pudermos, da melhor maneira que conseguirmos, para sofrer menos, para viver melhor, para trazer tranquilidade e paz para os pequenos. A distância físico-temporal que nos separa hoje parece intransponível, parece insuportável, parece demais. Aprender a lidar com ela é a minha meta, é o meu objetivo.

Egoísta como eu sou, egocêntrica como sempre fui, nunca pensei muito na sua dor. Meu foco era única e exclusivamente o que latejava em mim. E doía/doeu/dói demais não ter você aqui. Falei do desespero, do medo, da sensação de fracasso, de vida partida... Contei para você e para quem mais se dispusesse a vir ler minha vida. Mas eu não pensei na sua dor, mozinho. Eu nem quis pensar no sentimento que deveria tomar conta de você, a sensação de não estar perto das pessoas que você amava, de não estar por perto enquanto os seus filhos vão crescendo...

Eu falei do quanto EU sentiria falta e do quanto ME partiria ao meio vê-los crescer sem você, sem a referência que você era, sem o seu exemplo, sem suas orientações. Mas eu não pensei na SUA saudade, no SEU pesar. Eu tinha que lidar com a minha dor, eu tinha que aprender a conviver com ela, eu tinha que fazê-la caber e depois se acomodar dentro de mim e, assim, não me preocupei com VOCÊ. Eu sei, é a minha cara e eu sou mesmo egoísta.

Porém, bebeim, agora que o tempo passou e que as coisas se acomodaram dentro de mim, de um jeito meio troncho e ainda meio bagunçado é claro; eu sinto que é preciso dizer a você que a gente vai indo bem por aqui e que você não precisa se preocupar porque, por mais que eu perca o juízo e arranque cabelos em alguns momentos, eu consegui manter o prumo, a ordem, a rotina. E eu fiz isso tudo basicamente porque eu me espelhei no que você era, na maneira como você agia: nada é para amanhã, fazer tudo que der para fazer hoje, resolver problemas com simplicidade e sorrisos, nada de desespero, nada de perder noites de sono, tudo sempre dá certo. Isso era você e isso tudo eu internalizei para tocar a minha vida e a dos nossos pequenos.

A gente tá bem aqui, mesmo sem você, mesmo com essa cicatriz que ora lateja, ora sangra, ora arde, ora queima, ora descansa em paz, ora cicatriza. Se eu refletir sobre as minhas angústias e medos de um ano atrás e comparar com o meu presente, eu consigo identificar claramente uma evolução na mulher, na mãe, na  pessoa, até na contribuinte (que o diga a Fazenda Pública!) que eu sou. Para além da evolução psicológica, existem também as conquistas materiais, a acomodação que eu consegui fazer no nosso padrão de vida, mozinho. Isso também é uma conquista pra mim.

Ontem eu tive esse insight e refleti muito sobre seu sofrimento. Eu quero muito que você entenda e perceba que eu me virei, eu dei meus pulos, eu contei com ajuda significativa dos nossos inúmeros amigos, e saiu tudo direitinho. Muito melhor do que suspus, muito mais do que imaginei. E agora, Thi, é a hora da gente seguir. Nós todos, nós quatro.  O seu sofrimento também tem que terminar. A saudade é saudável, é inevitável; mas o sofrimento não, meu amor! Até você tem que buscar sua paz, seu descanso, sua tranquilidade, seu porto. Assim como eu procuro por aqui.

Não sei se você me ouve/vê/lê, não sei; mas onde quer que você esteja, Thi, saiba que estamos bem e que a gente quer que você fique em paz para sempre.

Amamos você demais!

Moreninha, Grandão e Gorducho.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Dia de dilúvio e mais uma do Matheus

Ai, né? A gente acorda às 6 da madrugada para levar os pequenos no primeiro dia de aula, banhos, dentes, cafés, maquiagem, bolsa, chaves. Todo mundo sai de casa às 7:10. A escola fica a três quadras do prédio, mas como São Pedro resolveu chover a chuva do ano todo, fomos de carro. O engarrafamento vinha até quase a portaria do prédio e, como ela era esperta, resolveu pegar uma via colateral e desviar da longa fila de carros. Ela não contava com os alagamentos e a correnteza que se formava nas ruas. Ela não contava com a má vontade das pessoas, que se tornam animalescas no trânsito. Ela não contava que a água batesse na porta do carro. Ela não contava com a possibilidade de não ter para onde correr, de não ter como fugir do engarrafamento. E ficou lá, literalmente parada por longos minutos, quarenta minutos. PA_RA_DA! Ela, dentro do carro, com duas crianças pequenas, o coração aos pulos e cantando música da Xuxa-só-para-baixinhos, para que eles não percebessem a aflição da mãe. Sem ter para onde ir nem o que fazer a não ser esperar.

Foi quando, de repente, o mais velho disse:

_ Mãe, pára de cantar que o papai tá falando comigo e eu quero ouvir.
_ (!!!) Certo. O que ele tá dizendo?
_ Espera, mãe!
_ ...
_ Tá certo, papai! Mãe, ele disse que está muito orgulhoso porque eu tô indo para escola nova, que ele tá feliz e olhando pra gente e que o acidente foi sem querer.
_ :~|

Eu confesso que eu não sei de onde ele tira essas coisas.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Pisca-pisca

"- A vida da gente, senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme-e-acorda, dorme-e-acorda, até que dorme e não acorda mais.

[...] A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e anda; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela ultima vez e morre.

_ E depois que morre? – perguntou Visconde.

_ Depois que morre vira hipótese. É ou não é?"

[Monteiro Lobato, excerto de Memórias da Emília (1936)]

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Cartas para você XXII

Thi,

Um ano se passou desde aquele dia de janeiro trágico. Um ano sem seu coração bater no mundo. Um ano sem sua presença. Um ano sem ver o sorriso mais lindo que eu já vi. Um ano inteiro: todas datas, todas as comemorações, todos os momentos sem você. Confesso que, para mim, ainda é muito difícil acreditar que você se foi. Olhos suas fotos na nossa casa e me pergunto como pode um cara tão bacana não estar mais aqui. Eu me pergunto, Thi; eu não me conformo. Por isso mesmo, na maior parte do tempo, eu prefiro não pensar muito. Concentro-me nas tarefas e obrigações imediatas, nos nossos pequenos (grandão e gorducho, para você), concentro-me no dia a dia e vou.

Sabe, mozinho, não foi fácil estar sem você até agora. A vida é outra e eu também me tornei outra pessoa. Muita gente me diz isso, que é incrível perceber a mudança em mim depois desse ano. E nem sei até que ponto isso é bom. De alguma forma, eu sinto falta da minha superficialidade, da minha leveza, da minha alegria, da minha ausência de preocupações de antes. Era leve, era fácil, era seguro... Mas enfim, a gente faz o que dá pra ser feito, né? Eu continuo tentando daqui.

Preciso contar que adoro receber suas "visitas" sorrateiras. Eu sinto você e acho que esse foi seu jeito de dar um jeito da gente se "encontrar". Eu sei que você sabe que outros mecanismos não funcionariam com a descrente aqui, com a "incréu", como diria a mamãe. E é bom sentir que, de algum modo, o seu amor chega até mim e, através de mim, até eles. Suas visitas me devolvem uma certa convicção de que você permanece ao nosso lado, que cuida da gente do jeito que dá e que assiste o desenvolver dos nossos pequenos. Espero que seja mesmo isso e não apenas fruto dos desejos do meu inconsciente irresignado com a sua partida.

Sempre que eu sinto você por perto, a vontade que eu tenho é de não abrir os olhos, é tentar impedir o desvanecer do intangível. Sabe criança segurando firme e com três voltas na mão um balão de gás para que ele não voe embora? Sou eu! Eu quero segurar a sensação da sua presença, segurar a visão e ouvir sua voz e conversar com você... Eu queria perguntar tanta coisa, mozinho, mas eu num consigo, nunca me lembro. Espero que você esteja feliz com o que temos aprontado aqui e que haja uma razão plausível para tudo isso e, mais que tudo, que essa razão tenha trazido a conformação de que você precisa, porque eu sei que a mesma revolta que me assolou o peito deve ter assolado o seu.

Mozinho, acho que a hora é de se despedir das lágrimas, da dor, do luto, da sensação de vida partida, de ferida aberta... Você concordaria com isso. Quero ser feliz, meu amor, do mesmo jeito que fomos juntos. Do mesmo jeito que sabíamos, como diz a Izabel, ser e fazer. Foi muito, muito, muito mais que maravilhoso ter você na minha vida. Foi muito lindo o que a gente viveu. E eu tenho certeza de que eu nunca vou me esquecer disso tudo e, quando a vida me parecer injusta, eu vou tentar lembrar do brilho do seu olhar quando olhava para a família que somos.

Eu sei que você vai me ajudar em tudo e, por isso, eu sei que vou conseguir.

Amo você demais e para sempre!

Moreninha.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Céu azul após a tempestade...

Não chove para sempre. É preciso mudar o foco. O ciclo se encerra. A vida já mudou e encarar a realidade que se apresenta é preciso. Por isso e por muito mais coisa, resolvi criar um blog novo que caminhará em paralelo. É preciso falar de coisa boa também.

Céu azul após a tempestade

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A Missa de Um ano

Então, teve a missa ontem. E, dentre a surpresa pela presença de cerca de 200 pessoas e a tristeza de ver fotos dele no livrinho de mais uma missa de morte, o que mais me marcou na noite de ontem foi a maturidade do Matheus. Nesse período todo, a lucidez e a inteligência dele me surpreenderam sobremaneira. Mas ontem...

Momento 1 - A gente dividia flores para o ofertório. Aí ele chega com uma nas mãos e me diz: "Mamãe, você tem quem fingir que essa daqui foi o papai que mandou, certo?".

Momento 2 - Eu chorando muito, ele se aproxima e diz: "Mamãe, você não precisa chorar porque eu tô aqui..."

Momento 3 - "Mamãe, você nunca estará sozinha. Eu sempre vou estar com você. Se você tivesse perdido os seus filhos é que você iria se sentir sozinha..."

Momento 4 - "Mamãe, eu te amo, me dá um abraço? Pronto, agora passou né?"

Momento 5 - Em casa já, ele fez questão de dormir comigo na minha cama e sabe o que ele fez??? CA_FU_NÉ.

Lindo demais meu menino!

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Eis o texto que eu li na missa:

Durante este ano inteiro, eu busquei freneticamente maneiras de superar a realização do meu pior pesadelo. Digo pior pesadelo porque pior que isso nunca nem passou pela minha cabeça. E, após os dois piores dias da minha vida, ao voltar pra casa e me ver sozinha, com duas crianças tão pequenas e sem ele, eu não consigo mais descrever a sensação que me acometia. Eu não consigo encontrar a palavra adequada porque é maior que desespero, é maior que solidão, é maior que dor, é maior do que consigo racionalmente conceber.

Eu entrava no meu quarto e me perguntava como conseguiria viver sem ele ali, como eu conseguiria dormir e acordar na nossa cama, fazer as refeições na nossa mesa, entrar e sair da nossa casa, me deparando com a declaração de amor no espelho do banheiro, com fotos, objetos, roupas, espaços, lembranças e toda a nossa história diariamente. Eu me perguntava como conseguiria simplesmente respirar porque parecia que estavam torcendo meu peito encharcado de dor, como quem torce roupa recém lavada.

Passado um ano, eu concluo que eu não vivi aqueles dias, eu apenas sobrevivi. Inspirando e expirando, chorando convulsivamente muitas noites, tampando a boca com uma toalha e evitando, no meu mais profundo esforço, trazer sequelas ainda maiores para os dois pequenos que ele me deixou. Sobrevivi, primeiramente, justamente por causa destes dois. Mas eu não poderia nunca deixar de fazer referência aos nossos amigos, aqui incluídos todos os familiares, que me ajudaram nesse processo todo. Sobrevivi por mim e por causa de vocês também.

Passado um ano, eu ainda me pergunto se algum dia essa dor vai parar de doer, se esse talho será só uma cicatriz que já não sangra, se essas reviravoltas de sentimentos se acabarão... Passado um ano, eu espero pelo momento em que será só uma boa lembrança, doces recordações que deixaram um gostinho de queria-muito-mais... Porque sempre que eu penso que a vida tá ficando leve e amena, eu esbarro na covinha da bochecha direita do Matheus ou no dedão do pé bolotinha. Quando eu penso que já nem lembro, o Thomás faz uma gracinha ou se lambuza todo com chocolate. Quando eu acho que está superado, eu sonho com os sonhos que planejamos juntos. Quando eu sinto a vida seguindo um rumo novo, outro, diferente; sempre me vem à cabeça que qualquer coisa seria muito melhor com ele por perto.

E, assim, dando muitos passos para frente e alguns para trás, eu sigo minha vida, me sentindo ainda muito ligada a ele porque ele permanece vivo nesses dois pequenos, com a certeza de que nem essa distância de tempo-espaço será capaz de destruir ou apagar a história linda que construímos.

Por fim, uma música poema diz exatamente o que eu queria dizer pra ele:

"Que é que eu vou fazer pra te esquecer?
Sempre que já nem me lembro, lembras pra mim
Cada sonho teu me abraça ao acordar
como um anjo lindo
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
Que nenhum adeus pode apagar...

Que é que eu vou fazer pra te deixar?
Sempre que eu apresso o passo, passas por mim
E um silêncio teu me pede pra voltar
Ao te ver seguindo
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
Que nenhum adeus pode apagar...

Que é que eu vou fazer pra te lembrar?
Como tantos que eu conheço e esqueço de amar
Em que espelho teu sou eu que vou estar
a te ver sorrindo?
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
QUE NENHUM ADEUS VAI APAGAR..."
(Pra te lembrar - Caetano Veloso)

Thi, nenhum adeus vai apagar seu sorriso lindo dos nossos corações!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O dia 20/01/2010


Acordou aquele dia com a mesma preguiça de todos os dias feira. Queria ficar ali deitada por mais alguns minutinhos, mas já ouvia as crianças com seus gargalhar e corre-corre na sala, sabia que precisava se levantar e enfrentar a rotina. Queimavam-lhe ainda na pele os beijos muitos e os afagos que recebera do marido, que se levantara cedo para o trabalho, que, neste dia especificamente, seria numa cidade do interior do estado, algumas horas de carro. Ele sempre era muito carinhoso e ela era sempre resmungona pela manhã, sofria de um terrível mau humor matinal e acordava quase sempre ensimesmada. Precisava de silêncio para pegar no tranco e isso podia levar algumas horas.
Levantou, enfim. Queria tomar um banho quente, mas sabia que a água gelada é que é boa pra espantar a preguiça, tomou o café trivial de todos os dias e saiu no carro com as crianças. Eles, escola; ela, trabalho. Era uma quarta-feira modorrenta, no alto verão de janeiro, ela ouvia uma música qualquer no rádio e chegou ao trabalho no horário de costume.
Sentou, ligou o computador, pegou um cafezinho e um copo d’água e ficou lá a bater os dedos no teclado, com o rosto sério e compenetrado, esperando o mau humor matinal passar para então puxar assuntos com os colegas nas mesas ao redor. Levantou para pegar uma impressão e o telefone tocou. Era a babá das crianças, informando que ligaram para a casa dela dando notícias de que um acidente acontecera na estrada com o marido.
Ficou tudo nebuloso, então. Primeiro pensamento foi: isso é trote daquele irresponsável do melhor amigo dele, vive pregando peças na gente. Segundo pensamento: vou ligar para a Prefeitura do Município, para saber da ocorrência de acidentes na região. E tentou, os números estavam ocupados. Tentou o celular dele, fora de área. Tentou o Hospital Municipal, a Secretaria de Saúde, a Delegacia de Polícia. Nada, nada, nada. E começou a surgir dentro dela a angústia de quem antevia o pior.
O alarme estava soando dentro da cabeça dela, as mãos começaram a tremer e lágrimas começavam a brotar sem ela entender direito o porquê. Não conseguia falar com ele e não conseguia falar com ninguém que confirmasse ou desmentisse a história absurda. Os colegas do trabalho começaram a tentar ajudar e a buscar notícias e contatar pessoas, porque, neste ponto, ela não tinha mais condições nem de segurar o telefone com as mãos.
Deixou a sala onde trabalhava e correu para o banheiro porque o estômago revirava e o jeito que ela enfrenta esses momentos de angústia é esse: coloca tudo pra fora, sem parar. O telefone tocou, era o cunhado dizendo que estava indo lá para a tal cidade para saber o que tinha acontecido. Perguntou se ela iria, ela disse que sim.
Só então, ligou para os irmãos, para que algum deles fosse lá na empresa em que ela trabalha pegar o carro dela. Saiu antes deles chegarem, em direção à estrada, meio muda e muito estupefata. Foi pensando na forma como ele dirigia, sempre confiante, sempre achando que não havia nada demais nas ultrapassagens e no excesso de velocidade. Foi pensando na forma como ele comparava o próprio carro com um avião e do dia, três meses antes, em que comprara o carro, zerinho, zerinho...
Fez ligações para as pessoas que conhecia na cidade onde o acidente ocorrera, para os amigos que tinham parentes no local, tentou os melhores amigos todos... Ninguém dava informação alguma. Ela, o cunhado e a sogra tensos, sem saber de nada. Todo mundo calado no carro, e o embrulho no estômago dela não passava. Ligou para um amigo que trabalhava no principal hospital da região, ele tava de férias, mas foi até lá para se informar e dar notícias mais precisas.
O telefone toca de novo, uma grande amiga aos prantos pedindo pra ela dizer que era mentira. Ela, sem entender quase nada, explica que é verdade, que o marido sofrera um acidente, mas que ninguém sabia detalhes, que ela estava a caminho da tal cidade e só então poderia dar notícias. A amiga diz então que terceira pessoa dissera que ele morrera. Ela diz que ninguém sabe nada ainda e desliga.
Porque a negação faz parte, porque era surreal demais para que ela acreditasse, porque não podia ser verdade. Ela nem cogitou, ela nem dividiu com ninguém, ela nem falou o que a amiga dissera no telefone. Ela simplesmente continuou calada, olhando as coisas passando na janela do carro, enquanto ele seguia seu rumo.
O amigo que trabalhava no hospital da região ligou e informou que o marido não estava sendo encaminhado para lá, mas para o hospital municipal da pequena cidade mais próxima do acidente. Ela ficou meio aliviada, afinal de contas, se fosse algo grave, ele iria para o hospital com estrutura melhor. E, nesse momento, veio na cabeça dela imagens do que poderia ter acontecido: algumas escoriações, alguns ossos quebrados, e ela anteviu o carão que daria nele por correr e por dirigir imprudentemente.
O amigo disse ainda que pegaria a estrada até a cidade vizinha e que ligaria assim que chegasse lá. Ela nem desconfiou de nada. O coração ainda esta aos saltos, mas ela queria acreditar que era uma boa notícia. Mas quando o telefone tocou de novo, e o amigo informou que ela tinha mesmo que ir pra lá porque ele havia morrido, pareceu-lhe que o mundo se partiu, que um buraco foi aberto  sob os pés dela e a Terra a engoliu.
Ela repetiu mecanicamente a notícia para as pessoas no carro. O cunhado encostou, enquanto a sogra chorava ao lado. E, sem saber o que fazer, falar, pensar, ela teve uma certeza: não queria ver o carro, nem ele todo machucado, não queria ir reconhecer o corpo e pegar os bens dele, não queria estar lá nesse momento. Ela queria ir pra casa, deitar na cama, ficar sozinha pra chorar. E disse: eu não quero mais ir pra lá, eu não vou agüentar!
Voltou pra casa e em meia hora a casa estava cheia de gente. Os pequenos foram tirados dali, juntamente com a babá porque ninguém sabia como olhar para eles, nem o que dizer. Ela nem sentia que estava dentro do próprio corpo, tudo parecia nebuloso. As lembranças são embaçadas e o tempo nem parece ter corrido normalmente.
Ela se  lembra de que havia muita gente, de que pessoas queridas compareceram, muita gente que ela nem conhecia, pacientes, colegas de trabalho, amigos vieram dos quatro cantos do país. Ela se lembra de ter recebido muitos abraços, de não conseguir conter as lágrimas, de não reconhecer as pessoas, nem o mundo, de ter a sensação de que a vida dela terminaria junto com a dele. Ela se lembra das promessas que fez sobre o caixão, mas não lembra do semblante dele lá. A imagem dele na memória dela é sempre vivo, é sempre um sorriso, é sempre muito carinho.
Houve um longo velório e um enterro num fim de tarde, quando o sol faz sombras compridas. Houve lágrimas demais, tentativas de sedar um pouco o que latejava, houve mãos, ombros, abraços apertados, muita solidariedade. Houve gente querida e amiga. O pior de todos os dias, na verdade, durou dois. Ela não sabe como passou por ele, ela não sabe como conseguiu. Mas ela, fiapo de gente, farrapo de sentimentos, estraçalhada pela dor de perder o homem da vida, consumida pelo desespero sobreviveu. E eu estou aqui para contar.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

That's exactly what I needed

Rocky

"The world ain't all sunshine and rainbows. It's a very mean and nasty place, and I don't care how tough you are it will beat you to your knees and keep you there if you let it. You, me or nobody is gonna hit you as hard as life. But it ain't about how hard you hit. It's  about how hard you can get hit and keep moving forward, how much you can take and keep moving forward. That's how winning is done. if you know what you're worth, go and get what you're worth. But you gotta be willing to take the hits and not pointing fingers saying you ain't where you wanna be because of him or her or anybody. Cowards do that and that ain't you! You better than that!"