Eu já falei aqui como eu sinto a dor daqueles que eu quero muito bem. Não é fácil assistir passiva e impotentemente alguém que eu amo sofrer. Ouvir o choro que sai como se de um animal ferido, ouvir a voz embargar, ver a dor pesar os olhos e transfigurar o rosto, me corta coração, me enche de tristeza, me molha os olhos como se comigo fosse. Eu não consigo ser indiferente e me sinto culpada demais por não poder fazer absolutamente nada. Esse fim de semana, três pessoas das mais queridas em minha vida estão passando por esses momentos de escuridão, de sensação de perdido, de dor.
Cada dor dessa, que meus queridos carregam, é única, pessoal e intransferível. Cada dor dessa com motivos tão diferentes entre si inunda o ser de cada um deles, pessoas tão próximas a mim, de maneira que é capaz de estragar um dia, pintar de cinza um céu bonito, fazer perder a fé na vida e a esperança, fazer achar que não vale a pena. Cada dor dessa, que na verdade é deles, dói em mim também e escurece o meu viver.
Corta o coração acompanhá-los assim tão de perto, ouvi-los lamentar, chorar, pesar. Dilacera-me ser essa pessoa com tantos problemas pessoais, pendências a resolver, contas a pagar, coisas a fazer que não posso ser para cada um deles o ombro amigo que merecem. Quisera eu poder fazer muito mais e solucionar o sem-solução de cada um e, para os casos em que isso não fosse possível, simplesmente ajudar a anestesiar o que é lancinante. Quisera eu ter o poder de fazê-los passar por isso sem sofrer tanto, sem rasgar tanto a alma. Quisera eu poder ajudar quem quer fugir a suportar ficar; quem quer convencer a acreditar no sim e quem quer sentir a superar.
Eu não tenho esse poder, e me conformo em saber que sou um bom ouvido para partilhar também quando dói e que eles contam comigo e confiam nas opiniões que dou. Sei, com a convicção de quem viveu a dor, que chega o momento em que tudo se assenta dentro da gente. Sei que a gente sobrevive e supera e tudo se ajeita, confirmando o clichê que diz que tudo dá certo no final. Sei que estarei por perto, ainda que em silêncio, ainda que apenas com um abraço, ainda que apenas com pensamentos e desejos bons, ainda que toda ouvidos, para que vocês saibam que há alguém mais no mundo que compartilha o sofrimento com vocês e que está do lado também nos dias de deserto.
Amo vocês três e tenho certeza que vocês sabem quem são!
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domingo, 15 de maio de 2011
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Sobre feridas magoadas
Com as alegrias e tristezas, com os sorrisos e as lágrimas, com as paixões e os desamores que vivi, eu descobri que pouco do que sentimos tem a ver com escolha pessoal. A gente não tem controle sobre quase nada no que pertine aos sentimentos. A gente não escolhe por quem vai se apaixonar e não há razão lógica alguma. Não é porque é alto, bonito, ombros largos e mãos fortes; não é porque é doce, delicado, educado e gentil; não é porque sabe dirigir bem e cantar afinadinho baixinho ao pé do ouvido... É porque é aquela pessoa, é o jeito dela, o cheiro dela, o beijo dela e fim. Ninguém mais no mundo olha nos seus olhos daquele jeito e pronto, isso basta.
A gente também não escolhe quem serão nossos melhores amigos. É uma empatia que nasce quase instantânea e recíprocamente e cresce e vira rotina, vira bem querer, vira amor. A pessoa estava lá quando você furou o pneu do carro às 18h, antes da prova final daquela cadeira da faculdade. A pessoa estava lá quando você terminou aquele namoro de anos e as lágrimas pareciam não ter fim. Estava lá também quando você e aquele alguém especial fizeram juras de amor na frente de um juiz de paz. Estava lá quando seu filho nasceu, segurou sua mão, comprou revistas, brindou na maternidade com pessoas queridas. A pessoa estava lá com ombros, mãos, braços, abraços, dinheiro, carro, lexotan e o que mais fosse preciso quando o pior de todos os momentos aconteceu. E esteve, está e estará sempre.
Acontece, vezenquando, das pessoas sumirem das nossas vidas. Em se tratando de amor, é difícil, dói tanto, faz caquinhos do coração... Entra-se num período de luto pelo fim da relação. E eu, particularmente, acho que um ex-amor pode virar, sim, perfeitamente, uma linda amizade. Em se tratando de amizade, na maior parte das vezes, não é nada, é um distanciamento temporário, é um afastamento com prazo de validade. Porque quando a gente quer bem a alguém, a gente sabe que longos períodos de silêncio servem apenas para alongar conversas futuras. A não ser que. E é esse o ponto que eu queria falar. A não ser que haja feridas que não foram tratadas e nem cicatrizadas.
E as feridas, minha gente, podem gangrenar e apodrecer qualquer relação, por mais amor que exista, por maior que seja a consideração, por mais que seja longa e duradoura a relação. As feridas mais profundas necessitam de tratamento intensivo e cauteloso, vigília constante e antibióticos potentes. As feridas são as únicas capazes de desatar laço por laço, de dizimar o bem querer, de exterminar a reciprocidade de qualquer relação. As feridas, se não tratadas e cuidadas com carinho e afeto, podem fazer nascer desdém onde antes existia amor; fazer brotar incredulidade onde antes havia confiança; fazer crescer indiferença no mesmo coração que nutriu todo o bem querer. A gente não tem poder sobre aquilo que sente e quando alguém nos fere, o que nos resta a fazer é informar que doeu. Uma vez informado, espera-se pela capacidade do outro de entendimento e percepção do mal causado.
Não sei até que ponto é possível cicatrizar o que foi ferido por objeto perfuro-cortante pronfundo demais. Também não sei se as feridas antigas realmente se fecham. De todo modo, eu SEI que a gente não tem controle sobre o que sente e sei (espero) também que resta uma enorme cicatriz no depois.
A gente também não escolhe quem serão nossos melhores amigos. É uma empatia que nasce quase instantânea e recíprocamente e cresce e vira rotina, vira bem querer, vira amor. A pessoa estava lá quando você furou o pneu do carro às 18h, antes da prova final daquela cadeira da faculdade. A pessoa estava lá quando você terminou aquele namoro de anos e as lágrimas pareciam não ter fim. Estava lá também quando você e aquele alguém especial fizeram juras de amor na frente de um juiz de paz. Estava lá quando seu filho nasceu, segurou sua mão, comprou revistas, brindou na maternidade com pessoas queridas. A pessoa estava lá com ombros, mãos, braços, abraços, dinheiro, carro, lexotan e o que mais fosse preciso quando o pior de todos os momentos aconteceu. E esteve, está e estará sempre.
Acontece, vezenquando, das pessoas sumirem das nossas vidas. Em se tratando de amor, é difícil, dói tanto, faz caquinhos do coração... Entra-se num período de luto pelo fim da relação. E eu, particularmente, acho que um ex-amor pode virar, sim, perfeitamente, uma linda amizade. Em se tratando de amizade, na maior parte das vezes, não é nada, é um distanciamento temporário, é um afastamento com prazo de validade. Porque quando a gente quer bem a alguém, a gente sabe que longos períodos de silêncio servem apenas para alongar conversas futuras. A não ser que. E é esse o ponto que eu queria falar. A não ser que haja feridas que não foram tratadas e nem cicatrizadas.
E as feridas, minha gente, podem gangrenar e apodrecer qualquer relação, por mais amor que exista, por maior que seja a consideração, por mais que seja longa e duradoura a relação. As feridas mais profundas necessitam de tratamento intensivo e cauteloso, vigília constante e antibióticos potentes. As feridas são as únicas capazes de desatar laço por laço, de dizimar o bem querer, de exterminar a reciprocidade de qualquer relação. As feridas, se não tratadas e cuidadas com carinho e afeto, podem fazer nascer desdém onde antes existia amor; fazer brotar incredulidade onde antes havia confiança; fazer crescer indiferença no mesmo coração que nutriu todo o bem querer. A gente não tem poder sobre aquilo que sente e quando alguém nos fere, o que nos resta a fazer é informar que doeu. Uma vez informado, espera-se pela capacidade do outro de entendimento e percepção do mal causado.
Não sei até que ponto é possível cicatrizar o que foi ferido por objeto perfuro-cortante pronfundo demais. Também não sei se as feridas antigas realmente se fecham. De todo modo, eu SEI que a gente não tem controle sobre o que sente e sei (espero) também que resta uma enorme cicatriz no depois.
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domingo, 1 de maio de 2011
Um café quente numa tarde fria
"E, fatalmente, vão se cruzar por aí. São tantas as esquinas. Vocês vão beber um café quente juntos, falar amenidades, sobre novos cortes de cabelo, você está bonita, e você mais maduro, como está sua mãe e tudo mais. Nos momentos de silêncio, baixarão o queixo, com medo de amarrar olhares e, talvez, voltar tudo aquilo outra vez. Mas vai ser só isso." (Gabito Nunes)
Mas, sabe, eu não queria que fosse só isso, eu não queria que fosse mais uma vez uma coisa qualquer, um encontro qualquer, com qualquer pessoa insignificante que era uma vez esteve ali... Eu não queria tratar isso como sou tentada a tratar: palavras frias e promessas vãs que jamais serão cumpridas. Eu queria acreditar de novo e sentir importante, sentir inigualável, sentir transcendental. Eu queria olhar e reconhecer, sem precisar falar nada, como foi um dia. Eu queria abraçar apertado como quem muito quer bem e só sabe expressar dessa forma. Eu queria ouvir sua risada calorosa me animar a alma novamente. Eu queria me sentir íntima, próxima, querida. Eu queria que fosse muito mais que um café quente numa tarde fria de final de abril. Eu queria que fosse perene. Eu queria que fosse verdade. Eu queria acreditar, mas ainda não dá. As feridas que se abriram em mim sangram e molham meu rosto e eu preciso de tratamento intensivo para recuperar o que foi destroçado. Quem sabe, um dia, seja só uma cicatriz. Quem sabe, um dia, a gente ria disso junto, levantando taças numa mesa de bar. Quem sabe, um dia, façamos piada desse inverno. Assim espero. Assim espero.
Mas, sabe, eu não queria que fosse só isso, eu não queria que fosse mais uma vez uma coisa qualquer, um encontro qualquer, com qualquer pessoa insignificante que era uma vez esteve ali... Eu não queria tratar isso como sou tentada a tratar: palavras frias e promessas vãs que jamais serão cumpridas. Eu queria acreditar de novo e sentir importante, sentir inigualável, sentir transcendental. Eu queria olhar e reconhecer, sem precisar falar nada, como foi um dia. Eu queria abraçar apertado como quem muito quer bem e só sabe expressar dessa forma. Eu queria ouvir sua risada calorosa me animar a alma novamente. Eu queria me sentir íntima, próxima, querida. Eu queria que fosse muito mais que um café quente numa tarde fria de final de abril. Eu queria que fosse perene. Eu queria que fosse verdade. Eu queria acreditar, mas ainda não dá. As feridas que se abriram em mim sangram e molham meu rosto e eu preciso de tratamento intensivo para recuperar o que foi destroçado. Quem sabe, um dia, seja só uma cicatriz. Quem sabe, um dia, a gente ria disso junto, levantando taças numa mesa de bar. Quem sabe, um dia, façamos piada desse inverno. Assim espero. Assim espero.
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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Não dá para ser indiferente
Há solidariedade no sofrimento e uma sensibilidade incrível quando você sobreviveu a dores severas demais. Você sabe que não pode tocar em certos pontos. Você sabe que não deve dizer certas coisas. Você toma cuidado ao chegar perto de alguém que sofre. Você assiste aos olhos lacrimejando e à voz embargar e reconhece o peso daquilo tudo. Você vê o quão difícil é. Você percebe o esforço maior que a força. E, assim, de espectador, você se transforma em personagem da dor. Simplesmente porque não dá mais pra ser indiferente com a dor de ninguém.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
A tragédia faz aniversário
Na semana em que a tragédia faz aniversário, tudo vira um enorme contrassenso. As vontades são contraditórias. Eu quero ficar sozinha para poder soluçar em lágrimas o que dói e quero companhia, carinho, atenção e alguém para me ouvir. Eu quero esquecer do que vivi e quero as lembranças mais doces aquecendo minha alma. Eu quero não falar nesse assunto, mas ele se repete na minha mente. Eu quero fingir que nada disso aconteceu e quero reverenciar o homem, o pai, o marido, o filho, o professor, o médico, a pessoa que ele foi. Eu quero me concentrar em tudo que é novo na minha vida, e não quero sair do meu lar.
Na semana em que a tragédia faz aniversário, tudo que eu construí se decompõe. Eu vejo as lágrimas marejarem os olhos na frente das pessoas, eu falo dele com essa saudade que embarga a voz, eu levo o pequeno na escola e penso em como a presença dele seria significativa. Eu não sei porque vivo essa sensação de decadência e de fracasso, mesmo reconhecendo todas as conquistas obtidas nesse processo. Eu olho para o mundo com sono, com preguiça, com cansaço. Eu ando com ânsia de desistir de tudo e chutar o balde.
Na semana em que a tragédia faz aniversário, eu queria dormir e acordar semana que vem. Eu não queria que doesse, mas dói. Eu não queria sofrer, mas sofro. Eu não queria viver, mas sobrevivo. A minha vontade era de sumir e eu fico. E, a cada dia, algo novo me aperta o peito, me descompassa o coração, faz erupção nos olhos e me enverga as costas. A cada dia, eu reconheço o quanto é difícil estar num mundo em que ele simplesmente não existe mais. A cada dia, eu forço a barra e me obrigo a manter as coisas todas em ordens, preenchendo a mente e fingindo e fugindo.
Na semana em que a tragédia faz aniversário, eu percebo que eu tenho todo o resto da minha vida para me conformar com o que não se acostuma, para entender o que é incompreensível, para explicar o irrazoável, para superar o insuperável. E, assim, mesmo me sentindo minúscula, impotente, frágil e fraca, eu descubro que há uma força que me impele para frente e não me deixa desistir; mesmo com sono, mesmo cansada, mesmo com preguiça... Eu sinto numa quase convicção que há algo esperando por mim e que esse aniversário triste é definitivamente a linha de chegada dessa corrida, dessa batalha que começou há um ano.
Exaurida física e psicologicamente, tirando forças do tutano, e na iminência de desfalecer; eu sigo para cruzar a linha de chegada, momento em que respirarei aliviada pela sobrevivência e pelo fim.
Na semana em que a tragédia faz aniversário, tudo que eu construí se decompõe. Eu vejo as lágrimas marejarem os olhos na frente das pessoas, eu falo dele com essa saudade que embarga a voz, eu levo o pequeno na escola e penso em como a presença dele seria significativa. Eu não sei porque vivo essa sensação de decadência e de fracasso, mesmo reconhecendo todas as conquistas obtidas nesse processo. Eu olho para o mundo com sono, com preguiça, com cansaço. Eu ando com ânsia de desistir de tudo e chutar o balde.
Na semana em que a tragédia faz aniversário, eu queria dormir e acordar semana que vem. Eu não queria que doesse, mas dói. Eu não queria sofrer, mas sofro. Eu não queria viver, mas sobrevivo. A minha vontade era de sumir e eu fico. E, a cada dia, algo novo me aperta o peito, me descompassa o coração, faz erupção nos olhos e me enverga as costas. A cada dia, eu reconheço o quanto é difícil estar num mundo em que ele simplesmente não existe mais. A cada dia, eu forço a barra e me obrigo a manter as coisas todas em ordens, preenchendo a mente e fingindo e fugindo.
Na semana em que a tragédia faz aniversário, eu percebo que eu tenho todo o resto da minha vida para me conformar com o que não se acostuma, para entender o que é incompreensível, para explicar o irrazoável, para superar o insuperável. E, assim, mesmo me sentindo minúscula, impotente, frágil e fraca, eu descubro que há uma força que me impele para frente e não me deixa desistir; mesmo com sono, mesmo cansada, mesmo com preguiça... Eu sinto numa quase convicção que há algo esperando por mim e que esse aniversário triste é definitivamente a linha de chegada dessa corrida, dessa batalha que começou há um ano.
Exaurida física e psicologicamente, tirando forças do tutano, e na iminência de desfalecer; eu sigo para cruzar a linha de chegada, momento em que respirarei aliviada pela sobrevivência e pelo fim.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
A semana do aniversário
Na semana em que o pior de todos os dias faz aniversário, a dor se torna inescapável. Todas as técnicas desenvolvidas ao longo do último ano para fugir do que dói parecem imprestáveis. Tudo lembra, tudo machuca, tudo traz lágrimas aos olhos, desde o dedão bolotinha do pé do Matheus (igualzinho ao dele) até a mãozinha que eu tenho dado a uma amiga que acabou de se tornar mãe (o que me faz lembrar da segurança que eu tinha em casa). Tudo, absolutamente tudo que acontece me remete a alguma coisa que era ele ou dele. É como se meu inconsciente me dissesse que não, que nunca, que jamais essa dor vai sair de mim. Até quando eu durmo as lembranças me aparecem em sonhos e eu acordo chorando. Eu penso em outras coisas, eu escuto músicas de que ele não gostava, eu saio de casa, eu leio, converso com as pessoas e, no fundo - e na superfície também, a dor está. Fica tudo mais latente, mais sensível, mais carente e o que eu não consigo conter dentro explode em lágrimas para fora de mim. De repente, eu me pego chorando com uma música que tocou no rádio, que nem fazia sucesso quando ele estava vivo. Eu me pego chorando na frente do computador, enquanto desabafo via MSN sobre o meu medo dessa semana abalar meu psicológico profundamente. Eu me vejo chorando ao telefone, enquanto converso com quem quer me fazer me sentir melhor. Eu choro me fazendo questionamentos superados de "como? por quê?". Eu choro tentando barganhar com a vida na minha mente, dizendo que eu toparia até não ter mais, até que não fosse mais meu marido, que se tornasse um sacana comigo, desde que ele continuasse vivo para o mundo, para os pequenos. Eu só não consigo chorar com pessoas ao meu redor. Nesses momentos, eu aguento o tranco, engulo seco e então volto ao meu reduto banheiro-toalha-na-boca-madrugada quando o solavanco é maior que minha força. Choro até que as lágrimas sequem e acabo dormindo pesado e acordando com os olhos inchados da noite anterior. Seria tudo mais fácil se não, seria tudo mais simples, mais leve... Mas pensar no impossível não resolve meus problemas. E eu choro e penso que é só uma semana, é só o dia vinte do janeiro trágico fazendo aniversário, é só mais um pouquinho, é só dessa vez... Eu sofro e vem gente me arrancar sorrisos e dizer que está comigo... Eu sofro e, embora sem ele, eu não fiquei sozinha, como eu disse no velório dele que ficaria. Mas é que nessa semana, eu sofro e me sinto só de novo e não há mesmo como escapar dessa sensação.
* Missa de Um Ano de Morte de Thiago Castro:
Quinta-feira, 20 de janeiro de 2011, às 20h
Igreja N. Sra. Dos Remédios
Av. Da Universidade, 2974 - Benfica
(Quase em frente à Reitoria - UFC, vizinho ao Hospital Mira y Lopez)
* Missa de Um Ano de Morte de Thiago Castro:
Quinta-feira, 20 de janeiro de 2011, às 20h
Igreja N. Sra. Dos Remédios
Av. Da Universidade, 2974 - Benfica
(Quase em frente à Reitoria - UFC, vizinho ao Hospital Mira y Lopez)
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
Deve ser por isso
Há essa bagunça dentro de mim. Uma confusão de sentimentos que ora explode, ora se afunda, ora derrama, ora seca. Há coisas que eu deixo escondido embaixo do tapete do porão de dentro, porque nem eu mesma me sinto preparada para lidar com elas. Ficam lá, intocadas, esquecidas, a gente finge que não se vê, a gente finge que não se sabe. E assim, eu vivo a minha vida mais inteira, mais em pé. Preciso confessar também que eu não sei lidar muito bem com a dor, nem a física (limiar bem estreito) nem a emocional. Eu não sei lidar, eu não sei o que fazer, então eu fujo. Fujo do que faz doer, fujo do que faz tudo revirar. Às vezes, é óbvio, a dor é mais rápida que a minha carreira e a enxaqueca me derruba, o turbilhão de dentro me faz dobrar os joelhos. Mas o meu impulso quando me deparo com as dores inevitáveis da vida é correr delas. Não é uma atitude racional, é instintiva. É apenas questão de sobrevivência. Deve ser por isso que eu procuro levar a vida olhando pra frente, pra depois. Deve ser por isso que eu passo pelas coisas pisando firme, para andar por sobre elas e deixa-lás para trás. Deve ser por isso, nem eu sei, que tem gente que me chama de rocha, de fria, de guerreira... Deve ser por isso.
quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Awfully low
"Some day, when I'm awfully low,
When the world is cold,
I will feel a glow just thinking of you...
And the way you look tonight.
Yes you're lovely, with your smile so warm
And your cheeks so soft,
There is nothing for me but to love you,
And the way you look tonight.
With each word your tenderness grows,
Tearing my fear apart...
And that laugh that wrinkles your nose,
It touches my foolish heart.
Lovely ... Never, ever change.
Keep that breathless charm.
Won't you please arrange it ?
'Cause I love you ... Just the way you look tonight. "
Eu sempre cantava essa música para ele nas inúmeras festas de casamento a que fomos juntos. Era um sorriso muito envolvente e constante que ele tinha. Era muito carinho para com o mundo naquele olhar. Adorava vê-lo produzido no terninho (ele odiava e pedia pra tirar a cada 5 minutos).
Tem uma história engraçada de um casamento a que fomos juntos, de uma amiga dele da escola... Nesse dia, ele não quis de jeito nenhum colocar o terno. Usou uma blusa manga curta xadrez com uma calça social e só. Era fim de ano, faz muito calor nessa época. Quem o conheceu, sabe que ele pingava, escorria, derretia de suor. Mas eu achava um absurdo ele não usar o terno! Encontramos outros amigos na festa. E tiramos uma foto no celular com a comadre Dea só para mandar para o compadre Trabalhoso que tinha ficado em Sampa. Aí a gente recebe uma mensagem do compadre: "O trabalhoso aí pensou que era uma festa junina?".
Era assim que eles se amavam, se xingando sempre. Um chamava ao outro de trabalhoso. Um tinha têmporas gordas, dedos de salsicha, sudorese excessiva; o outro era pouca telha, barriga de pochete... E eu tenho saudade das nossas saídas, das nossas conversas, dele não querer atender as ligações do trabalhoso bêbado de madrugada e eu insistir pra que ele atendesse, porque poderia ser algo importante. Quando ele desligava, sempre dizia: "viu? era só cachaça!"; e eu dizia: "viu? ele é seu amigo! podia lembrar de um monte de gente e lembrou de você!".
Fim de ano sem ele não é a mesma coisa. Alguém que também sofre essa dor da ausência me disse: "Antes eu esperava ansiosamente para que o Natal chegasse; e agora eu só quero que passe logo!". Digo o mesmo. Passa logo tudo isso. Passa logo e bem rápido. Eu não quero ficar remoendo esse vazio que o dezembro me esfrega na cara.
Nesses dias em que eu estou awfully low and the world is cold, I feel a glow just thinking of you and the way you always looked at me...
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
A dor de agora
É claro que a dor que dói agora não é mais daquelas de enlouquecer, de perder o chão, de fazer com que o mundo perca a cor... A dor que dói agora é quase sempre suportável, silenciosa, incômoda. A dor que dói agora não me prostra, não me acama, não me derruba no chão. Vezenquando, ela vem assim avalanche, dilúvio, cataclisma. Mas, na maior parte dos momentos, ela é discreta, perene, serena. É uma dor que fica lá, mas não me vira ao avesso. É uma dor atropelada por tantos outros problemas cotidianos: filhos, casa, compras, contas. A dor de agora é uma dor amiga, companheira, fiel escudeira. E eu sei que nem sempre falo sobre ela, porque meus momentos de escrita-exorcismo acontecem invariavelmente quando o vulcão explode lá dentro de mim.
A dor que dói em mim agora se torna imperceptível, inaudível, invisível, e anestesia, quando o cavalo branco se aproxima da janela e doces palavras dançam nas telas. A dor de agora me escapole entre os dedos quando confrontada pela presença constante e pelo cuidado todo. A dor de agora se resigna a ser lembrança quando a vida abre portas e janelas e estende tapetes na espera. A dor de agora se esquece de si e, altruísta, cede espaço e vãos para sorrisos, para conversas infinitas, para coincidências que assustam, para transmissões de pensamento. A dor que me acompanha baixa a cabeça e dobra seus joelhos perante a perspectiva de felicidade. A dor de agora é sublimada ante esse bem querer designado, em que o que é externado é parcela ínfima do sentimento.
A dor que me acompanha não se foi, não sumiu, não saiu da minha vida nem de mim, mas ela me permite umas tréguas, uns hiatos, uns afastamentos providenciais quando o bem que faz tão bem me cerca. E eu sigo minha vida neste surto bipolar: às vezes, cataclisma; às vezes, anestesia. E espero pelo dia em que ela seja só silêncio e resignação.
A dor que dói em mim agora se torna imperceptível, inaudível, invisível, e anestesia, quando o cavalo branco se aproxima da janela e doces palavras dançam nas telas. A dor de agora me escapole entre os dedos quando confrontada pela presença constante e pelo cuidado todo. A dor de agora se resigna a ser lembrança quando a vida abre portas e janelas e estende tapetes na espera. A dor de agora se esquece de si e, altruísta, cede espaço e vãos para sorrisos, para conversas infinitas, para coincidências que assustam, para transmissões de pensamento. A dor que me acompanha baixa a cabeça e dobra seus joelhos perante a perspectiva de felicidade. A dor de agora é sublimada ante esse bem querer designado, em que o que é externado é parcela ínfima do sentimento.
A dor que me acompanha não se foi, não sumiu, não saiu da minha vida nem de mim, mas ela me permite umas tréguas, uns hiatos, uns afastamentos providenciais quando o bem que faz tão bem me cerca. E eu sigo minha vida neste surto bipolar: às vezes, cataclisma; às vezes, anestesia. E espero pelo dia em que ela seja só silêncio e resignação.
segunda-feira, 28 de junho de 2010
Sobre fardos
A gente assistindo e torcendo pelo Brasil na Copa do Mundo. A gente preocupado em parecer bem, se o cabelo tá brilhante e hidratado, se as unhas estão feitas, se a sombrancelha está com pelos fora do lugar. A gente preocupado com a prestação da casa e do carro. A gente preocupado com as contas no fim do mês. A gente preocupado em comprar mais bens de consumo. A gente preocupado em aproveitar a liquidação. A gente preocupado em conseguir encher o tanque, em conseguir tempo para férias, em ganhar mais dinheiro, em frequentar bons restaurantes. A gente preocupado em vender uma imagem. A gente preocupado com decoração, com quitutes, com compras. A gente preocupado com pequenos luxos burgueses. A gente preocupado com coisa pequena, com picuinha, com fofoca, com disse-me-disse, com o que vão pensar, com a vida alheia... A gente preocupado com NADA, enquanto alguém chora a morte do seu grande amor.
TRANSFORME SUAS FOTOS EM EMOTICONS PARA O MESSENGER. CLIQUE AQUI E VEJA COMO.
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sábado, 30 de janeiro de 2010
Luto
A vida fica meio suspensa quando uma tragédia ocorre. É muito difícil entrar no ritmo, fazer as coisas que se fazia com frequencia. Até sorrir dói, porque era com aquela pessoa que agora falta que você sorria os mais verdadeiros sorrisos. Não dá pra sair, não dá nem pra jantar fora, porque era com aquela pessoa que você dividia os melhores pratos. Não dá pra pensar em viajar, nem em desopilar, porque era naquele ombro que você descansava da monotonia da vida e sonhava um pouquinho com o futuro bom e feliz que teriam.
Não dá pra viver direito desde o dia 20. Não dá pra respirar fundo, não dá pra ver o céu azul, não dá pra sentir a brisa, não dá pra rolar no chão com os pequenos, não dá pra gargalhar, não dá pra sentir alívio nem prazer algum. Não dá nem pra ser eu mesma. O aperto no peito, a contração nos ombros, um peso enorme nas costas, uma vontade constante de chorar, o vazio no lado direito da cama me impedem.
Eu continuo lutando, juntando os pedaços de mim destroçados como ficou o carro após a batida. Cato meus farelos, junto meus cacos, seco minhas lágrimas no lençol que você usou na última noite em casa, olho as suas roupas penduradas no armário e beijo a aliança pendurada no meu pescoço, busco sua voz e seu sorriso na minha mente e olho pra frente, pro futuro, pro lá longe em que não vai doer a ponto de revirar meu estômago. Eu vou em frente me arrastando, eu vou em frente quase esmorecendo, mas eu vou...
Não dá pra viver direito desde o dia 20. Não dá pra respirar fundo, não dá pra ver o céu azul, não dá pra sentir a brisa, não dá pra rolar no chão com os pequenos, não dá pra gargalhar, não dá pra sentir alívio nem prazer algum. Não dá nem pra ser eu mesma. O aperto no peito, a contração nos ombros, um peso enorme nas costas, uma vontade constante de chorar, o vazio no lado direito da cama me impedem.
Eu continuo lutando, juntando os pedaços de mim destroçados como ficou o carro após a batida. Cato meus farelos, junto meus cacos, seco minhas lágrimas no lençol que você usou na última noite em casa, olho as suas roupas penduradas no armário e beijo a aliança pendurada no meu pescoço, busco sua voz e seu sorriso na minha mente e olho pra frente, pro futuro, pro lá longe em que não vai doer a ponto de revirar meu estômago. Eu vou em frente me arrastando, eu vou em frente quase esmorecendo, mas eu vou...
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Com tudo a flutuar num rio
Foi com você que eu cheguei mais próximo da felicidade...
Foi com você que sorri os meus mais sinceros sorrisos...
Foi com você que construí meus sonhos mais palpáveis...
Foi com você que fiz os planos mais concretos...
Foi com você que eu desejei passar a vida toda...
Foi você que me fez me encantar pela rotina...
Foi você que me fez vibrar em noites insones...
Foi você que me tornou múltipla...
Foi você que me fez acreditar que pode dar certo...
Foi você que me fez confiar de novo no outro...
Foi você que me deixou acreditar que era perfeito...
Foi você que me fez crer que era pra sempre...
Foi você que me fez imaginar a velhice acompanhada...
Foi com você que supus ter tudo...
Foi com você que eu achei que tinha encontrado o melhor lugar do mundo...
Foi com você que eu imaginei ter construído um lar...
Agora, eu já não sei mais.
Sem mais, a vida vai passando no vazio
Estou com tudo a flutuar num rio
Esperando a resposta ao que chamo de amor
(Altar Particular - Maria Gadu)
Foi com você que sorri os meus mais sinceros sorrisos...
Foi com você que construí meus sonhos mais palpáveis...
Foi com você que fiz os planos mais concretos...
Foi com você que eu desejei passar a vida toda...
Foi você que me fez me encantar pela rotina...
Foi você que me fez vibrar em noites insones...
Foi você que me tornou múltipla...
Foi você que me fez acreditar que pode dar certo...
Foi você que me fez confiar de novo no outro...
Foi você que me deixou acreditar que era perfeito...
Foi você que me fez crer que era pra sempre...
Foi você que me fez imaginar a velhice acompanhada...
Foi com você que supus ter tudo...
Foi com você que eu achei que tinha encontrado o melhor lugar do mundo...
Foi com você que eu imaginei ter construído um lar...
Agora, eu já não sei mais.
Sem mais, a vida vai passando no vazio
Estou com tudo a flutuar num rio
Esperando a resposta ao que chamo de amor
(Altar Particular - Maria Gadu)
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Desmoronando
Como se a mão do mais talentoso artista produzisse a mais bela pintura, a mais rica em detalhes, com sombras e luzes, com todos os matizes, com toda a cartela de cores, mas com tinta guache e alguém jogasse na tela um jato d'água.
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