4 meias na decoração da casa velha
Nós quatro - Reveillon 2009/2010
Então o Natal chegou e, muito embora haja luzinhas piscando na cidade toda, sinto meu coração apagado, perdido no breu, de preto, em luto ainda. Todo mundo diz que é porque essa é a primeira vez. Pode ser que seja só isso. Há uma dor que mora aqui hoje e, quando todo mundo celebra a família, a união, o amor (de Deus, eu sei); eu só sinto falta. O vazio me queima, a saudade me corrói e eu fico com aquela sensação de que falta muito ainda para ser feliz de novo.
Eu sempre fui uma pessoa muito Natalina. Sempre foi a minha data preferida no ano. Quando eu passei a ter uma casa pra chamar de minha, junto com ele, eu passei a adorar a preocupação com decoração, velas, guirlandas, árvores, meinhas... Lembro do nosso primeiro Natal, com o Matheus bebê, os dois suando em bicas nesse calor senegalês... Lembro do carinho dele para com a gente. Lembro da roupa que usamos. Lembro dos Natais seguintes também: em 2007, tudo que ele queria era que eu parasse o anticoncepcional para ter outro filho no ano seguinte, disse que era o presente que ele queria; em 2008, com o Thomás bebê, ele disse que não queria mais nada, só saúde e terminar a residência; em 2009, a gente vivia um momento de reconciliação e era felicidade grande com toda a perspectiva da festa de casamento.
E agora eu estou só, arrumando os pequenos, assando o Peru, arrumando a casa (nova, em que ele nunca esteve), preparando tudo para um Natal que parece meio sem sentido, meio sem razão, meio imaginário, como se a gente estivesse brincando sobre como seria se o pior acontecesse. O problema é que o que de pior poderia acontecer, efetivamente aconteceu. E, mesmo perdida, mesmo sem saber direito o que projetar para o futuro que me aguarda, mesmo sem entender ainda tudo que aconteceu, eu sinto que eu preciso fazer com que seja mágico para os pequenos.
É por eles que o Peru está no forno. É por eles que a gente vai vestir roupas novas e sorrir e cantar e fingir que não dói quando crateras estão sendo abertas por dentro. É por eles que eu ponho um sorriso no rosto e arrumo o cabelo e faço peregrinações nas casas dos parentes. É por eles e porque eu sei que seria assim que ele gostaria que eu fizesse.
Eu não sei se algum dia eu vou voltar a me empolgar com as luzinhas que piscam na cidade nessa época do ano, mas eu sei que eu vou continuar mostrando-as para os pequenos, porque o que me move é o brilho no olhar deles. E, o Matheus sempre diz que a estrela que mais brilha no céu é o pai dele, que seja, Thi, você brilhando e fazendo menos dolorido o nosso Natal.