quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Visita

Eu sei bem o que é conviver com a ausência e a saudade. Eu sei bem o que é sentir seu lar vazio. Eu sei bem o quanto é difícil encarar a vida depois que ela fica de cabeça pra baixo. Mas eu não sei o que é perder quase todo mundo da família. Eu não sei o que é não ter braços, mãos e ombros onde se amparar. Eu não sei o que é se sentir frágil e indefesa porque grande parte do que importava foi-se embora de repente.

Ontem eu fui visitar a família enlutada da minha amiga que faleceu quando eu estava na Europa. Levei o presentinho do bebê que estava há muito esperando para ser entregue no meu quarto. Ficaram o filho de 3 meses e o marido. Ficaram duas irmãs, sem o pai e a mãe, porque estes também morreram na tragédia. E eles se consolam, se ajudam, se amparam num momento em que o mundo parece vazio, em que a vida parece injusta e cruel e que não há consolo ou conforto que diminua a dor. Eu fui lá oferecer meu ombro, minha mão e meus serviços, o que eu sei fazer, o que eu puder ajudar.

Eu sei que não é nada. Eu sei que talvez eles nem se lembrem. Eu sei que é uma gota num mar de lágrimas. EU BEM SEI. Mas eu me lembro do quanto eu precisei de gente por perto e do quanto me foi útil toda ajuda. Eu fui e eu irei sempre. Depois que a gente passa por isso, depois que sente na pele, a gente entende melhor o quanto toda visita/ajuda é importante. E eu estou aqui pra isso!

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Sobre o futuro

Enquanto eu estava viajando, o que rolava no formspring, além da questão financeira, era saber se eu tinha ficado com alguém, se eu estava preparada para isso. Depois eu fiquei pensando e remoendo e refletindo e conversando com meus botões e me indaguei se realmente existe algum método capaz de preparar alguém para encontrar um outro alguém.

Porque, sei lá, eu fiquei viúva e tal, foi triste, foi trágico, foi inesperado, eu sofri feito o cão, eu achei que minha vida tinha se acabado e que eu nunca mais poderia ser feliz. Eu achei que ficaria sozinha para o resto da vida. Convenhamos que, aos 28 anos, as pessoas estão começando casamentos e não tem muita gente solteira na minha faixa etária. É totalmente diferente de ficar viúvo aos 40 ou 50 anos. Ainda é cedo, ainda é doloroso; mas nessa faixa tem montes de gente se divorciando. Eu achei que nem um homem no mundo inteiro fosse se interessar por uma mulher com uma história como a minha. Eu acreditei nisso de verdade e a terapia só me ajudou a superar o pensamento disfuncional, como diria a psicóloga.

O fato é que eu não quero ficar sozinha pra sempre. Eu quero me casar de novo. Eu quero achar alguém com quem conversar no fim do dia, com a porta do banheiro aberta e com quem rir da propaganda eleitoral. Eu quero achar alguém pra jogar minha perna sobre a perna de novo, sabe? Eu quero mesmo! Não é pra já. Ainda tem uma bagunça enorme pra eu arrumar, ainda tem umas coisas para encaixotar e levar para o porão de dentro de mim, ainda tem umas coisas pra organizar na cabeça e umas faltas pra esquecer, ainda tem uma mudança pra fazer. Mas eu quero isso no futuro. E acho que meu querer é legítimo.

Mas eu falei tudo isso só pra contar que no último sábado eu fui ao casamento do meu primeiro namorado. Foi um namoro inocente e infantil, até porque tínhamos apenas 12 anos. Mas, de qualquer forma, foi o primeiro namorado. A gente achava que era amor. E os anos passaram e a gente nunca saiu da vida um do outro. Viramos amigos de longa data e foi engraçado vê-lo me apresentar às pessoas na festa como "a primeira namorada". Pois bem. Antes de jogar o buquê, a noiva jogou um Santo Antonio que caiu certeiramente na mão de quem? de quem? Isso mesmo: na minha! Sem disputa, inteirinho, diretinho nas minhas mãos. E eu disse que queria pegar o buquê e voltei pra confusão do mulheril. O buquê veio na minha direção e eu cheguei a pegá-lo, mas disputando com uma outra moça, ela saiu com as flores despetaladas. Diante disso, eu cheguei à conclusão de que, no meu caso, só mesmo o Santo Antonio ajuda. É caso de milagre!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O porão de dentro

O tempo passa, sabe? Inexoravelmente. Nem preciso dizer que aprendi que não adianta nada planejar tudo direitinho. Não adianta mesmo. Não depende só da gente. Não está por nossa conta e risco. O tempo passa e a dor diminui. O tempo passa e não pesa mais. É claro que tem aqueles dias, né? É claro que tem uma montanha de lembranças e coisas guardadas dentro. Como se o peito da gente fosse um enorme porão onde a gente escondesse estas tranquerias que vão ficando dentro da gente. Uma foto, uma festa inesquecível, um sorriso, uma piada interna, um momento... Todo mundo tem uma montanha de coisa guardada dentro de si. Mas no dia-a-dia, no correcorre da vida, vezenquando, acontece alguma coisa que faz a gente voltar lá no porão e pegar aquele objeto velho e reviver aquela história e rir ou chorar, dependendo do que ficou daquilo ali. O porão da gente encerra tudo que levamos da vida e não podemos carregar conosco. Até porque seria um fardo muito pesado a gente carregar tudo nos ombros, né? Aí, a gente deixa lá e volta, quando em vez, só pra reviver.

Eu já consegui colocar quase tudo no porão. Eu já consegui voltar lá de maneira comedida e controlada, quando eu quero. Eu já consigo sorrir de coração aberto. Eu já consigo abrir os olhos para a vida. Eu já consigo acreditar que a tragédia aconteceu comigo, no nosso lar. Eu já consigo pensar na minha vida só por mim e pelos pequenos, sem ele. E eu não posso mentir que a viagem me ajudou muito a secar os resquícios da tempestade que ocorreu dentro de mim. Eu preciso admitir que retornei como que renovada, como que pronta para os finalmentes dessa batalha que é viver o luto. Falta tão pouquinho pra terminar. Eu estabeleci que a mudança para o apê novo seria o marco simbólico dessa passagem. Sábado foi a entrega oficial do condomínio. Agora falta só assinar a documentação e fazer a mudança. Bem pertinho da linha de chegada e, depois disso, eu só quero ser feliz! Voltarei ao porão sempre, porque as memórias são lindas. Mas eu vou em frente atrás da felicidade que já vem batendo na porta da casa nova!

domingo, 8 de agosto de 2010

Quase ilesa

O dia passou rápido e a ausência não pesou. A gente escondeu tanto dos pequenos que, para eles, foi só mais um fim de semana como outro qualquer. Foi proibido falar Dia dos Pais na família e eles realmente nem se deram conta da data. Fui almoçar na casa do meu avô e passamos a tarde e jantamos com meu pai, mas sem mencionar nada.

Chegamos em casa já era noite. Banho e cama para os dois pequenos, mas aqui dentro tudo revirou. E eu achava que iria escapar ilesa por este dia. Porque eu posso esconder dos pequenos, porque eu posso fazê-los pensar que é um fim de semana como outro qualquer, porque eu posso passar o dia inteiro sem lembrar, porque eu posso sorrir e até gargalhar das piadas bestas que os primos dividem na mesa do almoço; mas eu não esqueço que ele não está mais aqui, não está mais no mundo. Eu não consigo me esquecer dessa dor.

Para arrematar meu desconforto, eu descobri umas gravações de áudio no celular dele. A voz dele de novo, reverberando em alto e bom som... A voz dele fazendo perguntas, com entonação, com o carinho de sempre... Eu me lembrei de novo dos adjetivos carinhosos. Eu me lembrei de novo do "boa tarde" ao abrir a porta. Eu me lembrei de novo das nossas conversas de fim de dia. Eu me lembrei de novo como se a voz dele estivesse dentro de mim e repetisse o vocativo utilizado na última ligação que ele fez antes da tragédia acontecer: "princesinha". Eu me lembrei de novo de tudo e doeu de novo e eu chorei de novo.

"I thank the Lord above you're not here to see me in this shape I'm in."
(Roxette - Spending my time)
PS: Acho que tô precisando voltar lá no lugar onde as sombras são compridas.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Sobre o peso

O que pesa agora não é a mais a dor de ter perdido meu marido, o homem da minha vida, meu amor. O que pesa agora não é encarar os fatos e a vida sem ele. O que pesa agora não é mais uma saudade dilacerante. Essa ainda existe, é fato. Mas é uma coisa bem mais leve aqui dentro de mim. É claro que ainda me arranca lágrimas e soluços, mas muito mais pelo que poderia ter sido e não foi e não será. Não há mais o pensamento de que não há lugar para mim no mundo. Não há mais a ideia fixa de que minha vida tinha ruído. Não há mais aquela tristeza que torcia o coração. Não há mais a sensação de não haver solo embaixo dos pés. Não há mais a dor de dobrar os joelhos.

O que pesa agora é a responsabilidade enorme de viver sozinha. Todas as contas, todos os gastos, a educação dos meninos, a empregada, carro, apartamento... Ninguém pra dividir. Ninguém pra ajudar. Ninguém pra discutir a melhor opção. Ninguém pra ajudar a decidir. Ninguém. O que pesa agora é a ausência desse meu melhor amigo, com quem eu podia falar dos problemas todos, xingar sicranos, difamar beltranos e chorar no ombro. O que pesa agora é não ter ninguém para rir da propaganda eleitoral gratuita. O que pesa agora é não ter essa parceria, essa companhia, esse companheirismo. É um milhão de toneladas na costas e eu carregando... É um milhão de toneladas sobre este corpo e eu seguindo... É um milhão de toneladas da vida.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Revanche

Aí, né? Eu vinha para o  trabalho, displicente e fagueira, dirigindo com o rádio ligado. Quando, de repente, começa uma música que desde o primeiro verso me fez balançar a cabeça em sinal de afirmação. Poderia ter sido escrita por mim. Vários versos eu já coloquei aqui. Esse de que não tenho medo de sofrer, é uma constante. Não tenho mesmo. Poucas coisas poderão me fazer sofrer mais do que o que eu passei. Isso é libertador! Você pode se arriscar em tudo justamente porque sabe que aguenta o tranco. No mais, a música parece ser completamente adaptada ao meu momento. Tô esperando ele chegar para ouvir sinos tocarem.

Só não concordo com o título da música "Revanche". Poderia ser "Esperança"...


NÃO TENHO MEDO DE SOFRER
EU NÃO ME IMPORTO EM CHORAR
TUDO QUE EU QUERO É VIVER
UM SONHO LINDO

COM TANTA GENTE NESSE MUNDO
ALGUÉM SERÁ MEU BEM QUERER
PORQUE NÃO VOU ENVELHECER
TRISTE E SOZINHO

SE A DOR MARCOU SEU CORAÇÃO
OUTRO AMOR VAI TE CURAR
SAI DA SOLIDÃO
TEM MEDO NÃO
DE NOVAMENTE SE ENTREGAR
SE CAIU LEVANTA DESSE CHÃO
VIVER É SE ARRISCAR

QUANDO ELE CHEGAR
OS SINOS VÃO TOCAR
OS PÉS VÃO FLUTUAR
A BOCA VAI SECAR
A TERRA VAI TREMER
OS PÁSSAROS CANTAR O AMOR

PODE VIR DO MAR
DA TERRA OU DO AR
NAS ASAS DO AVIÃO
NA MESA DE UM BAR
PROMESSAS DE VERÃO
NO BICO DE UM BEIJA-FLOR
(Revanche - Leo Maia)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Fugindo

O desafio imediato é fugir do Dia dos Pais, é entreter as crianças com outra coisa que não a TV, que parece rodar monotemática. Nem para a escola eles estão indo essa semana para que não participem dos preparativos, dos ensaios, das manifestações pelo dia. Não quero, de jeito nenhum, em hipótese alguma, apagar da memória deles o pai maravilhoso que tiveram, o pai apaixonado por eles, o pai que rolava no chão e que matava de cosquinhas, que colocava pra dormir cantando, que os beijava com amor, que realizava os desejos, que era só coração... O que eu não quero é avivar essa ausência tão dolorida para todo mundo. O que eu não quero é que eles sintam de novo que não têm mais o pai aqui. O que eu não quero é responder de novo aquelas perguntas que eu sei que o Matheus faria. O que eu não quero é vê-lo chorar de novo. Melhor, não. Ainda é muito recente. Ainda dói demais em todo mundo. Ainda não dá, como não deu o Dia das Mães. Melhor passar à francesa pela data. Semana que vem o mundo volta ao normal.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Reconhecimento

"Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
que muitas filhas te deu, casou donzela
e à noite se prepara e se advinha
objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
que te retém e não te desespera
(A noite como fera se avizinha)

Aflição de ser água em meio à terra
e ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra."

(Hilda Hilst)

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"Sou uma mulher e só posso escrever. Afinal, talvez seja oportuna a tua ausência. Porque eu, de outro modo, nunca te poderia alcançar. Deixei de ter posse da minha própria voz. Se viesses agora, eu ficaria sem fala. A minha voz emigrou para um corpo que já foi meu. E quando me escuto nem eu mesma me reconheço. Em assunto de amor só posso escrever. Não é de agora, sempre foi assim, mesmo quando estavas presente.

E escrevo como as aves redigem seu voo: sem papel, sem caligrafia, apenas com luz e saudade. Palavras que, sendo minhas, não moraram nunca em mim. Escrevo sem ter nada que dizer. Porque não sei o que te dizer do que fomos. E nada tenho para te dizer do que seremos. Porque sou como os habitantes de Jerusalém. Não tenho saudade, não tenho memória. É assim que envelheço: evaporada em mim, véu esquecido num banco de igreja.

Só te amei a ti. Essa fidelidade levou-me ao mais penoso dos exílios: esse amor afastou-me da possibilidade de amar. Agora, entre todos os nomes, só me resta o teu nome. Só a ele posso pedir o que antes te pedia a ti: que me faça nascer. Porque eu preciso tanto de nascer! De nascer outra, longe de mim, longe do meu tempo. Estou exausta. Exausta, mas não vazia. Para estar vazia é preciso ter dentro. E eu perdi a minha interioridade.

Vês como fico pequena quando escrevo para ti? É por isso que nunca poderia ser poeta. O poeta se engrandece perante a ausência, como se a ausência fosse seu altar, e ele ficasse maior que a palavra. No meu caso, não, a ausência me deixa submersa, sem acesso a mim."

(Mia Couto - Antes de nascer o mundo. P. 131-132 - Com cortes e marcações meus)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Eu também

"...O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito,uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista. Sou antes de tudo uma exaltada, com alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades... sei lá de quê!"
(Florbela Espanca)

domingo, 1 de agosto de 2010