Quando eu digo para 2010 terminar logo, a vida vem me mostrar que eu tenho muito que aprender, que não sou eu que mando em nada e que as surpresas, assim como as dores, são inevitáveis...
Domingo tranquilo, voltando de uma festinha de Natal com os pais e as crianças da turminha do Matheus, recebo um telefonema desesperado de uma amiga de escola, contando que o marido de uma das sete, daquela que casou mês passado, daquela que tava no auge da felicidade, havia falecido. A gente não sabia a causa, a gente não sabia como, mas a gente sabia o que precisava saber. E eu sabia que, embora estivesse com tudo revirando dentro de mim, revivendo o janeiro trágico, sentindo de novo aquele rebuliço por dentro, eu sabia que tinha que correr para onde ela estivesse só para dar um abraço apertado e dizer que eu sabia o que ela estava sentindo, sabia que parecia partir ao meio, mas que é possível viver depois disso.
E foi exatamente isso que fiz. Deixei os pequenos em casa com a Lalá e corri para o velório. Fui a primeira da turma a chegar e, assim que cheguei, soube logo que ele sofrera um acidente no autódromo, enquanto corria de kart. Assim que ela me viu, ela disse: "Ow, minha amiga, me diz como você aguentou porque dói demais! A gente tava tão feliz. A gente fazia tudo junto... Por que, Marcele?". E eu não consegui falar nada, só chorar, chorar, chorar abraçada a ela. O meu janeiro trágico se repete agora num novembro para ela.
Ver alguém que a gente quer tanto bem perder o chão, o rumo, o prumo, metade da vida que escolheu para si, o sentido de quase tudo, me faz entender que essa vida não faz sentido. Eu não consegui, na minha tragédia, encontrar uma só razão plausível. E, mesmo tendo desistido de encontrar, eu não consigo me convencer nem de que a missão dele estava cumprida, até porque eu acho que o que ele podia fazer no futuro era muito mais do que ele já havia feito. É devastador, é enlouquecedor, é definitivamente uma DOR por que ninguém deveria passar.
Enfrentar esse processo todo, agora como espectadora, me faz refletir demais sobre esse momento da perda. Ela também estava com a aliança dele na correntinha do pescoço, ela também trouxe um paninho para colocar dentro do caixão, ela também tinha um olhar perdido para o mundo ao redor, ela também precisou de medicamentos para suportar, ela também relutou em acreditar (embora tivesse assistido ao acidente no autódromo), ela também queria saber porque, ela também se sentia perdida e sozinha no mundo... E eu imagino que tantos outros questionamentos e sentimentos que eu tive devam estar permeando o pensamento e o coração dela.
Segurar a mão dela nesse momento é voltar ao dia um. E, muito embora eu não seja mais protagonista, a dor que me toma é tão grande quanto. É a dor de quem sabe o quanto dói. É a dor de quem passou por isso. É a dor que não cicatrizou e que eu nem sei se vai, algum dia, cicatrizar. É dor e ponto final.
PS: Força, Ju!
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Já vai tarde
Lembro bem de dizer, lá no janeiro trágico, que a única coisa que eu esperava desse ano era que ele acabasse logo. Eu queria chegar ao depois disso, eu queria poder me afastar disso, desse processo todo, e dizer que tinha conseguido. Porque disso eu tinha certeza. Eu ia conseguir. Não sei se era exatamente assim e sei que, muitas vezes, essa certeza se afastou de mim. Mas, de algum modo, eu sabia que sobreviveria. Eu queria o distanciamento temporal que permite dores mais amenas e saudade mais tranquila, certa nostalgia, aquele suspiro pelo que se foi e não volta mais. Eu queria dormir e acordar em 2011. Sim, a barra foi pesadíssima (ainda está sendo pesada agora). E eu queria só sobreviver e apertar o botão para pular logo esse capítulo. 2010 foi avassalador, foi transformador e foi muita dor. Eu queria sobreviver, eu queria superar, eu queria passar por isso rápido. Até porque eu não faço o tipo que se entrega, que faz corpo mole, que se faz de coitadinha... Eu queria terminar logo esse ano e sair dele andando, em pé. Eu não queria chegar aqui me arrastando, deprimida, cabisbaixa, sem chão. Eu quis tanto, tanto que esse ano acabasse rápido que, agora, quando eu vejo no calendário DEZEMBRO chegando, uma sensação de alívio toma conta de mim. Vai-te embora, pior ano da minha vida! E já vai tarde!
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Me papocando de rir com o Matheus XVII
- Mamãe, conta uma historinha pra eu dormir?
- Claro, meu amor. Era uma vez um menino liiindo, muito esperto, muito inteligente, muito legal, que tinha uma família que gostava muito dele, que tinha DVD, Sky e video-game no quarto, que tinha uma piscina..
- que tinha uma NAMORADA!
- HÃ?!?!?!
- É, mãe, se ele tinha tudo isso, ele tinha que ter uma namorada como todo menino grande!
- Você tem namorada, Matheus?!?!
- Ainda não.
- Não mesmo?
- É que eu tenho que ficar "mais grande" (sic).
- Mas você gosta de alguém?
- Gosto (morrendo de vergonha e com os olhos fechados).
- Quem é essa menina, Matheus?
- Ah, mãe, eu não posso falar. É segredo.
- Mas, Matheus, nenhum filho pode ter segredo para mãe... As mães têm que saber tudo...
- É a Mirella (morrendo de vergonha e com os olhos fechados)².
- Você gosta muito dela?
- Gosto. Eu até já sonhei com ela.
- Como foi esse sonho, meu amor?
- Ah, é que eu levava ela para o planeta do Sharkboy e da Lavagirl na minha espaçonave e a gente brincava muito com eles dois.
- Entendi.
- Mãe, quando eu crescer eu vou casar com a Mirella.
- Tá bom, Matheus, quando você CRESCER, você escolhe uma menina e decide.
- Mas, mãe, eu já escolhi e já decidi.
- Tá bom, Matheus.
- Claro, meu amor. Era uma vez um menino liiindo, muito esperto, muito inteligente, muito legal, que tinha uma família que gostava muito dele, que tinha DVD, Sky e video-game no quarto, que tinha uma piscina..
- que tinha uma NAMORADA!
- HÃ?!?!?!
- É, mãe, se ele tinha tudo isso, ele tinha que ter uma namorada como todo menino grande!
- Você tem namorada, Matheus?!?!
- Ainda não.
- Não mesmo?
- É que eu tenho que ficar "mais grande" (sic).
- Mas você gosta de alguém?
- Gosto (morrendo de vergonha e com os olhos fechados).
- Quem é essa menina, Matheus?
- Ah, mãe, eu não posso falar. É segredo.
- Mas, Matheus, nenhum filho pode ter segredo para mãe... As mães têm que saber tudo...
- É a Mirella (morrendo de vergonha e com os olhos fechados)².
- Você gosta muito dela?
- Gosto. Eu até já sonhei com ela.
- Como foi esse sonho, meu amor?
- Ah, é que eu levava ela para o planeta do Sharkboy e da Lavagirl na minha espaçonave e a gente brincava muito com eles dois.
- Entendi.
- Mãe, quando eu crescer eu vou casar com a Mirella.
- Tá bom, Matheus, quando você CRESCER, você escolhe uma menina e decide.
- Mas, mãe, eu já escolhi e já decidi.
- Tá bom, Matheus.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Desistindo
"Há dias que tento encontrar as melhores palavras pra explicar o que eu não consigo desenhar, tento entender uma batida desenfreada que encontra esperanças onde não há. E, mais ainda, pensa que pode esperar. Mas o que meu pobre coração ainda não entendeu [ou, se entendeu, faz questao de não transparecer] é que eu não consigo prender o ar durante muito tempo. Eu preciso dele, preciso respirar." (From: Rainha de Copas)
Não adianta mesmo eu querer me enganar, porque a realidade me assalta, me pega de supetão, me vira do avesso e abre crateras no chão. Não adianta mesmo fingir paciência, calma, tranquilidade, porque todo mundo conhece essa ansiedade, essa angústia e essas unhas roídas até o tronco. Não adianta nada segurar a respiração como se fosse possível pausar o momento, o tic-tac do relógio tem ritmo próprio e não pára nunca. Não adianta fechar os olhos para não ver o clarão, o cérebro é arma poderosa e entende a luz até mesmo quando nos falta a visão. Não adianta se esconder num cantinho que parece porto seguro e abrigo, quando bombas atômicas caem ao redor. Não adianta engolir as palavras que se pretendeu dizer, porque o essencial não cabe nelas e toda a prolixidade que lhe é peculiar ainda não conseguiria expressar a vastidão. Não adianta ler ao contrário, ler entrelinhas, ler a linguagem corporal, ler o não-dito; quando não há sentimento lá dentro. A esperança é um bicho muito estranho que se agarra a um fio de algodão para fazer rapel, achando que ele vai suportar todo seu peso e o peso de todo seu desejo, de todo seu querer. A esperança insiste em bater quando nem há mais portas para isso. A esperança acha que sabe esperar e, esperando, desmaia hipoglicêmica. Porque é preciso que seja doce para superar a dolorosa espera pelo momento certo que não chega nunca. A esperança espera "pacientemente", batendo o pé no chão, olhando para o relógio a cada cinco segundos e ansiando para que a porta se abra e a chuva enfim regue todo o jardim. A esperança não cansa, mas a cabeça, sim. E entendendo, de uma vez por todas, que não, que nunca, que jamais, se levanta e vai embora, arrastando a esperança pelo chão.
Não adianta mesmo eu querer me enganar, porque a realidade me assalta, me pega de supetão, me vira do avesso e abre crateras no chão. Não adianta mesmo fingir paciência, calma, tranquilidade, porque todo mundo conhece essa ansiedade, essa angústia e essas unhas roídas até o tronco. Não adianta nada segurar a respiração como se fosse possível pausar o momento, o tic-tac do relógio tem ritmo próprio e não pára nunca. Não adianta fechar os olhos para não ver o clarão, o cérebro é arma poderosa e entende a luz até mesmo quando nos falta a visão. Não adianta se esconder num cantinho que parece porto seguro e abrigo, quando bombas atômicas caem ao redor. Não adianta engolir as palavras que se pretendeu dizer, porque o essencial não cabe nelas e toda a prolixidade que lhe é peculiar ainda não conseguiria expressar a vastidão. Não adianta ler ao contrário, ler entrelinhas, ler a linguagem corporal, ler o não-dito; quando não há sentimento lá dentro. A esperança é um bicho muito estranho que se agarra a um fio de algodão para fazer rapel, achando que ele vai suportar todo seu peso e o peso de todo seu desejo, de todo seu querer. A esperança insiste em bater quando nem há mais portas para isso. A esperança acha que sabe esperar e, esperando, desmaia hipoglicêmica. Porque é preciso que seja doce para superar a dolorosa espera pelo momento certo que não chega nunca. A esperança espera "pacientemente", batendo o pé no chão, olhando para o relógio a cada cinco segundos e ansiando para que a porta se abra e a chuva enfim regue todo o jardim. A esperança não cansa, mas a cabeça, sim. E entendendo, de uma vez por todas, que não, que nunca, que jamais, se levanta e vai embora, arrastando a esperança pelo chão.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Certezas
Eu sei que nesse processo todo por que passei é normal, muitas vezes, se sentir perdido. É normal, vez em quando, ter a sensação de naufrágio, de vazio, de que puxaram o tapete. Eu sei que, algumas vezes, eu simplesmente não sei o que fazer e não me sinto segura com a opinião e a ajuda de seu ninguém. Eu sei que há dias em que eu sinto mais pesado, mais doído, mais triste, I feel blue. Sei que tenho aqueles momentos de olhar para o nada e achar que o futuro não tem mais graça alguma. De pensar que morrer agora, jovem assim, é até atraente. Porque, né?, vou reencontrar quem eu perdi. Penso que não tem mais sentido algum ser feliz e sorrir, vezenquando. Mas eu queria saber como é que eu posso, tendo vivido isso tudo e tendo estas sensações cotidianamente, como eu posso ter tanta certeza sobre algumas coisas? Como eu posso achar que elas são o meu caminho, que eu sei exatamente o que fazer e me sentir tão segura em relação a elas? Coisas que deixam meus dias mais leves, me trazem novas perspectivas e me fazem sorrir. Coisas que fazem com que eu me sinta viva de novo e com brilho no olhar e com esperança no futuro e feliz. Coisas que caem no colo como que caídas do céu e trazem essa sensação de paz, de caminho certo, de tudo no seu devido lugar, de arranjo cósmico. Como eu posso ter essa sensação de certeza em relação a elas, se não estou certa sobre mais nada na vida? Como eu posso acreditar que sim, que é isso mesmo, se eu mesma estou ainda confusa e perdida? Como eu posso acreditar nelas, confiar, apostar se eu nem sei se essa certeza que eu sinto procede? E aí eu mesma descubro que me baseio nas batidas do coração que tais coisas provocam, no tumtumtum que diz em alto e bom som que é isso aí, que é isso mesmo. Quando o coração bate assim, ele simplesmente não pode estar enganado. E eu vou levando a vida, ouvindo e confiando nas certezas que batem no peito.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Sorrindo com Matheus XVI
Descemos no domingão para a piscina do prédio. Alguns vizinhos também aproveitavam o sol. Eu tava no meio da piscina, segurando o Thomás, que não possui equilíbrio para ficar sozinho. Matheus já se vira e estava na borda se preparando para dar um mergulho. Eu percebi que ele tava segurando a "pinta" e disse, em voz alta, na frente das pessoas:
- Matheus, se quiser fazer xixi, o banheiro é ali ó.
- Mas mamãe, aqui é cheio de plantinhas!
- Matheus, se quiser fazer xixi, o banheiro é ali ó.
- Mas mamãe, aqui é cheio de plantinhas!
Currículo
Eu nunca quebrei nenhum osso, mas levei uma queda quando criança que fez meu dente permanente entrar de novo na gengiva.
Eu não dava trabalho para ir à escola, muito pelo contrário, ficava triste nas férias porque não encontrava minha turminha (aliás, amigos até hoje).
Eu nunca deixei de estar no quadro de honra do colégio; e, na terceira série, escondi uma prova de matemática em que tirei 3,5. Minha mãe queria tirar satisfação na escola porque minha média no boletim estava errada, mas eu não deixei e contei a história para ela muitos anos depois.
Eu nunca fumei nada. Nada mesmo. Mas cheirei lança algumas vezes. Memoráveis vezes, devo admitir.
Eu não sei mentir direito, o que implica que eu não sei fingir que gosto se não gosto.
Eu não sei ser melhor amiga de pessoas que acabei de conhecer, muito embora conte minha vida toda depois de me sentir íntima.
Eu pesei 45kg durante aaaanos e eu tive muitos apelidos carinhosos na infância e na adolescência, como: mastro, Olívia Palito, vara-pau, sibite baleado, seca do 15...
Eu tive cinco namorados na vida. Nem sei se algum deles lê isso aqui. Mas eu me sentia mais inteira, mais feliz, mais sortuda, mais mulher, mais perfeita com o último.
Eu passei por muitas fases na vida e, em todas, tive ótimas companhias. Muitas delas, permanecem na minha vida, porque eu não abro mão dos meus. Eu sou aglutinadora e fiel.
Eu não sei cantar, mas eu adoro fingir que canto mesmo assim. Eu decoro letras de músicas e versos com facilidade e depois faço associações destes com as situações do meu dia. Acontece uma coisa e eu penso numa trilha sonora.
Eu sei dançar e gosto do negócio, dei aula de forró nas priscas eras; mas agora o fôlego não é mais o mesmo de antes. Se bem que eu bem que podia voltar, né?
As pessoas dizem que eu sou espirituosa, que meu humor é inteligente e ácido e que eu faço chacota comigo mesma. É tudo verdade.
As pessoas dizem que eu sou forte, decidida, determinada, persuasiva, austera. É tudo mentira.
Eu não sei fazer cálculos e sempre odiei com todas as minhas forças química. Dizem que advogados só precisam saber calcular dez por cento, so that's me!
Eu leio muito, tudo, rapidamente. Vários e vários livros em fila de espera, mas nunca mais de um ao mesmo tempo. Quando me perguntam o que me dar de presente, eu digo: livros! Bom, pode ser maquiagem também. Ambos me farão muito feliz!
Eu não sei ser outra coisa que não otimista, positiva e esperançosa em relação a tudo na vida. As puxadas de tapete, portas e tapas na cara que levei só me fizeram perceber que isso é característica da minha personalidade.
Eu posso ser refinada e plebéia dependendo da companhia, do dia, do tempo, do lugar. Eu consigo conviver perfeitamente bem com as várias de mim que moram aqui dentro.
Eu não gosto de cozinha nem de trabalhos domésticos, mas tenho cer-te-za de que herdei dotes culinários da mamãe. Sabe mão boa? Eu tenho.
Eu não gosto de salada nem de comidas leves e naturais. Meu negócio é pão-pizza-massa e tudo mais que engorde, mas eu não sou fã de doces. Acho que é isso que me salva da obesidade mórbida.
Eu já dormi em casa de pescador em Jeri, num quarto de 2m² com mais quatro amigos, num reveillon inesquecível.
Eu sempre durmo de maneira vexatória em viagens de avião, acordando muitas vezes depois de babar e cochilar por horas no ombro de um desconhecido.
Eu já saí de casa para uma balada sem ter como voltar, nem dinheiro para isso. E cheguei em casa muito depois da hora do almoço porque voltei a pé.
Eu já briguei com namorado em público, eu já caí em apresentação de dança na abertura do festival, eu já caí e machuquei o pulso atravessando rua, eu já bati salve todos na brincadeira de esconde-esconde e caí no chão em seguida, esbaforida de tanto que corri.
Eu já chorei de soluçar no cinema, assistindo Titanic, no São Luiz do Centro, depois de umas duas horas de fila no sol quente. Eu já chorei de soluçar assistindo Grey's anatomy. Eu já chorei de soluçar escondida no banheiro. Eu já chorei de soluçar muitas vezes na vida.
Eu já mandei recadinhos do coração no rádio e ofereci música. Eu já contratei aqueles carros de Loucuras de Amor. Eu já pedi pra voltar depois de ter dito que não voltaria nunca. Eu já disse não, quando o que eu mais queria era dizer sim. Eu já disse que entendia quando eu não entendia porcaria nenhuma. Eu já perdoei quando era imperdoável. Eu já abri mão e senti faltar o chão sob os pés. Mas eu nunca me arrependi.
Eu já saí cedo e voltei quando o sol raiou. Eu já me arrumei toda e esperei sentada, e cochilei, e me descabelei por quem ficou de vir e até hoje não apareceu. Eu já dormi grudada no telefone. Eu já fiquei no telefone conversando por tanto tempo que não tinha mais força nem para segurá-lo.
Eu nunca namorei alguém que tenha conhecido virtualmente. Mas eu tenho vários amigos virtuais. Muito do meu mundo gira aqui na tela do computador.
Eu morei no mesmo lugar a minha vida inteira e a primeira mudança que fiz de verdade ocorreu agora, quando vim para a casa nova.
Eu não sei colocar as coisas nos seus lugares. Eu não sou organizada, e me estapeio com a minha verve indisciplinada para ter controle sobre tudo de que preciso dar conta.
Eu só digo uma coisa: um dia, eu vou estar à toa...
sábado, 20 de novembro de 2010
Dez meses
Faz dez meses que o mundo virou de cabeça pra baixo. Faz esse tempo todo que eu ando com a vista empoeirada, sem conseguir olhar direito para o que me cerca, nem encher o pulmão de ar puro. Faz dez meses que eu ando meio perdida, tateando no escuro. E, nesse tempo, as certezas que eu tinha sempre foram precedidas por "não". Eu soube desde o primeiro momento o que eu não aguentava fazer, o que eu não suportava, o que eu não queria, o que eu não era capaz... Se me perguntassem o que eu queria, o que faria ou o que eu suportava; eu não sabia. Acho que ainda não sei. Mas eu sempre soube todos os nãos.
Saber o que eu não queria e o que eu não aguentava foi muito bom nesse processo todo. Ajudou muito nas escolhas dos caminhos que segui. Mas não foi só isso. Eu também fugi de tudo aquilo que me causava a dor. Claro que eu só podia fugir do que estava sob meu controle. Foi assim que eu passei a maior parte das datas comemorativas do ano. Foi assim que eu me desfiz das roupas e sapatos dele (cinco meses depois). Foi assim que eu tirei a aliança do dedo. Pode parecer tapar o sol com a peneira, porque ano que vem as datas se repetirão, as fotos permanecerão e eu vou topar com muita coisa dele pelo meu caminho ainda, inveitavelmente. Mas ó, com quatro meses dói muito mais que com um ano e quatro meses. Foi assim que eu consegui: escondida do foco de dor.
Todavia, se me perguntassem agora o que me manteve de pé, eu acho que foi mesmo essa vontadezinha aqui dentro de mim de ser feliz. Ainda que sem ele. Ainda que tendo sobrevivido ao meu pior pesadelo. Ainda que com uma saudade que mais parece uma doença. Ainda que com um peso enorme nas costas. Ainda que tudo. Alguém me mandou, num comentário aqui do blog, uma passagem do filme "PS: Eu te amo" em que o cara fala que ela foi toda a vida dele e que ele será só mais um capítulo na história dela. E é assim que eu penso. Ainda tenho muitas outras páginas a preencher. Pode ser que este tenha sido o capítulo mais feliz da minha existência inteira, mas virão outros e eu quero estar inteira, aberta e pronta.
O que mais ouvi nestes dez meses foi que eu era muito nova para passar por tudo isso. Sou sim. Sou mesmo. E, embora eu tenha perdido muito, ganhei auto-conhecimento, auto-confiança, perspectiva do que realmente importa, visão maior de mundo e das pessoas que me cercam. Ganhei amigos novos e usados e herdados. Ganhei liberdade, não no sentido de poder fazer o que quiser. Mas ganhei essa sensação de que poucas coisas na vida poderão me fazer sofrer mais que isso, então, por que não tentar?
Pode parecer loucura: mas foi quando eu me despedaçei em caquinhos que eu me tornei mais inteira. E isso me faz muito melhor hoje. Não sei ainda se há alguém no comando, nem sei se essa tragédia tem uma razão de ser; mas eu sei que passar por isso vai me tornar mais capaz ainda de ser feliz, do jeito que eu quero: no superlativo máximo possível.
Saber o que eu não queria e o que eu não aguentava foi muito bom nesse processo todo. Ajudou muito nas escolhas dos caminhos que segui. Mas não foi só isso. Eu também fugi de tudo aquilo que me causava a dor. Claro que eu só podia fugir do que estava sob meu controle. Foi assim que eu passei a maior parte das datas comemorativas do ano. Foi assim que eu me desfiz das roupas e sapatos dele (cinco meses depois). Foi assim que eu tirei a aliança do dedo. Pode parecer tapar o sol com a peneira, porque ano que vem as datas se repetirão, as fotos permanecerão e eu vou topar com muita coisa dele pelo meu caminho ainda, inveitavelmente. Mas ó, com quatro meses dói muito mais que com um ano e quatro meses. Foi assim que eu consegui: escondida do foco de dor.
Todavia, se me perguntassem agora o que me manteve de pé, eu acho que foi mesmo essa vontadezinha aqui dentro de mim de ser feliz. Ainda que sem ele. Ainda que tendo sobrevivido ao meu pior pesadelo. Ainda que com uma saudade que mais parece uma doença. Ainda que com um peso enorme nas costas. Ainda que tudo. Alguém me mandou, num comentário aqui do blog, uma passagem do filme "PS: Eu te amo" em que o cara fala que ela foi toda a vida dele e que ele será só mais um capítulo na história dela. E é assim que eu penso. Ainda tenho muitas outras páginas a preencher. Pode ser que este tenha sido o capítulo mais feliz da minha existência inteira, mas virão outros e eu quero estar inteira, aberta e pronta.
O que mais ouvi nestes dez meses foi que eu era muito nova para passar por tudo isso. Sou sim. Sou mesmo. E, embora eu tenha perdido muito, ganhei auto-conhecimento, auto-confiança, perspectiva do que realmente importa, visão maior de mundo e das pessoas que me cercam. Ganhei amigos novos e usados e herdados. Ganhei liberdade, não no sentido de poder fazer o que quiser. Mas ganhei essa sensação de que poucas coisas na vida poderão me fazer sofrer mais que isso, então, por que não tentar?
Pode parecer loucura: mas foi quando eu me despedaçei em caquinhos que eu me tornei mais inteira. E isso me faz muito melhor hoje. Não sei ainda se há alguém no comando, nem sei se essa tragédia tem uma razão de ser; mas eu sei que passar por isso vai me tornar mais capaz ainda de ser feliz, do jeito que eu quero: no superlativo máximo possível.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Emocional
Então, que a gente se mudou para o apê novo. Os pequenos enlouqueceram com o quartinho novo, com os brinquedos, com a casa inteira. Aliás, com o prédio todo e a área de lazer bacana que nos motivou a comprá-lo. Eu já comentei aqui sobre os problemas constipatórios do Matheus, de que nada dava jeito. Eu já tinha chegado à conclusão de que o problema dele era puramente emocional. Nada fisiológico. Tinha dado tudo de fibras, frutas, reguladores e, no final das contas, acabava tendo de usar "Minilax" a cada 3 ou 4 dias. Pois bem. Entramos no apê novo e a criança está totalmente regular, fazendo o cocôzinho no troninho diariamente. A sensação de alívio que me arrebate é indescritível. Olha aí mais um motivo para eu respirar fundo e exalar o ar com um sorriso nos lábios.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Acontece
No meio do medo e da dor, no meio do sofrimento e da luta diária com leões, no meio do looping da montanha russa; pequenos toques de alento, pequenas demonstrações da presença constante, confiança que crescia como se nascida também estivesse logo após a saída do útero. No meio do turbilhão e de todas as defesas construídas em torno de si a fim de se proteger, de agir de maneira racional, de evitar maiores problemas porque já lidava com coisas demais; havia algo que parecia calmaria, contra o qual não sabia como se defender, com o qual a razoabilidade era argumento de retórica. No meio da escuridão no de dentro de si; havia uma luz que irradiava a certeza de que os melhores dias ainda estão por vir. No meio do pior momento da vida, havia algo que fazia florescer primaveras no caminho por onde passava, fazia com que os dias parecessem sempre verão, fazia o em torno de si ficar colorido e radiante, fazia surgir a sensação de paz. Algo que dispensava classificações e nomenclaturas e terminologias e elucubrações. Algo que, porque espontâneo, era doce, com uma pitada de perenidade, de caminho cruzado, de vidas que se abraçam apertado com desejo de não mais largar. No meio do momento em que a solidão mais pesava, havia uma troca, uma compreensão, uma doação daquele tipo que se faz sem perceber, por querer e com prazer. Havia algo de presente surpresa e encantamento recíproco. Havia algo que possibilitava falar tudo sem precisar dizer nada e entender perfeitamente silêncios e ausências. Havia algo que parecia reconhecimento, espelho, identificação. Havia algo que fazia crescer a vontade de tornar tudo mais leve, com ar de brincadeira, com gosto de superação, com fim de felicidade. Havia algo que dava a sensação de que era tudo mais fácil só porque existia. Algo que cheirava a cuidado e carinho, que aquecia a alma e fazia cócegas no coração. Algo que tornava o riso fácil, terno, doce. Algo que sobrevivia às armadilhas que a racionalidade plantava para tentar (em vão) demonstrar o quanto era impossível. Algo que escapava ileso aos embates com o medo. No meio de tudo e quando a concretude atingiu todos os sentidos, algo transpareceu no olhar, irradiou no sorriso, deslizou pelas mãos, aguçou os sentidos, revelou cheiros e intenções, deixando evidente o que até então estava ressabiado. Porque algo assim é fluído, é líquido e escoa pelas brechas das máscaras e dos tijolos que colocamos como se barreiras fossem. Algo assim sai transformando a vida, iluminando tudo, invadindo espaços, preenchendo os vazios. Depois que surge, traz a percepção de que não pode ser ignorado, esquecido, preterido, amordaçado, aprisionado. É algo do tipo que explode, que transborda, que grita, e que parece possível, mesmo ante todas impossibilidades; parece perfeito, mesmo com tantas imperfeições; parece fácil, mesmo com todas dificuldades; parece certo, mesmo com tantos erros; parece óbvio, mesmo com tantos ocultos. É algo do tipo indisfarçável e que, assim que chega, já se sabe que veio para ficar. Porque quando algo assim acontece, simplesmente acontece.
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