Eu e o Thomás na sala. TV ligada (só pra fazer barulho mesmo) na Globo. Eu tava concentrada nas agendas escolares e tarefas de casa. Entra a vinheta carnavalesca da Globo com a canção tradicional "Veeeem pra ser feliz (pra ser feliz). Eu tô no ar, tô globoleza...". Nesse momento, ele solta um grito, eu olho e me deparo com os olhões esbugalhados para TV:
_ MAMÃE, OLHA O BUMBUM!!!
"...Eu tô que tô legal. Na tela da TV no meio desse povo..."
_ MAMÃE, OLHA O BIBIU!!!
"... A gente vai se ver na Globo"
_ MAMÃE, OLHA O PEITO!!!
Obrigada, rede Globo, pelas aulas de anatomia feminina gratuitas.
sábado, 12 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
o maior amor do mundo
Matheus e Thomás - 09/02/2011
A coisa mais incrível que esse amor fez por mim foi cuidar das feridas mais fundas que me cortaram ao meio. Sem querer, com inocência e um amor puro, sem saber, sem imaginar e de maneira suave, com doses pequenas e homeopáticas, mas diárias, de razão para viver.
A coisa mais absurda que esse amor fez por mim foi tirar do meu próprio umbigo o meu foco de visão e me fazer enxergar de maneira mais abrangente, perceber o imperceptível, ler o que está escondido no olhar, entender a linguagem subliminar do choro, disfarçar o solavanco e encontrar diariamente maneiras de se manter de pé, de suportar.
A coisa mais avassaladora que esse amor fez por mim foi perceber que eu não sou mais uma só, que a minha vida e as minhas vontades não são mais prioridade, mas quarto ou quinto plano na escala. Academia? Não, Karatê. Salão de beleza? Não, natação. Abdicar por amor, abrir mão por querer e com prazer.
A coisa mais surreal que esse amor fez por mim foi me fazer acreditar no intangível e ver que há mais coisas mesmo entre o céu e a terra do que julgamos nós, agnósticos. Em meio a sustos e um pouquinho de medo, adoçou o coração que amargou uma saudade dolorida.
A coisa mais fantástica que esse amor fez por mim foi descobrir que ele é multiplicável e nunca dividido, que ele pode ser de um, de dois e de mais; que ele é exatamente o mesmo embora sejam os objetos completamente distintos entre si.
A coisa mais maravilhosa que esse amor fez por mim foi me fazer acreditar na vida todos os dias quando o mundo me parecia cinza e vazio e me manter com um sorriso no rosto quando todo resto tinha perdido a graça.
Amo vocês mais do que sou capaz de amar, pequenos!
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Eu aprendi
Houve um tempo em que eu tinha cer-te-za de muitas coisas que hoje me parecem conversa pra boi dormir.
Houve um tempo em que eu amparava meu passo no ombro amigo de quem hoje simplesmente não está.
Houve um tempo em que eu tinha a minha vida toda pela frente e isso dava uma liberdade absurda para tentativas e arrependimentos e me parece que em cinco anos a vida-toda-pela-frente passou.
Houve um tempo em que eu acreditava que eu podia fazer o que quisesse e bem entendesse, sem me preocupar com mais ninguém, até entender que me preocupar com as pessoas é a razão de ser.
Houve um tempo em que um sentimento latejava em mim com intensidade tal que lhe apregoava características de eterno até que acabou.
Houve um tempo em que eu acreditava ter cada coisa em seu lugar até que um menino mau virou de cabeça pra baixo meu castelo da Barbie, espalhando tudo pelo chão.
Houve um tempo em que eu acreditei que algumas amizades eram verdadeiras e aí eu cheguei no olho do furacão e vi que as amizades só são verdadeiras se houver um depois de ou um apesar de.
Houve um tempo em que eu achei que tinha uma vida perfeita até descobrir que a perfeição não existe.
Houve um tempo em que eu achei que o meu sofrimento era o maior do mundo e que este mesmo mundo deveria ser delicado comigo porque eu estava sofrendo, até descobrir que eu poderia sofrer mais (muito mais) e que não era a primeira, nem a única, nem a última, era só mais uma a aguentar os trancos e a encarar os barrancos.
Houve um tempo em que eu achei que eu era frágil até descobrir uma roupa de aço sob a pele.
Houve um tempo em que eu achava que tinha tudo de que precisava para a vida, até um acidente me mostrar que a gente não tem nada.
Houve um tempo em que eu acreditava que ser mãe era tarefa de casa sem fim, era abdicar, até descobrir que é abdicar pelo maior amor do mundo.
Houve um tempo em que eu achava que meu coração fosse empedrar e se trancar, até ver ele bater descompassado, desmanchado assim.
Houve um tempo em que eu pensei que o sorriso jamais voltaria ao meu rosto, que o ânimo de viver tivesse me abandonado, que a vida tinha perdido sentido e cor, que sobreviver era o que importava, até entender que sorrir ajuda a superar, devolve o ânimo e a cor.
Houve um tempo em que eu achava que era autossuficiente e descobri que preciso de gente ao meu redor.
Houve um tempo em que eu não queria mais viver, em que eu só queria que parasse de doer, até entender que dói de qualquer jeito e ainda assim vale a pena estar aqui.
Houve um tempo em que eu queria não sentir mais, até perceber que sentir é a forma mais completa de ser humana.
Houve um tempo em que eu não sabia nada, até que eu aprendi.
Houve um tempo em que eu amparava meu passo no ombro amigo de quem hoje simplesmente não está.
Houve um tempo em que eu tinha a minha vida toda pela frente e isso dava uma liberdade absurda para tentativas e arrependimentos e me parece que em cinco anos a vida-toda-pela-frente passou.
Houve um tempo em que eu acreditava que eu podia fazer o que quisesse e bem entendesse, sem me preocupar com mais ninguém, até entender que me preocupar com as pessoas é a razão de ser.
Houve um tempo em que um sentimento latejava em mim com intensidade tal que lhe apregoava características de eterno até que acabou.
Houve um tempo em que eu acreditava ter cada coisa em seu lugar até que um menino mau virou de cabeça pra baixo meu castelo da Barbie, espalhando tudo pelo chão.
Houve um tempo em que eu acreditei que algumas amizades eram verdadeiras e aí eu cheguei no olho do furacão e vi que as amizades só são verdadeiras se houver um depois de ou um apesar de.
Houve um tempo em que eu achei que tinha uma vida perfeita até descobrir que a perfeição não existe.
Houve um tempo em que eu achei que o meu sofrimento era o maior do mundo e que este mesmo mundo deveria ser delicado comigo porque eu estava sofrendo, até descobrir que eu poderia sofrer mais (muito mais) e que não era a primeira, nem a única, nem a última, era só mais uma a aguentar os trancos e a encarar os barrancos.
Houve um tempo em que eu achei que eu era frágil até descobrir uma roupa de aço sob a pele.
Houve um tempo em que eu achava que tinha tudo de que precisava para a vida, até um acidente me mostrar que a gente não tem nada.
Houve um tempo em que eu acreditava que ser mãe era tarefa de casa sem fim, era abdicar, até descobrir que é abdicar pelo maior amor do mundo.
Houve um tempo em que eu achava que meu coração fosse empedrar e se trancar, até ver ele bater descompassado, desmanchado assim.
Houve um tempo em que eu pensei que o sorriso jamais voltaria ao meu rosto, que o ânimo de viver tivesse me abandonado, que a vida tinha perdido sentido e cor, que sobreviver era o que importava, até entender que sorrir ajuda a superar, devolve o ânimo e a cor.
Houve um tempo em que eu achava que era autossuficiente e descobri que preciso de gente ao meu redor.
Houve um tempo em que eu não queria mais viver, em que eu só queria que parasse de doer, até entender que dói de qualquer jeito e ainda assim vale a pena estar aqui.
Houve um tempo em que eu queria não sentir mais, até perceber que sentir é a forma mais completa de ser humana.
Houve um tempo em que eu não sabia nada, até que eu aprendi.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011
Sonho
Ela me apareceu em sonho. Não sei porque comigo, não faz sentido algum. A gente não se conhecia, a gente não tinha qualquer vínculo. Veio talvez para dividir a dor de não estar mais, a dor de ver a dor, a dor de não cuidar. A surpresa da visita, o contato direto com alguém do lado de lá, me deixou atônita e a minha reação foi falar muito. Eu não queria ouvir, eu queria perguntar. Eu queria saber do meu ele, eu queria saber se eles tinham se encontrado e como ele estava. Eu queria descobrir se era verdade o que disseram. Eu queria entender as razões. Eu falei, falei, falei. Ela sorria, com cabelos longos caídos ao redor de si, com uma blusa branca e calça jeans. Ela sorria pra mim serena e tranquila, como se fosse muito superior àquela minha afobação mundana, como se entendesse minha inquietação e nada pudesse fazer para arrefecê-la. Não era o meu momento, não era para me dar respostas que ela me aparecera. Era um momento dela e ela precisava me falar. Ela sorria serena e com olhos apertados como ele. Ela sorria e me pedia para ajudar. Ela sorria e dizia que eu poderia ser ouvida e compreendida. Ela sorria e eu chorava. "Cuide!". Cuidarei.
(Escrito em outubro/2010)
(Escrito em outubro/2010)
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Cartas para você XXIV
Thi,
Preciso pedir desculpas. Durante muito tempo eu retive você aqui, eu me agarrei às suas lembranças, à sua essência, ao seu jeito de ser e de lidar com tudo para poder caminhar. Eu recorria às palavras que você me dizia para tentar colocar ordem no caos que ficou nossa vida. Nos momentos de medo ou desespero, eu pedia que você, onde quer que estivesse, me ajudasse a ficar em pé, a seguir em frente, a encarar. Quando a minha força estava esvaindo, quando as lágrimas rolavam, eu pedia, pedia, pedia: Thi, Thi, Thi...
Eu sei: egoísta. Eu sei: de novo e como sempre. Não sei como, não sei porque, não sei nem explicar direito o raciocínio dentro da minha mente descrente. É que pensar que você poderia me ajudar e que estava por perto me fazia me sentir mais capaz. Perdi a conta de quantas vezes me utilizei desse recurso. E, de repente, nem era mais um processo mental premeditado. Em qualquer situação, eu tava lá, pensando em você e acreditando que você me ajudava.
Ontem, quando o Matheus começou a tossir aquela tosse que você nunca ouviu, mas que me fez bater no hospital com ele algumas vezes, quando ele começou a reclamar da garganta doendo, quando ele começou a dizer que tava com sono e não conseguia dormir; eu pedi por você de novo. Eu pedi que você me ajudasse a cuidar dele e a fazer o que devia ser feito. Eu pedi que você estivesse ali com a gente para que eu não precisasse passar pelo desespero de vê-lo sem ar, em crise de novo. Eu dei os remédios de sempre e, meia hora depois, ele dormia tranquilamente.
O fato é que eu percebi o contrassenso que eu sou. Eu digo que estamos bem e que conseguiremos sem você. Eu digo que me virei por aqui e que toquei nossa vida em frente. Eu digo que consigo, que sou capaz, que eu posso; mas diante da primeira pedra, eu já choro seu nome e peço sua ajuda e me tranquilizo em saber que, em algum lugar, você está a fazer por nós o que não pode mais. Como você vai ficar em paz assim?
Desculpa, meu amor, eu sou mesmo inconsequente, eu sou mesmo o cúmulo do egoísmo. Eu quero que você acredite que estamos bem e que pare de sofrer por não estar presente. Eu quero que você entenda e perceba que a gente está seguindo a vida por aqui e que isso seja suficiente para você descansar. Não há dúvidas de que seria muito melhor com você por perto, porém não se pode fazer conjecturas com impossibilidades. Eu queria me desculpar por ser insegura e demandante. Eu queria ser mais forte, mais firme, mais segura de mim e dos meus atos, Thi.
Durante muito tempo eu vivi como espectro do que você era, chegou a hora de caminhar com minhas próprias pernas.
Amo você demais e para sempre!
Moreninha
Preciso pedir desculpas. Durante muito tempo eu retive você aqui, eu me agarrei às suas lembranças, à sua essência, ao seu jeito de ser e de lidar com tudo para poder caminhar. Eu recorria às palavras que você me dizia para tentar colocar ordem no caos que ficou nossa vida. Nos momentos de medo ou desespero, eu pedia que você, onde quer que estivesse, me ajudasse a ficar em pé, a seguir em frente, a encarar. Quando a minha força estava esvaindo, quando as lágrimas rolavam, eu pedia, pedia, pedia: Thi, Thi, Thi...
Eu sei: egoísta. Eu sei: de novo e como sempre. Não sei como, não sei porque, não sei nem explicar direito o raciocínio dentro da minha mente descrente. É que pensar que você poderia me ajudar e que estava por perto me fazia me sentir mais capaz. Perdi a conta de quantas vezes me utilizei desse recurso. E, de repente, nem era mais um processo mental premeditado. Em qualquer situação, eu tava lá, pensando em você e acreditando que você me ajudava.
Ontem, quando o Matheus começou a tossir aquela tosse que você nunca ouviu, mas que me fez bater no hospital com ele algumas vezes, quando ele começou a reclamar da garganta doendo, quando ele começou a dizer que tava com sono e não conseguia dormir; eu pedi por você de novo. Eu pedi que você me ajudasse a cuidar dele e a fazer o que devia ser feito. Eu pedi que você estivesse ali com a gente para que eu não precisasse passar pelo desespero de vê-lo sem ar, em crise de novo. Eu dei os remédios de sempre e, meia hora depois, ele dormia tranquilamente.
O fato é que eu percebi o contrassenso que eu sou. Eu digo que estamos bem e que conseguiremos sem você. Eu digo que me virei por aqui e que toquei nossa vida em frente. Eu digo que consigo, que sou capaz, que eu posso; mas diante da primeira pedra, eu já choro seu nome e peço sua ajuda e me tranquilizo em saber que, em algum lugar, você está a fazer por nós o que não pode mais. Como você vai ficar em paz assim?
Desculpa, meu amor, eu sou mesmo inconsequente, eu sou mesmo o cúmulo do egoísmo. Eu quero que você acredite que estamos bem e que pare de sofrer por não estar presente. Eu quero que você entenda e perceba que a gente está seguindo a vida por aqui e que isso seja suficiente para você descansar. Não há dúvidas de que seria muito melhor com você por perto, porém não se pode fazer conjecturas com impossibilidades. Eu queria me desculpar por ser insegura e demandante. Eu queria ser mais forte, mais firme, mais segura de mim e dos meus atos, Thi.
Durante muito tempo eu vivi como espectro do que você era, chegou a hora de caminhar com minhas próprias pernas.
Amo você demais e para sempre!
Moreninha
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Caio F. autor da minha vida IV
Estou relendo Caio Fernando Abreu. Todos os meus livros, na exata ordem em que li da primeira vez, empilhados no criado-mudo do lado direito da cama. Estou relendo Caio Fernando Abreu e sentindo de novo as punhaladas que seus escritos me causam, a precisão com que ele fala da minha vida, a forma metafórica e viciante de falar de sentimentos. Queria ser enigmática como ele é, queria dar vazão ao que lateja como ele faz. Queria conseguir ser profunda e reflexiva como os escritos dele. Em muitas passagens, ele conta a minha vida. Eis aqui mais uma:
"Observei o que antes chamara de ausência sobre a cama, e percebi que meu corpo ainda humano sentia na carne a falta das descargas elétricas de seus dedos, mas que em meu cérebro estranhos circuitos geravam suas próprias imagens e sua memória e sua mitologia e que eu dispunha de mim como se fosse meu próprio dono e que se meu corpo ainda humano sofria fomes e ausências esse cérebro guardava todas as coisas não mais como um álbum de retratos mas como partes integrantes e integradas de mim mesmo. Não sentia mais sua ausência porque eu também era ausência. Não me sentia sozinho nem desorientado porque sabia que se não era ao mesmo tempo todas as outras pessoas e todas as coisas havia pelo menos alguns que haviam sido também escolhidos e que nos encontraríamos e que talvez já nos tivéssemos encontrado e que nosso caminho a princípio escuro era o mesmo. Soube para sempre que ele não voltaria. E que não tinha me abandonado." (Caio Fernando Abreu, Iniciação in: O Ovo Apunhalado, p. 117).
"Observei o que antes chamara de ausência sobre a cama, e percebi que meu corpo ainda humano sentia na carne a falta das descargas elétricas de seus dedos, mas que em meu cérebro estranhos circuitos geravam suas próprias imagens e sua memória e sua mitologia e que eu dispunha de mim como se fosse meu próprio dono e que se meu corpo ainda humano sofria fomes e ausências esse cérebro guardava todas as coisas não mais como um álbum de retratos mas como partes integrantes e integradas de mim mesmo. Não sentia mais sua ausência porque eu também era ausência. Não me sentia sozinho nem desorientado porque sabia que se não era ao mesmo tempo todas as outras pessoas e todas as coisas havia pelo menos alguns que haviam sido também escolhidos e que nos encontraríamos e que talvez já nos tivéssemos encontrado e que nosso caminho a princípio escuro era o mesmo. Soube para sempre que ele não voltaria. E que não tinha me abandonado." (Caio Fernando Abreu, Iniciação in: O Ovo Apunhalado, p. 117).
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Caio F. autor da minha vida III
"Porque, pra viver de verdade, a gente tem que quebrar a cara.Tem que tentar e não conseguir. Achar que vai dar e ver que não deu. Querer muito e não alcançar. Ter e perder. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e dizer uma coisa terrível, mas que tem que ser dita. Tem que ter coragem de olhar no fundo dos olhos de alguém que a gente ama e ouvir uma coisa terrível, que tem que ser ouvida. A vida é incontornável. A gente perde, leva porrada, é passado pra trás, cai. Dói, ai, dói demais. Mas passa. Está vendo essa dor que agora samba no seu peito de salto agulha? Você ainda vai olhá-la no fundo dos olhos e rir da cara dela. Juro que estou falando a verdade. Eu não minto. Vai passar." (Caio F.)
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Notícias dos pequenos
Últimos dias de férias na piscina da casa nova
Aproveitando o play
Descobrindo formigas
Santa Lalá!
Primeiro dia de aula
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
O fantástico mundo do futuro do pretérito
Durante muito tempo, eu vivi no fantástico mundo do futuro do pretérito. Minha vida corria dura e real e, em paralelo, o futuro do pretérito desenhava em minha mente situações e diálogos com gostinho de saudade. Com certa frequência, eu me mudava para lá e me perdia em devaneios cujas ações tinham os verbos terminados sempre em -ia.
O fantástico mundo do futuro do pretérito tem milhares de encantos. Nele, a gente pinta a vida das cores que a gente quer e revive os melhores momentos do que ficou pra trás. Nele, a gente pode ter de novo o que perdeu, sentir de novo o frio na barriga, sorrir e amar de novo. Nele, a gente pode criar momentos perfeitos, situações perfeitas, ternura e amor. Nele, a gente pode deixar a vida ser sempre doce, porque não há limites no fantástico mundo do futuro do pretérito.
Porém, há também um contraponto, um peso, um senão. Lá no fantástico mundo do futuro do pretérito, tudo é precedido por uma partícula condicional. Não há nenhuma ação que não gere uma oração subordinativa condicional. No meu caso em particular, não se tratava de partículas condicionais viáveis, possíveis, plausíveis. Não era o caso de uma condição futura certa, um termo final a ser alcançado. A partícula condicional que me alçava para lá tinha a conotação do impossível.
E aí, quando você percebe que não, que nunca mais o fantástico mundo do futuro do pretérito será conjugado no presente do indicativo; você entende imediatamente o que o sofrimento é capaz de fazer com a mente das pessoas. Esse choque de realidade arrasta para a vida real qualquer um que anseie permanecer por lá. E tendo retornado, resolvi abandonar as viagens para lá. Reconheço que muitas vezes era sensação de conforto, era sentimento que eterniza. Mas, a bem da verdade, era também fuga da lucidez e da racionalidade que sonhei pra mim.
Eu não vou mais ao fantástico mundo do futuro do pretérito. Até porque, sempre que a gente pensar como seria se; qualquer coisa, qualquer situação, qualquer momento se torna muito triste e pesado e sofrido pelo simples fato que não.
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