terça-feira, 12 de abril de 2011
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Cartas para você XXV
Thi,
Não sei explicar bem porque, mas é aos domingos que eu sinto a saudade mais doída. Saudade de não ter, não saber, não poder falar. Saudade de ter você na vida, ao lado, brincando com as crianças, deitado na cama... No corre-corre dos dias úteis, sua falta quase passa batido. Nos meus finais de semana cheios de nada para fazer, estirada na cama, ela vem devagarzinho, abre as portas do porão de dentro e vai puxando aleatoriamente as muitas lembranças de nós dois.
Eu costumava dizer para você que adorava a expressão criar laços (adoro ainda). Sinto que é bem isso que a gente faz na vida: cria laços com as pessoas. Cada momento, cada alegria vivida ou lágrima derramada junto, cada abraço, cada beijo, cada vitória dividida, cada vez que se quebra um galho para alguém, sua fita e a fita do outro se unem num laço. Ao longo da vida, eles são muitos. E quantos mais laços se tem com alguém, maior é o vínculo também, mais forte é aquilo que prende ao outro. Você gostava das minhas metáforas, lembra, bebeim?
Quando a gente perde alguém assim, de repente, esses laços não somem instantaneamente. A sensação que se tem é de que eles continuam ali, prendendo aquelas vidas. Quem fica, tem a impressão de que permanece naquele emaranhado, de que tudo que construiu com aquela pessoa que se foi ainda existe. É física a sensação, é real. Muito lentamente, os laços afrouxam e se soltam. Grande parte dessas lembranças, desses momentos, daquilo tudo que unia vai permanecer na memória; mas não será mais laço.
É sempre aos domingos que eu tenho inundações de lembranças e que percebo o quão frouxos nossos laços estão agora. É sempre aos domingos que eu vejo e realizo o quanto de você já perdi. E dói. Dói porque não foi escolha minha nem sua. Dói porque foi prematuro, no meio de tantos sonhos, num ano que era pra ser incrível, às vésperas de tantos novos laços serem dados. Dói de um jeito estranho e inexplicável. Dói a despeito da tranquilidade que me ronda, da calma que é presença, da alegria dos pequenos. Dói a despeito das cosquinhas no coração e do sorriso no rosto. Dói assim, como eu disse no post sobre o outro domingo, sem me dobrar, sem me envergar, sem me turvar a visão, sem me tirar o ar dos pulmões, mas dói.
Logo depois do janeiro trágico, Thi, tudo que eu queria era chegar no muito depois disso, tempo em que seria tudo suportável. Agora que é tudo suportável, que eu encontrei um jeito de fazer a dor caber e se acomodar em mim, eu penso que eu não quero tirar você daqui, eu não quero esquecer os nosso melhores momentos e os laços que atamos e, ao mesmo tempo, eu sinto que é hora de deixar você ir, deixar muita coisa esvanecer, amarelar na parede da memória, deixar as fitas que nos prendem se soltarem.
De alguma forma, eu sinto que dói em você não estar mais aqui, que você sente essa saudade e essa angústia. De algum jeito meio cético-racional-descrente, eu sei que você sente demais nossa falta e queria estar presente, assim como eu acho que o que eu digoqescrevo chega até você.
Sabe, mozinho, uma das coisas mais marcantes em você era a resolutividade. Você sabia, como poucos, desenrolar os problemas, enfrentá-los, solucioná-los e sabia também reconhecer o que era sem solução. A nossa separação, nesse tempo-espaço em que estou, é irreversível, Thi. Não tem jeito. E eu preciso seguir por aqui sem você e você precisa seguir sem a gente onde quer que esteja.
Você será sempre uma linda história, o pai das crianças, um grande amor, um homem incrível, um amigo inesquecível, um médico maravilhoso; mas não será mais meu companheiro, meu confidente, meu marido, meu amante e essa constatação dói. Mesmo doendo, os laços estão frouxos e se desfazendo. Mesmo doendo, eu não tenho como reatá-los. Mesmo doendo, mesmo sem querer, mesmo sem convicção religiosa alguma, eu sinto que você existe em algum lugar e eu preciso que você entenda que esse é o curso natural das coisas, é o que dá pra fazer. É preciso encontrar novos motivos para viver e ser feliz, meu amor.
Não sei se a gente vai se encontrar algum dia, em algum lugar. Não sei se um dia estarei convencida de que essa perda, esse sofrimento e essa dor tem uma justificativa razoável. Não sei se estarei certa de que havia uma missão para você e outra para mim e que nosso destino nos unia só até o janeiro trágico. Não sei se um dia estarei conformada a ponto de não sentir mais revolta, de não questionar mais nada. Mas, com você, com a nossa convivência e com os laços que tínhamos, eu aprendi a ser resiliente e resolutiva. Por isso, meu amor, por mim, pelos pequenos, pela vida que segue e me chama, eu abro portas e janelas e deixo o sol entrar.
Eu penso sempre na sua música preferida, que tocou na sua missa e tento, através dela, me conformar: "E quando eu tiver saído para fora do teu círculo, tempo tempo tempo tempo, não serei nem terás sido. Ainda assim acredito ser possível reunirmo-nos, tempo tempo tempo tempo, num outro tipo de vínculo". Quem sabe, Thi, seja isso mesmo: um outro tipo de vínculo.
Amo você demais!
Moreninha
Não sei explicar bem porque, mas é aos domingos que eu sinto a saudade mais doída. Saudade de não ter, não saber, não poder falar. Saudade de ter você na vida, ao lado, brincando com as crianças, deitado na cama... No corre-corre dos dias úteis, sua falta quase passa batido. Nos meus finais de semana cheios de nada para fazer, estirada na cama, ela vem devagarzinho, abre as portas do porão de dentro e vai puxando aleatoriamente as muitas lembranças de nós dois.
Eu costumava dizer para você que adorava a expressão criar laços (adoro ainda). Sinto que é bem isso que a gente faz na vida: cria laços com as pessoas. Cada momento, cada alegria vivida ou lágrima derramada junto, cada abraço, cada beijo, cada vitória dividida, cada vez que se quebra um galho para alguém, sua fita e a fita do outro se unem num laço. Ao longo da vida, eles são muitos. E quantos mais laços se tem com alguém, maior é o vínculo também, mais forte é aquilo que prende ao outro. Você gostava das minhas metáforas, lembra, bebeim?
Quando a gente perde alguém assim, de repente, esses laços não somem instantaneamente. A sensação que se tem é de que eles continuam ali, prendendo aquelas vidas. Quem fica, tem a impressão de que permanece naquele emaranhado, de que tudo que construiu com aquela pessoa que se foi ainda existe. É física a sensação, é real. Muito lentamente, os laços afrouxam e se soltam. Grande parte dessas lembranças, desses momentos, daquilo tudo que unia vai permanecer na memória; mas não será mais laço.
É sempre aos domingos que eu tenho inundações de lembranças e que percebo o quão frouxos nossos laços estão agora. É sempre aos domingos que eu vejo e realizo o quanto de você já perdi. E dói. Dói porque não foi escolha minha nem sua. Dói porque foi prematuro, no meio de tantos sonhos, num ano que era pra ser incrível, às vésperas de tantos novos laços serem dados. Dói de um jeito estranho e inexplicável. Dói a despeito da tranquilidade que me ronda, da calma que é presença, da alegria dos pequenos. Dói a despeito das cosquinhas no coração e do sorriso no rosto. Dói assim, como eu disse no post sobre o outro domingo, sem me dobrar, sem me envergar, sem me turvar a visão, sem me tirar o ar dos pulmões, mas dói.
Logo depois do janeiro trágico, Thi, tudo que eu queria era chegar no muito depois disso, tempo em que seria tudo suportável. Agora que é tudo suportável, que eu encontrei um jeito de fazer a dor caber e se acomodar em mim, eu penso que eu não quero tirar você daqui, eu não quero esquecer os nosso melhores momentos e os laços que atamos e, ao mesmo tempo, eu sinto que é hora de deixar você ir, deixar muita coisa esvanecer, amarelar na parede da memória, deixar as fitas que nos prendem se soltarem.
De alguma forma, eu sinto que dói em você não estar mais aqui, que você sente essa saudade e essa angústia. De algum jeito meio cético-racional-descrente, eu sei que você sente demais nossa falta e queria estar presente, assim como eu acho que o que eu digoqescrevo chega até você.
Sabe, mozinho, uma das coisas mais marcantes em você era a resolutividade. Você sabia, como poucos, desenrolar os problemas, enfrentá-los, solucioná-los e sabia também reconhecer o que era sem solução. A nossa separação, nesse tempo-espaço em que estou, é irreversível, Thi. Não tem jeito. E eu preciso seguir por aqui sem você e você precisa seguir sem a gente onde quer que esteja.
Você será sempre uma linda história, o pai das crianças, um grande amor, um homem incrível, um amigo inesquecível, um médico maravilhoso; mas não será mais meu companheiro, meu confidente, meu marido, meu amante e essa constatação dói. Mesmo doendo, os laços estão frouxos e se desfazendo. Mesmo doendo, eu não tenho como reatá-los. Mesmo doendo, mesmo sem querer, mesmo sem convicção religiosa alguma, eu sinto que você existe em algum lugar e eu preciso que você entenda que esse é o curso natural das coisas, é o que dá pra fazer. É preciso encontrar novos motivos para viver e ser feliz, meu amor.
Não sei se a gente vai se encontrar algum dia, em algum lugar. Não sei se um dia estarei convencida de que essa perda, esse sofrimento e essa dor tem uma justificativa razoável. Não sei se estarei certa de que havia uma missão para você e outra para mim e que nosso destino nos unia só até o janeiro trágico. Não sei se um dia estarei conformada a ponto de não sentir mais revolta, de não questionar mais nada. Mas, com você, com a nossa convivência e com os laços que tínhamos, eu aprendi a ser resiliente e resolutiva. Por isso, meu amor, por mim, pelos pequenos, pela vida que segue e me chama, eu abro portas e janelas e deixo o sol entrar.
Eu penso sempre na sua música preferida, que tocou na sua missa e tento, através dela, me conformar: "E quando eu tiver saído para fora do teu círculo, tempo tempo tempo tempo, não serei nem terás sido. Ainda assim acredito ser possível reunirmo-nos, tempo tempo tempo tempo, num outro tipo de vínculo". Quem sabe, Thi, seja isso mesmo: um outro tipo de vínculo.
Amo você demais!
Moreninha
sexta-feira, 8 de abril de 2011
Eu sou a melhor mãe que posso ser
Hoje é dia de blogagem coletiva. Muitos blogs vão falar sobre maternidade real, sobre os desafios e delícias de ser mãe. Por ser um tema que toca profundamente e por ser essa tarefa a razão de ser da minha vida, eu não pude me esquivar de escrever.
Eu sempre fui o oposto do que se chama maternal. Eu via crianças correndo e pulando e chorando e sorrindo, eu via crianças calminhas e elétricas, eu via crianças e bebês fofos por todos os lados e elas não me despertavam o instinto, sabe? Eu me preocupava com minhas notas, com atividades revolucionárias (isso é assunto para outro post), com política, com paqueras, com festas e mais tarde, com meu futuro profissional. Eu tinha um histórico de ovário micropolicístico e útero retrovertido, o que, disseram, seria complicador quando eu desejasse engravidar, então, eu nem pensava nisso, não tinha a menor vontade.
Aí, como eu disse no post de ontem, num dia qualquer, num exame de rotina, numa consulta com um médico estranho, no último semestre da faculdade, aos 23 anos, no meio de um engodo com o ex-namorado, eu recebi a notícia de que estava grávida. E, apesar de não ser uma pessoa religiosa, apesar de ser pragmática e racional, apesar de sentir, naquele momento da notícia, o mundo mais ou menos sair da rotação normal, eu tive certeza de que o Matheus nasceria e que seria meu filho. Naquela oportunidade, eu achei que ele poderia ser minha única oportunidade de ser mãe e eu não estava nem um pouco preocupada com o que meus pais, meu ex-namorado-futuro-marido, minha família e a família dele iriam falar. Eu queria aquele bebê. E foi assim que a minha vida mudou completamente pela primeira vez.
Juntamente com a maternidade, eu me tornei uma profissional. Juntamente com a maternidade, eu me tornei esposa. Juntamente com a maternidade, eu me tornei dona de casa. E é por isso que eu digo que foi a primeira vez que minha vida mudou. Eu não queria perder nenhum aspecto daquilo que eu sempe fui e conciliar todas estas funções, que caíram sobre mim de uma vez só, foi um trabalho delicioso. Dois anos depois de descobrir a gravidez do Matheus, eu descobri que esperava o Thomás. E, com eles dois na minha vida, eu descobri que me tornei uma pessoa melhor, mais altruísta, mais sensível, mais solidária, mais amiga.
Ter filhos dá uma razão para viver, é ter por quem manter os pés no chão e a cabeça na lua. Ter filhos cria nós cegos na relação com quem você ama, fortalece, une, reforça. Ter filhos é ter todo dia motivo para sorrir, para se orgulhar de cada conquista, é descobrir o mundo de novo, é aprender a falar de novo, é descobrir sabores, gostos, cores, números, letras tudo de novo. Ter filhos é aprender muito mais que ensinar; é crescer muito mais que ajudar; é receber muito mais que se dá. Ter filho é vivenciar um amor que não tem limite, que não tem fronteira, que não tem fim, aquele que faz qualquer coisa, aquele que vara madrugada adentro insone e percorre qualquer caminho tortuoso. Ter filho é expandir, é progredir, é ir além do que se é.
Eu vivia tranquila e feliz essa vida à quatro: eu, ele e os dois pequenos. Até que um acidente fatal tirou ele do nosso convívio e a minha vida mudou completamente pela segunda vez. A dor que eu senti, a sensação de que puxaram meu tapete, de injustiça, de revolta, de irresignação não tem tamanho e já foram objetos de algumas dezenas de posts aqui. Aquelas funções de que eu falei, depois do janeiro trágico, dobraram e eu tinha, mais uma vez, que me adaptar a elas, só que dessa vez carregando dentro de mim uma dor que me dobrava, que dilacerava meu coração, que me revirava inteira por dentro e me causava a sensação de estar sufocando a cada inspiração.
Nesse segundo momento, ter filhos foi poder ter sanidade mental e motivo para prosseguir, enfrentar a burocracia, a papelada, as dificuldades de grana, responder perguntas de uma criança de três anos enlutada e sofrendo a falta do pai mais carinhoso do mundo que tinha. A maternidade fez coisas extraordinárias por mim nesse período, curou minhas feridas, enxugou minhas lágrimas, me arrancou gargalhadas quando os olhos ainda estavam vermelhos e inchados. A maternidade me colocou no prumo, me fez assumir o volante da nossas vidas, me fez permanecer com os pés no chão e me devolveu a esperança de que coisas boas ainda estão porvir.
Por isso tudo e por muito mais, eu tento diariamente ser a melhor mãe que eu posso ser, sem deixar de ser a mulher que eu sou, tentando ao máximo fazê-los indepentes, resolvidos, sem traumas significativos, sem dores... Todos os dias eu encho meus pequenos de amor para que eles se sintam seguros e inteiros, para que entendam que uma fatalidade nos tirou o pai deles, mas que ainda assim somos uma família feliz. Todos os dias eu me esforço para ensiná-los a ser gente e aprendo inúmeras lições, principalmente que as melhores coisas da vida são simples, são corriqueiras e estão aqui, ao alcance do nosso abraço.
Eu sempre fui o oposto do que se chama maternal. Eu via crianças correndo e pulando e chorando e sorrindo, eu via crianças calminhas e elétricas, eu via crianças e bebês fofos por todos os lados e elas não me despertavam o instinto, sabe? Eu me preocupava com minhas notas, com atividades revolucionárias (isso é assunto para outro post), com política, com paqueras, com festas e mais tarde, com meu futuro profissional. Eu tinha um histórico de ovário micropolicístico e útero retrovertido, o que, disseram, seria complicador quando eu desejasse engravidar, então, eu nem pensava nisso, não tinha a menor vontade.
Aí, como eu disse no post de ontem, num dia qualquer, num exame de rotina, numa consulta com um médico estranho, no último semestre da faculdade, aos 23 anos, no meio de um engodo com o ex-namorado, eu recebi a notícia de que estava grávida. E, apesar de não ser uma pessoa religiosa, apesar de ser pragmática e racional, apesar de sentir, naquele momento da notícia, o mundo mais ou menos sair da rotação normal, eu tive certeza de que o Matheus nasceria e que seria meu filho. Naquela oportunidade, eu achei que ele poderia ser minha única oportunidade de ser mãe e eu não estava nem um pouco preocupada com o que meus pais, meu ex-namorado-futuro-marido, minha família e a família dele iriam falar. Eu queria aquele bebê. E foi assim que a minha vida mudou completamente pela primeira vez.
Juntamente com a maternidade, eu me tornei uma profissional. Juntamente com a maternidade, eu me tornei esposa. Juntamente com a maternidade, eu me tornei dona de casa. E é por isso que eu digo que foi a primeira vez que minha vida mudou. Eu não queria perder nenhum aspecto daquilo que eu sempe fui e conciliar todas estas funções, que caíram sobre mim de uma vez só, foi um trabalho delicioso. Dois anos depois de descobrir a gravidez do Matheus, eu descobri que esperava o Thomás. E, com eles dois na minha vida, eu descobri que me tornei uma pessoa melhor, mais altruísta, mais sensível, mais solidária, mais amiga.
Ter filhos dá uma razão para viver, é ter por quem manter os pés no chão e a cabeça na lua. Ter filhos cria nós cegos na relação com quem você ama, fortalece, une, reforça. Ter filhos é ter todo dia motivo para sorrir, para se orgulhar de cada conquista, é descobrir o mundo de novo, é aprender a falar de novo, é descobrir sabores, gostos, cores, números, letras tudo de novo. Ter filhos é aprender muito mais que ensinar; é crescer muito mais que ajudar; é receber muito mais que se dá. Ter filho é vivenciar um amor que não tem limite, que não tem fronteira, que não tem fim, aquele que faz qualquer coisa, aquele que vara madrugada adentro insone e percorre qualquer caminho tortuoso. Ter filho é expandir, é progredir, é ir além do que se é.
Eu vivia tranquila e feliz essa vida à quatro: eu, ele e os dois pequenos. Até que um acidente fatal tirou ele do nosso convívio e a minha vida mudou completamente pela segunda vez. A dor que eu senti, a sensação de que puxaram meu tapete, de injustiça, de revolta, de irresignação não tem tamanho e já foram objetos de algumas dezenas de posts aqui. Aquelas funções de que eu falei, depois do janeiro trágico, dobraram e eu tinha, mais uma vez, que me adaptar a elas, só que dessa vez carregando dentro de mim uma dor que me dobrava, que dilacerava meu coração, que me revirava inteira por dentro e me causava a sensação de estar sufocando a cada inspiração.
Nesse segundo momento, ter filhos foi poder ter sanidade mental e motivo para prosseguir, enfrentar a burocracia, a papelada, as dificuldades de grana, responder perguntas de uma criança de três anos enlutada e sofrendo a falta do pai mais carinhoso do mundo que tinha. A maternidade fez coisas extraordinárias por mim nesse período, curou minhas feridas, enxugou minhas lágrimas, me arrancou gargalhadas quando os olhos ainda estavam vermelhos e inchados. A maternidade me colocou no prumo, me fez assumir o volante da nossas vidas, me fez permanecer com os pés no chão e me devolveu a esperança de que coisas boas ainda estão porvir.
Por isso tudo e por muito mais, eu tento diariamente ser a melhor mãe que eu posso ser, sem deixar de ser a mulher que eu sou, tentando ao máximo fazê-los indepentes, resolvidos, sem traumas significativos, sem dores... Todos os dias eu encho meus pequenos de amor para que eles se sintam seguros e inteiros, para que entendam que uma fatalidade nos tirou o pai deles, mas que ainda assim somos uma família feliz. Todos os dias eu me esforço para ensiná-los a ser gente e aprendo inúmeras lições, principalmente que as melhores coisas da vida são simples, são corriqueiras e estão aqui, ao alcance do nosso abraço.
quinta-feira, 7 de abril de 2011
Republico
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
É a sensação, enfim, de estar completo
A gente passa a vida inteira procurando esta sensação de plenitude, de completude, de felicidade. A gente vive essa ânsia e esse desconforto. A gente busca em outras coisas a razão de ser, o motivo para estar aqui. A gente pensa em virar mesas, em mudar o mundo, em causas sociais, em religiões, em filosofias, em política... A gente busca, a gente procura, a gente revira cada pedra do moinho e cada acontecimento marcante a fim de descobrir para que e o porquê de estar aqui nesse mundo louco e árido e cruel e injusto e violento. A gente cai nas histórias mal contadas. A gente dá cem vezes com a porta na cara. A gente bate a cabeça na parede com gosto de gás. A gente afoga magoas, entorna garrafas, usa drogas pesadas... E o vazio continua lá.
Até que um dia, num exame de rotina, quando menos se esperava, quando você estava mais abarrotada de coisas pra fazer, quando seu celular tinha descarregado, quando você nem mais acreditava que era possível, quando não era o melhor momento, quando você absolutamente não tinha planejado nada, você recebe a notícia de um médico desconhecido: "Parabéns, Doutora! A senhora está grávida!".
Depois do susto, depois do medo, depois do parto, depois de anos, você descobre que era para isso, era essa a razão de ser, era isso que você procurava. Não sei precisar o momento certo em que essa epifania ocorre. Não sei se à primeira vista, ao primeiro choro, na primeira noite insone, quando o sorriso dele mostra o reconhecimento desse laço infinito ou se quando ele expressa o amor que sente em gestos diminutos como seu tamanho. Não sei. A Ivete diz que agora já sabe, eu prefiro um poema do Pedro Lyra que me traduz:
Soneto do Amor Nascendo
Começa.
É a própria vida que começa
(ou recomeça)
ao talhe de um clarão.
E raia
esplende
espalha-se no mundo
como se nunca mais fosse apagar-se.
Tudo realça além do seu sentido.
O ser encontra em outro a sua razão.
Agora é desfrutar
conter o tempo
entre os dedos
os lábios
ou as coxas.
Só para isso vale ter nascido.
Tudo que nos faltava nos acorre
num desafio
num toque
num sussurro
que o outro retribui
maravilhado.
É a sensação, enfim, de estar completo
num mundo que, afinal, se justifica.
Até que um dia, num exame de rotina, quando menos se esperava, quando você estava mais abarrotada de coisas pra fazer, quando seu celular tinha descarregado, quando você nem mais acreditava que era possível, quando não era o melhor momento, quando você absolutamente não tinha planejado nada, você recebe a notícia de um médico desconhecido: "Parabéns, Doutora! A senhora está grávida!".
Depois do susto, depois do medo, depois do parto, depois de anos, você descobre que era para isso, era essa a razão de ser, era isso que você procurava. Não sei precisar o momento certo em que essa epifania ocorre. Não sei se à primeira vista, ao primeiro choro, na primeira noite insone, quando o sorriso dele mostra o reconhecimento desse laço infinito ou se quando ele expressa o amor que sente em gestos diminutos como seu tamanho. Não sei. A Ivete diz que agora já sabe, eu prefiro um poema do Pedro Lyra que me traduz:
Soneto do Amor Nascendo
Começa.
É a própria vida que começa
(ou recomeça)
ao talhe de um clarão.
E raia
esplende
espalha-se no mundo
como se nunca mais fosse apagar-se.
Tudo realça além do seu sentido.
O ser encontra em outro a sua razão.
Agora é desfrutar
conter o tempo
entre os dedos
os lábios
ou as coxas.
Só para isso vale ter nascido.
Tudo que nos faltava nos acorre
num desafio
num toque
num sussurro
que o outro retribui
maravilhado.
É a sensação, enfim, de estar completo
num mundo que, afinal, se justifica.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
É só saudade
Eu tava facebookeando quando me deparei com a foto a seguir:
E fiz o comentário de que o sorriso era matador. Era mesmo. Turma da faculdade dele aí. Nessa época a gente nem tava namorando. Foi a fase de solteiro pegador dele com essa turma toda que estava na mesma vibe. Todo mundo tinha acabado namoros de muito tempo.
É engraçado ver essa foto de um momento em que eu nem estava presente, em um momento em que eu nem era dele e ainda assim doer uma pontada dentro de mim. Eu olho e me pergunto como pode ele não estar mais no mundo. Eu olho e escuto no fundo da minha memória auditiva a gargalhada que ele deve ter dado para sair assim, com os olhinhos quase fechados na foto. Eu olho e me lembro perfeitamente do jeito dele enxugando o suor da testa (detalhe muito bem ressaltado pelo Pedro, que publicou a foto no FB e tá aí, de branco - aumenta a foto que dá pra ver).
Dói sabe? Uma dor de saudade, de irresignação, de abraçar apertado até sufocar como quem diz "você faz tanta falta", de beijar profundo e intenso como quem diz "eu te amo", de estar perto, só estar perto sem tocar e a observar todos os trejeitos, cada detalhe, cada linha e marca no rosto, o formato de cada parte do corpo que eu sei de cor, mas queria ver de novo.
A foto me deu saudade, gente, e é só.
E fiz o comentário de que o sorriso era matador. Era mesmo. Turma da faculdade dele aí. Nessa época a gente nem tava namorando. Foi a fase de solteiro pegador dele com essa turma toda que estava na mesma vibe. Todo mundo tinha acabado namoros de muito tempo.
É engraçado ver essa foto de um momento em que eu nem estava presente, em um momento em que eu nem era dele e ainda assim doer uma pontada dentro de mim. Eu olho e me pergunto como pode ele não estar mais no mundo. Eu olho e escuto no fundo da minha memória auditiva a gargalhada que ele deve ter dado para sair assim, com os olhinhos quase fechados na foto. Eu olho e me lembro perfeitamente do jeito dele enxugando o suor da testa (detalhe muito bem ressaltado pelo Pedro, que publicou a foto no FB e tá aí, de branco - aumenta a foto que dá pra ver).
Dói sabe? Uma dor de saudade, de irresignação, de abraçar apertado até sufocar como quem diz "você faz tanta falta", de beijar profundo e intenso como quem diz "eu te amo", de estar perto, só estar perto sem tocar e a observar todos os trejeitos, cada detalhe, cada linha e marca no rosto, o formato de cada parte do corpo que eu sei de cor, mas queria ver de novo.
A foto me deu saudade, gente, e é só.
terça-feira, 5 de abril de 2011
"It's like when a storm is over. Is it happiness? Or is it just a relief?"
Eu vi essa frase ontem lá no meio daquelas atualizações do Facebook e fiquei pensando, pensando, pensando... A verdade é que não dá pra saber. A sensação de calmaria e de alívio, a alegria com a sobrevivência, o reconhecimento da força, o mérito pela superação, a experiência, tudo isso vem como avalanche com o fim da tempestade. É certo que a visão fica embotada, a razão fica meio esquecida num canto qualquer e o principal guia é mesmo tão somente o sexto sentido, que impele a gente a seguir sem ter esperança nem perspectiva alguma.
É fato. Há um alívio quando se sobrevive. A gente se dá conta de que é capaz de ir muito depois do final do além, como diria uma música do Moska. A gente entende que mesmo doendo tudo, mesmo ofegante, mesmo com lágrimas nos olhos, mesmo com um peso sobrehumano nas costas, mesmo ferido em cortes e talhos hemorrágicos, mesmo sem querer, mesmo com dúvidas e medo e descrente, mesmo sem saber porquê, mesmo sem entender o mundo e achar que estamos todos perdidos no caos, a gente consegue. Dificílimo, mas quem sobrevive, sai muito maior de tudo isso.
Aí, vem a percepção da simplicidade da felicidade. As duas coisas não rimam por acaso. É preciso muito pouco mesmo. Menos, muito menos do que você imagina. É preciso só saúde e disposição para enxergar as coisas como elas são; não gastar tempo e energia com o que não vale a pena e está fadado a dar errado. A gente aprende a pesar direito o valor de cada coisa, a colocar cada problema, queixa, intempérie em seu devido lugar e seguir sem que nada de pequeno abale o viver. Não é possível se livrar das frustrações, das perdas, das lágrimas, das dores. É do viver sentir isso tudo. Mas a gente entende enfim que a vida é muito maior. Aí, ah e aí, você descobre que pode ser feliz sim, mesmo tendo sobrevivido ao pior de tudo. E aí, você é.
É fato. Há um alívio quando se sobrevive. A gente se dá conta de que é capaz de ir muito depois do final do além, como diria uma música do Moska. A gente entende que mesmo doendo tudo, mesmo ofegante, mesmo com lágrimas nos olhos, mesmo com um peso sobrehumano nas costas, mesmo ferido em cortes e talhos hemorrágicos, mesmo sem querer, mesmo com dúvidas e medo e descrente, mesmo sem saber porquê, mesmo sem entender o mundo e achar que estamos todos perdidos no caos, a gente consegue. Dificílimo, mas quem sobrevive, sai muito maior de tudo isso.
Aí, vem a percepção da simplicidade da felicidade. As duas coisas não rimam por acaso. É preciso muito pouco mesmo. Menos, muito menos do que você imagina. É preciso só saúde e disposição para enxergar as coisas como elas são; não gastar tempo e energia com o que não vale a pena e está fadado a dar errado. A gente aprende a pesar direito o valor de cada coisa, a colocar cada problema, queixa, intempérie em seu devido lugar e seguir sem que nada de pequeno abale o viver. Não é possível se livrar das frustrações, das perdas, das lágrimas, das dores. É do viver sentir isso tudo. Mas a gente entende enfim que a vida é muito maior. Aí, ah e aí, você descobre que pode ser feliz sim, mesmo tendo sobrevivido ao pior de tudo. E aí, você é.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Rindo com Matheus XXIII
Eu, Matheus e Thomás rolando na cama e fingindo que éramos super-heróis e personagens de desenho. Matheus para e me pergunta:
- Mãe, quem é você?
- Hã?
- Quem é você, mamãe?
- Eu sou a Margarida.
- Não, mãe, você não pode ser a Margarida porque Margarida é um tipo de manteiga.
(Margarina, né? Nada a ver com manteiga, mas me diz como não matar de beijo???)
- Mãe, quem é você?
- Hã?
- Quem é você, mamãe?
- Eu sou a Margarida.
- Não, mãe, você não pode ser a Margarida porque Margarida é um tipo de manteiga.
(Margarina, né? Nada a ver com manteiga, mas me diz como não matar de beijo???)
domingo, 3 de abril de 2011
Vai sim, vai ser sempre assim...
Vai sim, vai ser sempre assim
A sua falta vai me incomodar,
E quando eu não agüentar mais
Vou chorar baixinho, pra ninguém ouvir.
Vai sim, vai ser sempre assim,
Um pra cada lado, como você quis
E eu vou me acostumar,
Quem sabe até gostar de mim.
Mesmo que eu tenha que mudar
Móveis e lembranças do lugar,
O meu olhar ainda vê o seu
Me devorando bem devagar.
Vem, que eu ainda quero, vem.
Quando menos espero a saudade vem
E me dá essa vontade, vem
Que eu ainda sinto frio
Sem você é tudo tão vazio
Vem me dar essa vontade,
Vem que esse amor ainda é meu.
Troco todos os meus planos por um beijo seu
E essa noite pode terminar bem.
sábado, 2 de abril de 2011
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Rindo com Matheus XXII
Eu, Matheus e Thomás na sala, conversando, rindo, brincando... Aí, eu pergunto ao pequeno:
Eu: Quem é o neném dessa casa, Thomás?
Thomás: ...
Matheus: É o Thomás!!!
Eu: Quem é a mamãe dessa casa, Thomás?
Thomás: ...
Matheus: É você, num é, mamãe?
Eu: É sim!
Duas perguntas sem resposta de quem eu queria que respondesse. Acho que ele não gostou da brincadeira e eu já tava pensando qual seria a próxima, quando o Matheus grita:
"QUEM É O QUASE ADULTO DESSA CASA? QUEM É QUEM É? EEEEEEEUUUU!"
Eu: Quem é o neném dessa casa, Thomás?
Thomás: ...
Matheus: É o Thomás!!!
Eu: Quem é a mamãe dessa casa, Thomás?
Thomás: ...
Matheus: É você, num é, mamãe?
Eu: É sim!
Duas perguntas sem resposta de quem eu queria que respondesse. Acho que ele não gostou da brincadeira e eu já tava pensando qual seria a próxima, quando o Matheus grita:
"QUEM É O QUASE ADULTO DESSA CASA? QUEM É QUEM É? EEEEEEEUUUU!"
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