É que ontem o mundo ficou bagunçado de novo. Vários acontecimentos pontuais pincelaram uma saudade e uma tristeza estranhas dentro de mim. Terminei o dia reflexiva, cabisbaixa, interrogativa... Visita da sensação de que não é justo, de que o mundo é caótico, de que nada faz sentido... E eu me estarreço, eu fico perplexa, mas não desisto.
Resolvia umas pendências para uma amiga que ficou viúva alguns anos antes de mim, de maneira trágica também, com uma filhinha pequena também. Resolvia tudo na companhia de um amigo, que fora me ajudar a desvendar os caminhos de Maracanaú. Recontar o que acontecera com ela a ele me fez reviver aquele dia trágico de 2008 de novo e me lembrou das conversas que eu tive com o Thi à época, sobre a fragilidade da vida, sobre o absurdo da violência urbana, sobre a família destruída, sobre a pequena crescendo sem o pai por quem era a-pai-xo-na-da. E, né? Coração apertadinho...
No final da tarde, levei o Matheus à aula de Karatê. A gente foi andando e conversando até a escola, que fica umas quatro quadras do condomínio em que moramos. Chegamos cedo e eu fui lá na salinha dele para ver o mural com fotos das crianças da turma. Ao lado das fotos, havia um mural com o tema "Família" e desenhos feitos pelas próprias crianças. No meio daqueles desenhos todos, havia um em que estava escrito Matheus Alencar (como assim? Ele é Moraes. Matheus Moraes!) e, no desenho com o nome dele, havia apenas três pessoas. Aqueles típicos desenhos infantis, em que as figuras humanas são representadas por riscos que correspondem a braços, tronco e pernas, e um círculo no topo, representando a cabeça. Eram três figuras com tamanhos diferentes e adequados:
Você, eu e o Thomás, ele disse, e completou:
porque quando eu desenhei o papai já tinha morrido e agora ele é invisível até no desenho.
O choque dessa realidade instalada e compreendida na cabeça desse meu pequeno tão esperto me fez pensar. Eu olhava para os outros desenhos, uns sem forma definida ou inteligível, alguns garranchos, uns bem coloridos, mas tantos com famílias "completas": papai, mamãe e filhos. Coisa que não somos mais. Somos só nós três, somos só mamãe e filhinhos. Ele não percebeu a minha tristeza, ele entendeu que o pai dele não está mais aqui, ele já lida bem com o tema morte e com a irreversibilidade da situação toda; mas eu fiquei destruída com isso. E deprimida. Assisti à aula de Karatê e me impressionei com o quão rápido o tempo corre. Matheus vai já fazer cinco anos e o Thi simplesmente não está. Voltei pra casa assim, meio down, meio bololô.
Não, não houve lágrimas, nem aquele desespero de sacudir o peito, só mesmo essa tristeza de não ter mais, de não ser mais aquilo. Na tarefa de casa, pediram para colocar uma foto da família e lá estávamos nós quatro, deitados na cama, sorrisos nos rostos... Uma vida perfeita e feliz, como a que queríamos proporcionar para eles dois até que crescessem. Não será assim. Mas será imperfeitamente feliz até que cresçam. Eu tô tentando...