Mostrando postagens com marcador fim. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador fim. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Eu nunca quis merecer outro lugar

Em se tratando de luto e de superação, eu me vejo chegando no final da estrada, naquele ponto em que o caminho acaba e você inevitavelmente tem que abrir clareiras para construir uma estrada nova. Não que eu vá esquecer as belas paisagens por que passei. Não que eu não vá lembrar com saudade daquilo por onde andei. Quem é que esquece de Paris depois de ter batido pernas por lá, por exemplo? Não dá. Vezenquando, quando se pensa em destinos e roteiros de viagens, você até quer muito ir lá de novo. Vezenquando, vem essa nostalgia por aqueles momentos tão bons e tão únicos que foram vividos. Mas, no meu caso, não dá mais. É como se Paris tivesse deixado de existir e eu tenho que construir outros roteiros agora. Dizem que Praga e Veneza são lindas também.

Em se tratando de luto, eu sinto que estou no finalzinho do processo, porque ainda me dói vez ou outra, ainda me derruba algumas lágrimas e ainda me faz pensar que melhor seria se não tivesse acontecido; mas eu encaro tudo como um fato consumado e não mais como um processo, como um gerúndio, como se eu ainda estivesse no meio do caminho. Eu vejo e lamento o que deixei para trás, mas encaro, boto fé e invisto no que está por vir. Olho para o futuro e me sinto pronta, inteira e sinto que as coisas assentaram, se acalmaram, abrandaram dentro de mim. É como se eu tivesse aceitado o inexplicável, o improvável, o inaceitável até. Dizem que ter esperança é a melhor maneira de ser feliz.

Em se tratando de luto, eu sinto que eu consegui colocar de novo o carrinho nos trilhos, consegui varrer as sujeiras todas que o tornado espalhou no meu mundo, consegui arrumar a casa e o coração, consegui cuidar da burocracia, consegui traumatizar minimamente minha alma e os meus filhos. Não que a vida seja um mar de rosas agora, que não haja sobressaltos e momentos tristes, que não haja desespero e dor vezenquando. Não é isso. Eu só consigo enxergar esses altos e baixos como o comum dos meus dias, todo mundo tem seus momentos. Não é igual para todos. Acredito que o momento baixo do Eike Batista, por exemplo, seja num barco em Côte d'Azur, enquanto o meu é trancada no banheiro. Mas temos todos nossos momentos. É como se eu tivesse entendido que saber o que fazer quando tudo fica embaçado fosse o mesmo que descobrir a pólvora ou a cura da AIDS. Dizem que resiliência é uma qualidade em tanto.

Em se tratando de luto, eu acho que já deu. Não quero mais escrever dessa saudade, desse momento, dessa dor. Nada mais será novo, nada mais será frutífero. Acho que já extravazei o suficiente. A dor não mais lateja. Não que ela simplesmente vá se acabar agora. Não que eu acredite que ela evaporará de mim de uma vez por todas. Não acho. Só percebo que não vale mais a pena contar o tempo e revisitar esse passado. Não vale mais a pena conjugar o futuro do pretérito. O que vivi foi muito bem vivido. O que sofri foi muito bem sofrido. E se exauriu. É como se o assunto tivesse se esgotado dentro de mim, eu retorno lá no meu porão de dentro e não encontro nada que não tenha sido escacaviado. Dizem que saber abrir mão é ter sapiência.

Em se tratando de "Não quero merecer outro lugar", eu acho que o blog encerrou seu ciclo e cumpriu o seu papel. Falei aqui de todas as alegrias da minha vida de mulher casada e mãe. Falei da minha dor de ver essa mulher, que eu adorava ser, ser partida ao meio, quebrada em muitos pedaços. Falei do meu luto e de todo processo de superação, dos entraves, da burocracia, dos julgamentos, de como lidei com as crianças e da minha forma de encarar tudo. Falei demais, expus demais, chorei demais escrevendo posts e cartas. Vi muita gente ser tocada com a minha história, senti amor e carinho de pessoas que eu nem conhecia, recebi emails com palavras delicadas de vários cantos do país e até do exterior e contei com a solidariedade de amigos queridos. Sinto que ajudei muita gente, toquei as pessoas, mostrei uma nova forma de enxergar a vida. Fico feliz. A minha vida mudou também e domingo um novo ano começa pra mim. Serei então mais velha que o Thi jamais foi, minha vida continuará de um ponto em que a dele jamais alcançou. Sinto então que a nova idade abre para mim uma nova oportunidade. E eu quero viver isso, quero desfrutar desse novo tempo e, para viver plenamente a novidade, eu não posso retornar aqui sempre, eu não posso conviver com esse passado lindo e inesquecível na minha rotina.

Por isso e por muito mais coisas, eu me despeço desse capítulo, o mais feliz e o mais triste de todos, dezesseis meses depois da morte dele. A vida recomeça no "Céu Azul após a tempestade". A vida continua com esse passado no passado e com o presente do presente. Agradeço demais aos seguidores e às centenas de leitores anônimos que me visitam diariamente e peço desculpas. Eu nunca quis merecer outro lugar, mas eu acabei tendo que mudar.