domingo, 14 de setembro de 2008

Precisões

É preciso muito amor e uma força de vontade sobrehumana para perdoar e entender atitudes que lhe parecem, antes de tudo, incompreensíveis e, acima de tudo, imperdoáveis.

É preciso muito amor e desprendimento para se despojar de (pre)conceitos completamente arraigados e acreditar que é verdade o que lhe é dito repetidamente, mesmo que isto, à primeira, à segunda e à terceira vista, lhe pareça non sense.

É preciso muito amor e otimismo para apagar da memória e expulsar da história de vida o mal que foi feito e perceber que a estrada vai além do que se vê.

É preciso muito amor e carinho para estancar o sangue das feridas, conter os arrebatamentos de dor, superar as recaídas por falta de convicção ou de confiança e seguir adiante.

É preciso muito amor e altruísmo para, ante tudo que foi posto, conseguir abstração suficiente para olhar em volta e crer que o que se constrói a dois é bem maior, mais importante, mais consistente que as pedras do caminho.

É preciso muito amor e atitude para seguir em frente quando a vida joga a gente no fundo do poço, aponta o dedo na cara e questiona que tipo de pessoa se é: a que se afoga nas próprias lágrimas ou a que levanta sacode a poeira e dá a volta por cima.


"Moça, olha só o que eu te escrevi:
É preciso força
pra sonhar e perceber
que a estrada vai além do que se vê.

Sei que a tua solidão me dói
e que é difícil ser feliz
mais do que somos todos nós.
Você supõe o céu.

Sei que o vento que entortou a flor
passou também por nosso lar
e foi você quem desviou
com golpes de pincel."

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Sorte ou Felicidade?

Ela* falou que era sortuda. Ela* falou de um tipo de sorte que nem todo mundo percebe. Ela* falou das pequenas coisas, do cotidiano, de detalhes bobos e imperceptíveis para muitos, mas que, aqui dentro, fazem toda diferença do mundo.

É sorte ver seu filme preferido passar justamente na hora que você não tem nada pra fazer e apenas zapeava a televisão. É sorte chegar à parada no exato momento em que o ônibus passava. É sorte cair na prova aquele único tópico da matéria que você estudou. É sorte um bilhete premiado, ganhar no bolão da firma, acertar o placar do jogo do timão, achar dinheiro no chão...

Tem gente que não acredita em sorte, e eu, que não tenho fé nenhuma, acredito piamente, com os pés juntinhos e ajoelhada no chão, que cada um tem o que merece. Você pode chamar do que quiser, mas, pra mim, o nome correto é FELICIDADE, porque, às vezes, o jogo vira e a sorte vai embora. Mas a felicidade depende só da maneira que você enxerga a vida que tem.

É felicidade acordar com beijo na boca e cafuné, com menino serelepe gritando mamãe. É felicidade ele trazer café pra você na cama, com pão com um montão de manteiga e café sem leite, do jeito que você gosta. É felicidade ouvir seu filho correr pra você, de braços abertos e sorriso no rosto. É felicidade ter um montão de amigos que se preocupam, participam, torcem, vibram e estão ali para o que der vier. É felicidade ter uma família que, apesar de todos os problemas porque passou, apesar das diferenças de gerações, de gêneros, de gostos, de projetos, se ama e se entende. É felicidade dormir de conchinha, sentir o filho mexer, chorar na festa do Dia das mães, sentir o carinho de quem mora longe, ser convidada pra ser madrinha de casamento da grande amiga, ter gente querida na comemoração do seu aniversário, ser lembrada por alguém quando toca tal música ou quando se lê tal coisa. É felicidade ter pra quem ligar quando se quer chorar ou repassar fofoca quente, ter com quem sair quando o marido está de plantão, ter pra quem correr quando a grana fica curta, ter filho saudável e esperto, ter amigos e um marido que são bem mais do que se pediu.

Felicidade é estar aqui nesse momento, vivendo tudo isso, mesmo que haja dívidas no final do mês, mesmo que haja pobreza no país, mesmo que não dê pra fazer a viagem dos sonhos, mesmo que não se chegue ao lá tão premeditado, mesmo que haja derrotas pelo caminho, mesmo que não seja fácil. Porque há dores, há decepções, há momentos tristes dos quais não vamos querer nos lembrar, há lágrimas, há desilusões, há perdas (de coisas e de pessoas queridas)... Mas têm muito mais valor o sorriso congelado naquela foto de formatura (ou de casamento ou de aniversário) e aquelas pessoas que estão ao redor de você nas fotos do álbum do que as pedras (inevitáveis) que surgem pelo caminho.


* Milena Gouvêa do Blog da Milena (http://blogdamilena.blogspot.com/)

terça-feira, 13 de maio de 2008

"Inferno Astral"

Foi um piscar de olhos. A gente cresce rápido demais, a gente entra neste rojão que é a vida adulta sem se dar conta e, pluft, estamos aqui, recebendo parabéns pelo dia das mães, com um menino correndo ao redor e outro na barriga, às vésperas de completar 26 anos, feliz no superlativo máximo possível.

Lembro que me diziam, aos 15, que após essa idade a vida corria demais. Esqueceram, porém, de explicar o porquê. A fase do “esquema escola-cinema-clube-televisão” chega ao fim, honey, e a gente passa a se preocupar com que vai ser quando crescer, com o vestibular, depois, com estágio, com farra e namorados, depois com emprego e vêm o casamento e os filhos e preocupações de contas, boletos, impostos, empregada, prestações, escola... Foi mesmo um piscar de olhos!

Parece que foi ontem que eu sentei no batente embaixo da pia da cozinha e fiquei conversando com minha mãe sobre coisas que uma menina de 5 anos reflete sobre o mundo. Parece que foi ontem que fiquei de mal da vizinha porque ela queria que a boneca dela usasse as roupas da minha Barbie. Parece que foi ontem aquela estada no estrangeiro e aquela mala cheia de ursos de pelúcia que fazem hoje a alegria do Matheus. Parece que foi ontem que me inscrevi no concorrido vestibular de uma universidade pública e trêmula, sem comer nada o dia todo, na iminência de desmaiar por hipoglicemia, às 5 da tarde, vi meu nome na lista de aprovados. Parece que foi ontem aquele show naquela praia. Parece que foi ontem...

E o tempo passa sem que a gente se dê conta. Os ponteiros dão voltas inesgotáveis no relógio e a vida da gente vai sendo construída como resposta às atitudes que tomamos. Hoje, vejo ao meu redor um mundo tão sonhado que, às vezes, no alto da minha ignorância ou descrença ou carência ou insegurança, me pergunto se é real, me pergunto se o mereço, me pergunto se é pra mim... Às vezes, fecho os olhos e, sem fé, sem crer, agradeço a qualquer coisa por me deixar ser feliz. Agradeço aos invejosos, aos despeitados, aos fofoqueiros que, bem ou mal, falam de mim. Mas, principalmente, agradeço às pessoas que nos querem bem (NOS, porque depois que nos tornamos uma família nada mais é singular) e comungam e compartilham essa alegria conosco diuturnamente.

Pois bem. Dizem que o período que antecede o natalício é o nosso inferno astral. Pois eu digo: se o inferno astral é assim, imaginem o paraíso!!!

terça-feira, 18 de março de 2008

ROTINA

Rotina é um negócio ruim. Cotidiano é um negócio que nos engole e acaba nos fazendo esquecer daquilo que realmente gostamos de fazer. Mas tirando o estresse do trânsito, o corre-corre pra se fazer tudo que deve ser feito, as poucas horas de sono e o fato de só ver o sol pela janela do carro, tem sempre coisas boas na rotina, das quais eu quero me lembrar como um gosto doce na boca, como um perfume de alguém especial, como uma época muito feliz da minha vida.

Meu dia começa sempre igual, por volta das sete e pouco, com uma preguiça medonha e um sono sem igual (desde que descobri a tal da gravidez), mas o grande me acorda todos os dias do mesmo jeito: com um beijo na boca e me chamando de bicho preguiça. Aí é hora de acordar o pequeno e trazê-lo para o nosso quarto. Ao ouvir minha voz, o pequeno abre um sorriso e diz mamãe!

Tomamos banho os três e depois vamos à mesa café. O pequeno senta no meu colo e repete: "mamãe, nham-nham-nham!", o que significa que ele quer comer pão com manteiga molhado no café. Saímos juntos de casa e nos despedimos na garagem. Eu e o pequeno para um lado e o grande, para outro.

Quando deixo o pequeno na creche, ele me solta um beijo, abana a mãozinha e diz: "Tau, mamãe!". Eu sempre vou embora sorrindo da independência que essa coisinha de pouco mais de 80 cm demonstra. Passo a manhã com coisas outras, que sempre fazem com que os ponteiros do relógio girem depressa.

Aí já é hora de pegar o pequeno e sempre, quando ele me vê, vem correndo me dar um beijo, vira de costas pra mim e dá tchau para os coleguinhas e solta um beijo para as "tias" da escola. No carro, ele apaga. Chega em casa demaiado. Hora do almoço com o grande e depois uma sesta, porque gravidez é fogo. E mais uma vez o grande me acorda: "hora de trabalhar, bicho-preguiça!".

A tarde passa correndo e quando chego em casa no fim do dia, vejo uma criança peralta, suada, com os pés pretos de tanto correr no pilotis do prédio em que moramos, com os dentes de leite ainda separados, vir correndo para mim, de braços abertos e sorriso no rosto. Ele me abraça como se tivesse ganhado o brinquedo mais legal dos últimos tempos e subimos para curtir o restinho do dia, ao som de músicas infantis e rodeados de brinquedos coloridos. Nós três: eu, o grande e o pequeno, normalmente dormimos de cansados e quase ao mesmo tempo, depois de um dia assim.

Não posso reclamar da rotina porque a minha é permeada de acontecimentos lindos.

terça-feira, 4 de março de 2008

A vida que se sonha...

"Há um vilarejo ali
onde areja um vento bom.
Na varanda, quem descansa
vê o horizonte deitar no chão.
Pra acalmar o coração,
lá o mundo tem razão.
Terra de heróis, lares de mães.
Paraíso se mudou para lá.
Por cima das casas, cal.
Frutas em qualquer quintal.
Peitos fartos, filhos fortes
sonho semeando o mundo real.
Toda gente cabe lá
Palestina, Shangri-lá
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Lá o tempo espera,
lá é primavera,
portas e janelas ficam sempre abertas
pra sorte entrar.
Em todas as mesas, pão.
Flores enfeitando
os caminhos, os vestidos, os destinos
e esta canção.
Tem um verdadeiro amor
para quando você for".


Vilarejo - Marisa Monte

Ah, se o mundo fosse assim, um lugar bucólico, um lugar dos sonhos, o próprio paraíso, onde a brisa é boa e a gente tem tempo de descansar na varanda porque "lá o tempo espera". Um lugar onde só existam pessoas de bem, heróis e mães, que amamentam com seus peitos fartos filhos fortes e assim o sonho semeia o mundo real. Um lugar onde sempre é primavera, com flores espalhadas por todos os lados e no qual, em todas as mesas, há pão. Para a perfeição ser extrema, há ainda um amor verdadeiro nos esperando lá. Será?

Nos anos 70 o lugar idílico era casa de campo, onde se "possa plantar amigos, discos, livros e nada mais". E aí, nessa louca vida moderna, cansamos todos do tédio, do ócio no campo, nos entupimos de remédios antidepressivos e indutores de sono e vivemos agora num lugar insano, em que não podemos confiar em ninguém. O que não mudou de lá pra cá é a necessidade de ter pessoas ao redor, continuamos plantando amigos na nossa vida e percebemos que, apesar do mundo cão, é importantíssimo que todos estejam vivendo bem para que isto aqui seja um lugar melhor.

Não basta o pão na minha mesa, não basta o meu emprego e o salário no fim do mês, não basta que meus filhos tenham acesso à educação, é importante que todos desfrutem disso e possuam uma vida digna. Já não é suficiente o espelho, quero o toque, a gente, a comunidade. Não se é mais feliz com a liberdade da vida adulta, a independência financeira e sexual, preciso de "friends", ou seja, precisamos de alguém pra rir, pra chorar no ombro, precisamos de relacionamentos sem sexo, honestos e reais. Precisamos de seres humanos. Não só de amores verdadeiros, mas de uma vida em que sejamos amados plenamente, como amantes, como pais, como filhos e, principalmente, como amigos, porque, dentre todos os amores finitos e mortais desta vida, a amizade é o mais duradouro.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Da série "eu odeio" - Trânsito

1- Odeio as pessoas que dirigem à 40 km/h. A rua inteira pela frente e a pessoa lá, empatando o trânsito.

2- Odeio mais ainda se as pessoas citadas acima que ficam na faixa da esquerda. Será que elas não sabem que a da esquerda é destinada às ultrapassagens ou fazem isso de propósito, achando que vão evitar acidentes de trânsito fazendo todo mundo seguir em cortejo fúnebre até o destino final?

3- Odeio motoboys. Não sabem o que significa faixa, muito menos sinaleira.

4- Odeio, tanto quanto os motoboys, os motoristas de ônibus, principalmente aqueles que dirigem na faixa da esquerda e que, quando chegam perto do ponto, atravessam a rua de um lado ao outro.

5- Mas o que eu odeio mais que tudo são os flanelinhas. PQP! Eu pedi pra você olhar meu carro??? E quem disse que eu, que pago já um monte de imposto, tenho que pagar alguma coisa pra você, que perambula pelas ruas com uma flanela nas mãos e finge que ajuda alguém na ora de manobrar para estacionar? Ah, vai se lascar!

Sobre carência

Ah, a minha carência... Essa busca que não termina nunca de se sentir amada, de se sentir querida, de se perceber amiga, de saudade enorme de gente que não mais aqui ou longe daqui... Essa cratera no coração que faz com que a necessidade de atenção e carinho se renove a cada dia, como se inesgotável. É isso mesmo, porque não me basta mensagens no meio da tarde, nem ligações para perguntar da vida... Não me basta amigos física e espiritualmente presentes, nem filho gritando “mamãeeee!!!” o dia todo, nem beijinhos ao acordar, nem conchinha ao dormir, porque a minha ânsia é infinita.

É algo intangível, superior, é maior do que eu. É vontade de estar perto, de falar as coisas todas que eu queria dizer, de sentir reciprocidade, é perceber o olhar que vale mais que mil palavras, é o desejo contido de pular em cima, é ter até pensamentos mórbidos como abraçar até sufocar ou matar de tanto beijar, é querer incontrolavelmente ter a pessoa tão perto, mas tão perto, como se fosse possível se entrar dentro um do outro.

Mas a verdade é que já se está do lado de dentro porque quando se é carente assim é porque se ama demais e um amor assim, não pode, não deve, não há de ser rejeitado nem será em vão.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

A novidade

Num mesmo 20/02, só que dois anos depois, decubro a alegria radiante de estar gerando mais uma vida. Apesar da torcida organizada para que seja uma menina eu só quero uma coisa: que venha com saúde!

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Queridos amigos

O que somos nós se não um amontoado de caquinhos daqueles que passaram por nós? Um patchwork de rostos? Uma junção de peças de um quebra-cabeça que é a vida? O que somos nós se não algo híbrido, complexo, múltiplo?


Cada pessoa com que convivemos deixa uma marca, pequena ou grande, doce ou amarga, memorável ou preferível esquecer. Sim, porque há rancores, há mágoas, há lágrimas, há dores e há muitos desentendimentos por esta vida. Como também há amores, sorrisos, gargalhadas, paixões...


Na verdade, pouco importa o motivo pelo qual o outro ficou marcado em você, com o correr dos anos as dores arrefecem, as mágoas se esvanecem, as lágrimas secam, os rancores se vão... Das mais loucas paixões, fica uma saudade gostosa. Dos mais doces amores, fica uma lembrança eterna. Das amizades mais íntimas, fica o afeto que não acaba nunca e independe de espaço físico e de contato. É o afeto que importa. São estas as amizades que sempre estarão com a gente. Amizades que são, nem sempre estão. Assim mesmo, sem complemento, pra mostrar o quê de definitivo encrustado nelas.


Cada um destes amigos se fez presente em um momento inesquecível da vida, seja quando você aprendeu a andar de bicicleta, ou passou no vestibular, ou ficou destroçada com o fim de um namoro ou de um casamento, ou quando seu pai morreu, ou quando arranjou o primeiro emprego... Eles estavam presentes quando tínhamos a vida inteira pela frente, tudo ainda por vir. Eles compartilharam o sonho de vencer na vida e de fazer algo incrível, algo que não supomos capazes de fazer. Eles acompanharam seu período comunista-revolucionário, social-democrata, capitalista-neoliberal, solteiro-procura, amante-de-respeito, casado-pai-de-família.


Eles estiveram lá, sempre. E estão aqui ainda hoje, mesmo que não nos falemos, mesmo que não nos vejamos, mesmo que não sejamos mais íntimos, porque eles estão do lado de dentro e sempre estarão. Sinto falta da amizade cotidiana que tivemos, mas sei que a vida é traiçoeira e prega estas peças na gente para que possamos perceber que o que realmente importa é estarmos juntos, mesmo que seja via MSN ou por email, porque a distância física pode ser grande, mas a dos corações, não.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Faz tempo que não ando por aqui... A vida anda tranquila, tranquila... Existe ainda a ânsia aqui no peito que por vezes me faz surgir na cabeça milhares de coisas interessantes pra contar, mas a falta absurda de tempo me impede (o tempo que tenho livre é dedicado integralmente àquele de 1 ano e 5 meses).
Pensei em começar um conto, pensei em falar do tempo, pensei em falar de amor, mas não dá. As coisas não estão mais extravasando a alma como antes. Não existe o transbordamento que me impele a escrever. É sempre tão mais difícil quando se está em paz. Descubro, então, que sou a escritora dos tempos negros ou dos vazios ou de hiatos. Entendam como quiserem.
O fato é que é tempo de céu azul, de plenitude e de ditongos... Que venham mais dias azuis assim, mesmo sob pena de me manterem afastada daqui.
Um abraço nos que ainda me frequentam.