É claro que a dor que dói agora não é mais daquelas de enlouquecer, de perder o chão, de fazer com que o mundo perca a cor... A dor que dói agora é quase sempre suportável, silenciosa, incômoda. A dor que dói agora não me prostra, não me acama, não me derruba no chão. Vezenquando, ela vem assim avalanche, dilúvio, cataclisma. Mas, na maior parte dos momentos, ela é discreta, perene, serena. É uma dor que fica lá, mas não me vira ao avesso. É uma dor atropelada por tantos outros problemas cotidianos: filhos, casa, compras, contas. A dor de agora é uma dor amiga, companheira, fiel escudeira. E eu sei que nem sempre falo sobre ela, porque meus momentos de escrita-exorcismo acontecem invariavelmente quando o vulcão explode lá dentro de mim.
A dor que dói em mim agora se torna imperceptível, inaudível, invisível, e anestesia, quando o cavalo branco se aproxima da janela e doces palavras dançam nas telas. A dor de agora me escapole entre os dedos quando confrontada pela presença constante e pelo cuidado todo. A dor de agora se resigna a ser lembrança quando a vida abre portas e janelas e estende tapetes na espera. A dor de agora se esquece de si e, altruísta, cede espaço e vãos para sorrisos, para conversas infinitas, para coincidências que assustam, para transmissões de pensamento. A dor que me acompanha baixa a cabeça e dobra seus joelhos perante a perspectiva de felicidade. A dor de agora é sublimada ante esse bem querer designado, em que o que é externado é parcela ínfima do sentimento.
A dor que me acompanha não se foi, não sumiu, não saiu da minha vida nem de mim, mas ela me permite umas tréguas, uns hiatos, uns afastamentos providenciais quando o bem que faz tão bem me cerca. E eu sigo minha vida neste surto bipolar: às vezes, cataclisma; às vezes, anestesia. E espero pelo dia em que ela seja só silêncio e resignação.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Para Debbie
Não sei como e também não sei desde quando, ela se tornou uma das minhas melhores amigas. E ela foi uma das primeiras a saber das minhas gravidezes. Foi pra ela que eu contei quando um elefante branco estacionou na minha sala. Foi ela que ouviu grande parte dos meus desabafos chorosos. Foi ela que virou presença constante na minha casa, fosse pra bater papo, fosse pra dividir uma pizza, fosse só pra assistir ao capítulo final de uma novela... Ela vem me ouvindo diariamente, dividindo pesos, sonhos, contas, favores e a vida que a gente leva, desse jeito meio louco, meio torto, meio árido e difícil às vezes. Foi ela que me disse da morte dele antes mesmo que eu soubesse e eu neguei. Foi pra ela que eu confidenciei o quanto ficaria sozinha sem ele, ainda debruçada sobre o caixão. Ela esteve presente em todo meu janeiro trágico, no meu fevereiro catatônico, no meu março despedaçado, no meu abril despertando, no meu maio reveillon, no meu junho de sonhos, no julho viajando... Ela esteve presente quando agosto se fez um gosto e no setembro de chá de casa nova. Ela veio no apê novo antes de todo mundo e me deu força e achou lindo e me fez confiante de novo. Foi ela que passou mal comigo quando o novembro se fez trágico. E é pra ela que dezembro se abre como essa despedida de tudo de ruim que eu poderia viver.
Eu não tenho palavras para definir a amizade que eu devoto a ela, porque, para mim, ela já é uma parte muito grande do que eu sou. Eu espero corresponder à altura tudo que ela representa. Da mesma forma, não quero nunca ter de ser pra ela o que ela foi pra mim neste 2010 de provações. Sei que não há mais como separar o que esses dezoito anos promoveram na gente, você pode até ir para as terras estrangeiras, mas não vai deixar de ser a minha Debbie de todos os dias, nem a Tia Bebe dos meus pequenos. No dia em que você comemora mais um ano, minha amiga, eu só poderia te dar aquilo que eu sei, aquilo que eu sinto, aquilo que há aqui dentro, porque depois de tudo que vivi, eu descobri que o melhor presente de todos é a presença na vida. Estou aqui com e para você sempre!
Te amo, Debbie! Feliz Aniversário!
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
A dor de novo em fotos
A maior dor que eu tive na vida foi a dor de perder meu marido. Até então, eu não tivera sofrimento algum. Alguns dissabores, alguns incômodos, alguns momentos tristes, sim, como todo mundo. Mas sofrimento mesmo, assim pesado, assim de virar a vida de cabeça pra baixo; nunca, nenhum! Eu realmente não sei como sobrevivi e como consegui chegar até aqui. Ontem, sem querer querendo, eu encontrei fotos do dia do acidente, fotos dele sendo atendido, desarcodado, ainda dentro do carro, com um monte de gente ao redor. Fotos dele MORTO, machucado, com manchas de sangue na camisa, na calça, na testa. Fotos do socorro, dos carros, dele na ambulância...
Eu olhei rapidamente porque era tortura demais ficar analisando detalhes e, admito, meu estômago já revirava quando fechei a janela. Eu olhei porque eu não fui lá no dia do acidente, eu voltei pra casa, eu não queria ver. Eu olhei sem querer, mas achando que eu era forte suficiente para aguentar o tranco agora que quase 11 meses haviam passado. Eu olhei e me despedaçei tudo de novo, como no dia um, como no janeiro trágico, com a mesma revolta, me perguntando "por quê?", vendo ele ali e sem querer ver, sem querer acreditar. Eu chorei muito, convulsivamente, sentindo essa dor de novo. Pode ser porque é dezembro, pode ser porque eu tenha me tornado essa pessoa sensível e carente; e pode ser também que eu nunca me acostume com essa ideia, de que ele não existe mais. É que a gente não se acostuma mesmo, só vai sendo atropelada pela vida, pela burocracia, por novas pessoas e outras tantas coisas a fazer e aquilo tudo que dói, que pesa, que causa sofrimento vai ficando escondido no porão do de dentro. O fato é que ser assolada por aquelas imagens me fez ficar em frangalhos de novo.
Não, eu não sei como eu cheguei até aqui... Eu também não sei se conseguirei superar isso tudo algum dia. Superar para que não doa mais, superar para que nada mais me faça voltar essa sensação de dia um, de dor visceral, de revirar o estômago. Eu espero que sim, que eu chegue nesse ponto. Mas enquanto isso, eu preciso muito agora de distrações e de piadas bestas, de amigos e de conversa mole, para seguir com a vida e para manter essa esperança de que a felicidade está tocando a campainha.
Eu olhei rapidamente porque era tortura demais ficar analisando detalhes e, admito, meu estômago já revirava quando fechei a janela. Eu olhei porque eu não fui lá no dia do acidente, eu voltei pra casa, eu não queria ver. Eu olhei sem querer, mas achando que eu era forte suficiente para aguentar o tranco agora que quase 11 meses haviam passado. Eu olhei e me despedaçei tudo de novo, como no dia um, como no janeiro trágico, com a mesma revolta, me perguntando "por quê?", vendo ele ali e sem querer ver, sem querer acreditar. Eu chorei muito, convulsivamente, sentindo essa dor de novo. Pode ser porque é dezembro, pode ser porque eu tenha me tornado essa pessoa sensível e carente; e pode ser também que eu nunca me acostume com essa ideia, de que ele não existe mais. É que a gente não se acostuma mesmo, só vai sendo atropelada pela vida, pela burocracia, por novas pessoas e outras tantas coisas a fazer e aquilo tudo que dói, que pesa, que causa sofrimento vai ficando escondido no porão do de dentro. O fato é que ser assolada por aquelas imagens me fez ficar em frangalhos de novo.
Não, eu não sei como eu cheguei até aqui... Eu também não sei se conseguirei superar isso tudo algum dia. Superar para que não doa mais, superar para que nada mais me faça voltar essa sensação de dia um, de dor visceral, de revirar o estômago. Eu espero que sim, que eu chegue nesse ponto. Mas enquanto isso, eu preciso muito agora de distrações e de piadas bestas, de amigos e de conversa mole, para seguir com a vida e para manter essa esperança de que a felicidade está tocando a campainha.
domingo, 5 de dezembro de 2010
Pra você!
"Quero ver você não chorar, não olhar pra trás nem se arrepender do que faz. Quero ver o amor nascer, mas, SE A DOR CRESCER, VOCÊ RESISTIR E SORRIR. Se você pode ser assim, tão enorme assim, eu vou crer que o Natal existe, que ninguém é triste, que no mundo há sempre amor. Bom Natal. Um feliz Natal! Muito amor e paz pra você. PRA VO-CÊ!"
Porque ele adorava quando eu cantava essa música e desafinava no último verso. Porque a gente amava o espírito natalino. Porque era sempre uma delícia enfeitar a casa inteira com ele elogiando meus toques. Porque a gente queria fazer, a cada ano, um Natal mágico para os pequenos. Porque será o primeiro Natal sem ele e o único, triste em toda minha vida. Porque se eu resistir e sorrir, eu também vou crer que o Natal existe, que ninguém pode ser triste, porque é uma questão de escolha, como eu disse no post passado. Muito amor e paz pra você, Thi, onde estiver... PRA VO-CÊ!
sábado, 4 de dezembro de 2010
Escolhendo
A gente pode enfrentar um leão por dia. Pode comer o pão que o diabo amassou. A gente pode perder o chão, levar uma rasteira, uma topada de levantar a unha do dedão. A gente pode dormir todos os dias banhado em lágrimas e com a sensação de que tem uma estaca presa no coração. A gente pode sentir desfalecer diante de tantas notícias ruins. Pode querer dormir e esperar só o tempo passar até chegar ao final de tudo. A gente pode reclamar do mundo, da brutalidade, da crueza dos dias, da aridez das relações, da falta de tudo. Pode reclamar do vizinho que estaciona mal, do engarrafamento que piora a cada dia, da falta de planejamento público, do descaso dos governantes. A gente pode chorar a dor de perder quem se amava demais, a dor de ver alguém muito querido muito doente, a dor de não ser reconhecido, a dor de não ser amado em reciprocidade, a dor de traições e de indiferença, a dor pela dor do filho. A gente pode se deparar diariamente com muitos e infinitos motivos para fundo do poço. Se se quiser mesmo, a gente pode perder o brilho, o ânimo e a alegria por estar aqui. Se se procurar bem, a gente encontra razões para ficar lá embaixo mesmo, no escuro, sem saída, encurralados pelas dores todas.
Mas a verdade é que a gente também pode escolher o que priorizar, em que se concentrar e o que relevar. E assim todos os dias é possível escolher sorrir de si mesmo quando levar uma topada; dormir lembrando de momentos que, de tão bons, fizeram faltar ar; sonhar com alguém que faz o coração bater descompassado; rir lembrando da gargalhada impagável daquele neném mais gostosurento; ver sonhos e projetos mais próximos de serem concretizados e se sentir realizado por isso... A gente pode dar um abraço bem apertado em alguém que só precisa mesmo disso; pode deixar as lágrimas correrem por causa daquelas lindas flores com um cartão que vale mais que mil gestos; a gente pode sair pra dançar com amigos e perceber que nunca se está velho demais para isso; pode sair para beber e ter a melhor noite de conversa da vida; pode simplesmente segurar a mão de alguém em silêncio e dar todo conforto que é necessário. A gente pode aproveitar uma tarde inteira só brincando com os pequenos e descobrir que a gente é muito mais cuidado por eles que cuida deles. Pode viajar para lugares que nunca visitou e se apaixonar por lá e pode voltar para os lugares por que se apaixonou antes. A gente pode encontrar todos os dias pequenas coisas mínimas que fazem valer a pena. E, sabe, é isso que impulsiona a gente para enfrentar todos os leões e motoristas loucos e o trânsito caótico e as notícias trágicas do Jornal Nacional.
Se eu posso escolher, eu escolho viver e ser feliz. Todo dia.
Mas a verdade é que a gente também pode escolher o que priorizar, em que se concentrar e o que relevar. E assim todos os dias é possível escolher sorrir de si mesmo quando levar uma topada; dormir lembrando de momentos que, de tão bons, fizeram faltar ar; sonhar com alguém que faz o coração bater descompassado; rir lembrando da gargalhada impagável daquele neném mais gostosurento; ver sonhos e projetos mais próximos de serem concretizados e se sentir realizado por isso... A gente pode dar um abraço bem apertado em alguém que só precisa mesmo disso; pode deixar as lágrimas correrem por causa daquelas lindas flores com um cartão que vale mais que mil gestos; a gente pode sair pra dançar com amigos e perceber que nunca se está velho demais para isso; pode sair para beber e ter a melhor noite de conversa da vida; pode simplesmente segurar a mão de alguém em silêncio e dar todo conforto que é necessário. A gente pode aproveitar uma tarde inteira só brincando com os pequenos e descobrir que a gente é muito mais cuidado por eles que cuida deles. Pode viajar para lugares que nunca visitou e se apaixonar por lá e pode voltar para os lugares por que se apaixonou antes. A gente pode encontrar todos os dias pequenas coisas mínimas que fazem valer a pena. E, sabe, é isso que impulsiona a gente para enfrentar todos os leões e motoristas loucos e o trânsito caótico e as notícias trágicas do Jornal Nacional.
Se eu posso escolher, eu escolho viver e ser feliz. Todo dia.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Dúvidas
O que se faz se, quando a gente precisa desabafar, quando precisa de um ombro, quando precisa apenas do silêncio acompanhado, quando precisa de carinho e dengo, quando precisa de mãos entrelaçadas, quanda precisa de ouvido e camisas reservas, só se encontra o vazio? O que é que a gente faz se já tentou todas as explicações possíveis, já sondou inúmeros porquês, já perdeu noites em claro revirando pensamentos e lembranças, já esperou a conformação surgir, já esperou a revolta sumir e ainda assim não aquietou o coração? O que é que a gente faz se, mesmo encontrando saídas e caminhos e motivos e até compensações, mesmo encontrando outras pessoas, novas pessoas, antigas pessoas, ainda é só uma que faz falta? O que é que a gente faz se tudo que se queria era estar perto, mesmo que não fosse possível tocar, mesmo que não fosse possível falar, mesmo que fosse só os olhares se encontrando? O que é que se faz se há um desejo infundado e que, à essa altura do campeonato gostaria que tivesse desaparecido, de ter de novo entre os braços? O que é que se faz com esse vazio, com essa ausência, com esse não?
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Incorrigível
Quem não queria poder falar isso?
"E eu tenho vontade se segurar seu rosto e ordenar que você seja esperto e jamais me perca e seja feliz. E que entenda que temos tudo o que duas pessoas precisam para ser feliz: a gente dá muitas risadas juntos. A gente admira o outro desde o dedinho do pé até onde cada um chegou sozinho. A gente acha que o mundo está maluco e sonha com sonos jamais despertados antes do meio-dia. A gente tem certeza de que nenhum perfume do mundo é melhor do que a nuca do outro no final do dia. A gente se reconheceu de longa data quando se viu pela primeira vez na vida." (Tati Bernadi)
"... eu não te defino nem te compreendo, apenas sei que chegaste..." (Caio F.)
"Se não for hoje, um dia será. Algumas coisas, por mais impossíveis e malucas que pareçam, a gente sabe, bem no fundo, que foram feitas para um dia dar certo" (Caio F.)
"Se você ama, diga que ama. A gente pode sentir que é amado, mas sempre gosta de ouvir e ouvir e ouvir. É música de qualidade. Tão melodiosa, que muitas vezes, mesmo sem conseguir externar, sentimos uma vontade imensa de pedir: diz de novo? Dizer não dói, não arranca pedaço, requer poucas palavras e pode caber no intervalo entre uma inspiração e outra, sem brecha para se encontrar esconderijo na justificativa de falta de tempo. Sim, dizer, em alguns casos, pode exigir entendimentos prévios com o orgulho, com a bobagem do só-digo-se-o-outro-disser, com a coragem de dissolver uma camada e outra dessas defesas que a gente cria ao longo do caminho e quando percebe mais parecem uma muralha. Essas coisas que, no fim das contas, só servem para nos afastar da vida. De nós mesmos. Do amor. Se você ama, diga que ama. Diga o seu conforto por saber que aquela vida e a sua vida se olham amorosamente e têm um lugar de encontro. Diga a sua gratidão. O seu contentamento. A festa que acontece em você toda vez que lembra que o outro existe." (ana Jácomo)
"E eu tenho vontade se segurar seu rosto e ordenar que você seja esperto e jamais me perca e seja feliz. E que entenda que temos tudo o que duas pessoas precisam para ser feliz: a gente dá muitas risadas juntos. A gente admira o outro desde o dedinho do pé até onde cada um chegou sozinho. A gente acha que o mundo está maluco e sonha com sonos jamais despertados antes do meio-dia. A gente tem certeza de que nenhum perfume do mundo é melhor do que a nuca do outro no final do dia. A gente se reconheceu de longa data quando se viu pela primeira vez na vida." (Tati Bernadi)
"... eu não te defino nem te compreendo, apenas sei que chegaste..." (Caio F.)
"Se não for hoje, um dia será. Algumas coisas, por mais impossíveis e malucas que pareçam, a gente sabe, bem no fundo, que foram feitas para um dia dar certo" (Caio F.)
"Se você ama, diga que ama. A gente pode sentir que é amado, mas sempre gosta de ouvir e ouvir e ouvir. É música de qualidade. Tão melodiosa, que muitas vezes, mesmo sem conseguir externar, sentimos uma vontade imensa de pedir: diz de novo? Dizer não dói, não arranca pedaço, requer poucas palavras e pode caber no intervalo entre uma inspiração e outra, sem brecha para se encontrar esconderijo na justificativa de falta de tempo. Sim, dizer, em alguns casos, pode exigir entendimentos prévios com o orgulho, com a bobagem do só-digo-se-o-outro-disser, com a coragem de dissolver uma camada e outra dessas defesas que a gente cria ao longo do caminho e quando percebe mais parecem uma muralha. Essas coisas que, no fim das contas, só servem para nos afastar da vida. De nós mesmos. Do amor. Se você ama, diga que ama. Diga o seu conforto por saber que aquela vida e a sua vida se olham amorosamente e têm um lugar de encontro. Diga a sua gratidão. O seu contentamento. A festa que acontece em você toda vez que lembra que o outro existe." (ana Jácomo)
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Dezembro
Seja bem vindo, Dezembro, e, por favor, vá embora rápido. Se preciso for, colocarei vassouras atrás da porta, farei mandingas expulsatórias, pedirei reforço policial para mandá-lo embora. Seja bem vindo, Dezembro, mas tenha pressa em passar... Não precisa se demorar. Traga aquelas sensação boa de paz, deixe a solidariedade tocar os corações, mas não precisa me lembrar das faltas e dos buracos que foram plantados dentro de mim. Ai, Dezembro, eu sempre aguardei ansiosamente a sua chegada. Eu sempre adorei o clima que o acompanhava, mas é que agora eu mal consigo me manter sobre meus pés. Então corre, Dezembro, para a porta de saída. Não precisa se esticar com preguiça nem permanecer acalentando corações. Sua chegada traz recordações que eu nem quero ter e faz bater aqui dentro, mais pesado que tudo, a saudade do que não existe mais. Vai, Dezembro, vai rapidinho lá para a curva do caminho em que o que passou fica para trás e tudo que há à frente é um mistério a ser desvendado, com fumaça de felicidade e suspiros de boas novas.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Metalinguagem
Quando dói muito, eu escrevo compulsivamente. Eu fico pensando, sentindo tudo revirado por dentro e acabo escrevendo para me compreender, para me perdoar, para me conhecer. Escrever me faz bem, me é terapêutico, me faz reconhecer o que dói, o que eu aguento, o que eu quero... Escrever me permite colocar as coisas sob uma perspectiva melhor de ser vista, mais distante, mais tranquila. Eu escrevo remoendo, repensando, revivendo até. Escrevo porque não cabe aqui dentro, porque é explosivo, porque é erupção. Escrevo quando é insuportável, quando simplesmente não consigo calar ou refletir sozinha. As palavras saem de mim como se psicografadas, em uma rapidez nada contemplativa ou reflexiva. Vêm de supetão. E, quando dou por mim, já enchi a tela branca inteira. Escrevo somente sobre o que sei, sobre o que sinto, sobre meu olhar, sobre o que interiorizo do mundo e das pessoas que me cercam. Escrevo somente aquilo que vejo e aquilo que pulsa, que reverbera dentro de mim. Não há objetivo algum, não há pretensão messiânica, não há o desejo de mudar o mundo. Escrevo por e para mim. Ato egocêntrico, egoísta até. Ato desvairado e, muitas vezes, incompreendido. Ato que, vezenquando, faz com que surjam pedras nas minhas vidraças, dedos apontados para minha cara, e um disse-me-disse sem fim. É um preço até pequeno pelo bem que me faz, pelos amigos que me trouxe, pela compreensão de mim mesma que alcanço nesse processo de exorcismo. Eu escrevo porque é o que eu sei fazer para lidar com meus dilemas, minhas dores, meus amores. Eu escrevo porque eu tenho afeição por palavras, pelas singelezas que elas são capazes de produzir. Escrevo porque é registro, porque é eterno, porque é marco no meu processo de amadurecimento. E quando dói demais, eu escrevo.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Mais do mesmo
Sabe quando se está a poucos metros da linha de chegada e, mesmo exaurido pela corrida toda, você se sente aliviado por ver o fim ali tão próximo?!?! Sabe quando se sobrevive a um naufrágio e depois de alguns dias nadando em alto mar, finalmente, se consegue ver a costa?!?! Sabe quando depois de várias horas em trabalho de parto a criança simplesmente nasce?!? Sabe quando se é tomado pela sensação de alívio e paz depois de um período longo de angústia e dor e sofrimento?!?! Pois bem. Era exatamente assim que eu me sentia até ontem. Era essa sensação de que pronto, acabou. 2011 estava ali batendo na minha porta e, enfim, esse 2010 triste, pesado, doído estava indo embora.
Mas aí, vem a rasteira, vem o baque, vem essa dor em erupção de novo, vêm essas lágrimas que não consigo conter, vem esse peso nos ombros, essa sensação ruim de que nada nunca mais vai ficar no lugar, essa dor de barriga que teima em me afligir como se fosse o janeiro trágico em replay. Vem na cabeça a imagem da minha amiga parecendo um farrapo humano, dobrada, envergada por essa dor, com olhos perdidos, dopada e a vaga ideia de como eu estava naquele dia de janeiro. Vem junto uma sensação de vazio, de que não passa, de que não cura, de que é impossível superar porque a vida traiçoeira sai pregando peças para me lembrar do quanto dói.
O choro rompe meu peito e sai despedaçado, cortante, crispado, quase impossível de controlar. Eu choro como se janeiro fosse, eu choro como se fosse comigo de novo. Eu choro porque eu não consegui dizer nada que confortasse minha amiga, que agora carrega consigo o peso da mesma palavra: viúva. Eu choro para esvaziar a falta que eu ainda sinto dele, para secar de novo, para limpar esse buraco que nada preenche, esse buraco-cicatriz que não para de sangrar. Eu choro sem ombro, sem mão, sem companhia, sem ele. Eu choro por mim e por ela, por estes tristes desígnios de duas mulheres que viviam a felicidade. Choro por esta revolta aqui dentro que não passa, essa irresignação, essa avalanche de sentimentos...
Eu queria poder dormir agora e acordar em 2011. Eu queria fugir dessa puxada de tapete. Eu queria rir da piada de humor negro, receber um" tcharã! brincadeirinha!" que me fizesse ter ódio do palhaço mas me devolvesse a sensação de que não-é-nada-disso-que-você-está-pensando. Eu queria um motivo para acreditar de novo, porque tá ficando difícil. Eu queria de volta as pessoas que me tomaram este ano. Eu queria retroceder. Eu queria ser feliz daquele jeito torto. Eu queria continuar escrevendo uma história de trás pra frente. A minha história, cheia de vacilos e perdões, cheia de amor e de compreensão, cheia de alegria. Eu não queria estar aqui neste momento e eu não queria viver nem ver isso acontecer comigo nem com ela nem com ninguém.
E, se essa dor que me arrebate agora não for embora logo, eu só peço paciência e um pouquinho de compreensão. É que quando eu achava que nada mais poderia acontecer no pior ano da minha vida...
Mas aí, vem a rasteira, vem o baque, vem essa dor em erupção de novo, vêm essas lágrimas que não consigo conter, vem esse peso nos ombros, essa sensação ruim de que nada nunca mais vai ficar no lugar, essa dor de barriga que teima em me afligir como se fosse o janeiro trágico em replay. Vem na cabeça a imagem da minha amiga parecendo um farrapo humano, dobrada, envergada por essa dor, com olhos perdidos, dopada e a vaga ideia de como eu estava naquele dia de janeiro. Vem junto uma sensação de vazio, de que não passa, de que não cura, de que é impossível superar porque a vida traiçoeira sai pregando peças para me lembrar do quanto dói.
O choro rompe meu peito e sai despedaçado, cortante, crispado, quase impossível de controlar. Eu choro como se janeiro fosse, eu choro como se fosse comigo de novo. Eu choro porque eu não consegui dizer nada que confortasse minha amiga, que agora carrega consigo o peso da mesma palavra: viúva. Eu choro para esvaziar a falta que eu ainda sinto dele, para secar de novo, para limpar esse buraco que nada preenche, esse buraco-cicatriz que não para de sangrar. Eu choro sem ombro, sem mão, sem companhia, sem ele. Eu choro por mim e por ela, por estes tristes desígnios de duas mulheres que viviam a felicidade. Choro por esta revolta aqui dentro que não passa, essa irresignação, essa avalanche de sentimentos...
Eu queria poder dormir agora e acordar em 2011. Eu queria fugir dessa puxada de tapete. Eu queria rir da piada de humor negro, receber um" tcharã! brincadeirinha!" que me fizesse ter ódio do palhaço mas me devolvesse a sensação de que não-é-nada-disso-que-você-está-pensando. Eu queria um motivo para acreditar de novo, porque tá ficando difícil. Eu queria de volta as pessoas que me tomaram este ano. Eu queria retroceder. Eu queria ser feliz daquele jeito torto. Eu queria continuar escrevendo uma história de trás pra frente. A minha história, cheia de vacilos e perdões, cheia de amor e de compreensão, cheia de alegria. Eu não queria estar aqui neste momento e eu não queria viver nem ver isso acontecer comigo nem com ela nem com ninguém.
E, se essa dor que me arrebate agora não for embora logo, eu só peço paciência e um pouquinho de compreensão. É que quando eu achava que nada mais poderia acontecer no pior ano da minha vida...
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