sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Nada convencional

O papai e a mamãe se conheceram numa festa brega no Valeu Boi. Isso não denuncia a idade deles, meus pequenos. É que a gente começou a farrear muito cedo mesmo. Lembro bem de achar o papai muito criança porque ele não bebia e, naquela idade, beber era sinal de adultice. Ele me contou muito tempo depois que achou a mamãe magrela demais (e eu era mesmo) e exibida. O tio Greg disse ao papai que a mamãe estava interessada nele, o que era mentira. O tio Greg disse à mamãe que o papai estava interessado nela, o que também era mentira. O tio Greg não se lembra de ter feito isso. Mas foi assim que o papai e a mamãe ficaram pela primeira vez e foi só isso.

Alguns anos depois, a mamãe e o papai se reencontraram, mas ela estava envolvida num relacionamento turbulento e doentio. Nos momentos em que ela emergia pra tomar ar, era o papai que ela encontrava. E foi assim que eles se reaproximaram. Dessa vez, ele não era mais criança e ela precisava mesmo encontrar um cara legal. Quando o relacionamento turbulento e doentio teve um ponto final, o papai apareceu de verdade na vida da mamãe. Foi sem querer, nenhum dos dois tinha realmente a intenção de se envolver. Mas eles se encontraram quase todos os dias do verão de 2000/2001. De encontros fortuitos, eles passaram a encontros marcados e depois eles só saíam juntos. E, antes mesmo dele se dar conta do sentimento que sentia, ela já sabia que estava apaixonada por ele. Ele repetia que deveria ser "sem paixão" e chamava a mamãe de "meritíssima".

A mamãe não queria sofrer de novo, por isso pediu pra terminar aquela história. Mas o papai não aguentou passar nem dois dias longe dela. No dia 23/01/2001, eles começaram oficialmente a namorar. Foi lindo, meus pequenos, quando ele pediu a mamãe em namoro. Eles choraram de felicidade. Era um amor tão grande, tão bonito... Eles se ajudavam, se completavam... Papai e mamãe se davam bem em tudo, escreviam cartas lindas e comemoravam sempre as conquistas de cada um. Foi nesse tempo que ele passou a chamar a mamãe de "moreninha". O tio Greg e a tia Keka começaram a namorar também e eram nossa principal companhia nas sextas no Picanha à moda. A gente sempre ia pra lá e os dois meninos bebiam rum com coca e pediam coração de boi. As vacas eram bem magras naqueles tempos, meus amores.

Depois de quase três anos, o namoro do papai e da mamãe entrou em crise. Eles brigavam muito, mas principalmente porque o papai não entendia muitas coisas da personalidade da mamãe. Ela nunca foi sorriso e simpatia, como ele. A mamãe é mais reservada, mais turrona. O papai era relações públicas, amigo de todo mundo, super carismático. Isso chateava muito o papai. Aí, a gota d'água aconteceu num fortal, em que o papai queria muito aproveitar. Eles brigaram feio, feio mesmo. Mas a briga em si não foi o ponto final. O ponto final aconteceu porque dois dias depois o papai foi para Alemanha, numa viagem de sonhos e oportunidades.

Papai passou 40 dias por lá. Nesse tempo, a mamãe remoeu muito o final do namoro e sofreu taaanto, meus pequenos. Quando o papai voltou, a mamãe não queria mais ficar com ele e foi aí que o papai sofreu. Sofreu muito, profundamente. Todo mundo sabia que ele tava sofrendo, ele não quis esconder de ninguém. Ele tentou muitas vezes reatar o namoro. Mas a mamãe não quis. Ela achava que o relacionamento deles era uma barca furada e queria vivenciar outras histórias. A mamãe achava que poderia encontrar alguém que combinasse com ela também, mas que entendesse e respeitasse o jeito dela ser. E assim, cada um foi para o seu lado, mas sem desamarrar de vez o laço que os unia.

Foram quase dois anos esticando o elástico que prendia um ao outro. Papai e mamãe fizeram uma força descomunal para desmanchar o vínculo, mas vez ou outra eles terminavam juntos. Apareceram outras pessoas na vida do papai e da mamãe, mas ninguém que tomasse o lugar que o outro tinha. Quando o papai ganhou uma bolsa para estudar 6 meses na Alemanha, a mamãe teve muito medo de perdê-lo para sempre. Medo de que ele não voltasse mais, de que se apaixonasse por uma alemã, de que ele se esquecesse dela de vez... Foi aí que a mamãe resolveu deixar de esticar o elástico e voltar para o lugar de onde tinha vindo.

Nessa época, o papai estava forte e decidido. É claro que ele não deixaria de aproveitar essa oportunidade, mas a mamãe não ficava mais longe da vida dele. Ele passou os seis meses lá e, através de emails, dizia sempre que tinha certeza absoluta de que a mamãe não era a mulher da vida dele, que nossa história tinha acabado mesmo e que ele só queria aproveitar e ser feliz. Mas a mamãe não é mulher de desistir fácil. No dia em que o papai retornou ao Brasil, a mamãe foi lá na casa dele, dá um abraço de boas vindas. Alguns dias depois, foi o Baile de Formatura do papai. A mamãe caprichou na produção e foi lá que o elástico deixou de ser esticado de vez.

O papai relutou muito, não queria ver que era com a mamãe que ele tinha que ficar mesmo, ele tinha conflitos internos. A mamãe entendia: se ele tinha dito tantas vezes e a tanta gente que não queria mais nem notícia da mamãe, como é que iria aparecer com ela??? Mas foi inevitável, meus pequenos. Era sem controle, sem limites, irrefutável, era óbvio demais, era tudo que a gente queria. Em duas semanas, papai e mamãe já se amavam como se não tivesse havido um hiato, mas ainda não sabiam como iriam mostrar isso a todo mundo. E tinha também o inconveniente do Carnaval: ele iria pra Salvador, em mais uma viagem dos sonhos; ela, para Olinda. Combinaram então para depois do Carnaval resolverem tudo.

Mas a vida, meus meninos, é mesmo uma caixinha de surpresas e lembrar isso tudo faz meu coração palpitar. A mamãe descobriu que estava grávida do Matheus na segunda-feira antes do Carnaval. Aí o motivo que faltava, a razão hors concours, a desculpa perfeita, a causa inescapável apareceu num exame de ultrassom transvaginal. O que poderia, num primeiro momento, ser motivo de desespero, foi motivo de muita alegria para a mamãe e para o papai. A gente já era uma família, a gente nunca mais vai deixar de ser!

Foi assim, meus pequenos, que nos tornamos nós. Foi assim que construímos essa família, esse amor. Não foi da maneira convencional, mas foi tão linda a nossa história. Eu conto agora para vocês, para que vocês saibam que tudo aconteceu como deveria acontecer. Apesar das lágrimas nos meus olhos, das mãos trêmulas, do engasgo na garganta, do aperto no peito e do peso enorme de tanta responsabilidade, não houve e não haverá razão para lamentar. Foi uma história de amor, meus meninos, uma história de amor para recordar, porque esse amor, rasgado pela morte prematura do pai de vocês, será eterno.




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23 comentários:

Thalita disse...

E de repente, do meio do escritório, todo mundo me pergunta pq que eu choro taaanto! Ai.

É uma história linda, orelha. E isso, tenho certeza, dá razão à sua vida.

E vamos andando... bjo bem grande.

Obs.: Só uma pequenina observação: Valeu Boi é o noooovo! Rsrsrsrs.

Izabel disse...

Uma história linda,de pessoas verdadeiras,de personalidade forte,mas que por força do AMOR e da inteligência render-se à ele não era nunca sinal de fraqueza,e sim de que sentimento VERDADEIRO é forte,prevalece e é para a vida toda!
Gde bjoka no coração.
LUZ,FÉ E PAZ!!!

Flavia disse...

Que lindo...

taticmota disse...

Olá querida, que história linda, heim?! E de repende... vc me fez refletir taaaanto! Por vários minutos me senti tão confortada em relação a vida, e não era para ser o contrário? Quanta coragem!!! Não nos conhecemos, mas não posso negar que já virei sua fã. Me lembrei agora de uma música do Teatro Mágico que diz: "...Metade de mim agora é assim: de um lado a poesia, o verbo, a saudade. Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim. E o fim é belo incerto... depende de como você vê...Só enquanto eu respirar vou me lembrar de vc..."

Força sempre. Espero que um dia, quanto eu tiver filho, eles possam ser amigos dos seus.
Continuarei "acompanhando" vc.
Beijo grande.
Tatiana

Anônimo disse...

Apareci na vida do Thiago quando voces estavam separados.
A gente se gostava,nos dávamos bem, conversávamos sobre quase tudo...
Ele se tornou para mim alguém muito querido, muito especial!

Sabe porque não deu certo?

Ele simplesmente não parava de falar e pensar em você.
Ele nunca conseguiu te esquecer.
No fundo, ele e eu sentimos que nosso relacionamento só seria uma "chuva".

O AMOR dele por você era forte e sincero...
Agora, é ETERNO!!!

Que DEUS abençoe a família que construíram e que você tenha muita força para continuar!

Um grande abraço!

Lidianne disse...

Cada vez que leio seus posts repenso na minha vida!!
Você é uma pessoa abençoada!! Deveria escrever um livro...
Linda história de amor pra recordar....!!
Abraços! e Força SEMPRE!
Lidianne!

Anna Caroline Nobre Gomes disse...

Marcele, e eu aconpanhei a peregrinacao na Alemanha...falava tanto que nao dava certo, que era de desconfiar que o coracao ainda palpitava por vc..."bem que eu sabia que essa história nao tinha terminado", foi o que eu disse!

Abraco forte e forca nessa sexta-feira!

Anônimo disse...

lindo demais, curu! linda a história de amor de vocês.
bjo grande da ju

Marcello disse...

Q linda história de amor,Marcele!

Sou representante(indústria farmacêutica) e visitava dr.Thiago... Ainda nem acredito,sabia? Nossa classe tá de luto.É tão estranho ir no Mental.

Fiquem com Deus!

Marcelo (lab Apsen)

marcello-dm@uol.com.br

Anna Camila disse...

Muita paz pra vocês! Um bjão!

Anna Camila disse...
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Anna Camila disse...
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c. disse...

não há o que lamentar, querida. não pode haver depois de tanta beleza vivida. beleza que jamais se perderá. há de haver uma razão para todas as coisas desta vida. há de haver. te desejo uma fé enorme, nisso, e no que virá. e muita coragem e força para reencontrar a felicidade que ainda te espera depois desta dor.

ainda rezando por vocês e (over)pensando muito na vida.

beijos meus.

rochelle disse...

Mais uma vez passando pra ler e reacreditar no amor. Vc me dá esta força, amiga, de saber que ainda pode estar aí, num Valeu Boi da vida, ou numa esquina qualquer. E há de ser meu, sempre.
Bjos, Rochelle

Anônimo disse...

Belíssima História!!!!..., nada de conto de fadas, como vc mesma intitulou, "Nada convencional" ... mas houve o mais importante em todo o seu relato: A descoberta do Amor Verdadeiro!!! E vcs viveram isso com Louvor!!!!...O Amor busca,o amor supera as diferenças, respeita... O Verdadeiro Amor Vence!!! E vcs venceram todos os dias... e mesmo, hoje, fisicamente, longe um do outro, espiritualmente, vcs estão sempre juntos!!!!
Em todas as dificuldades, Ele está ao seu lado, segurando sua mão, para te ajudar a tomar decisões, te ajudar a educar seus filhos... te ajudar a continuar amando a Vida... E vc vai conseguir!!! Tenho certeza!!! Vc vai sentir novamente a Felicidade plena... e vai realizar seus sonhos com Ele sempre por perto!!!!

Paz pra vc!!!! Q sua dor diminua a cada dia...!!!

Mara disse...

Mesmo que a "mamãe" seja um tanto quanto reservada, turrona, ou que não seja só sorrisos e simpatia, existe dentro dela, e de uma forma bem explícita, um Ser extremamente sensível. Indiscutível! E quem sabe talvez, essa “mamãe,” aparentemente (creio eu), forte e turrona, não é só proteção ou resistência a algo que muitas vezes nem se conhece?!... Ou se conhece, sei lá...
Vá lá entender o interior humano...
Apenas acho, que: deixar emergir sentimentos tão fortes lá do fundo da alma, de uma forma tão verdadeira e transparente, para mim, “pequeninos da mamãe”, já é uma forma de simpatia e de sorrisos.
Sempre Beijos!

Anônimo disse...

Faz um tempo que visito seu blog e maravilhada me delicio com toda sua sensibilidade à poesia.
Textos que nos prendem, uma historia que passei a acompanhar por achar linda demais!!E agora, pesarosa, com o ocorrido, mas tendo certeza que vc irá superar, pq tem filhos lindos!
Este texto é lindo!!
A gente sente sua alma em cada palavra. Sorvo o encanto delas.
E emanando boas vibrações à vc, abraço o pequeno que tenho em casa, que tb vive loge do pai, mas por razões totalmente diferentes.
Abraço.
Paula.

narinha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
narinha disse...

ah, quantas vezes eu ouvi essa história deamor...sei de cór e salteado!
assim como sabia e sempre falava pra ele(embora ele teimasse em negar) que ele nunca tinha te esquecido e que iriam voltar,sim! Durante os 6 meses na Alemanha e dele ter me enviado inúmeros emails contando da vida lá, das mulheres(feias,fedorentas e que nem sequer depilavam as axilas - segundo ele),ele finalmente se convenceu de que era você que ele queria e disse uma frase simples: é, eu acabo voltando pra ela!
No baile de formatura, que eu tbm estava lá na mesa, junto a vocês, e já sabia como terminaria a noite e do quão inesquecível e maravilhosa seria( e foi) a noite de formatura dele...Vocês estarão juntos eternamente,Cele!
Não interessa o espaço físico e em qual mundo cada um de vcs esteja, o elástico é maior e chega em qualquer lugar porque esse amor é maior que tudo e vai ser assim pra sempre!

Idê Maciel disse...

Filosofia de adolescentes: "não chores se perderes o sol, as lágrimas de impedirão de ver as estrelas..."
Asssim, não deixe de viver seu momento agora, mas também não deixe de passar as oportunidades que "estão sendo". Lembre, amor, nada, nada acontece por acaso...
Filosofando de novo: Há mais entre o céu e a terra que possa entender (e aceitar) a nossa vã filosofia [ é mais ou menos assim...] TLuiz conversando comigo disse: "mãe, ela precisa lembrar as coisas boas e deixar de se agarrar à tristeza..." Eu digo, chore sua dor, sua saudade, mas não deixe de viver o aqui e o agora.
Se quiser excluir, pode, viu? Amo você, incondicionalmente!

Lanuzza disse...

E saber também que vc fez parte do início da nossa história de amor (eu e Bê).
Te amo amiga!

Lanuzza disse...

Parece que foi ontem vc contando a grande noite de amor ( a vinda de Matheus).

Ana Luisa disse...

Que história linda, Marcele. Não há mesmo que lamentar; há que relembrar e sorrir porque ela aconteceu e deu a vocês essas duas criaturinhas tão lindas.
Um beijo