quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Cartas para você XXIII

Thi,

Sabemos ambos que nada mais vai reconstituir o que tivemos. Não dá pra voltar atrás, não dá pra lutar contra o irreversível. A única coisa que nos cabe é fazer o melhor que pudermos, da melhor maneira que conseguirmos, para sofrer menos, para viver melhor, para trazer tranquilidade e paz para os pequenos. A distância físico-temporal que nos separa hoje parece intransponível, parece insuportável, parece demais. Aprender a lidar com ela é a minha meta, é o meu objetivo.

Egoísta como eu sou, egocêntrica como sempre fui, nunca pensei muito na sua dor. Meu foco era única e exclusivamente o que latejava em mim. E doía/doeu/dói demais não ter você aqui. Falei do desespero, do medo, da sensação de fracasso, de vida partida... Contei para você e para quem mais se dispusesse a vir ler minha vida. Mas eu não pensei na sua dor, mozinho. Eu nem quis pensar no sentimento que deveria tomar conta de você, a sensação de não estar perto das pessoas que você amava, de não estar por perto enquanto os seus filhos vão crescendo...

Eu falei do quanto EU sentiria falta e do quanto ME partiria ao meio vê-los crescer sem você, sem a referência que você era, sem o seu exemplo, sem suas orientações. Mas eu não pensei na SUA saudade, no SEU pesar. Eu tinha que lidar com a minha dor, eu tinha que aprender a conviver com ela, eu tinha que fazê-la caber e depois se acomodar dentro de mim e, assim, não me preocupei com VOCÊ. Eu sei, é a minha cara e eu sou mesmo egoísta.

Porém, bebeim, agora que o tempo passou e que as coisas se acomodaram dentro de mim, de um jeito meio troncho e ainda meio bagunçado é claro; eu sinto que é preciso dizer a você que a gente vai indo bem por aqui e que você não precisa se preocupar porque, por mais que eu perca o juízo e arranque cabelos em alguns momentos, eu consegui manter o prumo, a ordem, a rotina. E eu fiz isso tudo basicamente porque eu me espelhei no que você era, na maneira como você agia: nada é para amanhã, fazer tudo que der para fazer hoje, resolver problemas com simplicidade e sorrisos, nada de desespero, nada de perder noites de sono, tudo sempre dá certo. Isso era você e isso tudo eu internalizei para tocar a minha vida e a dos nossos pequenos.

A gente tá bem aqui, mesmo sem você, mesmo com essa cicatriz que ora lateja, ora sangra, ora arde, ora queima, ora descansa em paz, ora cicatriza. Se eu refletir sobre as minhas angústias e medos de um ano atrás e comparar com o meu presente, eu consigo identificar claramente uma evolução na mulher, na mãe, na  pessoa, até na contribuinte (que o diga a Fazenda Pública!) que eu sou. Para além da evolução psicológica, existem também as conquistas materiais, a acomodação que eu consegui fazer no nosso padrão de vida, mozinho. Isso também é uma conquista pra mim.

Ontem eu tive esse insight e refleti muito sobre seu sofrimento. Eu quero muito que você entenda e perceba que eu me virei, eu dei meus pulos, eu contei com ajuda significativa dos nossos inúmeros amigos, e saiu tudo direitinho. Muito melhor do que suspus, muito mais do que imaginei. E agora, Thi, é a hora da gente seguir. Nós todos, nós quatro.  O seu sofrimento também tem que terminar. A saudade é saudável, é inevitável; mas o sofrimento não, meu amor! Até você tem que buscar sua paz, seu descanso, sua tranquilidade, seu porto. Assim como eu procuro por aqui.

Não sei se você me ouve/vê/lê, não sei; mas onde quer que você esteja, Thi, saiba que estamos bem e que a gente quer que você fique em paz para sempre.

Amamos você demais!

Moreninha, Grandão e Gorducho.

6 comentários:

O Divã Dellas disse...

Impossivel vir aqui, e não chorar. Mas dos seus posts o que eu mais me orgulhei foi desse. Seu marido precisa descansar em paz e seus filhos precisam da mãe deles inteira. Sua dor e saudades sãomais que normais, mas a superação é indispensável.

Prabéns, Marcele!

Deus te abençoe sempre mais e te dê muita força.

Conte com nossa leitura e nossas orações.

Beijos!

Verônica

Stranger disse...

Ele foi conversar com o Matheus e você o diz que está tudo bem, que deu certo... =~ Lindo!

Felicidade vem em 1º... disse...

Minha nossa, cada vez mais eu me encanto com as evoluções espirituais do ser humano. Deus está em sua vida te conduzindo...eu duvido que vc ainda não acredite NELE.

Dani disse...

Oi, Marcelle!!! Sou amiga da Marisa aqui de SP! Acho q ela deve ter comentado com vc de mim! O que falar???? Sinto exatamente essas palavras que vc escreve!!!! Ate parece que esta falando de mim!!!! Nessas horas... Posso Te dizer que vc Nao e a unica e que eu tb Nao vou ser a ultima. Mas o conforto e paz ira tomar conta aos poucos... Gostaria de Te ligar qq hora dessas!!!! Me identifiquei muito com vc!!!! Fica em paz!!!!! Bj de uma pessoa que tambem sofre por amor, saudade.... Daniele V. Hildebrand

Dani disse...

Desculpe, o meu e-mail e danielehildebrand@Yahoo.com

Bárbara disse...

Todos os pêlos arrepiados com esse seu post Marcele! Lembrei de uma das frases do padre que celebrou a MISSA DE 1 ANO DE SAUDADE DO THI e do que ele pedia para todos nós repetirmos: "SAUDADE SIM, TRISTEZA NÃO"! Lindo o que você escreveu, o que você sentiu! Não poderia ter sido mais altruísta, não poderia demonstrar maior AMOR! Afinal, eis aí a diferença do AMOR em relação a todos os outros sentimentos: o AMOR liberta!

Beijo em você e nos pequenos,

Bárbara.