segunda-feira, 5 de abril de 2010

Como uma marca

O feriado foi comprido, mas os dias passaram à jato. Eu resolvi sair de casa, eu resolvi me divertir, eu resolvi me permitir dançar e beber. Eu me permiti porque eu senti que era a hora. Havia a ausência ainda gritando ao redor. Havia a falta latejando. Mas os meninos estavam bem, a Lalá tava com a gente. Então, eu resolvi viver de novo.

Sair à noite é como rebobinar cinco ou seis anos do filme da minha vida. É voltar para um lugar já conhecido, mas esquecido dentro de mim. Sair à noite é achar a música legal, achar o ambiente legal, achar homens bonitos e interessantes e perceber que não era exatamente ali que você queria estar. Sair à noite é ter de ouvir de novo cantadas sem graça alguma; é conhecer pessoas que se preocupam exclusivamente com marcas e formas; é perceber a superficialidade das paixões e dos gostos; é um sentir-se inapropriado. Sim, inapropriado, não pertecente, inadequado. Foi assim para mim. Eu carregava a minha tristeza comigo e, aos outros, parecia uma carranca ou pedantismo ou, como diria um amigo, cudocismo. Mas não era. Era só a tristeza trágica.

Até que alguém resolveu investir na moça enfezada e eu vivi o momento emblemático da noite. Um rapaz de Brasília, com sua conversa mole, olhares de cima a baixo, músculos e sorrisos se aproximou, se apresentou, perguntou meu nome e foi puxando assunto:

- Mas me diz aí o que mais tem de bom para se fazer durante a Semana Santa em Fortaleza?
- Olha, eu não sei mesmo. Eu tava sem sair muito.
- Linda desse jeito sem sair?!?! Tava namorando, nera?
- Não!
- Fala a verdade! Tava namorando?!?!
- Não, eu não tava namorando.
- Pode dizer, linda!
- Eu tava casada.
- CASADA?!?!?!
- Sim.
- E separou?
- Não.
- Não separou? Continua casada?
- Também não.
- Como assim?
- Eu fiquei viúva.
- Por que é que toda mulher que se separa mata o marido, hein?
- Eu não matei. Ele morreu.
- Sei como é, o finado ex-marido... Todas são assim!
- Ele sofreu um acidente de carro.
- Hã? É sério mesmo? Você ficou viúva?!?!
- Sim!
- Poxa, foi mal mesmo! Foi mal, viu?
(E o rapaz se retirou)

Carregar a marca da tragédia na nossa história assusta as pessoas. Até que apareça alguém que não tenha medo de curar feridas, eu vou vivendo e rindo dos medrosos.

5 comentários:

Sofia disse...

Assusta, mas as vezes o que mais assusta mesmo é que o ser humano se dá conta de foi invasivo, foi petulante, foi digamos ...."sem graça".E na verdade depois que passa a gente rí mesmo, pq sei que um dia lembrará desse acontecimento rindo da expressão do outro do "pobre rapaz" (kkkkk)....Na verdade a gente foge mesmo das nossas próprias vidas. Isso as vezes é que assusta!!! Não ache que as pessoas fogem de vc, quando na verdade elas fogem de si mesma.Pensa nisso !!!!!
Bjos

jamillemota disse...

Amiga, tô com pena desse cidadão até agora rssss

Beta, uma mulher em transformação disse...

Marcela, não sei se era para rir, mas eu ri muito e li para as minhas amigas do trabalho.
Adorei tbm a parte q vc falou sobre não encontrar alguém que cura feridas.
Acredito q cura mesmo não tenha, mas com certeza existirá alguém que saberá fazer um ótimo curativo.
Beijos e força

Izabel disse...

Você como sempre me faz rir,me faz chorar...
Tadinho desse pobre Cele,até agora não paro de imaginar a cara do coitado,de paspalho...kkkk
Mas que é realmente difícil encontrar alguém como vc na night...com uma história que não é comum,é claro,mas que assusta?Assustar por que,se a realidade da vida hoje infelizmente é essa?Feliz de quem vive com os pés no chão,sem rotular para não ser rotulado.E antenado para não dar furos,e ser deselegante,para não dizer grosseiro.
Mas o seu caminho ILUMINADO por Ele e pelo seu precioso Anjo da Guarda vai com certeza lhe levar às pessoas boas de verdade e um exímio "curativista"kkk,bom no ofício e bom de coração que lhe mereça,para continuar convivendo com as lindas coisas da vida.
Força,LUZ e fé...Uma Páscoa de Renovação!

Thalita disse...

Huahuahauhauhaua... Orelha, não tem como não rir! Imaginei a cara do menino murchando, aquela musiquinha "poin, oin oin oooooin...".

As pessoas realmente se assustam, não esperam.. sei lá. O importante disso tudo mesmo é que você está vivendo minha amiga! Ainda meio deslocada, ainda querendo estar em outro lugar, mas vivendo! E eu te admiro muito por isso. Vamos viver mais.. rir mais! Adoro vc, adoreei te encontrar! Bjos.