quinta-feira, 13 de maio de 2010

Quando a imaginação atrapalha...

Eu descobri, na terapia, que eu continuo a imaginar como seria se o acidente não tivesse acontecido. A vida vai passando, eu sigo em frente, eu enfrento todos os problemas, eu olho para o depois disso, eu corro do poço em que me jogaram, eu fujo do que me causa dor, eu pego o caminho mais florido, eu ando com cautela... Mas nas datas comemorativas ou significativas, eu volto a pensar em todo um episódio ideal em que ele estaria aqui com a gente. Eu fiz isso com a viagem para o RJ, eu fiz isso quando arrombaram meu carro, eu fiz isso no Dia das Mães, eu fiz isso muitas outras vezes.

Eu fico imaginando como seria com ele, o que ele diria, que providências tomaria, como atuaria e crio a cena mentalmente e sigo divagando e desenrolando todo o dia como se ele existisse. Às vezes, eu estou me arrumando para sair, em frente ao espelho, e imaginando o que ele diria da roupa e da hora inteira com pincéis e maquiagens. Eu penso sempre na voz dele me dizendo que eu demorava mais para me maquiar que para tomar banho e escolher a roupa e que essas duas tarefas, por si só, já eram muito demoradas e o que era para levar meia hora virava três. Eu saio e fico imaginando o que ele pensaria se me visse dançando na pista, suada e sorrindo, bebendo... Eu escuto a voz dele na minha cabeça... Eu coloco nossos pequenos para dormir, balançando na rede, e vejo mentalmente ele de olhos fechados, cheirando a cabeça do Thomás e dizendo obrigada porque ele não podia ser mais feliz. Eu deito na nossa cama e imagino que ele está lá no banheiro, abrindo as muitas correspondências e contas e os jornais médicos que ele recebia e comentando as coisas do dia comigo. E eu faço isso muitas vezes e em diversas situações.

Por fim, eu descubro que eu não posso deixar esses pensamentos se desenvolverem, que eu tenho que cortá-los na sua gênese, que eu tenho que me policiar para que isso não crie raízes. É comum acontecer quando um trauma inesperado ocorre, mas é preciso viver o que é real. Eu sei que a realidade é dura e imaginar a presença dele me ajuda a descobrir o caminho certo. Mas ainda assim, eu preciso parar de divagar e seguir focando em mim, acreditando nos meus instintos e olhando para o que de bom haverá no muito depois disso.

3 comentários:

Kamyla disse...

Marcele, vc é realmente uma rocha... seus pensamentos estão bem fincados... vc se permite a realidade e eu a admiro bastante... estou sempre na torcida pelo seu bem e pelo fim do doloroso sofrimento.
Gde bjo em vcs...

Izabel disse...

E tudo isso não será normal?
Nada se desfaz de forma brusca...e a fatalidade é brusca.
Portanto não se violente mais ainda,tente ir assim mesmo,devagar,imaginando às vezes como ele faria,pois não se arranca um sentimento do dia para o outro. Continue devagarinho,um dia de cada vez ;lutando para seguir em frente,enfrentando como uma rocha a sua realidade,mas relembrando,sonhando,desejando na maioria das vezes que tudo isso não fosse realidade. Perfeitamente compreensível! E assim você vai se reconstruindo,se reeditando,e com CERTEZA serás feliz e farás feliz, pois isso é ser MARCELE, a MORENINHA !!!
Bjim nesse coração lindo e CHEIO DE LUZ! ACREDITE !!!

Janaina disse...

Eu faço isso algumas vezes só que em circunstâncias bem menos dolorosas, eu penso em como seria se eu tivesse tomado outra decisão e seguido outro rumo na vida. Sigo admirando sua coragem em enfrentar a dor! Bjs!