terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A tragédia faz aniversário

Na semana em que a tragédia faz aniversário, tudo vira um enorme contrassenso. As vontades são contraditórias. Eu quero ficar sozinha para poder soluçar em lágrimas o que dói e quero companhia, carinho, atenção e alguém para me ouvir. Eu quero esquecer do que vivi e quero as lembranças mais doces aquecendo minha alma. Eu quero não falar nesse assunto, mas ele se repete na minha mente. Eu quero fingir que nada disso aconteceu e quero reverenciar o homem, o pai, o marido, o filho, o professor, o médico, a pessoa que ele foi. Eu quero me concentrar em tudo que é novo na minha vida, e não quero sair do meu lar.

Na semana em que a tragédia faz aniversário, tudo que eu construí se decompõe. Eu vejo as lágrimas marejarem os olhos na frente das pessoas, eu falo dele com essa saudade que embarga a voz, eu levo o pequeno na escola e penso em como a presença dele seria significativa. Eu não sei porque vivo essa sensação de decadência e de fracasso, mesmo reconhecendo todas as conquistas obtidas nesse processo. Eu olho para o mundo com sono, com preguiça, com cansaço. Eu ando com ânsia de desistir de tudo e chutar o balde.

Na semana em que a tragédia faz aniversário, eu queria dormir e acordar semana que vem. Eu não queria que doesse, mas dói. Eu não queria sofrer, mas sofro. Eu não queria viver, mas sobrevivo. A minha vontade era de sumir e eu fico. E, a cada dia, algo novo me aperta o peito, me descompassa o coração, faz erupção nos olhos e me enverga as costas. A cada dia, eu reconheço o quanto é difícil estar num mundo em que ele simplesmente não existe mais. A cada dia, eu forço a barra e me obrigo a manter as coisas todas em ordens, preenchendo a mente e fingindo e fugindo.

Na semana em que a tragédia faz aniversário, eu percebo que eu tenho todo o resto da minha vida para me conformar com o que não se acostuma, para entender o que é incompreensível, para explicar o irrazoável, para superar o insuperável. E, assim, mesmo me sentindo minúscula, impotente, frágil e fraca, eu descubro que há uma força que me impele para frente e não me deixa desistir; mesmo com sono, mesmo cansada, mesmo com preguiça... Eu sinto numa quase convicção que há algo esperando por mim e que esse aniversário triste é definitivamente a linha de chegada dessa corrida, dessa batalha que começou há um ano.

Exaurida física e psicologicamente, tirando forças do tutano, e na iminência de desfalecer; eu sigo para cruzar a linha de chegada, momento em que respirarei aliviada pela sobrevivência e pelo fim.

3 comentários:

taticmota disse...

Ô cele, diante de tantos sentimentos nem sei o que dizer...
Tô aqui, viu?! Ainda continuo sendo sua super fã, ainda continuo achando vc a mulher mais corajosa do mundo - mais até que minha mãe, pode apostar ;)
2010 já passou, não virá nada que vc não possa suportar.
Beijo grande e que Deus te proteja sempre.

Anônimo disse...

Vc vai conseguir sim. Vai ficar em pé e superar tudo isso e vai lembrar com saudade mas sem dor. Tudo isso por que tem gente torcendo por vc, que fique bem e com o coração em paz.

Quando os abraços vierem no dia 20 lá na missa sinta o amor das pessoas, a boa energia e saiba que ele também torce por isso. Pelo seu bem. Grande abraço.
Lidiane Dantas - Fortaleza Ce

Desconstruindo a Mãe disse...

Oi, linda,

Não há como saber a não ser vivendo... E quando te sentes fraca e admites é que és forte, por não fingir que é sentimento banal o que te assola.

É vida pulsando dentro de ti. Uma vida cheia de construções, de planos e de desejos. Ela é tua força.

Tu tens sido uma guerreira, não tenta ser incansável. Sê humana.

Tu mereces todo o aconchego, o abraço de urso, o cafuné e o amor dos que te amam e admiram.

Beijo estalado e sente a mão dada contigo nesse momento. Tens aqui em POA uma torcedora sempre atenta e que te deseja todo o bem!

Ingrid