quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A despedida em poesia

"a quem por ti pergunta digo sempre
que habitas nos caminhos que vão dar
a todas as perguntas que fazemos
depois de termos morrido muitas vezes
e sem que o percebam dou-te o nome
mais perfeito que há na terra
para dar a quem vai desaparecer
eu sei que já é tarde que sempre foi tarde
mesmo quando ainda era cedo
mas também sei que não há mais nada para lá
dos secretos recantos das histórias que nos pertencem
e abro a janela de todos os meus sentidos
deixando que tudo o que era teu desapareça contigo
entre os murmúrios das horas que já nem recordam
o caminho de regresso ao sobressalto da tua voz
quando no parapeito das madrugadas
lentamente morríamos de frente para o sol
e não vale a pena tentar voltar ao princípio
porque a memória se encarregou de demarcar
o novo território dos teus passos
e qualquer estrada seria um outro deserto
onde nem sequer seríamos capazes de descobrir
o cheiro secreto de águas perdidas
por isso vai sendo tempo de escrever nas dunas
a rota de todos os tesouros que perdemos
para que outros cheguem e digam foi então
aqui que tudo começou
vai sendo tempo de convocarmos os amigos
para que as mãos curem as chagas
de precipitadas despedidas
vai sendo tempo de voltares para casa
e de entre nós baixar um deus que finalmente
saiba destinar a cada um o
amor que lhe compete"

- Dois corpos tombando na água, Alice Vieira

3 comentários:

O Divã Dellas disse...

Profundo!

Cinthya

http://odivaadellas.blogspot.com

Vanessa disse...

Lindo!

Bjs

belleberg82 disse...

Caríssima,

Confesso-te que teu blog serviu de "terapia" para mim, para lidar com uma perda, com um amigo e com um amor que mudou de nome, mas nunca deixou de ser.
Eu te imitei: escrevi no blog algumas coisas que me atormentavam (mesmo que não com tanta beleza como você). E agora, que a vida real chama com muita urgência, que quem realmente está por aqui precisa de mim bem, por completo, mais uma vez eu me inspiro em você.
E peço permissão para te acompanhar pela porta de saída.

Eu sei o que é parecer forte e não ser.
Eu também sei o que é por muitas vezes bancar uma farsa de fortaleza.

Tudo isso é necessário, e em nenhum momento te faz menor do que você realmente é, e não diminui em nada a admiração que depois de anos distante, eu nutri por você.

Um beijo imenso, cheio de carinho para você e seus tesouros.

Bruna.