terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Imperfeitamente feliz

É que ontem o mundo ficou bagunçado de novo. Vários acontecimentos pontuais pincelaram uma saudade e uma tristeza estranhas dentro de mim. Terminei o dia reflexiva, cabisbaixa, interrogativa... Visita da sensação de que não é justo, de que o mundo é caótico, de que nada faz sentido... E eu me estarreço, eu fico perplexa, mas não desisto.

Resolvia umas pendências para uma amiga que ficou viúva alguns anos antes de mim, de maneira trágica também, com uma filhinha pequena também. Resolvia tudo na companhia de um amigo, que fora me ajudar a desvendar os caminhos de Maracanaú. Recontar o que acontecera com ela a ele me fez reviver aquele dia trágico de 2008 de novo e me lembrou das conversas que eu tive com o Thi à época, sobre a fragilidade da vida, sobre o absurdo da violência urbana, sobre a família destruída, sobre a pequena crescendo sem o pai por quem era a-pai-xo-na-da. E, né? Coração apertadinho...

No final da tarde, levei o Matheus à aula de Karatê. A gente foi andando e conversando até a escola, que fica umas quatro quadras do condomínio em que moramos. Chegamos cedo e eu fui lá na salinha dele para ver o mural com fotos das crianças da turma. Ao lado das fotos, havia um mural com o tema "Família" e desenhos feitos pelas próprias crianças. No meio daqueles desenhos todos, havia um em que estava escrito Matheus Alencar (como assim? Ele é Moraes. Matheus Moraes!) e, no desenho com o nome dele, havia apenas três pessoas. Aqueles típicos desenhos infantis, em que as figuras humanas são representadas por riscos que correspondem a braços, tronco e pernas, e um círculo no topo, representando a cabeça. Eram três figuras com tamanhos diferentes e adequados: Você, eu e o Thomás, ele disse, e completou: porque quando eu desenhei o papai já tinha morrido e agora ele é invisível até no desenho.

O choque dessa realidade instalada e compreendida na cabeça desse meu pequeno tão esperto me fez pensar. Eu olhava para os outros desenhos, uns sem forma definida ou inteligível, alguns garranchos, uns bem coloridos, mas tantos com famílias "completas": papai, mamãe e filhos. Coisa que não somos mais. Somos só nós três, somos só mamãe e filhinhos. Ele não percebeu a minha tristeza, ele entendeu que o pai dele não está mais aqui, ele já lida bem com o tema morte e com a irreversibilidade da situação toda; mas eu fiquei destruída com isso. E deprimida. Assisti à aula de Karatê e me impressionei com o quão rápido o tempo corre. Matheus vai já fazer cinco anos e o Thi simplesmente não está. Voltei pra casa assim, meio down, meio bololô.

Não, não houve lágrimas, nem aquele desespero de sacudir o peito, só mesmo essa tristeza de não ter mais, de não ser mais aquilo. Na tarefa de casa, pediram para colocar uma foto da família e lá estávamos nós quatro, deitados na cama, sorrisos nos rostos... Uma vida perfeita e feliz, como a que queríamos proporcionar para eles dois até que crescessem. Não será assim. Mas será imperfeitamente feliz até que cresçam. Eu tô tentando...

8 comentários:

Suelen Rauber disse...

Marcele, você não está tentanto. Você está conseguindo.
Beijos a todos, e muita felicidade, ainda que imperfeita.

Paty disse...

Amei seu post ! estou seguindo vc há pouco tempo, mas me emociono todos as x q entro e leio.

Lu disse...

Querida Cele,
Ainda não passei por coisas escolares pq meu pequeno ainda nem na creche está.
Mas, sei bem do que vc está falando.
A vida não é justa, simplesmente não é.
Tudo vai dar certo.
Bjs mil para vc e seus pequenos

Anônimo disse...

E não é à toa que Matheus veio assim para vc, com essa compreensão toda. Agradeça.

Fica bem. Na paz.

Lidiane Dantas.

Anônimo disse...

Marcele

Que post mais emocionante. Me fez pensar de tantas pessoas muito especiais da minha vida que já se foram e ao mesmo tempo tantas outras que estão aqui comigo ainda. Fiquei pensando como ficaria o retrato da minha família hoje, sem meus avós, sem meu pai, mas ao mesmo tempo com a certeza, que a "foto" de cada um fica eternamente guardado no coração.
força hoje e sempre

Emanuelly disse...

Oi Marcele!
Sou uma dessas suas leitoras assíduas que nunca comentam nada (e olhe que no meu caso é desde o: aberta ao mundo).
Esse texto em especial me fez refletir bastante, e a idéia que me ocorreu não saia da cabeça a ponto de me sentir obrigada a dar o ar da minha graça por aqui.
Consigo imaginar o que você e as crianças têm passado desde a data em que tudo ficou de “pernas pro ar”, e o quanto é difícil, mas eu creio que essa família de mamãe e filhinhos que você viu desenhada na escolinha do Matheus certamente é muito mais linda do que muitas outras “completas” que lá estavam, tudo por conta do belíssimo amor que há entre e ao redor de vocês.
Prova disso são os sinais que seus filhos dão dos homens maravilhosos que estão se tornando.
Parabéns por mantê-los assim e pela forma belíssima que você conduz suas vidas!

Mafalda disse...

Perdi o meu marido há muito pouco tempo e desde então tenho procurado conforto em blogs como o seu e o da Lu .
Percebo muito bem tudo o que escreveu , na sala da minha filha pediram-me uma foto da família e eu ainda não tive coragem de entregar . O dia do Pai aproxima-se e na sala do meu filho estão a fazer a prenda para dar ao pai , lembro-me do meu marido ficar sem pre muito comovido com a prenda que o filho trazia da escola e não consigo imaginar o sofrimento do meu filhote a preparar a prenda agora .
Encontro-me em tudo o que escreve e tenho fé que um dia consiga encontrar alguma paz e encarar a minha vida com alguma serenidade .
Força para toda nós e para os nossos filhos .

Anônimo disse...

E eu que conheço muito bem todas essas etapas que passamos ao lado dos nossos filhos sem pai .
Mais não existe tristeza que dure para sempre .

Um grande beijo .