Sabe quando você chega ao lugar para o qual corria faz é tempo? Sabe aquela sensação de ver o nome na lista do vestibular? Sabe ser o primeiro a cruzar a linha de chegada? Sabe quando o Brasil vence a Copa? Sabe quando você encontra uma nota de cinquenta reais esquecida num bolso qualquer? Sabe quando aquele carinha que faz seu coração bater descompassado liga? Sabe o tumtumtum do primeiro beijo? Sabe aquilo que se sente quando se toma conhecimento de que foi promovido? Sabe o sentimento de paz, de cada coisa em seu devido lugar e de que tudo vai dar certo? Somando todas estas sensações, você terá uma vaga ideia do que eu sinto neste momento.
GENTE, eu consegui! Eu tô aqui! E eu só quero é ser feliz!
terça-feira, 16 de novembro de 2010
domingo, 14 de novembro de 2010
Reflexões na casa nova
Acho que é chegado o momento da vida entrar nos eixos. É chegada a hora de parar com as lamentações. É o tempo certo para recomeçar. Tempo exato de parar de olhar para trás como se voltar fosse possível. É chegado o instante do seguir adiante. Até aqui foi muito difícil. Mais ainda quando eu me lembro de ter dito que não queria nada a mais do que aquilo que já tinha, para o resto da minha vida. Agora é diferente. Tendo perdido metade de mim, o rumo que eu seguia, o centro da minha vida e meu norte; ganhei em troca um montão de desafios, de cicatrizes e essa esperança de que tudo vai dar certo.
Sozinha, aqui no escritório do apartamento novo (agora habitável), olhando para as nossas fotos penduradas na parede, eu tenho certeza de que, se eu cheguei até aqui, se eu sobrevivi no olho do furacão, se eu consegui encontrar saídas, pessoas, motivos e compensações; o resto da minha vida será mais fácil do que foi ter de sair do fundo do poço em que a vida me jogou. Mas se não for tão fácil quanto eu espero, torço e desejo que seja, eu descobri que sou muito mais forte que supus e que serei capaz de sobreviver todas as vezes em que necessário seja.
Eu precisei de mais de vinte e oito anos, de ter dois filhos, de perder um marido, de conviver com a ausência, com a morte, com o peso, com o luto, com a dor, para, só então, descobrir quem eu realmente sou e do que sou realmente capaz. Eu precisei ver minha vida de cabeça pra baixo, meu mundo sem chão, meu céu azul virar tempestade para, enfim, reconhecer quem eu tenho do meu lado de verdade. E olha, isso não tem realmente preço. Saber quem somos e com quem contamos não tem preço.
Essa é a primeira noite no apartamento novo. Hoje o dia é de vitória, de comemoração, de beber vinho, de dormir tarde, de curtir o cheirinho de novo, de entrar com o pé direito, de pendurar olho grego na porta (Brigada, cururu!) e de espalhar pimenteiras pela casa. Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida. Hoje é o recomeço. Hoje é dia de ser feliz. Se você que me lê nesse momento, ajudou a mim e/ou aos pequenos de qualquer forma, essa vitória também é sua e eu repito o que disse aqui um sem número de vezes: MUITO OBRIGADA por existir e por fazer diferença nas nossas vidas.
Sozinha, aqui no escritório do apartamento novo (agora habitável), olhando para as nossas fotos penduradas na parede, eu tenho certeza de que, se eu cheguei até aqui, se eu sobrevivi no olho do furacão, se eu consegui encontrar saídas, pessoas, motivos e compensações; o resto da minha vida será mais fácil do que foi ter de sair do fundo do poço em que a vida me jogou. Mas se não for tão fácil quanto eu espero, torço e desejo que seja, eu descobri que sou muito mais forte que supus e que serei capaz de sobreviver todas as vezes em que necessário seja.
Eu precisei de mais de vinte e oito anos, de ter dois filhos, de perder um marido, de conviver com a ausência, com a morte, com o peso, com o luto, com a dor, para, só então, descobrir quem eu realmente sou e do que sou realmente capaz. Eu precisei ver minha vida de cabeça pra baixo, meu mundo sem chão, meu céu azul virar tempestade para, enfim, reconhecer quem eu tenho do meu lado de verdade. E olha, isso não tem realmente preço. Saber quem somos e com quem contamos não tem preço.
Essa é a primeira noite no apartamento novo. Hoje o dia é de vitória, de comemoração, de beber vinho, de dormir tarde, de curtir o cheirinho de novo, de entrar com o pé direito, de pendurar olho grego na porta (Brigada, cururu!) e de espalhar pimenteiras pela casa. Hoje é o primeiro dia do resto da minha vida. Hoje é o recomeço. Hoje é dia de ser feliz. Se você que me lê nesse momento, ajudou a mim e/ou aos pequenos de qualquer forma, essa vitória também é sua e eu repito o que disse aqui um sem número de vezes: MUITO OBRIGADA por existir e por fazer diferença nas nossas vidas.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Na estrada
Eu sigo caminhando porque eu tenho esperança de que essa estrada vai dar em algum lugar muito feliz. Não sei que surpresas ainda me ocorrerão; o que as curvas, aclives e declives promoverão em mim. Mas sigo caminhando porque, na maior parte do tempo, as paisagens são bonitas e as companhias são boas. Retroceder é ato de covardia. Parar no meio do caminho é abandonar-se, é acostumar-se com a mesmice, com o tédio. Eu não deixo que o medo engesse meu coração aventureiro; eu não deixo que as rotinas e os costumes me impeçam de arriscar; eu não deixo de acreditar porque me destrocei. Eu sou daqueles tipos que continuam, que levantam, sacodem a poeira e, bem, vocês sabem. Eu vou porque sinto que o caminho me reserva alegria. Eu vou porque eu consigo encontrar motivos para sorrir. Eu vou porque não tenho mais medo do sofrimento, nem da dor, nem da derrota, nem da depressão; porque eles já me visitaram uma vez e eu aprendi a lidar com todos eles. Concomitantemente, se necessário for. Sigo batendo meus saltos no chão, com passadas firmes e trago duas crianças pelas mãos que sorriem comigo e que me fazem olhar lá para o horizonte, onde a estrada se encontra com o céu. É olhando com eles para este ponto que eu percebo que o nosso mundo não se partiu, ele continua conectado. Onde quer que ele esteja, está com a gente, dentro da gente e isso me põe de pé e caminhando. Sigo porque voltar não é opção. Porque pressinto que as trilhas vão me levar até um lugar em que não haverá faltas, buracos, preocupações, tristeza. E, quando eu chegar lá, eu sei que, novamente, não vou querer merecer outro lugar.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Constatações
A delicadeza que abraça. O olhar sereno que compreende. Carinho que mima e promove momentos mnemônicos. As palavras que chegam como afagos oriundas de alguns milhares de quilômetros de distância ou do interlocutor à frente. Pensamentos tão interligados que causam sustos e me-do. Companhia preciosa e permanente e cotidiana e querida. Depois que a concretude atingiu os sentidos, sumiram as dúvidas. E quando a certeza se fez, se fez também a constatação de que outras portas devem ser abertas. Compreensão de que a vida segue e que é cheia de possibilidades outras. Coincidência que surge quando menos se espera. São perspectivas, probabilidades. Tudo ao mesmo tempo agora. Chove em diferentes locais e a esperança se renova. Chove mais que se esperou e não há mais dúvida. Há que se reconhecer esses momentos porque são únicos. Há que se aproveitar as surpresas boas e as peças felizes pregadas pela vida. Há que se abrir portas e janelas para sorte entrar, para a novidade invadir. Tinha gente batendo faz tempo e a casa fechada para o novo que se mostra disponível. Tinha gente batendo, pedindo abrigo, oferecendo companhia e a porta fechada. Hora de abrir. Hora de recomeçar, de se permitir, de ir em frente. Deixa o sol brilhar e invadir os recônditos mantidos no escuro como que para esconder as feridas. Deixa a vida entrar e fazer redemoinhos na barriga e coração. Deixa, menina, deixa!
Eu deixo.
Eu deixo.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Nove de novembro
Tem dias mais pesados mesmo. Tem dias que a gente pensa que a dor vai fazer a gente envergar o corpo de novo e fazer poças de lágrimas no chão e encharcar toalhas que abafam gritos incontidos. Hoje foi assim. Abrir os olhos e me dar conta de que eu não estou na nossa casa, não estou com ele, não comprei presente algum, não tem ninguém ao lado e é nove de novembro foi como um soco na boca do estômago. Daqueles que fazem perder o ar, daqueles que fazem você sentir ânsia de vômito, daqueles que fazem trincar os dentes... É como se a falta desse tapas na sua cara a todo instante, querendo deixar muito claro o que não existe mais. É como se a ausência fosse um ferro em brasa crispando a pele para provar que ela existe e que dói. É como se a saudade fosse uma máquina de tortura que não te deixa relaxar, esquecer, parar de doer.
Ainda assim, no meio desse dia em que tudo punge, houve poesia. Houve delicadeza, houve carinho, houve os pequenos cantando parabéns olhando para o céu; houve uma reunião na casa da Vovó Paula (minha sogra) com tanta gente querida rezando por ele; houve crianças soltando balões de gás para a festa que ele deve estar fazendo lá por cima e houve essa enxurrada de lembranças de aniversários anteriores com tantos amigos queridos e muita, muita, muita festa. Não tenho dúvida de que esse carinho não pode se dissipar no ar e que, onde quer que ele esteja, ele viu, sorriu fechando os olhinhos e recebeu como presente todo esse bem querer.
Ainda assim, no meio desse dia em que tudo punge, houve poesia. Houve delicadeza, houve carinho, houve os pequenos cantando parabéns olhando para o céu; houve uma reunião na casa da Vovó Paula (minha sogra) com tanta gente querida rezando por ele; houve crianças soltando balões de gás para a festa que ele deve estar fazendo lá por cima e houve essa enxurrada de lembranças de aniversários anteriores com tantos amigos queridos e muita, muita, muita festa. Não tenho dúvida de que esse carinho não pode se dissipar no ar e que, onde quer que ele esteja, ele viu, sorriu fechando os olhinhos e recebeu como presente todo esse bem querer.
Cartas para você XX
Thi,
Depois da terapia, eu prometi a mim mesma que pararia com o pensamento disfuncional que faz com que eu crie toda uma série de situações conjugadas no futuro do pretérito dentro da minha cabeça, em que cada frase começa com um SE impossível e pesado. Eu sei que eu não devo manter esse mundo paralelo, porque ele representa a comparação injusta e desleal com o presente dolorido de não ter você mais aqui.
Racionalmente, eu sei que não é por aí. Racionalmente, eu percebo que esse não é o caminho para chegar lá, no muito depois disso para o qual eu tenho corrido desesperadamente desde o janeiro trágico. Racionalmente, objetivamente, pragmaticamente são palavras que o coração simplesmente desconhece e nesse nove de novembro vazio, ele faz o paralelo e sente sua falta daquele jeito mais doído.
O coração tem vontade própria e ele planta na minha mente os pensamentos todos de como seria se. E por causa dos inúmeros SEs, eu fico remoendo essa dor absurda, enfiando agulhas de acupuntura nas queimaduras de 3º grau ocasionadas pela sua partida, fico tamponando com bandaids a perfuração arterial, tentando controlar a hemorragia que teima em sangrar abundantemente. Eu sei que é sem jeito, mas é também sem jeito esse tanto que dói vezenquando.
Ah, mozinho, como seria feliz esse dia com você por perto... Como seria feliz reunir todo mundo e cantar parabéns pra você, e chamar de manhã cedinho os pequenos para matar você de beijos e entregar os presentes que teríamos comprado. Como seria bom reunirmos as pessoas queridas no nosso apê novo. Como seria bom abraçar você daquele jeito, enfiando minha cabeça onde ela encaixava no seu ombro, derrubar você na cama e morrer de rir das cosquinhas que você faria em mim para eu perder a força. Como seria feliz o nove de novembro inteiro. Não esse aqui, aos pedaços, aos trancos e barrancos, suportável, sobrevivível (eu invento palavras para dizer o que sinto e ainda elas, as inventadas, não exprimem claramente).
Ainda é tão difícil acreditar que naquela curva o meu mundo se partiu. Ainda dói tanto pensar que nunca, que não mais, que jamais e que é para sempre. Ainda é pesado demais imaginar e ver os pequenos crescendo sem você aqui. Todos os dias eu me pergunto como aguento, como eu consigo. E, sinceramente, essa resposta não é fácil, Thi. Tem gente, tem orações, tem mãos, tem torcida, tem carinho e tem os trancos, as rasteiras, gente maldosa também, tem fofoca... Mas tem os nossos grandão e gorducho que cuidam de mim e me ensinam muito mais que eu a eles e tem esse negócio aqui dentro, sabe? Essa vontade de ser feliz, de me livrar dos pesos, de amar, de viver... Tem esses olhos de esperança que eu sei que são herança.
Eu sei, meu amor, que sempre vai faltar um pedaço, sempre vai ter uma marca da sua ausência nas vidas que você deixou aqui. Eu sei que, de alguma forma, você está com a gente, aqui dentro, em pensamento, em lembranças de tantas coisas boas que vivemos juntos. Eu sei, Thi, e agora é quase uma convicção, em algum lugar você permanece e é aí mesmo que a gente vai se encontrar. Mas por agora, Thi, deixa eu chorar de saudade e rir ao lembrar dos seus olhinhos que se fechavam na gargalhada, da sua ternura no sorriso, do seu carinho para com o mundo, do seu jeito de me abraçar, da sua mão de chimpanzé com dedos de salsicha - como nosso compadre dizia, do seu carisma, da sua vida, da sua luz.
Parabéns, meu amor! Parabéns!
Ainda muita saudade. Ainda muito amor.
Moreninha
Depois da terapia, eu prometi a mim mesma que pararia com o pensamento disfuncional que faz com que eu crie toda uma série de situações conjugadas no futuro do pretérito dentro da minha cabeça, em que cada frase começa com um SE impossível e pesado. Eu sei que eu não devo manter esse mundo paralelo, porque ele representa a comparação injusta e desleal com o presente dolorido de não ter você mais aqui.
Racionalmente, eu sei que não é por aí. Racionalmente, eu percebo que esse não é o caminho para chegar lá, no muito depois disso para o qual eu tenho corrido desesperadamente desde o janeiro trágico. Racionalmente, objetivamente, pragmaticamente são palavras que o coração simplesmente desconhece e nesse nove de novembro vazio, ele faz o paralelo e sente sua falta daquele jeito mais doído.
O coração tem vontade própria e ele planta na minha mente os pensamentos todos de como seria se. E por causa dos inúmeros SEs, eu fico remoendo essa dor absurda, enfiando agulhas de acupuntura nas queimaduras de 3º grau ocasionadas pela sua partida, fico tamponando com bandaids a perfuração arterial, tentando controlar a hemorragia que teima em sangrar abundantemente. Eu sei que é sem jeito, mas é também sem jeito esse tanto que dói vezenquando.
Ah, mozinho, como seria feliz esse dia com você por perto... Como seria feliz reunir todo mundo e cantar parabéns pra você, e chamar de manhã cedinho os pequenos para matar você de beijos e entregar os presentes que teríamos comprado. Como seria bom reunirmos as pessoas queridas no nosso apê novo. Como seria bom abraçar você daquele jeito, enfiando minha cabeça onde ela encaixava no seu ombro, derrubar você na cama e morrer de rir das cosquinhas que você faria em mim para eu perder a força. Como seria feliz o nove de novembro inteiro. Não esse aqui, aos pedaços, aos trancos e barrancos, suportável, sobrevivível (eu invento palavras para dizer o que sinto e ainda elas, as inventadas, não exprimem claramente).
Ainda é tão difícil acreditar que naquela curva o meu mundo se partiu. Ainda dói tanto pensar que nunca, que não mais, que jamais e que é para sempre. Ainda é pesado demais imaginar e ver os pequenos crescendo sem você aqui. Todos os dias eu me pergunto como aguento, como eu consigo. E, sinceramente, essa resposta não é fácil, Thi. Tem gente, tem orações, tem mãos, tem torcida, tem carinho e tem os trancos, as rasteiras, gente maldosa também, tem fofoca... Mas tem os nossos grandão e gorducho que cuidam de mim e me ensinam muito mais que eu a eles e tem esse negócio aqui dentro, sabe? Essa vontade de ser feliz, de me livrar dos pesos, de amar, de viver... Tem esses olhos de esperança que eu sei que são herança.
Eu sei, meu amor, que sempre vai faltar um pedaço, sempre vai ter uma marca da sua ausência nas vidas que você deixou aqui. Eu sei que, de alguma forma, você está com a gente, aqui dentro, em pensamento, em lembranças de tantas coisas boas que vivemos juntos. Eu sei, Thi, e agora é quase uma convicção, em algum lugar você permanece e é aí mesmo que a gente vai se encontrar. Mas por agora, Thi, deixa eu chorar de saudade e rir ao lembrar dos seus olhinhos que se fechavam na gargalhada, da sua ternura no sorriso, do seu carinho para com o mundo, do seu jeito de me abraçar, da sua mão de chimpanzé com dedos de salsicha - como nosso compadre dizia, do seu carisma, da sua vida, da sua luz.
Parabéns, meu amor! Parabéns!
Ainda muita saudade. Ainda muito amor.
Moreninha
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Porque eu não tenho palavras...
"A vida, bordadeira de surpresas bonitas que também é, de vez em quando borda no tecido do caminho da gente umas histórias aparentemente sem pé nem cabeça, mas com muito coração.
E é o coração que pode encontrar importância no significado do bordado. Reverenciar a mestria, a ternura, o requinte do humor da bordadeira. A sua perspicácia. A sua visão amorosa. Sentir a qualidade de textura dos fios de sabedoria que ela usou para bordar a surpresa.
É o coração. Não, necessariamente, a circunstância."
"Depois de cada momento de fraqueza, meu coração prepara, em silêncio, uma nova fornada de coragem. Às vezes cansa, sim, mas combinamos não desistir da força que verdadeiramente nos move."
(Ana Jácomo)
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
O que é mais difícil.
O que é mais difícil é controlar aquilo a que a gente quer dar vazão. O que é mais difícil é esconder o que a gente mal consegue suportar sentir. O que é mais difícil é ser durona, é se fingir de forte, quando, na verdade, não se é mais que uma mulherzinha cheia de mi-mi-mi e ideais românticos adquiridos após anos e anos ouvindo histórias de conto de fadas, príncipes em cavalos brancos e princesas sendo felizes para sempre. O que é mais difícil é querer colo, cafuné, massagem no pé, beijo no pescoço e não ter nem a possibilidade de. O que é mais difícil é dormir sonhando com o ombro onde chorar as lágrimas e a perna onde jogar a perna e não, nada, nem. O que é mais difícil é carregar o peso sozinha, é ter de se adequar às expectativas sociais, ser recatada, comedida, serena e chorosa; quando você quer fazer as coisas do seu jeito e no seu tempo. Chorar quando as lágrimas transbordarem e bater perna e beber quando quiser anestesiar a dor. Ficar deprimida e calada num quarto escuro e cair na balada e dançar até o cabelo grudar na nuca. E que se lasque a opinião alheia! Que se lasque que acham cedo! Que se lasque o mundo todo! Porque na verdade, no final do dia, no fim do mês, no final das contas é com você mesma que você terá que se entender e a (ir)responsabilidade pela sua vida é sua e só sua. O que é mais difícil é querer voltar no tempo e reviver. Impossível. O que é mais difícil é querer só mais uma vez aquele abraço. E nunca mais. O que é mais difícil é querer a opinião dele sobre cada e tantas coisas e se adaptar a pensar no que ele diria se. O que é mais difícil é ver doces possibilidades e temer. ME-DO! O que é mais difícil é querer se jogar e pensar antes e controlar a impulsividade e dar para trás. O que é mais difícil é ter essa liberdade ampla e irrestrita de agora e querer tanto as felizes algemas de antes. O que é mais difícil é sair sozinha, não ter companhia, estar com a turma de casais, ir a festas infantis, reunião de pais, datas especiais... O que é mais difícil é conviver com a solidão do colchão. O que é mais difícil é o domingo à noite, o sábado à noite, a sexta à noite, todas as noites... O que é mais difícil é responder questões que você nunca nem imaginou a resposta para um ser tão inocente e puro e que não merecia ter esses questionamentos nessa fase da vida. O que é mais difícil é ter de lidar todo dia com uma ausência, com um buraco, com uma falta que, não importa aonde vá, persegue e grita e clama por atenção, mesmo que você esteja distraída. O que é mais difícil é vestir aquela roupa e não ter aquele elogio. O que é mais difícil é acordar e não ter com quem extravazar o mau humor. O que é mais difícil é sentir falta de toque, de mão, de beijo, de aperto, de amasso, de língua e rien de rien. O que é mais difícil é pensar no futuro a médio e longo prazo; é pensar nos pequenos crescendo sem aquele olhar e sem a experiência; é pensar no adolescer deles sem o referencial masculino; é pensar nas vitórias e conquistas (que assim espero) eles alcançarão sem a vibração da corujice dele; é pensar na velhice sem a perspectiva de companhia; é pensar nas viagens que planejamos e não fizemos; na festança de casamento que planejamos e não fizemos; na vida que teríamos no apê novo que planejamos e não fizemos. Nem faremos. O que é mais difícil é pensar que se pensou em suicídio como solução. O que é mais difícil é ver a vida tomando rumos que não se esperava e nem se queria. O que é mais difícil é conhecer gente bacaníssima e pensar em como ele se daria bem com estas pessoas. O que é mais difícil é seguir, sobreviver e viver. Mas é preciso.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Quando as borboletas começam a bater asas
Quando as borboletas começam a bater asas dentro da gente, parece com aquela sensação de quando o juiz marca um penâlti a nosso favor na final da Copa. Parece com receber, em plena quarta-feria, no meio do expediente, um enorme presente surpresa embrulhado em um lindo papel com um laçarote vermelho, sem saber quem mandou. Parece aquela brisa que anuncia a chuva que vai cair (porque chuva no nordeste é coisa boa). Quando as borboletas começam a bater asas dentro da gente, é muito difícil controlar essa sensação, desviar o pensamento, mudar o foco, pensar em outra coisa, fazer com que elas parem. Quando as borboletas começam a bater asas dentro da gente, perde-se um pouco do tom severo que a adultice impõe, perde-se o medo de pagar mico, de ser piegas, do ridículo. Quando as borboletas começam a bater asas dentro da gente, a gente esquece o passado dolorido, esquece as feridas e cicatrizes, esquece quem é, de onde veio e o rumo que estava tomando, esquece os problemas, as dívidas, os afazeres. Quando as borboletas começam a bater asas dentro da gente, vê-se de novo arco-íris no céu, estrelas cadentes e trevos de quatro folhas. Há uma certa magia ao redor de quem tem borboletas batendo asas dentro de si e tudo que acontece ganha um encanto diferente. Há um sorriso estampado no rosto de quem tem borboletas batendo asas dentro de si, como se o farfalhar delas fizesse cócegas na alma. Há sempre um aura de serenidade, porque a sensação, embora haja essa ansiedade evidente, é de que tudo, tudo, tudo vai dar pé. Há esperança nos olhos de quem tem borboletas batendo asas dentro de si, há uma chama, há uma meiguice para consigo e para com o mundo. Há esse constante transbordamento de boas vibrações, de energia positiva, de carinho... Quando as borboletas começam a bater asas dentro da gente, só nos resta torcer para que fiquem por muito tempo porque a gente sabe que é o indício mais real da felicidade que se aproxima. A gente sabe que nem todo mundo consegue. As borboletas não vêm para todos. Mas ó: tô aqui, hein? Querendo, é só chegar!
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Feriado
O feriado de hoje é feito para lembrar, homenagear e rezar para aqueles que já partiram. Para mim, sempre foi um feriado como outro qualquer. Dia de não ir para a escola, dia de não ter trabalho. Até o ano passado, poucas pessoas haviam partido. Uma avó aos 3 anos; outra, aos 6; um avô que vi apenas uma vez na vida; alguns parentes com quem não convivi muito; um ou outro parente sem muito contato; um tio querido; e uma vizinha que era como se fosse da família, mas que foi tão maltratada pela doença que a morte me chegou como um alívio para tanto sofrimento.
Mas agora é diferente. Eu perdi parte do que eu era numa curva da estrada. Eu perdi metade do meu mundo, este mesmo que está sendo reconstrruído com diferentes rostos e diferentes formatos. No feriado de hoje, eu tenho quem lembrar, homenagear e por quem rezar. Mas o fato é que eu não sinto o feriado diferente. Não sinto como se fosse um finado a mais no meio daquela multidão que está sob o lugar onde as sombras são compridas. Não sinto isso porque ele é parte de mim, ele é o que eu sou e ele vive aqui, nas minhas atitudes, nas minhas escolhas, no sorriso dos pequenos. Ele é. Talvez por isso, seja tão difícil conjugar verbos no passado.
Eu não sei, mas não senti necessidade alguma de ir até lá. Porque essa data não muda em nada o que eu sinto, nem essa saudade, nem essa dor que insiste doer, nem diminui a ferida que insiste em sangrar (abundantemente, vezenquando). O meu dia de finados é diário. O meu dia de finados é rotina. O meu dia de finados é constante. E as preces e lembranças também são. É mais um feriado como outro qualquer.
Mas agora é diferente. Eu perdi parte do que eu era numa curva da estrada. Eu perdi metade do meu mundo, este mesmo que está sendo reconstrruído com diferentes rostos e diferentes formatos. No feriado de hoje, eu tenho quem lembrar, homenagear e por quem rezar. Mas o fato é que eu não sinto o feriado diferente. Não sinto como se fosse um finado a mais no meio daquela multidão que está sob o lugar onde as sombras são compridas. Não sinto isso porque ele é parte de mim, ele é o que eu sou e ele vive aqui, nas minhas atitudes, nas minhas escolhas, no sorriso dos pequenos. Ele é. Talvez por isso, seja tão difícil conjugar verbos no passado.
Eu não sei, mas não senti necessidade alguma de ir até lá. Porque essa data não muda em nada o que eu sinto, nem essa saudade, nem essa dor que insiste doer, nem diminui a ferida que insiste em sangrar (abundantemente, vezenquando). O meu dia de finados é diário. O meu dia de finados é rotina. O meu dia de finados é constante. E as preces e lembranças também são. É mais um feriado como outro qualquer.
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