quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O dia 20/01/2010


Acordou aquele dia com a mesma preguiça de todos os dias feira. Queria ficar ali deitada por mais alguns minutinhos, mas já ouvia as crianças com seus gargalhar e corre-corre na sala, sabia que precisava se levantar e enfrentar a rotina. Queimavam-lhe ainda na pele os beijos muitos e os afagos que recebera do marido, que se levantara cedo para o trabalho, que, neste dia especificamente, seria numa cidade do interior do estado, algumas horas de carro. Ele sempre era muito carinhoso e ela era sempre resmungona pela manhã, sofria de um terrível mau humor matinal e acordava quase sempre ensimesmada. Precisava de silêncio para pegar no tranco e isso podia levar algumas horas.
Levantou, enfim. Queria tomar um banho quente, mas sabia que a água gelada é que é boa pra espantar a preguiça, tomou o café trivial de todos os dias e saiu no carro com as crianças. Eles, escola; ela, trabalho. Era uma quarta-feira modorrenta, no alto verão de janeiro, ela ouvia uma música qualquer no rádio e chegou ao trabalho no horário de costume.
Sentou, ligou o computador, pegou um cafezinho e um copo d’água e ficou lá a bater os dedos no teclado, com o rosto sério e compenetrado, esperando o mau humor matinal passar para então puxar assuntos com os colegas nas mesas ao redor. Levantou para pegar uma impressão e o telefone tocou. Era a babá das crianças, informando que ligaram para a casa dela dando notícias de que um acidente acontecera na estrada com o marido.
Ficou tudo nebuloso, então. Primeiro pensamento foi: isso é trote daquele irresponsável do melhor amigo dele, vive pregando peças na gente. Segundo pensamento: vou ligar para a Prefeitura do Município, para saber da ocorrência de acidentes na região. E tentou, os números estavam ocupados. Tentou o celular dele, fora de área. Tentou o Hospital Municipal, a Secretaria de Saúde, a Delegacia de Polícia. Nada, nada, nada. E começou a surgir dentro dela a angústia de quem antevia o pior.
O alarme estava soando dentro da cabeça dela, as mãos começaram a tremer e lágrimas começavam a brotar sem ela entender direito o porquê. Não conseguia falar com ele e não conseguia falar com ninguém que confirmasse ou desmentisse a história absurda. Os colegas do trabalho começaram a tentar ajudar e a buscar notícias e contatar pessoas, porque, neste ponto, ela não tinha mais condições nem de segurar o telefone com as mãos.
Deixou a sala onde trabalhava e correu para o banheiro porque o estômago revirava e o jeito que ela enfrenta esses momentos de angústia é esse: coloca tudo pra fora, sem parar. O telefone tocou, era o cunhado dizendo que estava indo lá para a tal cidade para saber o que tinha acontecido. Perguntou se ela iria, ela disse que sim.
Só então, ligou para os irmãos, para que algum deles fosse lá na empresa em que ela trabalha pegar o carro dela. Saiu antes deles chegarem, em direção à estrada, meio muda e muito estupefata. Foi pensando na forma como ele dirigia, sempre confiante, sempre achando que não havia nada demais nas ultrapassagens e no excesso de velocidade. Foi pensando na forma como ele comparava o próprio carro com um avião e do dia, três meses antes, em que comprara o carro, zerinho, zerinho...
Fez ligações para as pessoas que conhecia na cidade onde o acidente ocorrera, para os amigos que tinham parentes no local, tentou os melhores amigos todos... Ninguém dava informação alguma. Ela, o cunhado e a sogra tensos, sem saber de nada. Todo mundo calado no carro, e o embrulho no estômago dela não passava. Ligou para um amigo que trabalhava no principal hospital da região, ele tava de férias, mas foi até lá para se informar e dar notícias mais precisas.
O telefone toca de novo, uma grande amiga aos prantos pedindo pra ela dizer que era mentira. Ela, sem entender quase nada, explica que é verdade, que o marido sofrera um acidente, mas que ninguém sabia detalhes, que ela estava a caminho da tal cidade e só então poderia dar notícias. A amiga diz então que terceira pessoa dissera que ele morrera. Ela diz que ninguém sabe nada ainda e desliga.
Porque a negação faz parte, porque era surreal demais para que ela acreditasse, porque não podia ser verdade. Ela nem cogitou, ela nem dividiu com ninguém, ela nem falou o que a amiga dissera no telefone. Ela simplesmente continuou calada, olhando as coisas passando na janela do carro, enquanto ele seguia seu rumo.
O amigo que trabalhava no hospital da região ligou e informou que o marido não estava sendo encaminhado para lá, mas para o hospital municipal da pequena cidade mais próxima do acidente. Ela ficou meio aliviada, afinal de contas, se fosse algo grave, ele iria para o hospital com estrutura melhor. E, nesse momento, veio na cabeça dela imagens do que poderia ter acontecido: algumas escoriações, alguns ossos quebrados, e ela anteviu o carão que daria nele por correr e por dirigir imprudentemente.
O amigo disse ainda que pegaria a estrada até a cidade vizinha e que ligaria assim que chegasse lá. Ela nem desconfiou de nada. O coração ainda esta aos saltos, mas ela queria acreditar que era uma boa notícia. Mas quando o telefone tocou de novo, e o amigo informou que ela tinha mesmo que ir pra lá porque ele havia morrido, pareceu-lhe que o mundo se partiu, que um buraco foi aberto  sob os pés dela e a Terra a engoliu.
Ela repetiu mecanicamente a notícia para as pessoas no carro. O cunhado encostou, enquanto a sogra chorava ao lado. E, sem saber o que fazer, falar, pensar, ela teve uma certeza: não queria ver o carro, nem ele todo machucado, não queria ir reconhecer o corpo e pegar os bens dele, não queria estar lá nesse momento. Ela queria ir pra casa, deitar na cama, ficar sozinha pra chorar. E disse: eu não quero mais ir pra lá, eu não vou agüentar!
Voltou pra casa e em meia hora a casa estava cheia de gente. Os pequenos foram tirados dali, juntamente com a babá porque ninguém sabia como olhar para eles, nem o que dizer. Ela nem sentia que estava dentro do próprio corpo, tudo parecia nebuloso. As lembranças são embaçadas e o tempo nem parece ter corrido normalmente.
Ela se  lembra de que havia muita gente, de que pessoas queridas compareceram, muita gente que ela nem conhecia, pacientes, colegas de trabalho, amigos vieram dos quatro cantos do país. Ela se lembra de ter recebido muitos abraços, de não conseguir conter as lágrimas, de não reconhecer as pessoas, nem o mundo, de ter a sensação de que a vida dela terminaria junto com a dele. Ela se lembra das promessas que fez sobre o caixão, mas não lembra do semblante dele lá. A imagem dele na memória dela é sempre vivo, é sempre um sorriso, é sempre muito carinho.
Houve um longo velório e um enterro num fim de tarde, quando o sol faz sombras compridas. Houve lágrimas demais, tentativas de sedar um pouco o que latejava, houve mãos, ombros, abraços apertados, muita solidariedade. Houve gente querida e amiga. O pior de todos os dias, na verdade, durou dois. Ela não sabe como passou por ele, ela não sabe como conseguiu. Mas ela, fiapo de gente, farrapo de sentimentos, estraçalhada pela dor de perder o homem da vida, consumida pelo desespero sobreviveu. E eu estou aqui para contar.

24 comentários:

Anônimo disse...

Ai Marcele, não deu pra segurar as lágrimas, o acelerar do coração, o arrepio, a sensação de estômago revirado, aqui do outro lado da telinha. Impossível "dizer" qualquer coisa que amenize. Só espero e torço muito pra que passe, que fique distante, enfim...que em algum momento seja só uma linda lembrança (a de tê-lo conhecido e ter compartilhado lindos momentos e lindos filhos com ele). Beijão!

Janaína

Pam disse...

Marcele,

mesmo de longe estou pensando em vc e sua familia nesta data. Acompanhei tudo que vc passou através deste blog e peço a Deus o conforto para o seu coração.

bjo grande

Aline Cristina disse...

=~~~~~

Você vai superar tudo isso!

E só vão restar boas lembranças.

Força!

O Divã Dellas disse...

Marcele,
Falamos em vocês no nosso post de hoje.
Que Deus continue te guardando entre as mãos dEle.
Beijos,
Cinthya

L@N disse...

Sem palavras....

Anônimo disse...

Marcele,
sou sua fã!Vc pode até quere desmoronar as vezes, mas vc é forte e tenho ctz que tudo na sua vida vai se encaixar, sen está ja se encaixando.Seja feliz e que Deus te abençoe, seu THI sempre estará com vc, mesmo que vc não o veja.
Grande beijo

Anônimo disse...

ô meu deus..sinta-se abraçada...sem mais palavras..
dani.

Marina Bueno disse...

O que dizer, Querida.... Força, força, força e um beijo com carinho...

Anônimo disse...

Fui às lágrimas. Foi inevitável, "inescapável"....Lamento profundamente :( É muita dor.

Diana disse...

Oi

Eu sempre acompanho seu blog, fez 1mês que perdi meu esposo em um acidente, e toda a sua descrição acima é igual a minha. O seu blog tem me ajudado muito a compreender meus sentimentos e sensações, Força pra cuidar dos pequenos, eu também tenho um.

Laís disse...

Impossível segurar o choro e controlar a angústia. Dá medo, medo da vida, medo do que o futuro nos reserva, medo de uma dia sentir a mesma dor que vc está sentindo e não saber seguir em frente.

Desejo que Deus conforte o seu coração e que a ajude a canalizar essa dor. Desejo de todo o coração muita paz, amor e saúde a vc e seus filhos. E força, muita força!

Cheguei por aqui ontem, mas te admiro e torço por vc como se te conhecesse por toda a vida.

Abraço forte!

Laís Assis,
Salvador-BA

Ácidas e Doces disse...

Oi Marcele
Tão difícil escolher o que dizer... mesmo sabendo que já passou um ano. Que Deus guarde seu coração e que a dor diminua e dê espaço para apenas saudade e muita esperança de ficar muito bem de novo.
Beijo
Kézia

Adriana disse...

Força, Marcele!
E que vc esteja smepre rodeada de pessoas que te amam e torcem por vc!

LuTTy disse...

Marcele,

Não tem como não sentir um embrulho no estômago lendo o que você escreveu. Passar os olhos nessas linhas todas e imaginar os momentos pelos quais você passou já é tão triste... imagine vivê-los...
Vi também o blog da sua mãe, com fotos muito bonitas. Imagino a sua saudade e a de todos da sua família e do Thiago.
Estou com muita pena de não poder ir à missa - como sabe, não estou mais morando em Fortaleza. Mas passei o dia pensando em você e nos seus meninos e rezarei por vocês.
Um abraço apertado,

Lu

Anônimo disse...

E no meio de lágrimas, risos e emoções a gente tá aqui, lendo e enviando boas energias.

Força e muito amor na sua vida.
Lidiane Dantas

Tay disse...

Não consegui segurar as lágrimas.Venho aki diariamente e saiu daqui aos prantos me perguntando de onde vc tira taaanta força.
Celle q Deus lhe de a força que vc precisa e lhe de as respostas que vc tanto precisa pras perguntas que eu tenho certeza que vc tem ai dentro de ti.Sem mais palavras....
Bjs
Tay

Desconstruindo a Mãe disse...

[suspiro] Pois é, eu fico sem respiração lendo suas lembranças de um início tão difícil de nova etapa... ao mesmo temppo tu me lembras que sobreviveste para contar.

Teus filhos têm sorte de uma mãe tão persistente e que se agarrou às lembranças e ao amor por eles e pelo marido pra poder continuar lutando.

A vontade de fugir da dor é bem a cara do ser humano, né?! Mas tu não fugiste.

Tu és muito mais forte do que consegues perceber, guerreira!

Beijo,
Ingrid

Anônimo disse...

mesmo sem te conhecer, acompanho-te desde pouco antes do natal... esse é meu segundo comentário, e nao pude vir deixar de dizer q pensei o dia todo em voce.

Força. Luz. ESPERANÇA.

um beijo

carol

Luciana Carvalho disse...

Não tem como não se emocionar com esse texto. Passei para amigos meus lerem. São nessas horas que percebemos como nosa vida é frágil...
Acabei lendo outros textos seus e te considero uma pesoa vitoriosa...Parabéns!

Carol disse...

sem te conhecer, navegando por alguns blogs, cheguei aqui, li, me emocionei muito. queria ter melhores palavras pra te dizer, uma palavra que possa diminuir essa dor, mas percebo que qualquer palavra ficará aquém da intenção. então, penso bem positivo, peço a Deus que abençoe você e sua família, lhe desejo toda força, toda fé, todo otimismo, toda serenidade. beijos, carol

ANNA CAMILA disse...

Marcele, muita paz e luz em seu coração! força minha amiga!


www.comerbemnutri.blogspot.com

Thyanne disse...

vivi uma historia mto semelhante a sua, com a exceçao de nao termos tido filhos e da profissao meu caso foi exatamente igual, ate a historia do carro zerinho, etc ... no mesmo ceara, na mesma estrada, o mesmo despedaçar ... dia 06 completou 3 anos, mas todos os dias ainda acordo com a impressao de q foi ontem ... a comparaçao com o garrafao de 20L e a caixinha de leite condensado é tao crível e verrossímel ... eu diria mais, é como se alguem explodisse o garrafao e a vida se tornasse o desespero de juntar com as proprias maos as gotas d'agua que dele vao se esvaindo ... a dor nunca vai passar, vc apenas vai aprender a conviver com ela ... palavra nenhuma conforta, nem hoje nem amanha nem nunca ... muitas pessoas dizem q 'imaginam' como é a dor ... mas imaginar é abstrato de menos para uma dor que é concreta demais ... ja escrevi coisas muito parecidas com as q vc escreve aqui no blog ... escrevi e guardei-as pra mim pq me irritava pensar que aquelas linhas era a unica forma de falar silenciosamente com ele ... sei exatamente o pesar de cada letra, cada palavra, cada frase ... sei o peso q se leva no coraçao, na cabeça, na alma ... é uma ferida q nunca se fechará, q nunca irá parar de sangrar, é um pedaço de vc q nunca vai se recuperar ... mas, aos poucos (e bem devagar), as cores vao voltar a sua vida ... elas nao serao lindas e reluzentes como foram um dia ... mas te trarao a felicidade novamente ... é fato que voce nunca mais sera a mesma, mas nascerá outra pessoa que será tao apaixonada por ele quanto a outra ... mas que deixará a magoa para reaprender a ser feliz ... assim como o Igor ilumina e rege todos os meus passos rumo a novos caminhos e sorrisos, o Thiago fará isso por voce e pelos seus meninos ... agora mesmo, escrevendo essa msg pra vc sinto a presença do Igor tao forte ... assim como tenho ctz q vc sentirá a presença do Thiago ao ler essas linhas ... use o tempo que for preciso, nao tenha pressa ... tinha uma frase que o Igor adorava "Omnia Vincit Amor" (o amor vence tudo) ... uma semana depois q a tragedia completou 03 anos fui a um estudio e fiz uma tatuagem com essa frase ... nesse dia, joguei fora todas as coisas materiais q tinha dele ... presentes, fotos, perfumes, ursos ... tudo q guardava e carregava cmg por todos os lugares em q fui nos ultimos anos ... nao estou dizendo pra vc fazer uma tatuagem (rsrs) ... apenas estou te dizendo que vai chegar o momento em que vc vai precisar se libertar ... por vc msm ... use o tempo que precisar ... nao sao as fotos, as palavras e o tempo que fará com q vc lembre dele ou nao ... pela experiencia de ja ter passado por isso em uma forma tao semelhante a q vc passou, posso afirmar que hj vc ainda sente e diz q nunca o esquecerá ... chegará o momento em q vc terá certeza ... e será a partir desse dia que voce voltara a ser feliz ... e nao duvide, hoje, amanha, daqui um mes, um ano ... nao importa ... esse dia chegará ... força querida, que Deus e o seu anjo te iluminem cada dia mais :)

Mirys + Guigo + Nina disse...

A beautiful way to tell a story... that even now, after one hole year, seems to be just a story... not history!

Take care, my dear friend!
And keep walking...

Love

Mirys
www.diariodos3mosqueteiros.blogspot.com

Laura disse...

Ai, Jesus, que dor!