segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Cartas para você XXII

Thi,

Um ano se passou desde aquele dia de janeiro trágico. Um ano sem seu coração bater no mundo. Um ano sem sua presença. Um ano sem ver o sorriso mais lindo que eu já vi. Um ano inteiro: todas datas, todas as comemorações, todos os momentos sem você. Confesso que, para mim, ainda é muito difícil acreditar que você se foi. Olhos suas fotos na nossa casa e me pergunto como pode um cara tão bacana não estar mais aqui. Eu me pergunto, Thi; eu não me conformo. Por isso mesmo, na maior parte do tempo, eu prefiro não pensar muito. Concentro-me nas tarefas e obrigações imediatas, nos nossos pequenos (grandão e gorducho, para você), concentro-me no dia a dia e vou.

Sabe, mozinho, não foi fácil estar sem você até agora. A vida é outra e eu também me tornei outra pessoa. Muita gente me diz isso, que é incrível perceber a mudança em mim depois desse ano. E nem sei até que ponto isso é bom. De alguma forma, eu sinto falta da minha superficialidade, da minha leveza, da minha alegria, da minha ausência de preocupações de antes. Era leve, era fácil, era seguro... Mas enfim, a gente faz o que dá pra ser feito, né? Eu continuo tentando daqui.

Preciso contar que adoro receber suas "visitas" sorrateiras. Eu sinto você e acho que esse foi seu jeito de dar um jeito da gente se "encontrar". Eu sei que você sabe que outros mecanismos não funcionariam com a descrente aqui, com a "incréu", como diria a mamãe. E é bom sentir que, de algum modo, o seu amor chega até mim e, através de mim, até eles. Suas visitas me devolvem uma certa convicção de que você permanece ao nosso lado, que cuida da gente do jeito que dá e que assiste o desenvolver dos nossos pequenos. Espero que seja mesmo isso e não apenas fruto dos desejos do meu inconsciente irresignado com a sua partida.

Sempre que eu sinto você por perto, a vontade que eu tenho é de não abrir os olhos, é tentar impedir o desvanecer do intangível. Sabe criança segurando firme e com três voltas na mão um balão de gás para que ele não voe embora? Sou eu! Eu quero segurar a sensação da sua presença, segurar a visão e ouvir sua voz e conversar com você... Eu queria perguntar tanta coisa, mozinho, mas eu num consigo, nunca me lembro. Espero que você esteja feliz com o que temos aprontado aqui e que haja uma razão plausível para tudo isso e, mais que tudo, que essa razão tenha trazido a conformação de que você precisa, porque eu sei que a mesma revolta que me assolou o peito deve ter assolado o seu.

Mozinho, acho que a hora é de se despedir das lágrimas, da dor, do luto, da sensação de vida partida, de ferida aberta... Você concordaria com isso. Quero ser feliz, meu amor, do mesmo jeito que fomos juntos. Do mesmo jeito que sabíamos, como diz a Izabel, ser e fazer. Foi muito, muito, muito mais que maravilhoso ter você na minha vida. Foi muito lindo o que a gente viveu. E eu tenho certeza de que eu nunca vou me esquecer disso tudo e, quando a vida me parecer injusta, eu vou tentar lembrar do brilho do seu olhar quando olhava para a família que somos.

Eu sei que você vai me ajudar em tudo e, por isso, eu sei que vou conseguir.

Amo você demais e para sempre!

Moreninha.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Céu azul após a tempestade...

Não chove para sempre. É preciso mudar o foco. O ciclo se encerra. A vida já mudou e encarar a realidade que se apresenta é preciso. Por isso e por muito mais coisa, resolvi criar um blog novo que caminhará em paralelo. É preciso falar de coisa boa também.

Céu azul após a tempestade

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A Missa de Um ano

Então, teve a missa ontem. E, dentre a surpresa pela presença de cerca de 200 pessoas e a tristeza de ver fotos dele no livrinho de mais uma missa de morte, o que mais me marcou na noite de ontem foi a maturidade do Matheus. Nesse período todo, a lucidez e a inteligência dele me surpreenderam sobremaneira. Mas ontem...

Momento 1 - A gente dividia flores para o ofertório. Aí ele chega com uma nas mãos e me diz: "Mamãe, você tem quem fingir que essa daqui foi o papai que mandou, certo?".

Momento 2 - Eu chorando muito, ele se aproxima e diz: "Mamãe, você não precisa chorar porque eu tô aqui..."

Momento 3 - "Mamãe, você nunca estará sozinha. Eu sempre vou estar com você. Se você tivesse perdido os seus filhos é que você iria se sentir sozinha..."

Momento 4 - "Mamãe, eu te amo, me dá um abraço? Pronto, agora passou né?"

Momento 5 - Em casa já, ele fez questão de dormir comigo na minha cama e sabe o que ele fez??? CA_FU_NÉ.

Lindo demais meu menino!

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Eis o texto que eu li na missa:

Durante este ano inteiro, eu busquei freneticamente maneiras de superar a realização do meu pior pesadelo. Digo pior pesadelo porque pior que isso nunca nem passou pela minha cabeça. E, após os dois piores dias da minha vida, ao voltar pra casa e me ver sozinha, com duas crianças tão pequenas e sem ele, eu não consigo mais descrever a sensação que me acometia. Eu não consigo encontrar a palavra adequada porque é maior que desespero, é maior que solidão, é maior que dor, é maior do que consigo racionalmente conceber.

Eu entrava no meu quarto e me perguntava como conseguiria viver sem ele ali, como eu conseguiria dormir e acordar na nossa cama, fazer as refeições na nossa mesa, entrar e sair da nossa casa, me deparando com a declaração de amor no espelho do banheiro, com fotos, objetos, roupas, espaços, lembranças e toda a nossa história diariamente. Eu me perguntava como conseguiria simplesmente respirar porque parecia que estavam torcendo meu peito encharcado de dor, como quem torce roupa recém lavada.

Passado um ano, eu concluo que eu não vivi aqueles dias, eu apenas sobrevivi. Inspirando e expirando, chorando convulsivamente muitas noites, tampando a boca com uma toalha e evitando, no meu mais profundo esforço, trazer sequelas ainda maiores para os dois pequenos que ele me deixou. Sobrevivi, primeiramente, justamente por causa destes dois. Mas eu não poderia nunca deixar de fazer referência aos nossos amigos, aqui incluídos todos os familiares, que me ajudaram nesse processo todo. Sobrevivi por mim e por causa de vocês também.

Passado um ano, eu ainda me pergunto se algum dia essa dor vai parar de doer, se esse talho será só uma cicatriz que já não sangra, se essas reviravoltas de sentimentos se acabarão... Passado um ano, eu espero pelo momento em que será só uma boa lembrança, doces recordações que deixaram um gostinho de queria-muito-mais... Porque sempre que eu penso que a vida tá ficando leve e amena, eu esbarro na covinha da bochecha direita do Matheus ou no dedão do pé bolotinha. Quando eu penso que já nem lembro, o Thomás faz uma gracinha ou se lambuza todo com chocolate. Quando eu acho que está superado, eu sonho com os sonhos que planejamos juntos. Quando eu sinto a vida seguindo um rumo novo, outro, diferente; sempre me vem à cabeça que qualquer coisa seria muito melhor com ele por perto.

E, assim, dando muitos passos para frente e alguns para trás, eu sigo minha vida, me sentindo ainda muito ligada a ele porque ele permanece vivo nesses dois pequenos, com a certeza de que nem essa distância de tempo-espaço será capaz de destruir ou apagar a história linda que construímos.

Por fim, uma música poema diz exatamente o que eu queria dizer pra ele:

"Que é que eu vou fazer pra te esquecer?
Sempre que já nem me lembro, lembras pra mim
Cada sonho teu me abraça ao acordar
como um anjo lindo
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
Que nenhum adeus pode apagar...

Que é que eu vou fazer pra te deixar?
Sempre que eu apresso o passo, passas por mim
E um silêncio teu me pede pra voltar
Ao te ver seguindo
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
Que nenhum adeus pode apagar...

Que é que eu vou fazer pra te lembrar?
Como tantos que eu conheço e esqueço de amar
Em que espelho teu sou eu que vou estar
a te ver sorrindo?
Mais leve que o ar
Tão doce de olhar
QUE NENHUM ADEUS VAI APAGAR..."
(Pra te lembrar - Caetano Veloso)

Thi, nenhum adeus vai apagar seu sorriso lindo dos nossos corações!

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O dia 20/01/2010


Acordou aquele dia com a mesma preguiça de todos os dias feira. Queria ficar ali deitada por mais alguns minutinhos, mas já ouvia as crianças com seus gargalhar e corre-corre na sala, sabia que precisava se levantar e enfrentar a rotina. Queimavam-lhe ainda na pele os beijos muitos e os afagos que recebera do marido, que se levantara cedo para o trabalho, que, neste dia especificamente, seria numa cidade do interior do estado, algumas horas de carro. Ele sempre era muito carinhoso e ela era sempre resmungona pela manhã, sofria de um terrível mau humor matinal e acordava quase sempre ensimesmada. Precisava de silêncio para pegar no tranco e isso podia levar algumas horas.
Levantou, enfim. Queria tomar um banho quente, mas sabia que a água gelada é que é boa pra espantar a preguiça, tomou o café trivial de todos os dias e saiu no carro com as crianças. Eles, escola; ela, trabalho. Era uma quarta-feira modorrenta, no alto verão de janeiro, ela ouvia uma música qualquer no rádio e chegou ao trabalho no horário de costume.
Sentou, ligou o computador, pegou um cafezinho e um copo d’água e ficou lá a bater os dedos no teclado, com o rosto sério e compenetrado, esperando o mau humor matinal passar para então puxar assuntos com os colegas nas mesas ao redor. Levantou para pegar uma impressão e o telefone tocou. Era a babá das crianças, informando que ligaram para a casa dela dando notícias de que um acidente acontecera na estrada com o marido.
Ficou tudo nebuloso, então. Primeiro pensamento foi: isso é trote daquele irresponsável do melhor amigo dele, vive pregando peças na gente. Segundo pensamento: vou ligar para a Prefeitura do Município, para saber da ocorrência de acidentes na região. E tentou, os números estavam ocupados. Tentou o celular dele, fora de área. Tentou o Hospital Municipal, a Secretaria de Saúde, a Delegacia de Polícia. Nada, nada, nada. E começou a surgir dentro dela a angústia de quem antevia o pior.
O alarme estava soando dentro da cabeça dela, as mãos começaram a tremer e lágrimas começavam a brotar sem ela entender direito o porquê. Não conseguia falar com ele e não conseguia falar com ninguém que confirmasse ou desmentisse a história absurda. Os colegas do trabalho começaram a tentar ajudar e a buscar notícias e contatar pessoas, porque, neste ponto, ela não tinha mais condições nem de segurar o telefone com as mãos.
Deixou a sala onde trabalhava e correu para o banheiro porque o estômago revirava e o jeito que ela enfrenta esses momentos de angústia é esse: coloca tudo pra fora, sem parar. O telefone tocou, era o cunhado dizendo que estava indo lá para a tal cidade para saber o que tinha acontecido. Perguntou se ela iria, ela disse que sim.
Só então, ligou para os irmãos, para que algum deles fosse lá na empresa em que ela trabalha pegar o carro dela. Saiu antes deles chegarem, em direção à estrada, meio muda e muito estupefata. Foi pensando na forma como ele dirigia, sempre confiante, sempre achando que não havia nada demais nas ultrapassagens e no excesso de velocidade. Foi pensando na forma como ele comparava o próprio carro com um avião e do dia, três meses antes, em que comprara o carro, zerinho, zerinho...
Fez ligações para as pessoas que conhecia na cidade onde o acidente ocorrera, para os amigos que tinham parentes no local, tentou os melhores amigos todos... Ninguém dava informação alguma. Ela, o cunhado e a sogra tensos, sem saber de nada. Todo mundo calado no carro, e o embrulho no estômago dela não passava. Ligou para um amigo que trabalhava no principal hospital da região, ele tava de férias, mas foi até lá para se informar e dar notícias mais precisas.
O telefone toca de novo, uma grande amiga aos prantos pedindo pra ela dizer que era mentira. Ela, sem entender quase nada, explica que é verdade, que o marido sofrera um acidente, mas que ninguém sabia detalhes, que ela estava a caminho da tal cidade e só então poderia dar notícias. A amiga diz então que terceira pessoa dissera que ele morrera. Ela diz que ninguém sabe nada ainda e desliga.
Porque a negação faz parte, porque era surreal demais para que ela acreditasse, porque não podia ser verdade. Ela nem cogitou, ela nem dividiu com ninguém, ela nem falou o que a amiga dissera no telefone. Ela simplesmente continuou calada, olhando as coisas passando na janela do carro, enquanto ele seguia seu rumo.
O amigo que trabalhava no hospital da região ligou e informou que o marido não estava sendo encaminhado para lá, mas para o hospital municipal da pequena cidade mais próxima do acidente. Ela ficou meio aliviada, afinal de contas, se fosse algo grave, ele iria para o hospital com estrutura melhor. E, nesse momento, veio na cabeça dela imagens do que poderia ter acontecido: algumas escoriações, alguns ossos quebrados, e ela anteviu o carão que daria nele por correr e por dirigir imprudentemente.
O amigo disse ainda que pegaria a estrada até a cidade vizinha e que ligaria assim que chegasse lá. Ela nem desconfiou de nada. O coração ainda esta aos saltos, mas ela queria acreditar que era uma boa notícia. Mas quando o telefone tocou de novo, e o amigo informou que ela tinha mesmo que ir pra lá porque ele havia morrido, pareceu-lhe que o mundo se partiu, que um buraco foi aberto  sob os pés dela e a Terra a engoliu.
Ela repetiu mecanicamente a notícia para as pessoas no carro. O cunhado encostou, enquanto a sogra chorava ao lado. E, sem saber o que fazer, falar, pensar, ela teve uma certeza: não queria ver o carro, nem ele todo machucado, não queria ir reconhecer o corpo e pegar os bens dele, não queria estar lá nesse momento. Ela queria ir pra casa, deitar na cama, ficar sozinha pra chorar. E disse: eu não quero mais ir pra lá, eu não vou agüentar!
Voltou pra casa e em meia hora a casa estava cheia de gente. Os pequenos foram tirados dali, juntamente com a babá porque ninguém sabia como olhar para eles, nem o que dizer. Ela nem sentia que estava dentro do próprio corpo, tudo parecia nebuloso. As lembranças são embaçadas e o tempo nem parece ter corrido normalmente.
Ela se  lembra de que havia muita gente, de que pessoas queridas compareceram, muita gente que ela nem conhecia, pacientes, colegas de trabalho, amigos vieram dos quatro cantos do país. Ela se lembra de ter recebido muitos abraços, de não conseguir conter as lágrimas, de não reconhecer as pessoas, nem o mundo, de ter a sensação de que a vida dela terminaria junto com a dele. Ela se lembra das promessas que fez sobre o caixão, mas não lembra do semblante dele lá. A imagem dele na memória dela é sempre vivo, é sempre um sorriso, é sempre muito carinho.
Houve um longo velório e um enterro num fim de tarde, quando o sol faz sombras compridas. Houve lágrimas demais, tentativas de sedar um pouco o que latejava, houve mãos, ombros, abraços apertados, muita solidariedade. Houve gente querida e amiga. O pior de todos os dias, na verdade, durou dois. Ela não sabe como passou por ele, ela não sabe como conseguiu. Mas ela, fiapo de gente, farrapo de sentimentos, estraçalhada pela dor de perder o homem da vida, consumida pelo desespero sobreviveu. E eu estou aqui para contar.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

That's exactly what I needed

Rocky

"The world ain't all sunshine and rainbows. It's a very mean and nasty place, and I don't care how tough you are it will beat you to your knees and keep you there if you let it. You, me or nobody is gonna hit you as hard as life. But it ain't about how hard you hit. It's  about how hard you can get hit and keep moving forward, how much you can take and keep moving forward. That's how winning is done. if you know what you're worth, go and get what you're worth. But you gotta be willing to take the hits and not pointing fingers saying you ain't where you wanna be because of him or her or anybody. Cowards do that and that ain't you! You better than that!"

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A tragédia faz aniversário

Na semana em que a tragédia faz aniversário, tudo vira um enorme contrassenso. As vontades são contraditórias. Eu quero ficar sozinha para poder soluçar em lágrimas o que dói e quero companhia, carinho, atenção e alguém para me ouvir. Eu quero esquecer do que vivi e quero as lembranças mais doces aquecendo minha alma. Eu quero não falar nesse assunto, mas ele se repete na minha mente. Eu quero fingir que nada disso aconteceu e quero reverenciar o homem, o pai, o marido, o filho, o professor, o médico, a pessoa que ele foi. Eu quero me concentrar em tudo que é novo na minha vida, e não quero sair do meu lar.

Na semana em que a tragédia faz aniversário, tudo que eu construí se decompõe. Eu vejo as lágrimas marejarem os olhos na frente das pessoas, eu falo dele com essa saudade que embarga a voz, eu levo o pequeno na escola e penso em como a presença dele seria significativa. Eu não sei porque vivo essa sensação de decadência e de fracasso, mesmo reconhecendo todas as conquistas obtidas nesse processo. Eu olho para o mundo com sono, com preguiça, com cansaço. Eu ando com ânsia de desistir de tudo e chutar o balde.

Na semana em que a tragédia faz aniversário, eu queria dormir e acordar semana que vem. Eu não queria que doesse, mas dói. Eu não queria sofrer, mas sofro. Eu não queria viver, mas sobrevivo. A minha vontade era de sumir e eu fico. E, a cada dia, algo novo me aperta o peito, me descompassa o coração, faz erupção nos olhos e me enverga as costas. A cada dia, eu reconheço o quanto é difícil estar num mundo em que ele simplesmente não existe mais. A cada dia, eu forço a barra e me obrigo a manter as coisas todas em ordens, preenchendo a mente e fingindo e fugindo.

Na semana em que a tragédia faz aniversário, eu percebo que eu tenho todo o resto da minha vida para me conformar com o que não se acostuma, para entender o que é incompreensível, para explicar o irrazoável, para superar o insuperável. E, assim, mesmo me sentindo minúscula, impotente, frágil e fraca, eu descubro que há uma força que me impele para frente e não me deixa desistir; mesmo com sono, mesmo cansada, mesmo com preguiça... Eu sinto numa quase convicção que há algo esperando por mim e que esse aniversário triste é definitivamente a linha de chegada dessa corrida, dessa batalha que começou há um ano.

Exaurida física e psicologicamente, tirando forças do tutano, e na iminência de desfalecer; eu sigo para cruzar a linha de chegada, momento em que respirarei aliviada pela sobrevivência e pelo fim.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

A semana do aniversário

Na semana em que o pior de todos os dias faz aniversário, a dor se torna inescapável. Todas as técnicas desenvolvidas ao longo do último ano para fugir do que dói parecem imprestáveis. Tudo lembra, tudo machuca, tudo traz lágrimas aos olhos, desde o dedão bolotinha do pé do Matheus (igualzinho ao dele) até a mãozinha que eu tenho dado a uma amiga que acabou de se tornar mãe (o que me faz lembrar da segurança que eu tinha em casa). Tudo, absolutamente tudo que acontece me remete a alguma coisa que era ele ou dele. É como se meu inconsciente me dissesse que não, que nunca, que jamais essa dor vai sair de mim. Até quando eu durmo as lembranças me aparecem em sonhos e eu acordo chorando. Eu penso em outras coisas, eu escuto músicas de que ele não gostava, eu saio de casa, eu leio, converso com as pessoas e, no fundo - e na superfície também, a dor está. Fica tudo mais latente, mais sensível, mais carente e o que eu não consigo conter dentro explode em lágrimas para fora de mim. De repente, eu me pego chorando com uma música que tocou no rádio, que nem fazia sucesso quando ele estava vivo. Eu me pego chorando na frente do computador, enquanto desabafo via MSN sobre o meu medo dessa semana abalar meu psicológico profundamente. Eu me vejo chorando ao telefone, enquanto converso com quem quer me fazer me sentir melhor. Eu choro me fazendo questionamentos superados de "como? por quê?". Eu choro tentando barganhar com a vida na minha mente, dizendo que eu toparia até não ter mais, até que não fosse mais meu marido, que se tornasse um sacana comigo, desde que ele continuasse vivo para o mundo, para os pequenos. Eu só não consigo chorar com pessoas ao meu redor. Nesses momentos, eu aguento o tranco, engulo seco e então volto ao meu reduto banheiro-toalha-na-boca-madrugada quando o solavanco é maior que minha força. Choro até que as lágrimas sequem e acabo dormindo pesado e acordando com os olhos inchados da noite anterior. Seria tudo mais fácil se não, seria tudo mais simples, mais leve... Mas pensar no impossível não resolve meus problemas. E eu choro e penso que é só uma semana, é só o dia vinte do janeiro trágico fazendo aniversário, é só mais um pouquinho, é só dessa vez... Eu sofro e vem gente me arrancar sorrisos e dizer que está comigo... Eu sofro e, embora sem ele, eu não fiquei sozinha, como eu disse no velório dele que ficaria. Mas é que nessa semana, eu sofro e me sinto só de novo e não há mesmo como escapar dessa sensação.

* Missa de Um Ano de Morte de Thiago Castro:
Quinta-feira, 20 de janeiro de 2011, às 20h
Igreja N. Sra. Dos Remédios
Av. Da Universidade, 2974 - Benfica
(Quase em frente à Reitoria - UFC, vizinho ao Hospital Mira y Lopez)

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Metáfora

Imagine que todo sentimento que você devota a uma pessoa seja um garrafão de 20L de água. Imagine que, repentinamente e por circunstâncias alheias a sua vontade, você seja obrigado a fazer com que caiba todo esse conteúdo numa latinha de leite condensado. Você fica exaurido fisicamente, desgastado psicologicamente com a tarefa. Muito é derramado e perdido, muito escorre pelo chão, muito se estraga com essa obrigação. Mesmo assim, com pressão e esforço, você consegue alojar no pequeno compartimento grande parte do que sentia. Evidentemente, a latinha fica toda deformada, qualquer toque, barulho estridente, ou mal jeito pode fazê-la explodir. É um sistema claramente instável e não deve ser mexido para que não se destrua ou exploda. Tem que ficar intocável, em local seco e longe da luz do sol, com temperaturas amenas e sem exposíção a ruídos. Qualquer destes agentes, pode ser fatal.

E o dia 20 se aproxima.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Lições

Uma das coisas que eu aprendi a fazer nesse meu processamento do luto foi fugir da dor. Não que seja motivo de orgulho nem que eu mereça receber medalha de honra ao mérito por isso. Foi apenas a minha - pessoal, única, personalíssima - forma de lidar com tudo. Há quem ache covarde, há quem decrete que o sofrimento vem pior depois de um tempo, há quem diga que eu sou fria e indiferente. Tudo bem, a opinião alheia não me serve porque eu sei das correntes que arrasto. E, além do mais, não há ninguém mais nesse mundo que seja responsável pela minha felicidade que não eu mesma. Sendo assim, eu sempre prefiro pensar que eu tenho duas opções quando as dores batem na porta: deixa-las entrar ou não abrir a porta. Eu não abro, eu vejo a dor, eu sinto seu perfume, mas eu não me entrego a ela, eu não deixo revirar minha casa como fez, como fazia.

Pois bem. Ter de fugir da dor de perder a pessoa da minha vida, me fez aprender a reconhecer o que eram aborrecimentos, chatices, problemas e dores propriamente ditas. Distingui-los de maneira tão clara faz a vida ser vista sob um prisma bem diferente, porque nenhum dos três primeiros merece mais que dois minutos de infelicidade. As dores propriamente ditas só decorrem de inevitabilidades ou irreversibilidades e elas demoram mais a sarar. E eu cheguei à conclusão de que, depois de um tempo cicatrizando, é possível escolher entre arrancar a casca e ferir de novo ou fingir que a casquinha não está lá, que não coça. Eu finjo. Eu fujo. Eu vivo melhor assim. Sei que um dia a cicatriz será verdadeira, para além dessa casquinha, e eu espero por esse momento.

De alguma forma, eu aprendi também a não me deixar abater pelas decepções e a sublimar da minha vida as pessoas que me fazem ou me fizeram mal. Não é rancor, de jeito nenhum. Não é uma mágoa enrustida. É só um delete da minha vida, como se nunca tivesse existido. Não quero mal nem o mal a ninguém, num quero nem saber, nem rever. Vira nada, indiferente. Ontem eu conversava com uma amiga, falando justamente sobre isso e de solidão e ela disse: "Por que você não liga para o fulaninho? Vocês eram tão amigos e se davam tão bem!", e eu respondi: "Não ligo porque eu não conheço essa pessoa. A que eu conheci não existe mais!". Então, se me faz mal, eu simplesmente me afasto porque a vida é por demais frágil, curta, tênue para ser desperdiçada com quem não sabe retribuir amizade/carinho/amor.

Dito isso, digo mais: se é para estar comigo, não me carregue com seus problemas, não coloque sua dor na mesa de centro da minha sala porque a minha está pendurada em paredes e espalhada em porta-retratos pela casa. Não faça dos seus pequenos aborrecimentos cotidianos o assunto principal das nossas conversas, envergando meu coração, sugando minha energia. Não jogue na minha cara seus traumas e inseguranças e dilemas, não jogue sobre as minhas costas responsabilidades que são suas e de mais ninguém. Deixe seu coração falar através de seus olhos e faça sempre escolhas coerentes com os seus sentimentos. Assim, não haverá falha, dúvida, mal entendido. Assuma seus riscos, encargos, ações, vontades e desejos. Divida alegrias, traga sorrisos, carinhos, afagos, motivos para festejar. Não tem erro: fugindo da dor e na companhia de gente assim, o que resta é ser feliz.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Para Zuzu- Rafaela

Seja bem-vinda, menina!

Já já você dará o ar da graça nesse mundo, vai encher o coração da sua mãe de amor e a cabeça dela de sentido e equilíbrio e altruísmo e eu espero que de juízo também. Vai encher o coração de muitos que a cercarão de doçura. Saiba, Rafaela, que mesmo nos momentos turbulentos, você foi/é/será muito amada e querida.

O mundo não é o paraíso, Rafaela. Não é fácil estar aqui. Mas a lição mais importante que você já vai nascer sabendo é que o que há de mais valioso aqui são justamente as pessoas. Faça amigos, querida. Muitos, diferentes, especiais, loucos, sérios... Faça amigos como a sua mãe sabe fazer. Faça com que eles estejam sempre por perto, sempre ao seu lado. Perceba aqueles com quem você pode contar para tudo e qualquer coisa e aqueles que são companheiros eventuais para situações específicas. Nenhum espécime é melhor que o outro, mas você precisa saber distingui-los.

Seja bem vinda, Rafaela! Viver necessita de que se esteja preparado para tudo, então se prepare. Aproveite tudo que estiver ao seu alcance para guardar munição para os inevitáveis momentos de batalha. Entenda, desde logo, que a felicidade não está lá no ponto de chegada. A felicidade acontece no gerúndio. A felicidade é a escada, é o caminho, é o percurso. Nem sempre leve, nem sempre fácil, nem sempre plano, nem sempre bom; mas é subindo, caminhando, escalando que a gente chega em qualquer lugar. Keep walking... Não desistir é sinal de força, menina!

É preciso saber, Rafaela, que o mundo mudou, as pessoas mudaram e, muita embora exista no mundo uma gama severa de hipocrisia e preconceito, você precisa entender que nem todo mundo faz tudo igual, do jeito socialmente mais aceitável, do jeito que promove menos ti-ti-ti. Você não precisa ser aceita por todo mundo, você não precisa fazer aquilo que os outros esperam de você, você não precisa agradar a todos, mas precisa ser amada e precisa, mais que isso, se amar. Saiba reconhecer seus próprios valores, seu potencial, sua beleza e o amor que os outros devotam a você e retribua.

Olha, Rafaela, as lágrimas vão cair inevitavelmente em alguns momentos da sua vida (longa vida, eu espero); saiba aproveitar os sorrisos e gargalhar. Saiba dançar conforme a música, saiba ter jogo de cintura, levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima quantas vezes for necessário. Sorria, menina! Você já vai chegar enchendo de graça e rosa um mundo duro e ápero, um mundo muitas vezes cruel. Que a sua presença entre nós seja motivo de alegria sempre.

Seja bem-vinda, Rafaela, e que sua vida seja doce, leve e rosa!!!