terça-feira, 30 de novembro de 2010
Metalinguagem
Quando dói muito, eu escrevo compulsivamente. Eu fico pensando, sentindo tudo revirado por dentro e acabo escrevendo para me compreender, para me perdoar, para me conhecer. Escrever me faz bem, me é terapêutico, me faz reconhecer o que dói, o que eu aguento, o que eu quero... Escrever me permite colocar as coisas sob uma perspectiva melhor de ser vista, mais distante, mais tranquila. Eu escrevo remoendo, repensando, revivendo até. Escrevo porque não cabe aqui dentro, porque é explosivo, porque é erupção. Escrevo quando é insuportável, quando simplesmente não consigo calar ou refletir sozinha. As palavras saem de mim como se psicografadas, em uma rapidez nada contemplativa ou reflexiva. Vêm de supetão. E, quando dou por mim, já enchi a tela branca inteira. Escrevo somente sobre o que sei, sobre o que sinto, sobre meu olhar, sobre o que interiorizo do mundo e das pessoas que me cercam. Escrevo somente aquilo que vejo e aquilo que pulsa, que reverbera dentro de mim. Não há objetivo algum, não há pretensão messiânica, não há o desejo de mudar o mundo. Escrevo por e para mim. Ato egocêntrico, egoísta até. Ato desvairado e, muitas vezes, incompreendido. Ato que, vezenquando, faz com que surjam pedras nas minhas vidraças, dedos apontados para minha cara, e um disse-me-disse sem fim. É um preço até pequeno pelo bem que me faz, pelos amigos que me trouxe, pela compreensão de mim mesma que alcanço nesse processo de exorcismo. Eu escrevo porque é o que eu sei fazer para lidar com meus dilemas, minhas dores, meus amores. Eu escrevo porque eu tenho afeição por palavras, pelas singelezas que elas são capazes de produzir. Escrevo porque é registro, porque é eterno, porque é marco no meu processo de amadurecimento. E quando dói demais, eu escrevo.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
Mais do mesmo
Sabe quando se está a poucos metros da linha de chegada e, mesmo exaurido pela corrida toda, você se sente aliviado por ver o fim ali tão próximo?!?! Sabe quando se sobrevive a um naufrágio e depois de alguns dias nadando em alto mar, finalmente, se consegue ver a costa?!?! Sabe quando depois de várias horas em trabalho de parto a criança simplesmente nasce?!? Sabe quando se é tomado pela sensação de alívio e paz depois de um período longo de angústia e dor e sofrimento?!?! Pois bem. Era exatamente assim que eu me sentia até ontem. Era essa sensação de que pronto, acabou. 2011 estava ali batendo na minha porta e, enfim, esse 2010 triste, pesado, doído estava indo embora.
Mas aí, vem a rasteira, vem o baque, vem essa dor em erupção de novo, vêm essas lágrimas que não consigo conter, vem esse peso nos ombros, essa sensação ruim de que nada nunca mais vai ficar no lugar, essa dor de barriga que teima em me afligir como se fosse o janeiro trágico em replay. Vem na cabeça a imagem da minha amiga parecendo um farrapo humano, dobrada, envergada por essa dor, com olhos perdidos, dopada e a vaga ideia de como eu estava naquele dia de janeiro. Vem junto uma sensação de vazio, de que não passa, de que não cura, de que é impossível superar porque a vida traiçoeira sai pregando peças para me lembrar do quanto dói.
O choro rompe meu peito e sai despedaçado, cortante, crispado, quase impossível de controlar. Eu choro como se janeiro fosse, eu choro como se fosse comigo de novo. Eu choro porque eu não consegui dizer nada que confortasse minha amiga, que agora carrega consigo o peso da mesma palavra: viúva. Eu choro para esvaziar a falta que eu ainda sinto dele, para secar de novo, para limpar esse buraco que nada preenche, esse buraco-cicatriz que não para de sangrar. Eu choro sem ombro, sem mão, sem companhia, sem ele. Eu choro por mim e por ela, por estes tristes desígnios de duas mulheres que viviam a felicidade. Choro por esta revolta aqui dentro que não passa, essa irresignação, essa avalanche de sentimentos...
Eu queria poder dormir agora e acordar em 2011. Eu queria fugir dessa puxada de tapete. Eu queria rir da piada de humor negro, receber um" tcharã! brincadeirinha!" que me fizesse ter ódio do palhaço mas me devolvesse a sensação de que não-é-nada-disso-que-você-está-pensando. Eu queria um motivo para acreditar de novo, porque tá ficando difícil. Eu queria de volta as pessoas que me tomaram este ano. Eu queria retroceder. Eu queria ser feliz daquele jeito torto. Eu queria continuar escrevendo uma história de trás pra frente. A minha história, cheia de vacilos e perdões, cheia de amor e de compreensão, cheia de alegria. Eu não queria estar aqui neste momento e eu não queria viver nem ver isso acontecer comigo nem com ela nem com ninguém.
E, se essa dor que me arrebate agora não for embora logo, eu só peço paciência e um pouquinho de compreensão. É que quando eu achava que nada mais poderia acontecer no pior ano da minha vida...
Mas aí, vem a rasteira, vem o baque, vem essa dor em erupção de novo, vêm essas lágrimas que não consigo conter, vem esse peso nos ombros, essa sensação ruim de que nada nunca mais vai ficar no lugar, essa dor de barriga que teima em me afligir como se fosse o janeiro trágico em replay. Vem na cabeça a imagem da minha amiga parecendo um farrapo humano, dobrada, envergada por essa dor, com olhos perdidos, dopada e a vaga ideia de como eu estava naquele dia de janeiro. Vem junto uma sensação de vazio, de que não passa, de que não cura, de que é impossível superar porque a vida traiçoeira sai pregando peças para me lembrar do quanto dói.
O choro rompe meu peito e sai despedaçado, cortante, crispado, quase impossível de controlar. Eu choro como se janeiro fosse, eu choro como se fosse comigo de novo. Eu choro porque eu não consegui dizer nada que confortasse minha amiga, que agora carrega consigo o peso da mesma palavra: viúva. Eu choro para esvaziar a falta que eu ainda sinto dele, para secar de novo, para limpar esse buraco que nada preenche, esse buraco-cicatriz que não para de sangrar. Eu choro sem ombro, sem mão, sem companhia, sem ele. Eu choro por mim e por ela, por estes tristes desígnios de duas mulheres que viviam a felicidade. Choro por esta revolta aqui dentro que não passa, essa irresignação, essa avalanche de sentimentos...
Eu queria poder dormir agora e acordar em 2011. Eu queria fugir dessa puxada de tapete. Eu queria rir da piada de humor negro, receber um" tcharã! brincadeirinha!" que me fizesse ter ódio do palhaço mas me devolvesse a sensação de que não-é-nada-disso-que-você-está-pensando. Eu queria um motivo para acreditar de novo, porque tá ficando difícil. Eu queria de volta as pessoas que me tomaram este ano. Eu queria retroceder. Eu queria ser feliz daquele jeito torto. Eu queria continuar escrevendo uma história de trás pra frente. A minha história, cheia de vacilos e perdões, cheia de amor e de compreensão, cheia de alegria. Eu não queria estar aqui neste momento e eu não queria viver nem ver isso acontecer comigo nem com ela nem com ninguém.
E, se essa dor que me arrebate agora não for embora logo, eu só peço paciência e um pouquinho de compreensão. É que quando eu achava que nada mais poderia acontecer no pior ano da minha vida...
DOR
Quando eu digo para 2010 terminar logo, a vida vem me mostrar que eu tenho muito que aprender, que não sou eu que mando em nada e que as surpresas, assim como as dores, são inevitáveis...
Domingo tranquilo, voltando de uma festinha de Natal com os pais e as crianças da turminha do Matheus, recebo um telefonema desesperado de uma amiga de escola, contando que o marido de uma das sete, daquela que casou mês passado, daquela que tava no auge da felicidade, havia falecido. A gente não sabia a causa, a gente não sabia como, mas a gente sabia o que precisava saber. E eu sabia que, embora estivesse com tudo revirando dentro de mim, revivendo o janeiro trágico, sentindo de novo aquele rebuliço por dentro, eu sabia que tinha que correr para onde ela estivesse só para dar um abraço apertado e dizer que eu sabia o que ela estava sentindo, sabia que parecia partir ao meio, mas que é possível viver depois disso.
E foi exatamente isso que fiz. Deixei os pequenos em casa com a Lalá e corri para o velório. Fui a primeira da turma a chegar e, assim que cheguei, soube logo que ele sofrera um acidente no autódromo, enquanto corria de kart. Assim que ela me viu, ela disse: "Ow, minha amiga, me diz como você aguentou porque dói demais! A gente tava tão feliz. A gente fazia tudo junto... Por que, Marcele?". E eu não consegui falar nada, só chorar, chorar, chorar abraçada a ela. O meu janeiro trágico se repete agora num novembro para ela.
Ver alguém que a gente quer tanto bem perder o chão, o rumo, o prumo, metade da vida que escolheu para si, o sentido de quase tudo, me faz entender que essa vida não faz sentido. Eu não consegui, na minha tragédia, encontrar uma só razão plausível. E, mesmo tendo desistido de encontrar, eu não consigo me convencer nem de que a missão dele estava cumprida, até porque eu acho que o que ele podia fazer no futuro era muito mais do que ele já havia feito. É devastador, é enlouquecedor, é definitivamente uma DOR por que ninguém deveria passar.
Enfrentar esse processo todo, agora como espectadora, me faz refletir demais sobre esse momento da perda. Ela também estava com a aliança dele na correntinha do pescoço, ela também trouxe um paninho para colocar dentro do caixão, ela também tinha um olhar perdido para o mundo ao redor, ela também precisou de medicamentos para suportar, ela também relutou em acreditar (embora tivesse assistido ao acidente no autódromo), ela também queria saber porque, ela também se sentia perdida e sozinha no mundo... E eu imagino que tantos outros questionamentos e sentimentos que eu tive devam estar permeando o pensamento e o coração dela.
Segurar a mão dela nesse momento é voltar ao dia um. E, muito embora eu não seja mais protagonista, a dor que me toma é tão grande quanto. É a dor de quem sabe o quanto dói. É a dor de quem passou por isso. É a dor que não cicatrizou e que eu nem sei se vai, algum dia, cicatrizar. É dor e ponto final.
PS: Força, Ju!
Domingo tranquilo, voltando de uma festinha de Natal com os pais e as crianças da turminha do Matheus, recebo um telefonema desesperado de uma amiga de escola, contando que o marido de uma das sete, daquela que casou mês passado, daquela que tava no auge da felicidade, havia falecido. A gente não sabia a causa, a gente não sabia como, mas a gente sabia o que precisava saber. E eu sabia que, embora estivesse com tudo revirando dentro de mim, revivendo o janeiro trágico, sentindo de novo aquele rebuliço por dentro, eu sabia que tinha que correr para onde ela estivesse só para dar um abraço apertado e dizer que eu sabia o que ela estava sentindo, sabia que parecia partir ao meio, mas que é possível viver depois disso.
E foi exatamente isso que fiz. Deixei os pequenos em casa com a Lalá e corri para o velório. Fui a primeira da turma a chegar e, assim que cheguei, soube logo que ele sofrera um acidente no autódromo, enquanto corria de kart. Assim que ela me viu, ela disse: "Ow, minha amiga, me diz como você aguentou porque dói demais! A gente tava tão feliz. A gente fazia tudo junto... Por que, Marcele?". E eu não consegui falar nada, só chorar, chorar, chorar abraçada a ela. O meu janeiro trágico se repete agora num novembro para ela.
Ver alguém que a gente quer tanto bem perder o chão, o rumo, o prumo, metade da vida que escolheu para si, o sentido de quase tudo, me faz entender que essa vida não faz sentido. Eu não consegui, na minha tragédia, encontrar uma só razão plausível. E, mesmo tendo desistido de encontrar, eu não consigo me convencer nem de que a missão dele estava cumprida, até porque eu acho que o que ele podia fazer no futuro era muito mais do que ele já havia feito. É devastador, é enlouquecedor, é definitivamente uma DOR por que ninguém deveria passar.
Enfrentar esse processo todo, agora como espectadora, me faz refletir demais sobre esse momento da perda. Ela também estava com a aliança dele na correntinha do pescoço, ela também trouxe um paninho para colocar dentro do caixão, ela também tinha um olhar perdido para o mundo ao redor, ela também precisou de medicamentos para suportar, ela também relutou em acreditar (embora tivesse assistido ao acidente no autódromo), ela também queria saber porque, ela também se sentia perdida e sozinha no mundo... E eu imagino que tantos outros questionamentos e sentimentos que eu tive devam estar permeando o pensamento e o coração dela.
Segurar a mão dela nesse momento é voltar ao dia um. E, muito embora eu não seja mais protagonista, a dor que me toma é tão grande quanto. É a dor de quem sabe o quanto dói. É a dor de quem passou por isso. É a dor que não cicatrizou e que eu nem sei se vai, algum dia, cicatrizar. É dor e ponto final.
PS: Força, Ju!
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Já vai tarde
Lembro bem de dizer, lá no janeiro trágico, que a única coisa que eu esperava desse ano era que ele acabasse logo. Eu queria chegar ao depois disso, eu queria poder me afastar disso, desse processo todo, e dizer que tinha conseguido. Porque disso eu tinha certeza. Eu ia conseguir. Não sei se era exatamente assim e sei que, muitas vezes, essa certeza se afastou de mim. Mas, de algum modo, eu sabia que sobreviveria. Eu queria o distanciamento temporal que permite dores mais amenas e saudade mais tranquila, certa nostalgia, aquele suspiro pelo que se foi e não volta mais. Eu queria dormir e acordar em 2011. Sim, a barra foi pesadíssima (ainda está sendo pesada agora). E eu queria só sobreviver e apertar o botão para pular logo esse capítulo. 2010 foi avassalador, foi transformador e foi muita dor. Eu queria sobreviver, eu queria superar, eu queria passar por isso rápido. Até porque eu não faço o tipo que se entrega, que faz corpo mole, que se faz de coitadinha... Eu queria terminar logo esse ano e sair dele andando, em pé. Eu não queria chegar aqui me arrastando, deprimida, cabisbaixa, sem chão. Eu quis tanto, tanto que esse ano acabasse rápido que, agora, quando eu vejo no calendário DEZEMBRO chegando, uma sensação de alívio toma conta de mim. Vai-te embora, pior ano da minha vida! E já vai tarde!
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Me papocando de rir com o Matheus XVII
- Mamãe, conta uma historinha pra eu dormir?
- Claro, meu amor. Era uma vez um menino liiindo, muito esperto, muito inteligente, muito legal, que tinha uma família que gostava muito dele, que tinha DVD, Sky e video-game no quarto, que tinha uma piscina..
- que tinha uma NAMORADA!
- HÃ?!?!?!
- É, mãe, se ele tinha tudo isso, ele tinha que ter uma namorada como todo menino grande!
- Você tem namorada, Matheus?!?!
- Ainda não.
- Não mesmo?
- É que eu tenho que ficar "mais grande" (sic).
- Mas você gosta de alguém?
- Gosto (morrendo de vergonha e com os olhos fechados).
- Quem é essa menina, Matheus?
- Ah, mãe, eu não posso falar. É segredo.
- Mas, Matheus, nenhum filho pode ter segredo para mãe... As mães têm que saber tudo...
- É a Mirella (morrendo de vergonha e com os olhos fechados)².
- Você gosta muito dela?
- Gosto. Eu até já sonhei com ela.
- Como foi esse sonho, meu amor?
- Ah, é que eu levava ela para o planeta do Sharkboy e da Lavagirl na minha espaçonave e a gente brincava muito com eles dois.
- Entendi.
- Mãe, quando eu crescer eu vou casar com a Mirella.
- Tá bom, Matheus, quando você CRESCER, você escolhe uma menina e decide.
- Mas, mãe, eu já escolhi e já decidi.
- Tá bom, Matheus.
- Claro, meu amor. Era uma vez um menino liiindo, muito esperto, muito inteligente, muito legal, que tinha uma família que gostava muito dele, que tinha DVD, Sky e video-game no quarto, que tinha uma piscina..
- que tinha uma NAMORADA!
- HÃ?!?!?!
- É, mãe, se ele tinha tudo isso, ele tinha que ter uma namorada como todo menino grande!
- Você tem namorada, Matheus?!?!
- Ainda não.
- Não mesmo?
- É que eu tenho que ficar "mais grande" (sic).
- Mas você gosta de alguém?
- Gosto (morrendo de vergonha e com os olhos fechados).
- Quem é essa menina, Matheus?
- Ah, mãe, eu não posso falar. É segredo.
- Mas, Matheus, nenhum filho pode ter segredo para mãe... As mães têm que saber tudo...
- É a Mirella (morrendo de vergonha e com os olhos fechados)².
- Você gosta muito dela?
- Gosto. Eu até já sonhei com ela.
- Como foi esse sonho, meu amor?
- Ah, é que eu levava ela para o planeta do Sharkboy e da Lavagirl na minha espaçonave e a gente brincava muito com eles dois.
- Entendi.
- Mãe, quando eu crescer eu vou casar com a Mirella.
- Tá bom, Matheus, quando você CRESCER, você escolhe uma menina e decide.
- Mas, mãe, eu já escolhi e já decidi.
- Tá bom, Matheus.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
Desistindo
"Há dias que tento encontrar as melhores palavras pra explicar o que eu não consigo desenhar, tento entender uma batida desenfreada que encontra esperanças onde não há. E, mais ainda, pensa que pode esperar. Mas o que meu pobre coração ainda não entendeu [ou, se entendeu, faz questao de não transparecer] é que eu não consigo prender o ar durante muito tempo. Eu preciso dele, preciso respirar." (From: Rainha de Copas)
Não adianta mesmo eu querer me enganar, porque a realidade me assalta, me pega de supetão, me vira do avesso e abre crateras no chão. Não adianta mesmo fingir paciência, calma, tranquilidade, porque todo mundo conhece essa ansiedade, essa angústia e essas unhas roídas até o tronco. Não adianta nada segurar a respiração como se fosse possível pausar o momento, o tic-tac do relógio tem ritmo próprio e não pára nunca. Não adianta fechar os olhos para não ver o clarão, o cérebro é arma poderosa e entende a luz até mesmo quando nos falta a visão. Não adianta se esconder num cantinho que parece porto seguro e abrigo, quando bombas atômicas caem ao redor. Não adianta engolir as palavras que se pretendeu dizer, porque o essencial não cabe nelas e toda a prolixidade que lhe é peculiar ainda não conseguiria expressar a vastidão. Não adianta ler ao contrário, ler entrelinhas, ler a linguagem corporal, ler o não-dito; quando não há sentimento lá dentro. A esperança é um bicho muito estranho que se agarra a um fio de algodão para fazer rapel, achando que ele vai suportar todo seu peso e o peso de todo seu desejo, de todo seu querer. A esperança insiste em bater quando nem há mais portas para isso. A esperança acha que sabe esperar e, esperando, desmaia hipoglicêmica. Porque é preciso que seja doce para superar a dolorosa espera pelo momento certo que não chega nunca. A esperança espera "pacientemente", batendo o pé no chão, olhando para o relógio a cada cinco segundos e ansiando para que a porta se abra e a chuva enfim regue todo o jardim. A esperança não cansa, mas a cabeça, sim. E entendendo, de uma vez por todas, que não, que nunca, que jamais, se levanta e vai embora, arrastando a esperança pelo chão.
Não adianta mesmo eu querer me enganar, porque a realidade me assalta, me pega de supetão, me vira do avesso e abre crateras no chão. Não adianta mesmo fingir paciência, calma, tranquilidade, porque todo mundo conhece essa ansiedade, essa angústia e essas unhas roídas até o tronco. Não adianta nada segurar a respiração como se fosse possível pausar o momento, o tic-tac do relógio tem ritmo próprio e não pára nunca. Não adianta fechar os olhos para não ver o clarão, o cérebro é arma poderosa e entende a luz até mesmo quando nos falta a visão. Não adianta se esconder num cantinho que parece porto seguro e abrigo, quando bombas atômicas caem ao redor. Não adianta engolir as palavras que se pretendeu dizer, porque o essencial não cabe nelas e toda a prolixidade que lhe é peculiar ainda não conseguiria expressar a vastidão. Não adianta ler ao contrário, ler entrelinhas, ler a linguagem corporal, ler o não-dito; quando não há sentimento lá dentro. A esperança é um bicho muito estranho que se agarra a um fio de algodão para fazer rapel, achando que ele vai suportar todo seu peso e o peso de todo seu desejo, de todo seu querer. A esperança insiste em bater quando nem há mais portas para isso. A esperança acha que sabe esperar e, esperando, desmaia hipoglicêmica. Porque é preciso que seja doce para superar a dolorosa espera pelo momento certo que não chega nunca. A esperança espera "pacientemente", batendo o pé no chão, olhando para o relógio a cada cinco segundos e ansiando para que a porta se abra e a chuva enfim regue todo o jardim. A esperança não cansa, mas a cabeça, sim. E entendendo, de uma vez por todas, que não, que nunca, que jamais, se levanta e vai embora, arrastando a esperança pelo chão.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Certezas
Eu sei que nesse processo todo por que passei é normal, muitas vezes, se sentir perdido. É normal, vez em quando, ter a sensação de naufrágio, de vazio, de que puxaram o tapete. Eu sei que, algumas vezes, eu simplesmente não sei o que fazer e não me sinto segura com a opinião e a ajuda de seu ninguém. Eu sei que há dias em que eu sinto mais pesado, mais doído, mais triste, I feel blue. Sei que tenho aqueles momentos de olhar para o nada e achar que o futuro não tem mais graça alguma. De pensar que morrer agora, jovem assim, é até atraente. Porque, né?, vou reencontrar quem eu perdi. Penso que não tem mais sentido algum ser feliz e sorrir, vezenquando. Mas eu queria saber como é que eu posso, tendo vivido isso tudo e tendo estas sensações cotidianamente, como eu posso ter tanta certeza sobre algumas coisas? Como eu posso achar que elas são o meu caminho, que eu sei exatamente o que fazer e me sentir tão segura em relação a elas? Coisas que deixam meus dias mais leves, me trazem novas perspectivas e me fazem sorrir. Coisas que fazem com que eu me sinta viva de novo e com brilho no olhar e com esperança no futuro e feliz. Coisas que caem no colo como que caídas do céu e trazem essa sensação de paz, de caminho certo, de tudo no seu devido lugar, de arranjo cósmico. Como eu posso ter essa sensação de certeza em relação a elas, se não estou certa sobre mais nada na vida? Como eu posso acreditar que sim, que é isso mesmo, se eu mesma estou ainda confusa e perdida? Como eu posso acreditar nelas, confiar, apostar se eu nem sei se essa certeza que eu sinto procede? E aí eu mesma descubro que me baseio nas batidas do coração que tais coisas provocam, no tumtumtum que diz em alto e bom som que é isso aí, que é isso mesmo. Quando o coração bate assim, ele simplesmente não pode estar enganado. E eu vou levando a vida, ouvindo e confiando nas certezas que batem no peito.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Sorrindo com Matheus XVI
Descemos no domingão para a piscina do prédio. Alguns vizinhos também aproveitavam o sol. Eu tava no meio da piscina, segurando o Thomás, que não possui equilíbrio para ficar sozinho. Matheus já se vira e estava na borda se preparando para dar um mergulho. Eu percebi que ele tava segurando a "pinta" e disse, em voz alta, na frente das pessoas:
- Matheus, se quiser fazer xixi, o banheiro é ali ó.
- Mas mamãe, aqui é cheio de plantinhas!
- Matheus, se quiser fazer xixi, o banheiro é ali ó.
- Mas mamãe, aqui é cheio de plantinhas!
Currículo
Eu nunca quebrei nenhum osso, mas levei uma queda quando criança que fez meu dente permanente entrar de novo na gengiva.
Eu não dava trabalho para ir à escola, muito pelo contrário, ficava triste nas férias porque não encontrava minha turminha (aliás, amigos até hoje).
Eu nunca deixei de estar no quadro de honra do colégio; e, na terceira série, escondi uma prova de matemática em que tirei 3,5. Minha mãe queria tirar satisfação na escola porque minha média no boletim estava errada, mas eu não deixei e contei a história para ela muitos anos depois.
Eu nunca fumei nada. Nada mesmo. Mas cheirei lança algumas vezes. Memoráveis vezes, devo admitir.
Eu não sei mentir direito, o que implica que eu não sei fingir que gosto se não gosto.
Eu não sei ser melhor amiga de pessoas que acabei de conhecer, muito embora conte minha vida toda depois de me sentir íntima.
Eu pesei 45kg durante aaaanos e eu tive muitos apelidos carinhosos na infância e na adolescência, como: mastro, Olívia Palito, vara-pau, sibite baleado, seca do 15...
Eu tive cinco namorados na vida. Nem sei se algum deles lê isso aqui. Mas eu me sentia mais inteira, mais feliz, mais sortuda, mais mulher, mais perfeita com o último.
Eu passei por muitas fases na vida e, em todas, tive ótimas companhias. Muitas delas, permanecem na minha vida, porque eu não abro mão dos meus. Eu sou aglutinadora e fiel.
Eu não sei cantar, mas eu adoro fingir que canto mesmo assim. Eu decoro letras de músicas e versos com facilidade e depois faço associações destes com as situações do meu dia. Acontece uma coisa e eu penso numa trilha sonora.
Eu sei dançar e gosto do negócio, dei aula de forró nas priscas eras; mas agora o fôlego não é mais o mesmo de antes. Se bem que eu bem que podia voltar, né?
As pessoas dizem que eu sou espirituosa, que meu humor é inteligente e ácido e que eu faço chacota comigo mesma. É tudo verdade.
As pessoas dizem que eu sou forte, decidida, determinada, persuasiva, austera. É tudo mentira.
Eu não sei fazer cálculos e sempre odiei com todas as minhas forças química. Dizem que advogados só precisam saber calcular dez por cento, so that's me!
Eu leio muito, tudo, rapidamente. Vários e vários livros em fila de espera, mas nunca mais de um ao mesmo tempo. Quando me perguntam o que me dar de presente, eu digo: livros! Bom, pode ser maquiagem também. Ambos me farão muito feliz!
Eu não sei ser outra coisa que não otimista, positiva e esperançosa em relação a tudo na vida. As puxadas de tapete, portas e tapas na cara que levei só me fizeram perceber que isso é característica da minha personalidade.
Eu posso ser refinada e plebéia dependendo da companhia, do dia, do tempo, do lugar. Eu consigo conviver perfeitamente bem com as várias de mim que moram aqui dentro.
Eu não gosto de cozinha nem de trabalhos domésticos, mas tenho cer-te-za de que herdei dotes culinários da mamãe. Sabe mão boa? Eu tenho.
Eu não gosto de salada nem de comidas leves e naturais. Meu negócio é pão-pizza-massa e tudo mais que engorde, mas eu não sou fã de doces. Acho que é isso que me salva da obesidade mórbida.
Eu já dormi em casa de pescador em Jeri, num quarto de 2m² com mais quatro amigos, num reveillon inesquecível.
Eu sempre durmo de maneira vexatória em viagens de avião, acordando muitas vezes depois de babar e cochilar por horas no ombro de um desconhecido.
Eu já saí de casa para uma balada sem ter como voltar, nem dinheiro para isso. E cheguei em casa muito depois da hora do almoço porque voltei a pé.
Eu já briguei com namorado em público, eu já caí em apresentação de dança na abertura do festival, eu já caí e machuquei o pulso atravessando rua, eu já bati salve todos na brincadeira de esconde-esconde e caí no chão em seguida, esbaforida de tanto que corri.
Eu já chorei de soluçar no cinema, assistindo Titanic, no São Luiz do Centro, depois de umas duas horas de fila no sol quente. Eu já chorei de soluçar assistindo Grey's anatomy. Eu já chorei de soluçar escondida no banheiro. Eu já chorei de soluçar muitas vezes na vida.
Eu já mandei recadinhos do coração no rádio e ofereci música. Eu já contratei aqueles carros de Loucuras de Amor. Eu já pedi pra voltar depois de ter dito que não voltaria nunca. Eu já disse não, quando o que eu mais queria era dizer sim. Eu já disse que entendia quando eu não entendia porcaria nenhuma. Eu já perdoei quando era imperdoável. Eu já abri mão e senti faltar o chão sob os pés. Mas eu nunca me arrependi.
Eu já saí cedo e voltei quando o sol raiou. Eu já me arrumei toda e esperei sentada, e cochilei, e me descabelei por quem ficou de vir e até hoje não apareceu. Eu já dormi grudada no telefone. Eu já fiquei no telefone conversando por tanto tempo que não tinha mais força nem para segurá-lo.
Eu nunca namorei alguém que tenha conhecido virtualmente. Mas eu tenho vários amigos virtuais. Muito do meu mundo gira aqui na tela do computador.
Eu morei no mesmo lugar a minha vida inteira e a primeira mudança que fiz de verdade ocorreu agora, quando vim para a casa nova.
Eu não sei colocar as coisas nos seus lugares. Eu não sou organizada, e me estapeio com a minha verve indisciplinada para ter controle sobre tudo de que preciso dar conta.
Eu só digo uma coisa: um dia, eu vou estar à toa...
sábado, 20 de novembro de 2010
Dez meses
Faz dez meses que o mundo virou de cabeça pra baixo. Faz esse tempo todo que eu ando com a vista empoeirada, sem conseguir olhar direito para o que me cerca, nem encher o pulmão de ar puro. Faz dez meses que eu ando meio perdida, tateando no escuro. E, nesse tempo, as certezas que eu tinha sempre foram precedidas por "não". Eu soube desde o primeiro momento o que eu não aguentava fazer, o que eu não suportava, o que eu não queria, o que eu não era capaz... Se me perguntassem o que eu queria, o que faria ou o que eu suportava; eu não sabia. Acho que ainda não sei. Mas eu sempre soube todos os nãos.
Saber o que eu não queria e o que eu não aguentava foi muito bom nesse processo todo. Ajudou muito nas escolhas dos caminhos que segui. Mas não foi só isso. Eu também fugi de tudo aquilo que me causava a dor. Claro que eu só podia fugir do que estava sob meu controle. Foi assim que eu passei a maior parte das datas comemorativas do ano. Foi assim que eu me desfiz das roupas e sapatos dele (cinco meses depois). Foi assim que eu tirei a aliança do dedo. Pode parecer tapar o sol com a peneira, porque ano que vem as datas se repetirão, as fotos permanecerão e eu vou topar com muita coisa dele pelo meu caminho ainda, inveitavelmente. Mas ó, com quatro meses dói muito mais que com um ano e quatro meses. Foi assim que eu consegui: escondida do foco de dor.
Todavia, se me perguntassem agora o que me manteve de pé, eu acho que foi mesmo essa vontadezinha aqui dentro de mim de ser feliz. Ainda que sem ele. Ainda que tendo sobrevivido ao meu pior pesadelo. Ainda que com uma saudade que mais parece uma doença. Ainda que com um peso enorme nas costas. Ainda que tudo. Alguém me mandou, num comentário aqui do blog, uma passagem do filme "PS: Eu te amo" em que o cara fala que ela foi toda a vida dele e que ele será só mais um capítulo na história dela. E é assim que eu penso. Ainda tenho muitas outras páginas a preencher. Pode ser que este tenha sido o capítulo mais feliz da minha existência inteira, mas virão outros e eu quero estar inteira, aberta e pronta.
O que mais ouvi nestes dez meses foi que eu era muito nova para passar por tudo isso. Sou sim. Sou mesmo. E, embora eu tenha perdido muito, ganhei auto-conhecimento, auto-confiança, perspectiva do que realmente importa, visão maior de mundo e das pessoas que me cercam. Ganhei amigos novos e usados e herdados. Ganhei liberdade, não no sentido de poder fazer o que quiser. Mas ganhei essa sensação de que poucas coisas na vida poderão me fazer sofrer mais que isso, então, por que não tentar?
Pode parecer loucura: mas foi quando eu me despedaçei em caquinhos que eu me tornei mais inteira. E isso me faz muito melhor hoje. Não sei ainda se há alguém no comando, nem sei se essa tragédia tem uma razão de ser; mas eu sei que passar por isso vai me tornar mais capaz ainda de ser feliz, do jeito que eu quero: no superlativo máximo possível.
Saber o que eu não queria e o que eu não aguentava foi muito bom nesse processo todo. Ajudou muito nas escolhas dos caminhos que segui. Mas não foi só isso. Eu também fugi de tudo aquilo que me causava a dor. Claro que eu só podia fugir do que estava sob meu controle. Foi assim que eu passei a maior parte das datas comemorativas do ano. Foi assim que eu me desfiz das roupas e sapatos dele (cinco meses depois). Foi assim que eu tirei a aliança do dedo. Pode parecer tapar o sol com a peneira, porque ano que vem as datas se repetirão, as fotos permanecerão e eu vou topar com muita coisa dele pelo meu caminho ainda, inveitavelmente. Mas ó, com quatro meses dói muito mais que com um ano e quatro meses. Foi assim que eu consegui: escondida do foco de dor.
Todavia, se me perguntassem agora o que me manteve de pé, eu acho que foi mesmo essa vontadezinha aqui dentro de mim de ser feliz. Ainda que sem ele. Ainda que tendo sobrevivido ao meu pior pesadelo. Ainda que com uma saudade que mais parece uma doença. Ainda que com um peso enorme nas costas. Ainda que tudo. Alguém me mandou, num comentário aqui do blog, uma passagem do filme "PS: Eu te amo" em que o cara fala que ela foi toda a vida dele e que ele será só mais um capítulo na história dela. E é assim que eu penso. Ainda tenho muitas outras páginas a preencher. Pode ser que este tenha sido o capítulo mais feliz da minha existência inteira, mas virão outros e eu quero estar inteira, aberta e pronta.
O que mais ouvi nestes dez meses foi que eu era muito nova para passar por tudo isso. Sou sim. Sou mesmo. E, embora eu tenha perdido muito, ganhei auto-conhecimento, auto-confiança, perspectiva do que realmente importa, visão maior de mundo e das pessoas que me cercam. Ganhei amigos novos e usados e herdados. Ganhei liberdade, não no sentido de poder fazer o que quiser. Mas ganhei essa sensação de que poucas coisas na vida poderão me fazer sofrer mais que isso, então, por que não tentar?
Pode parecer loucura: mas foi quando eu me despedaçei em caquinhos que eu me tornei mais inteira. E isso me faz muito melhor hoje. Não sei ainda se há alguém no comando, nem sei se essa tragédia tem uma razão de ser; mas eu sei que passar por isso vai me tornar mais capaz ainda de ser feliz, do jeito que eu quero: no superlativo máximo possível.
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